Posts Tagged ‘australionauta’

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Relatos de Viagem

outubro, 29 - 2010

Encerrei, portanto, o ciclo australionauta e kiwinauta deste blogue. Quem quiser ler meu relato da viagem de dois meses e meio à Austrália e Nova Zelândia numa ordem coerente pode se servir dos links abaixo:

Australionauta, o relato – Parte 1

Australionauta, o relato – Parte 2

Australionauta, o relato – Parte 3

Australionauta, o relato – Parte 4

Australionauta, o relato – Parte 5

Australionauta, o relato – Parte 6

Australionauta – Interlúdio

Australionauta, o relato – Parte 7

Australionauta, o relato – Parte 8

Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1

Australionauta, a missão Kiwi – Parte Final

E agora, com os pés bem fincados no Brasil e na rotina, com muito trabalho pela frente, voltamos à programação normal.

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Australionauta, a missão Kiwi – FINAL

outubro, 28 - 2010

A ilha sul da Nova Zelândia só tem um defeito: todo lugar para onde quer que você olhe é lindo. Eu ainda não tinha internalizado esse conceito, então tirava foto. Tirava foto, foto, foto até perceber que não tinha jeito, a paisagem iria me vencer.

Deve ser horrível morar num país tão lindo e tranqüilo, bate uma puta preguiça de trabalhar!

Por isso que os brasileiros estão ganhando espaço, me disse uma brasileira que encontrei no hostel. Ela tinha deixado um cargo de gerência no Brasil para ganhar 5 vezes mais trabalhando como garçonete na Nova Zelândia. Segundo ela, os empregadores gostavam, porque brasileiro trabalha pra valer. Para onde eu ia, ouvia português. A brasileirada invadiu a kiwilândia, estavam no mercado, nas lojas, nas agências, até no alto da torre de Auckland. Para quem tem vontade de fazer um curso de inglês no exterior, saiba que a Nova Zelândia é um país ótimo pra se falar português…

Embarcando no TranzAlpine, fiz a travessia da costa leste para a oeste através das montanhas, até a cidade Greymouth, de frente para o Mar da Tasmânia. Minha jornada seguia para Franz Josef, e eu não sabia direito qual a distância de uma cidade à outra (nessa aula de geografia eu faltei). Resultado: cheguei em Greymouth com 40 míseros dólares no bolso que foram para as mãos do motorista do shuttle que me levaria até o meu hostel em Franz Josef, e eu fiquei xingando pelo serviço caro. Caro? O ônibus deu a partida e seguiu em frente toda a vida, debaixo de chuva, atravessando montanhas, pontes, passando sobre os leitos pedregosos de rios onde Gandalf perdeu as meias, e florestas onde os hobbits perderam as cuecas, parando em cidadezinhas mínimas onde eu não conseguia fazer nenhum câmbio porque era um maldito domingo. E cadê Franz Josef? Franz Josef ficava numa curva atrás do fim do mundo!

Franz Josef não é uma cidade, é uma sujeirinha demográfica. Tem duas ruas, meia dúzia de hotéis e hostels, um mercado, um café, um pub, duas lojas de souvenir e uma agência de turismo de aventura.

E o que é que tem de tão atraente em Franz Josef?

Isso:

Franz Josef fica coladinha numa cadeia de montanhas enormes, que aninham um grande volume de neve, e a neve que vaza pela brecha das montanhas criou uma grande plataforma – um rio de gelo – o Franz Josef Glacier. Uma geleira permanente, em terra. É uma vista bonita, e atrai turistas que vão fazer trekking no gelo e até sobrevoar as montanhas de helicóptero.

Cheguei num dia chuvoso e frio, e achei Franz Josef um lugar maravilhoso pra se morrer de tédio, cercado de montanhas nevadas, selva exuberante (muitas, mas muitas samambaias) e aquela névoa misteriosa que parece acariciar perpetuamente os montes neozelandeses. Meu hostel, o Glow Worm Cottages, era uma espécie de chalézão alpino aconchegante. Me hospedei num quarto para 4 pessoas, junto a um trio de ingleses que viajavam a Nova Zelândia em Work & Holiday (seria tão bom se tivéssemos direito a essa mordomia estrangeira!).

