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Resenha – Estranha Bahia

outubro, 31 - 2019

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.

Foi com esse conselho que Liev Tolstói apaziguou os artistas que se sentiam deslocados em relação à indústria cultural dominante em seu tempo em razão de serem originários de localidades fora dos principais polos culturais, falarem uma língua diversa, possuírem diferentes visões de mundo. Ou, para colocar em termos mais rasos: segundo Tolstói não existe razão nisso que chamamos de “complexo de vira-lata”, pois o que nos torna universais não é uma língua ou um endereço no GPS, mas a experiência humana que somos capazes de transmitir por meio de nossas histórias, peculiares como podem ser.

Dito isso, agora me sinto autorizada a discordar — mas só um pouquinho.

Porque por trás da experiência universal há também um pouco de interesse turístico, e enquanto folheio as páginas de Anna Kariênina, A Morte de Ivan Ilitch e Felicidade Conjugal — meus favoritos de Tolstói — e sofro com seus protagonistas, eu também quero passear pela Rússia de fins de século XIX, apreciar seus palácios, sentir seu inverno, observar os vestidos da nobreza russa enquanto ela se reúne em salões chiques e conversa em francês; quero descobrir a vida que corre em vilarejos populares; quero saber o que aquele mundo sente e cisma e acha e pensa.

A Rússia de Tolstói é exótica para mim, assim como o Brasil devia ser a Tolstói uma terra tão distante que nem sei se o escritor sequer chegou a mencioná-lo. Mas ele — russo do século XIX — e eu — brasileira do século XXI — deixamos de ser alienígenas um ao outro quando embarco em sua narrativa, e a experiência que ele me proporciona é como um turismo feito por dentro — vejo suas paisagens na janela da imaginação, e por empatia incorporo cada um de seus personagens: passo eu mesma a ser russa enquanto rolo as páginas, e a Rússia de Tolstói deixa de ser um território estrangeiro.

Tornando-me russa sem sê-lo, aprendo que a Rússia também é minha de alguma forma. E entendo que minha imperfeição forasteira é um expediente para que eu aprenda um infinito sobre aquela parte do mundo. Sim, posso também me aventurar a escrevê-la, ainda que imperfeitamente, pois se há algo apaixonante na literatura é o seu poder de derreter fronteiras — geográficas, temporais, linguísticas, metafísicas, de vivência.

Faço essa digressão à guisa de introdução para uma resenha literária, pois creio que o livro que tenho em mãos para resenhar — Estranha Bahia — merece esta abertura, pois encarna essa ideia.

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Organizada por Ricardo Santos, Rochett Tavares e Alec Silva, Estranha Bahia é uma antologia de noveletas fantásticas passadas em cenários baianos, e o único ponto que reúne seus sete autores é o fato de escreverem em língua portuguesa: entre eles há baianos de nascimento, baianos radicados e baianos por alteridade. Debruçada sobre a edição ilustrada e diagramada com esmero, vejo cenas da Bahia por lentes fantásticas e sob uma variedade de ângulos e distâncias. Nessa múltipla Bahia há mistério. Há misticismo. Há o risco e o riso. E a aventura.

O mistério
Está no cenário que desdobra a ficção científica de Ricardo Santos na noveleta Raças: uma missão investigativa por dentro de espaços reservados da elite soteropolitana na tentativa de desvendar relações escusas entre a humanidade e a espécie humanoide-alienígena dos eladianos, produzindo uma metáfora para o jogo de relações complicadas e desiguais entre os estratos sociais da cidade de Salvador.

O misticismo
E o medo, por sua vez, abunda na narrativa de Isabelle Neves, Canudos XXI, que narra a perseguição, a fuga e os embates de Bento com a Morte, que produz uma macabra colheita de seus entes queridos em um cenário árido e pitoresco, pano de fundo que reverbera a histórica (e lendária) Canudos de Antônio Conselheiro.

Assim como em Joel das Almas, conto de Evelyn Postali, que elabora o perfil de um exorcista que enfrenta demônios não com cruz, mas com seu arsenal de conhecimentos e filosofias sincréticos do universo mitológico baiano, mesclando cristianismo, candomblé e história.

O misticismo baiano também dá o tom da noveleta O Profeta do 666, de Tarcísio J. da Silva, no qual um contemporâneo João Evangelista, escritor, atravessa uma impressionante e perturbadora série de visões enquanto enfurnado no quartinho número 666 de uma pensão, em uma instigante paródia bíblica.

O risco
Se dá em sequência, com o mais diferente dos textos da antologia, de Alexandre Ctulhu, autor de Enterrados a Respirar, que apresenta uma engenhosa narrativa de traição e vingança passada em Portugal, porém com desdobramentos macabros no cenário da Bahia.

O riso
Escapa a cada minuto da leitura deste que é o conto mais divertido da antologia: Em Busca da Disgraça da Pedra Azul, de Cristiane Schwinden, que leva ao pé da letra a proposta de explorar o que há de mais típico na cidade de Salvador. Nessa história, o fantasma de um ex-escravo aparece para a garota Filipa, imbuindo-a com a missão de encontrar a pedra azul, um artefato poderoso, antes que um mago a encontre e transforme a humanidade inteira em zumbis. Com seus dois amigos, a garota embarca em uma aventura rocambolesca pelos cenários mais marcantes da cidade de Salvador, com direito a amostras generosas de expressões e gírias locais.

A aventura
É longa e instigante na noveleta que encerra a antologia — Quibungo, de Rochett Tavares — que conta a trajetória do africano Olaweraju, desde as complicações que o levaram a ser capturado em África, sequestrado através do mar e vendido para os escravocratas do Brasil colonial. Em fuga, ele embarca em uma saga perigosa junto a um companheiro improvável encontrado pelo caminho: o guerreiro maia Aapo. Juntos, eles irão ao encontro de um dos monstros mais temidos do folclore baiano: o quibungo, ou o rei de todos eles.

Na sua somatória, Estranha Bahia é resultado de uma das propostas mais interessantes da literatura fantástica brasileira, que trouxe à luz uma safra multivariada de visões possíveis sobre um universo regional — a Bahia, por excelência, para muito além da ficção de Jorge Amado e da música de Dorival Caymmi, para além do carnaval e seus clichês, ou quaisquer tentativas de lhe impor um rótulo. Meu bicho teórico interior ousa especular que a literatura fantástica brasileira começa a explorar, doravante, as possibilidades legadas pela tradição da literatura regionalista do século XX, mas esse é assunto para outro passeio. Encerro com meu parecer viajante de que a Bahia — lugar que tenho muito visitado com livros, voos e pensamentos — nada tem de pequena e simples, e que do mirante dessa aldeia se vê o mundo.