Archive for the ‘Uncategorized’ Category

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Ursula há um ano em outro universo

janeiro, 22 - 2019

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Há um ano atrás eu estava em Praia Grande empenhada numa tradução, quando por volta das 18 ou 19h meu celular começou a vibrar sem parar.

Eram amigos me notificando do falecimento da Ursula K. Le Guin.

Lembro que eu encerrei meu turno e fui perambular pela praia, e pelo resto da noite fiquei nostálgica, revisitando na imaginação uma porção de mundos que conheci pelas mãos dela.

Já faz um ano e o tempo passa de um jeito que deixa a gente besta. Mas quando penso na Ursula é quase com um susto que me dou conta que morta ou viva ela continua presente em idêntica extensão, tão sólidos foram os alicerces simbólicos que ela fundou em mim.

E então me lembro que foi por causa dela que decidi, há mais de dez anos, que a vida só valeria a pena se eu buscasse verdade, sentido e beleza por meio da literatura.

E que a imortalidade dos escritores não se deve necessariamente ao fato de que a obra teve impacto suficiente para alcançar um monte de gente por um bocado de tempo, e colheu louros na forma de prêmios, de estátua em praça, de reportagens na mídia, filmes no cinema, teses nas academias e tortura estudantil no vestibular.

Não.

A Ursula me ensinou sobre outro tipo de imortalidade do autor – aquela em que se vira eco na alma de outra pessoa. Quando o impacto que um livro causa em alguém por um breve momento tem energia suficiente para mudar uma vida inteira. Esse é um tipo de milagre secreto, fica entre o autor e o leitor, como um meteoro que se espatifou no mundo íntimo de alguém e não deu notícia no jornal.

Mas, pra mim, são as faíscas mais bonitas.

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Nel mezzo del cammin de mi vita

outubro, 29 - 2018

Tenho que encontrar refúgio
E tenho que ir à luta.
Tenho que buscar o equilíbrio
E me deixar desequilibrar de quando em vez.

Tenho que escrever. Desesperadamente.
Tenho que surfar e correr.
E ganhar dinheiro, claro. Inevitável.
Ir em frente contra toda marcha-à-ré.

Tenho que ser eu e tenho que ser os demais
Porque os demais são o eco, enquanto sozinha emudeço.
Sozinha sou ilha. Me deem, ao menos, as ondas.
Porque preciso me espalhar. Tenho que.

35, tenho trinta-e-cinco!
Como Dante quando sonhou com Virgílio
Ciceroneado para visitar os círculos
Do céu, do purgatório e do inferno.

Eis que o érebo caiu feito uma pedra
Nel mezzo del cammin de mi vita
E mi ritrovai por una selva oscura
Interditada entre a danação e o alento,
Sabendo que já não tenho tanto tempo,
Somente o direito, senão o destino

De vagar em círculos
De vagar em círculos

Pelos círculos amplos e vastos,
Através de gretas e precipícios e cenários esparsos
Com meus pés descalços e tendões hirtos.

O céu? a infância às costas.
O purgatório? a velhice à vista.
Cada inferno, em círculos, carrego
Eu mesma, nas marés do meu citoplasma,
Com o desvario e a ventura
Deste medíocre meio de minha vida.

 
Cristina Lasaitis (29 de outubro de 2018)

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Entrevista – Como eu Escrevo

agosto, 8 - 2018

O projeto Como eu Escrevo é uma iniciativa bacaníssima do José Nunes, que criou um site reunindo os depoimentos de dezenas de escritores brasileiros, sempre respondendo às mesmas perguntas sobre sua rotina de escrita.

É um lugar sensacional para conhecer mais sobre seu autor favorito, ou para descobrir que muitos outros escritores partilham das mesmas dificuldades, angústias e paixões literárias que você.

Foi um prazer participar dessa entrevista. Vocês podem conferi-la clicando aqui.

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Eventos, eventos, eventos

maio, 4 - 2018

Enquanto estava cursando a USP, passei bons anos sem participar de eventos literários. A boa notícia é que concluí o curso, voltei a descongelar o projeto de escritora guardado no <3, de modo que 2018 vai ser um ano de renascimento e eventos.

Pela primeira vez serei palestrante em dois eventos aos quais sempre sonhei ir: a Odisseia de Literatura Fantástica do Rio Grande do Sul e a FLIP!

Como quando onde?

Ei-los:

 V Odisseia de Literatura Fantástica – 08, 09 e 10 de Junho de 2018

divulgação

Evento organizado por escritores e fãs gaúchos, a  Odisseia de Literatura Fantástica teve sua primeira edição em 2012 na cidade de Porto Alegre e se tornou um evento anual. Porém, nos anos recentes houve um hiato, e uma vez que não consegui comparecer às edições anteriores, cheguei a acreditar que havia perdido a chance de assistir a esse evento sensacional fora do eixo Rio – São Paulo.

Eis que a notícia da quinta edição da Odisseia chega no meu e-mail junto com um convite – para mim, nada menos que emocionante – para participar do bate-papo:

Os Universos de Ursula K. Le Guin – ao lado de Glaucia Campregher, José Francisco Botelho e Ana Rüsche – no dia 09 de junho às 15h.

Ficarei honradíssima em participar dessa conversa sobre a obra da Ursula, minha autora favorita, que faleceu no dia 22 de janeiro deste ano.

A Odisseia será um evento recheado autores e papos interessantes, e o cronograma completo pode ser acessado na página do evento no Facebook.

