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2021 – Nota sobre o ano mais interessante da minha vida

dezembro, 18 - 2021

Em 38 voltas ao redor do sol já colhi os mais diferentes frutos que a safra dos anos ofereceu. Já experimentei anos mirabilis e atravessei anos difíceis marcados por mágoas e traumas pessoais, já tive anos de descobertas que mudaram o rumo das coisas, mas sei que este ano de 2021 consegue desbancar todos os precedentes pelo dom de reunir tantas qualidades num só vórtice tumultuado e silencioso que produziu uma das jornadas mais intensas da minha vida.

Apesar de ser um ano de pandemia, no meu 2021 não houve catástrofes, mortes, casamentos, nascimentos — esses acontecimentos que costumam definir marcos na existência das pessoas. Quase todos os cenários que visitei aconteceram na solidão da minha intimidade. A tempestade que atravessei rugiu tão somente dentro de mim.

Gosto cada vez menos de falar sobre mim. Iniciar as frases com esse pronome – “eu” – às vezes soa tão carregado de ego que me dá uma sensação constrangedora, vulgar. A quem interessa “eu” a não ser a esta pequena pessoa que administra meus problemas e a umas poucas outras que por alguma razão doida gostam de mim?

E por que mesmo assim ainda preciso dizer “eu” de vez em quando? E o que fazer desta briga entre a necessidade de expressar pensamentos que me transbordam e o pudor que me aconselha a não expor minha intimidade?

Clarice Lispector, que era semideusa, dizia que estava morta quando não escrevia. Eu, que sou mortal, digo que escrevo muito menos do que gostaria porque contemplar a vida me distrai.

Mas meu 2021 — vamos a ele.

O ano de 2021 começou com a sensação de ser atirada num triturador de lixo, porque foi bastante literal essa circunstância de me tornar uma coisa jogada fora. Eu havia passado boa parte do ano anterior – um ano de isolamento na pandemia — empenhada na construção de um castelo, quando descobri que o terreno era feito de miragem. Nem eu entendia o buraco que havia se aberto repentinamente sob mim, só me restou desmoronar e me espatifar e — para não dizer que não lutei — agarrar qualquer locomotiva desgovernada que me levasse para longe da loucura.

Naqueles dias, em alguns momentos, o colapso era tão palpável que minha garganta se fechava e eu não conseguia respirar. Não era coronavírus, era simples desespero.

Eu tentava conversar com pessoas para me distrair — às vezes desesperadamente — mas de repente as palavras faltavam, eu emudecia e as deixava no vácuo quando percebia que nenhuma daquelas pessoas era quem eu realmente estava procurando.

Meus aquários, um hobby que antes significava uma grande paixão e fonte de prazer, tornaram-se um caldo de angústia: passei a olhar para os peixes, ali presos num cubo ínfimo de vidro, flutuando impotentes na solidão do universo, e me sentia naufragar em melancolia. Doei-os. Desmontei tudo. Esvaziei aquele tormento inexplicável.

E como nunca me aconteceu na vida, desencadeou-se um episódio de anorexia. Eu corria para me entorpecer. Eu não comia para desaparecer. Isso fazia algum sentido dentro da minha lógica, afinal, eu estava sobrando.

Passei à etapa de reformar o guarda-roupas que não combinava mais com meu corpo dez quilos menor, trocando de roupas com o ímpeto de uma criatura que precisa trocar de pele e se tornar irreconhecível.

Na solidão dos meses de isolamento forçado, a memória de outros momentos de felicidade sabotada — momentos de felicidade raros e que agora faziam falta – fez revolver mágoas antigas, de outras pessoas, que tomaram vulto para me assombrar.

Todas as mágoas, presentes e passadas, passaram a conviver comigo ao mesmo tempo, numa marcha existencial escabrosa.

A solidão, a carência e a tristeza me atiraram em uma busca ensandecida pelo item mais clandestino e proibido nos tempos de pandemia: um abraço. Um colo. Proximidade com algum ser humano que me aliviasse, por compartilhamento, a dor de existir. Como resultado, com uma sorte que só podia ser a minha, essa busca me levou a uma furada atrás de outra. Sintetizando com palavras emprestadas da sábia Clara Averbuck: “a carência é a mãe da roubada”.

Durante a primeira metade de 2021 fui um zumbi que trabalhava, chorava, emagrecia e fazia cara de paisagem para que ninguém soubesse o que me acontecia. Não sei para onde essa inércia teria me levado se eu não tivesse ganhado, meio que por milagre, a oportunidade de fugir.

