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Annihilation, Aeon Flux & a perplexidade

março, 13 - 2018

De tempos em tempos eu re-assisto à animação Aeon Flux, de Peter Chung, lançada no começo dos anos 1990 pela Liquid Television.

Pra mim é uma obra de referência, não apenas porque deixou a criança que eu era nos 1990 boquiaberta, mas porque ainda deixa a adulta dos tardios 2010 mistificada. É uma obra única, não apenas em termos de desenho animado, não apenas em termos de science fiction — é original em estética, direção, ângulos de “câmera”, roteiro, textos formidáveis de narrador/voz over, e principalmente: o resultado complexo, viajado, abismalmente estranho e intrigante.

Gosto de Aeon Flux porque evoca em mim perplexidade — um dos meus sentimentos favoritos em termos de fruição estética. São tão poucas obras que conseguem produzi-lo a contento que eu me sinto obrigada a colecioná-las.

Por um raio da coincidência, é bem neste momento que o Netflix solta Annihilation, a adaptação cinematográfica do livro do Jeff Vandermeer feita por Alex Garland.
Eu havia gostado demais da leitura de “Aniquilação”, que li na tradução do Braulio Tavares. Também gostei muito do filme, que conseguiu fazer uma boa transposição imagética das pirações estranhas que constam no romance literário.

Diria que Annihilation é o filme de alienígenas que eu sempre quis ver. Porque o elemento estranho chegado à Terra, vindo de não se sabe onde, é um ser que não pode ser definido, nem sequer compreendido. Confrontá-lo é uma experiência aterradora, não porque ele seja uma criatura feia e caçadora como o Alien ou o Predador, mas justamente porque é — dentro de sua esquisitice — de uma beleza enigmática, absolutamente diferente, e não é possível saber suas intenções e motivações, não é possível antecipar suas ações, não é possível saber nem se ela pensa ou deseja. Diferente de Contato (Carl Sagan) e A Chegada (Ted Chiang), não há comunicação possível entre humanos e alienígenas, porque não parece existir uma psique que sirva de terreno comum entre as espécies. A trama se desenvolve no encontro/ no atrito/ no choque de dois universos mutuamente estranháveis e incomunicáveis.

Annihilation – livro e filme — é uma obra que explora o terror-perplexidade de que tanto gosto, que acho tão raro de encontrar e tão quintessencial na ficção.
E estou dizendo isto principalmente porque desenvolver uma obra bem-sucedida no gênero weird/estranho não é fácil. Não deixa de ser um sonho meu.

Por falar nisso, estou precisando rever Stalker

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One comment

  1. Cristina, lendo seu comentário acima, Stalker e Annihilation tem em comum o fato de terem como influências o livro “Roadside Picnic”, dos irmãos Strugatsky.
    Stalker é uma adaptação livre do livro (assim como Solaris é uma releitura do livro de Stanislaw Lem), e Annihilation tem influência das áreas proibidas e as leis alteradas das físicas do livro dos russos (que saiu agora no Brasil como Piquenique na Estrada, pela Aleph), numa edição caprichada.



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