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Ave Max

novembro, 4 - 2016

Sempre achei a morte, como retratada nos filmes, um furo de roteiro. Geralmente se constrói aquela cena clássica comovente: a pessoa à beira da morte fica estendida, praticamente tomada nos braços de outro alguém relevante. Em over, a trilha sonora diz ao espectador que está chegando a hora de chorar. O moribundo, então, balbucia as últimas palavras, diz a última coisa importante, e em seguida – cronometradamente – morre.

Essa morte dos filmes é tão nada a ver com a vida.
A morte, na vida real, parece que não tem bem um ponto final. Parece mais uma frase interrompida no meio.
São encontros suspensos.
São planos frustrados.
São livros deixados pela metade.
São contas pra pagar esquecidas em cima da mesa.
A morte de uma pessoa jovem não costuma dar espaço para despedidas.

E é um pouco assim que eu me sinto ao saber que perdi um dos mais brilhantes dos meus amigos – sinto a vida atropelada. Eu tinha secretamente a ilusão de que ele sempre estaria ali para o eterno reencontro, para inúmeras e sagradas cervejas no bar e infinitos papos interessantes e divertidos. Uma pessoa tão talentosa, inteligente, engraçada e adorável, é claro que só pode ser imortal!

Da últimas vez que conversamos numa janela de chat, há poucos meses, o Max havia me convidado para um desses momentos boêmios sagrados. Foi uma lástima isso não ter acontecido. Grande oportunidade perdida.

Se eu pudesse encontrá-lo novamente daria um puxão de orelha cujo motivo só ele saberia. E, se o encontrasse agora, riríamos como se não houvesse amanhã, literalmente, porque sei que era assim que ele vivia – um dia por dia.

O Max Mallmann foi a um só tempo um dos escritores que mais me fizeram rir e também um dos que melhor colocaram em palavras a angústia da finitude. No livro “Zigurate – Uma Fábula Babélica” ele ressuscitou dois deuses sumérios e fez uma homenagem contemporânea à Epopeia de Gilgamesh. A primeira obra literária da história humana, não por acaso, versava sobre um herói que, após perder seu melhor amigo, empreende uma jornada em busca da imortalidade. Em Zigurate, a personagem de Sophie Brasier, uma pesquisadora com a saúde muito frágil (na prática, morrendo) descobria em meio às traças de uma biblioteca o paradeiro dos deuses imortais. Há nessa alegoria que o Max criou o encontro poderoso da vida e da morte – os deuses vêm ao mundo com seus poderes e suas preocupações de quem tem o tempo infinito – e não podem salvar aqueles cujo tempo está prestes a se esgotar.

A descoberta de Sophie é a descoberta de Gilgamesh: a mesma descoberta que aguarda qualquer um de nós no fim da jornada – ou na jornada interrompida.

Eu poderia dissertar aqui sobre a injustiça da morte em levar os mais talentosos e adoráveis primeiro. Mas acho que a consideração correta neste momento, além do carinho pelas obras que guardarei, é que foi uma sorte, uma honra imensa, uma felicidade tê-lo conhecido, nos livros e na vida, e, nesse curto espaço de tempo e de mesas de bar, ter sido sua amiga.

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