Em fins de agosto embarquei para uma residência artística de dois meses na Bahia, que ainda não consigo encontrar palavras para descrever em termos de sorte, alívio, beleza, dádiva e gratidão. Quanto à gratidão, será uma dívida perpétua com meu amigo Alexey, que me convocou para o projeto vencedor do edital. Na noite em que coloquei os pés no Sacatar e observei uma lua cheia majestosa coroando aquele paraíso de mar e de coqueiros, pensei “isto vai passar rápido” — foi o aviso autoimposto para que eu mantivesse à superfície da consciência, a cada instante daqueles dois meses, a disposição e a atitude de aproveitar tudo o que aquela experiência tinha a me oferecer. Eu nadei naquelas águas frescas de mangue segurando a correnteza entre meus dedos como se pudesse segurar o tempo. Sorvi com imensa fome de companhia a presença abençoada dos amigos. Entreguei-me com sinceridade a cada entidade terrestre ou divina que veio a mim naquele país de fábula, por estranho que isto soe. Meu peito só sabia abraçar aquele horizonte a cada vez que meu olhar nele se perdia. Minha memória registrou em pergaminhos fotográficos aquele dia a dia quase onírico, que ficará plasmado com ares de lenda na minha história.

Ganhando um pouco de distanciamento da minha existência anterior, durante a residência constatei como era pesada a bagagem de mágoas que estava carregando. Eu só sabia que precisava fazer algo a respeito – me proibi de voltar daquela viagem sem resolver tais questões, ainda que eu não fizesse ideia de como resolvê-las.

Fazer estágio no paraíso me fez bem, mas era de certa forma tão distante da realidade que eu precisava de uma almofada para aparar a aterrissagem. Quando terminaram os dias da residência, não voltei para minha terra, dei-me uma estada de um mês e meio na cidade da Bahia — na verdade, fui procurar na Salvador real os traços da Salvador dos ficcionistas, que porventura não encontrei.

Foi uma estada cheia de delícias e de percalços; extremamente tensa e reveladora. Em Salvador, meu choque com a realidade após deixar a atmosfera de mimos de Itaparica foi benéfica e de certo modo terapêutica. Ganhei um conhecimento precioso para a obra que estou escrevendo. Encontrei alívio para algumas carências mundanas. Pude contemplar o amanhecer por janelas distintas. Ganhei hematomas de briga. Deparei com problemas alheios muito maiores que os meus.

Senti saudades de casa.

E talvez o troféu mais precioso, o meu tesouro de viajante: descobri portas para experiências novas. Curiosamente, essas eram exatamente as portas por onde eu precisava passar para me desembaraçar da minha bagagem de mágoas. Foi um louco acaso, mas encontrei uma forma eficaz de lidar com as questões que me perturbavam com o mais surpreendente dos achados. (Lamento a descrição em códigos, fica a critério da imaginação do leitor decodificá-los.)

As portas de que falo — quando as atravessei, me deparei com um cenário de imensa beleza que era o mapa da minha vida, em uma sinfonia dentro da qual cada harmonia e desarmonia retumbava em significado. A parte vulnerável de mim desapareceu por um momento, e fui capaz de visualizar — e não apenas visualizar, mas revisitar — minha vida inteira e as pessoas que passaram por mim. Mesmo entre os que me magoaram, fui capaz de enxergar cada uma dessas pessoas na sua solidão e entender suas dores e as prisões que as limitavam. Avaliei com clareza o peso de cada relação na minha vida. Senti culpa por todas as inúmeras vezes que escolhi não pensar nas dores dos outros porque me era conveniente. Estive de novo com os que já partiram. Fui aos prantos com o sentimento de beleza e de sublimidade. Transbordei com inundações dolorosas de amor e de compaixão por tudo o que existia (e por mim mesma, pequenina, entre todas as coisas) — parecia ter tocado uma esfera divina: eu, que sou ateia, embarcando nisto que se pode descrever como o amor de Cristo e a compaixão de Buda?

Esse outro lugar — não seria prático, mas posso dizer que não me incomodaria viver a vida inteira nessa dimensão — e então eu seria um anjo, não uma ser humana. Mas a experiência que ali vivi eu posso guardar e usufruir, e vários anos de terapia não teriam me concedido o mesmo.

Hoje as coisas que realmente importam tremulam límpidas na superfície da consciência, e percebo que tenho muito trabalho a fazer.

Contam-se na ampulheta os dias para o término do lendário ano de 2021 e meu peito só consegue palpitar “Uau!”. Que jornada, senhoras e senhores! Quem diria?

Passei por anos que consigo definir facilmente como bons ou ruins. Mas a aventura deste 2021 é, talvez, a mais interessante, a mais louca, a mais gratificante e possivelmente transformadora da era cristina.

Que esta bússola jamais me deixe na mão.

3 comentários

  1. Crise dos 40. Legal dar uma boa chacoalhada nas coisas que carrega e ficar só com o que importa. Vai entender melhor as coisas, compreender melhor as pessoas, ter um conhecimento maior sobre como as coisas funcionam e mudar ou realinhar os objetivos na vida. É a partir dai que os milionarios se tornam bilionarios, ou descobrem que o vil metal não é tudo. E esse ” uau aí vai se repetir mais vezes…


  2. Queria só compartilhar claramente que Gostei, Curti etc.


  3. Belo depoimento.



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