No dia seguinte fui fazer caminhada na geleira. Me dirigi à agência e tive que trocar quase toda a minha roupa por roupas impermeáveis próprias para o frio. Me inseri no meio de dezenas de turistas e pegamos o ônibus até o parque da geleira, a cinco minutos de distância. Nossa guia era uma inglesinha loira, que nos conduziu por uma caminhada pela mata, até chegarmos ao leito do rio que escorre da geleira. Daí em diante é só subida num terreno pedregoso. Uma pausa para prender nas botas aquelas esporas de caminhada no gelo e seguir adiante, geleira acima, atravessando paredes brancas, crevassas, e todas aquelas formações glaciais que muito me lembraram o livro A Mão Esquerda da Escuridão da Ursula K. Le Guin.  Chegamos a uma plataforma de gelo e ficamos ali tirando fotos. Frio de verdade, minhas mãos congelavam ao vento. Dali a pouco, começamos a descida e o caminho de volta. O trekking de meio dia foi o bastante pra mim (eu, que sou bicho-preguiça).

Fui dormir cedinho para pegar o ônibus na manhã seguinte. Próxima parada: Queenstown!

O transporte na Nova Zelândia é muito caxias. Você marca com o motorista às 14:25, e quando é 14:24 ele vem virando a esquina. Cheguei a pegar shuttles antes da hora marcada, porque tanto eu quanto o motorista havíamos nos adiantado. Na Nova Zelândia o respeito aos horários é endêmico, boa lição deram esses ingleses! Os ônibus são metodicamente pontuais. Mas isso não é sinônimo de pressa, muito pelo contrário: o ônibus anda uma horinha e pára pra visitar uma cachoeira. Anda mais meia horinha e pára pra fazer xixi. Anda mais uma horinha e pára numa venda de frutas. Anda mais uma horinha e pára pro almoço. Anda mais meia horinha e pára pra ver a paisagem na beira da estrada… O transporte é indissociável do turismo, o que é muito compreensível. São montanhas, ovelhas, florestas, névoa, montanhas, rios, ovelhas e samambaias, e montanhas, névoa, ovelhas… E nesse ritmo eu levei o dia todo para ir de Franz Josef a Queenstown, passando por cenários que me davam vontade de virar uma pedrinha e me juntar pra sempre àquela paisagem.

E Queenstown?

Queenstown é uma cidade deprimente: você vai ficar deprimido pra sempre por não morar lá! Não é simplesmente uma cidade linda, é uma cidade que dói nos olhos, que enfeitiça a alma. Queenstown é insuportavelmente bela!

Uma cidade construída à beira de um lago de águas turquesa, cristalinas – água do derretimento da neve. Ao redor, por todos os lados, uma cadeia de montanhas nevadas faz parceria com as nuvens, abriga uma floresta de coníferas. O lago é recortado por penínsulas e morrinhos verdejantes, que ostentam parques floridos e povoados de árvores de muita personalidade, de folhas secas outonais, de flores exuberantes primaveris, de folhagens em cascata como os chorões inumeráveis… Gaivotas e patinhos de cabeça verde nadam distraídos no lago e nas lagoas. E a cidade, à beira do lago e dos parques, fervilha com calma e elegância. São prédios de arquitetura vitoriana, bulevares cosmopolitas, banheiros de ficção científica, comércio forte e organizado, charme, charme, charme em tudo. Turistas por todos os lados, vê-se muita gente carregando esquis e pranchas de snowboard debaixo do braço. Para os padrões neozelandeses é uma cidade grande, para os padrões brasileiros é uma cidadezinha, mas para o padrão geral é a cidade onde todos querem estar! De todos os lugares do mundo que conheci, Queenstown é o melhor para esquecer de tudo e curtir a paisagem.

Fiquei no Pinewood, uma rede de chalés-hostel. Dormi noites muito frias na minha casinha vermelha ao sopé da montanha, para acordar de manhã e descobrir que a neve dos picos tinha se renovado. Andar por Queenstown era uma delícia a qualquer momento, a vista me anestesiava as bolhas do pé.

No meu segundo dia em Queenstown fui fazer o famoso cruzeiro por Milford Sound, na terra dos fiordes. Peguei a van da agência de turismo cedinho e fomos naquele ritmo pára-aqui-pára-ali, pra ver os cenários mais mágicos que não couberam no trailer da Terra Média. Uma parada no Mirror Lakes, outra parada para andar na floresta até uma cachoeira furiosa, e mais uma parada para tirar fotos da nevasca que nos pegou pelo caminho.