Informações gerais:

V ODISSEIA DE LITERATURA FANTÁSTICA
DATA: dias 08, 09 e 10 de junho
HORÁRIOS: sexta (08), das 10h às 20h30; sábado (09) e domingo (10), das 13h às 19h30
LOCAL: Auditório Barbosa Lessa – Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (R. dos Andradas, 1223 – Porto Alegre/RS)

***

CASA FANTÁSTICA na FLIP –  24 a 29 de Julho de 2018

casa fantastica

Perdi a conta de quantos anos fazem que quero ir para a FLIP. Isso quase chegou a acontecer em 2014, quando recebi um convite para a OFF FLIP – mas estava com viagem marcada para Portugal na mesma data.

Viajar para Portugal foi maravilhoso, é claro. Mas ficou pendente essa vontade eterna de ir à FLIP.

Até que o ano de 2018 chegou com um novo convite, yay! Desta vez, para participar de um projeto novo organizado por Priscila Lhacer da editora Presságio.

A Casa Fantástica será a sede de palestras e rodas de literatura fantástica durante os dias da FLIP, na programação paralela ao evento oficial, ou seja, a OFF FLIP.

Participarei do bate-papo Ficção Científica e inovação tecnológica: a relação entre imaginação e ciência. Ainda não tenho confirmação sobre horário, dia e quem serão meus parceiros de mesa, irei atualizar esta postagem assim que tiver as informações.

MUITO IMPORTANTE: A Casa Fantástica é um projeto colaborativo e precisa de patrocínio para a sua realização. Por isso mesmo, está captando recursos por meio do site Benfeitoria. A meta é arrecadar R$11 mil até dia 08/06. Com a doação, além de ajudar a Casa Fantástica a acontecer, você pode escolher recompensas deliciosas – por exemplo, o direito a todas as transmissões do evento, canecas e camisetas homenageando seus autores favoritos.

Mais informações na página da Casa Fantástica no Facebook.

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Trazendo Jorge Amado de volta

março, 21 - 2018

Quando eu era criança havia uma coleção completa de livros do Jorge Amado – vistosa, enorme, de capas vermelhas — enfeitando as estantes de casa.
Esta era uma casa de não-leitores (e isso me inclui), portanto a coleção passou décadas sentada na sala sem que nenhuma de suas milhares de páginas recebesse esse privilégio que os livros têm de serem, eventualmente, lidos.
Eram objetos decorativos. Até o dia em que a decoração mudou e eles foram encaminhados para o sebo — destino fatal da decoração de várias salas.
Roda o pião do tempo e aqui estou eu, caída num momento em que preciso conhecer o mundo de Jorge Amado e ler ler ler ler ler
Então, toco em direção ao sebo babando book-freakshlingly, com sacolas de livros para trocar, a fazer o resgate
Mais empoeirado
Mais manchado
Mais mofado
De uma parte daqueles livros —
Aqueles livros que enfeitaram as estantes por tantos anos sem que ninguém soubesse pra quê eles serviam.

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Estarei no NERDCON 2018

março, 20 - 2018

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Pessoal, entre os dias 13/03/2018 e 25/03/2018 está rolando um evento superbacana em São Paulo – o Nerdcon, no Sesc Interlagos, com a presença de artistas, cosplayers, cursos e oficinas e também palestras e bate-papos sobre cultura pop, um monte de coisas, vejam a programação no site do Sesc.

E AÍ QUE

No dia 24/03, às 15:30, eu estarei lá para um bate-papo sobre fantasia e ficção científica no Brasil! E estão todos muitíssimo convidados.

O Sesc Interlagos é longe de quase tudo em São Paulo, e isso é desencorajador para uma boa parte do público – verdade.

Não sou uma escritora famosa – verdade.

Não tenho brindes a sortear — verdade.

Faz tempo que não lanço um livro — verdade.

E a quem me conceder a graça de sua presença, ofereço o meu papo, eventualmente podemos tomar café e ter um momento contemplativo à vista da represa Billings e encontrar o sentido da vida.

Ah, e o evento é gratuito!

Serão todos muito bem-vindos \o/

O endereço do Sesc Interlagos é:

Avenida Manuel Alves Soares, 1100 – Pq. Colonial, São Paulo (CEP: 04821-270)

Mais informações na página do evento no Facebook.

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Para todas as vozes de Marielle

março, 15 - 2018

Nesta vida, nesta guerra, eu tenho medo é de ter medo. De acatar as vontades de quem se esforça pra impedir minhas ações ou calar minhas palavras. Tenho medo de me acovardar, e assim incidir na minha própria sabotagem.

Não reproduzo a retórica do medo porque não tenho medo de canalhas – arrolam uma porção de outras aversões, mas os canalhas não merecem sequer aquele temor respeitoso que os monstros inspiram.

Não sou heroína de nada, nem revolucionária, sou do tamanho de um girino replicando pensamentos aleatórios em redes sociais enquanto chafurdo em livros. Não sou nem digna de um calaboca das “instâncias superiores”.

Mas sei que essa atividade subversiva – falar o que pensa, chafurdar em livros – costumava ser perigosa até a década em que eu nasci. Perigosa até para girinos iguais a mim.

Sou rebenta da democracia em um país que até então era dominado pela lei da mordaça.
Tive sorte de vir ao mundo quando se abriu uma fresta de liberdade, e sei que no mundo contemporâneo, sob os auspícios da internet, talvez essa mordaça não tenha mais capacidade de calar tantas bocas. São bocas falantes demais.

Então, os canalhas insatisfeitos miram em uma boca incômoda e apertam o gatilho, matam e esperam que o recado sirva para acovardar outros que ousem transpor seus discursos de internet para o território das ruas, dos palanques, dos espaços de poder, das trincheiras onde se batalha o cotidiano de nossas cidades.

Esses canalhas, eles não precisam do nosso medo. Precisam é ser engolidos por milhões de bocas.