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Pausa para o hino nacional*

abril, 15 - 2016

Estou politicamente cansada, de verdade.

Nestes últimos dias andei trocando o nosso House of Cards nacional (a Casa do Baralho) pelo documentário belíssimo O Brasil de Darcy Ribeiro.
Não é escapismo, está tudo lá: esperanças de uma nação em construção solapada a cada tentativa de reforma pelas forças internas e externas mantenedoras do estado-de-coisas histórico. Oferece margem para concluir que nosso mal tem natureza cíclica e dificilmente escapável.
A diferença entre o documentário do Darcy Ribeiro e a realidade presente é que no documentário dá pra sentir esperança e ter um gostinho do que teria sido este país se amplamente educado, fortemente identificado e valorizado em sua cultura, natureza, povo etc etc. Em outras palavras, dá para imaginar como teria sido o Brasil que “deu certo”.

Anos atrás eu costumava pensar que a Austrália podia ser tomada como um exemplo aproximado de “Brasil que deu certo”. Nessa época alimentei sonhos e projetos de ir estudar e viver na terra do AC/DC. Eu queria de todas as formas estar lá para ver, queria tanto ir que dei um jeito de fazer a oportunidade, cacei um congresso, fui atrás de patrocínio dentro da universidade onde então fazia mestrado. Em 2010 consegui pegar um avião e ir passar dois meses e meio na Oceania. Uma estadia nem tão longa quanto moradia, nem tão curta quanto uma visita. Torrei toda a poupança da pós-graduação viajando por 6 territórios e inúmeras cidades, conheci boa parte das paisagem australianas. Viajando sozinha, interagia e conversava com nativos e estrangeiros o tempo todo.
Minha impressão?
A melhor possível. A natureza é exuberante; o clima é agradável; o continente é seco, e por isso mesmo oferece a atração de um outback pitoresco; os vinhos são ótimos, a comida atende a todos os gostos e gulas, a infra-estrutura é competente, as cidades são cosmopolitas; a Austrália é tão cara quanto generosa. Um país que conseguiu distribuir sua riqueza por uma população pequena e sem incorrer nos abismos sociais que nos causam tantos problemas (com exceção do que fizeram e fazem aos aborígenes, pois nada é perfeito. Tratei desse assunto no meu relato de viagem https://cristinalasaitis.wordpress.com/…/australionauta-o-…/).
Mas a maior atração da Austrália, além das praias, são mesmo os australianos. A educação do povo é invejável, e mais do que isso: a gentileza, a tranquilidade e a informalidade endêmicas me pareceram tão arrebatadoras que eu me sentia angustiada. Angustiada por comparar com o Brasil.
Qualquer pessoa desconhecida, em qualquer lugar, no elevador, no supermercado, no metrô, ou mesmo na rua, iria me interpelar com um: “Olá, como vai o seu dia?”. A princípio esses arroubos de gentileza me deixavam pasma. Não havia por trás desse gesto nenhum dos motivos que deixam os brasileiros desconfiados. A pessoa não estava querendo me roubar, nem me vender nada, nem me arrancar alguma informação. Essa cordialidade exorbitante eram só os australianos sendo eles mesmos. E isso foi o que mais me deixou com inveja. Uma sociedade AMÁVEL, que sonho!

Parece loucura, mas ao cabo dos dois meses de viagem, eu tinha percebido que a perspectiva de morar na Austrália não me deixava feliz. Eu tinha me dado conta de que não aguentaria viver ali. Como escritora, sentiria falta de ter minha língua na atmosfera. Tudo ali funcionava muito bem, e eu me sentia desolada por não encontrar um espaço que carecesse de conserto. Assim me dei conta que meu destrambelhado país precisava muito mais de mim, e eu, de seus problemas, para ter o que consertar e ter a sensação de que poderia fazer alguma diferença.
Peguei o avião de volta. Não duvido da assertiva que as viagens têm o poder de mudar as pessoas para sempre: a transformação que a viagem à Oceania operou em mim foi me dar a constatação de que o retorno ao Brasil seria definitivo. É claro que a vida é longa, o mundo é grande e o ímpeto de viajar, incessante. Mas o retorno é definitivo. Eu soube que sempre iria voltar.

Penso que “patriota” é um adjetivo estranho, porque pressupõe uma vaidade de território que é uma meramente uma invenção, e não acho meu biscoito melhor do que o dos outros. Não chamaria nem sequer de amor à patria; tenho ojeriza a ideias nacionalistas e discursos fabricados, por mim todas fronteiras oficiais do mundo derreteriam, e eu troco qualquer camisa amarela pelo direito de voltar a ser índia. Não conseguiria amar fronteiras, mas amo as árvores, os bichos e as pessoas que ficaram contidos nelas.

Darcy Ribeiro, ao fazer o balanço de sua trajetória, comentou:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Pessimista ou realista, penso que talvez o destino do Brasil seja não escapar do cíclico sabotamento das tentativas de reinventar-se. Talvez continuemos por muitos anos afundados em políticas retrógradas, nossa democracia escorregadia, nosso patrimônio natural pilhado, nossa economia majoritariamente agrária e mineradora, nossa população maciçamente iletrada, nossas cidades congestionadas e explosivas. Mesmo esse Brasil-distopia do século XXI não me dá vontade de fugir. No máximo, me inspira um exílio interno, no meio do mato, alienada em uma margem segura da civilização, conectada com o mundo e sem abrir mão da ideia de que posso tentar fazer a diferença, independente de qual seja.

Não tem nenhuma lição de moral ou esperança de final feliz neste texto. Nem desilusões rasgadas, nem estimativas de que vai terminar tudo bem. Aqui só tem o meu cansaço, minha sinceridade e um texto que não sei se termino com reticências, interrogação, exclamação ou ponto final. Com essa falta de criatividade, vou optar por mais uma citação, desta vez do Tom Jobim, traduzindo meus sentimentos: “Viver no exterior é bom mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

Pelo menos dá uma sensação de pertencimento.

3 comentários

  1. Musa, deusa, sábia… adorei o texto, amei o blog, pirei com o seu manual de autoajuda para escritores iniciantes,por meio do qual cheguei aqui. Como qualquer um deles, sou inseguro, mas morto de megalomaníaco (nada menos que J. K. Rowling, se é que você me entende). Foi bom o balde de água fria na cara, mas foi melhor ainda acordar para minha realidade e descobrir que ser um escritor de verdade tem muito mais relação com paixão, com alma, com dedicação, com trabalho, com persistência… do que com vender um milhão de livros. Mil vezes obrigado pelas dicas valiosas.


  2. Ah e estava eu procurando dicas de como escrever e cheguei ao guia de primeiros socorros.
    Você tem razão o mundo anda barulhento, dentro e fora de mim.
    Costumava escrever, cozinhar o texto, me dar por satisfeita com ele e depois publicar na internet.
    Aos poucos outras coisas foram me consumindo e agora quero voltar a escrever e não consigo.
    Isso é angustiante.
    Obrigada pela ajuda, estarei te acompanhando.
    fantástico Blog.


  3. Foi você que ficou com meu livro, não foi? Uma pena que tenha chego em suas mãos em meio triste confusão. Seu blog é muito interessante e seu perfil, até diria que é meu target, mas talvez errei o alvo…



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