Horas depois, chegamos ao cais de Milford Sound, onde subimos a bordo de um barco de passeio repleto de turistas asiáticos.

O que é Milford Sound? Para quem não está habituado com o conceito de fiordes, imagine um rio ladeado em toda sua extensão por montanhas altíssimas, nevadas, revestidas de uma mata verde exuberante, que terminam abruptamente criando desfiladeiros e corredeiras, dando origem a um belíssimo corredor de água ornado de cachoeiras e picos fabulosos, visitado por focas e pingüins, e mais: embalsamado naquela sonhadora névoa que paira sobre a Nova Zelândia.

É um ponto bastante meridional e peguei um clima muito frio, debaixo de vento gelado e chuva. Mesmo assim, deu pra tirar montes de fotos e curtir aquele cenário inóspito de outro mundo. O barco seguiu através de Milford Sound até o Mar da Tasmânia, onde deu meia volta e navegou contornando as montanhas, até voltar ao cais, três horas depois. Uma viagem curta para memórias tão duradouras.

A partir de Queenstown, leva-se o dia inteiro para ir e voltar de Milford Sound – 12 horas. Voltei para a cidade numa noite congelante.

E no dia seguinte, fui passear de gondola! Minha agente de turismo, a Mary, tinha me reservado um passeio de gondola e eu fiquei pensando: “puxa, que romântico! Pena que eu não tenho ninguém pra levar comigo”. Eu estava pensando que ia passear de barquinho no lago, do lado de um gondoleiro de terno listrado. Mas na verdade, “gôndola” são os bondinhos que sobem a montanha! O que não deixa de ter seu romantismo…

Em Queenstown tem um parque no pico da montanha mais próxima ao centro da cidade. Você sobe até lá de bondinho – ou gôndola – e lá no alto tem restaurante, loja de souvenir, teleférico, bungee-jumping, observatório e a pista de luge. O que é luge? Uma espécie de carrinho de rolemã. A vista, meudeus, a vista! A vista lá de cima é incrível! O alto da montanha estava coberto de neve – o que é um artigo que eu, como habitante dos trópicos, aprecio muito. Neve fresca e fofa, que pegava aos punhados e ficava olhando bem de pertinho para ver os cristais. E aí eu completei meu dia de criança feliz descendo a pista de luge, sentindo aquele ventinho gelado refrescante…

E quatro dias depois de ter chegado, parti de Queenstown em mais uma daquelas viagens pára-aqui-pára-ali através das paisagens de sonho, cheias de ovelhas, florestas, montanhas, lagoas turquesa, e ovelhas, névoa, montanhas… até Christchurch, meu ponto de partida na ilha sul.

Passei por uma cidadezinha chamada Wanaka, que lamentei não poder ficar. Parei por uma hora às margens do Lago Tekapo, de águas turquesas, aos pés do Mount Cook, o pico mais alto da Nova Zelândia. Pelo caminho comi lanchinhos deliciosos de salmão defumado. Passei por cidadezinhas fofas e pacatíssimas. Cheguei a Christchurch naquela mesma tarde para me hospedar no mesmo hostel – o Jailhouse – a cadeia, onde reencontrei minha colega brasileira, a Léia, e dividi o quarto com um batalhão de outras brasileiras que estavam por ali. Seria só uma noite, pois no dia seguinte – meu 11º dia na Nova Zelândia – eu estaria partindo.

No dia 17 de setembro de 2010 eu acordei às 6 da matina, tomei meu último café da manhã no Subway ao lado do hostel, fechei a mala, me despedi das brasileiras, peguei o shuttle para o aeroporto de Christchurch e embarquei num vôo da Air New Zealand para Auckland. Voei na névoa, aquela névoa kiwi que eu adorava. Duas horas depois, pousando em Auckland, comecei minha maratona para ir até a cidade, recolher a bagagem que tinha deixado no hostel, voltar para o aeroporto, fazer o check-in e embarcar no vôo internacional num intervalo de menos de 4 horas. A chuva e o congestionamento em Auckland não me ajudaram muito, é claro. Cheguei no aeroporto uma hora e meia antes do meu vôo partir, fiz o check in e fui almoçar achando que estava tranqüila. Entrei no embarque meia hora antes da partida do avião e – surpresa! – tinha fila na aduana. Meus últimos 15 minutos na Nova Zelândia foram uma correria louca e desesperada pelo saguão gigantesco do aeroporto de Auckland (leis de Murphy: meu avião tinha que partir do último portão, o mais distante), na qual quebrei todos os meus recordes de resistência física. Chegando vermelha, descabelada e espavorida no balcão da Lan Chile, o aeromoço me acalmou: afinal, eu não era a última passageira a embarcar – devia ser só a penúltima!

Me afundei no banco ao lado da janelinha onde teria 13 horas de oceano até Santiago, e de lá, mais 4 horas até São Paulo.

 

São Paulo - 11452Km

 

Decolei cansada e feliz, deixando sonhos realizados por terra – em terras distantes. Deixando um pedaço meu ali – talvez um braço – que junto com o outro que trago, me dão a sensação de poder abraçar o mundo. Saudade vai além do clichê, e “casa” é um estado de espírito. Perdida no subúrbio improvável de Sydney, mergulhando no Pacífico meridional, caminhando sobre as trilhas de formigas do outback ou sobre a geleira encravada nos picos neozelandeses, por todo esse tempo eu me senti em casa. Minha casa é enorme… Mas precisei vasculhá-la por inteiro para descobrir o lugar onde estava guardada a minha liberdade.

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Australionauta, a missão Kiwi – Parte 1

outubro, 21 - 2010

No caminho entre a Austrália e o Brasil encontrei a Terra Média, e não quis simplesmente passar passando. Quis parar para ver, para sentir, para descobrir se aqueles cenários que eu via no Senhor dos Anéis eram mesmo feitos de papelão pintado.

Claro né!

Mas aventura que é aventura de verdade tem que ter emoção. Na manhã do dia 4 de setembro, estava eu tomando meu breakfast no green room do Worldcon, relaxando com a vista fascinante de Melbourne, observando o movimentação de escritores mais e menos famosos, quando entra na sala uma mulher mandando avisar a todos os kiwis presentes que um terremoto de 7,5 graus havia atingido a Nova Zelândia!

E eu, boquiaberta, babei pedacinhos de muffin.  Havia decidido minha viagem pela Nova Zelândia na semana anterior, e estava para embarcar para Christchurch, o epicentro do terremoto, dentro de 4 dias!! Eu não conseguia parar de pensar que o terremoto por muito pouco não havia me pegado. Mas e agora que já paguei a viagem? – pensei – E agora?

Eu estava às cegas, sem saber qual era a situação na Nova Zelândia, se ainda existia possibilidade de visitar a ilha sul, se ainda existia gente na ilha sul, isto é, se ainda existia a ilha sul!!

Será que eu iria desembarcar e me encontrar na Ilha de Lost?

Sem informação suficiente e com todas essas angústias existenciais, eu fiz as malas e fui embora da Austrália naquela despedida lúgubre do capítulo anterior. Vi o dia amanhecer em alto mar, voando. Ansiosa no meu devaneio de Ícaro, e distraída com as aeromoças da Qantas desfilando os vestidinhos de estampa aborígene.

O feitiço me pegou ainda no avião. Quando, debaixo do meu ser aéreo, naquelas eternidades de mar azul-cinzento rebrilhando ao sol, vi surgir o primeiro braço de terra de Aotearoa. Uma península de montanhas sinuosas com verdes prados cravejados de ovelhinhas e abençoados por uma névoa misteriosa. Aquela terra, queixo-caível mesmo num dia cinzento, aquela terra era a Nova Zelândia!

E eu estava pousando nela.

Só, deixei o aeroporto. Peguei um shuttle para o centro da cidade e uma hora depois estava entregue ao Base Backpacker de Auckland, onde podia levantar minha cabeça loira e ver o vulto daquela torre magnífica, aquele totem pós-modernista que vigia a cidade nas noites iluminadas.

Eu devia estar eufórica, mas não tinha energia pra isso. Estava morta de cansaço, sem dormir havia dois dias. A primeira coisa que fiz quando cheguei ao backpacker foi tomar um banho e desmaiar. Não lembro se acordei e fui jantar. Não lembro se fui jantar desacordada. Talvez alguém tenha visto uma loira sonâmbula entrar no Burger King e pedir um whooper com batatas fritas e um refrigerante pink e depois fazer o caminho inverso para a cama. Talvez a sonâmbula ainda tenha tirado umas fotos à toa na noite. Talvez ainda tenha entrado no McDonalds para tentar acessar a internet gratuita. Ou não.

Mas no dia seguinte estava bem acordada para tomar meu café da manhã no Dukin’ Donuts, eu já tinha engordado um monte mesmo, não tinha peso para manter.  E ah… agora sim: Nova Zelândia!

Andei por Auckland feito uma barata tonta feliz. Entrei em centenas de lojas de souvenir, conheci o shopping center, as docas, almocei sushi barato, andei pela praça florida, pelas vielas charmosas, fui conhecer a torre de aço, de marfim, de sonho.

A torre de Auckland.

Peguei um elevador, subi, e lá no alto – eu, que adoro altura – fiquei rondando o deque principal. Meu cérebro entrando em parafuso enquanto tentava caminhar no chão de vidro, com centenas de metros de nada embaixo. 360 graus, e descobre-se que Auckland é uma cidade grande, a maior da Nova Zelândia, esse país com menos de 5 milhões de habitantes.

Me perdi na torre e fui parar em diferentes restaurantes que ficavam girando dentro do cilindro. Será que a comida era feita lá em cima ou subia?

Fui para o deque superior e vi as coisas mais alto. Mas tá bom né? Chega.

Saí da torre para passear e fui tropeçar em uma galeria repleta de lojinhas de moda japonesa, com vendedoras japonesas e aquelas roupinhas de rendas e frufrus! Estava eu, o cartão de crédito e o desespero de nunca mais voltar a ver lojinhas como aquelas. Não agüentei. Não dava. Minha drag queen interior não deixou! Voltei para o hostel cheia de pacotes.

Mas e o terremoto hein?

Chegando em Auckaland as notícias eram incertas. No meu quarto havia uma garota que também tinha acabado de chegar e estava pensando em cancelar seus estudos em Christchurch. Encontrava com pessoas que me diziam: “você vai para Christchurch? Mas estão todos fugindo de lá!”. O Base Backpacker onde iria me hospedar na cidade estava fechado por conta dos estragos do terremoto. Na internet via notícias do tipo: 70% da cidade sem luz, tantos por cento sem água… e pensava meudeus! Cheguei a pensar em cancelar todinha minha viagem pela ilha sul – o detalhe era que eu já havia pago.

O fato é que eu não tinha tempo a perder, teria apenas 10 dias na Nova Zelândia. Havia contratado uma agência de intercâmbio brasileira sediada em Christchurch, a NZEGA , e a grande vantagem era que em casos de desespero como aquele eu podia ligar para a moça da agência e me desesperar em português. E fazia exatamente isso: ligava e ela me contava que o centro da cidade estava paralisado por conta dos estragos do terremoto, mas que seria besteira cancelar minha viagem pela ilha sul só por conta disso.

Pensei bem e, com a cara e a coragem, no meu terceiro dia no país embarquei para a cidade do terremoto. Eu carregava uma mala maior do que o mundo, e resolvi deixar parte das minhas coisas no hostel de Auckland, que pegaria na volta, antes de partir. Fui num seja-o-que-deus-quiser. Fui!

Saí de Auckland debaixo de chuva. Voei duas horas sobre o mar e Aotearoa. Pousei sem saber se podia confiar no solo em que estava pisando. Andarilhei sozinha pelo aeroporto de Christchurch, me indagando sobre a brasileira da agência com quem havia combinado de me encontrar. Mas eis que duas moças me chamam pelo meu nome, sim, sou eu! Eram a Mary, a dona da agência, e a Léia, uma brasileira que também havia acabado de chegar. Elas dizem que tinham me chamado umas três vezes e eu havia passado como se não fosse comigo, sem ver nem ouvir… Que vergonha, sou distraída mesmo!

Entramos na picape da NZEGA e no caminho Mary vai nos contando sobre o terremoto. O centro de Christchurch ainda estava intransitável, mas fomos transferidas para um hostel próximo, onde o terremoto não havia feito grandes estragos. Mesmo com terremoto, eu já ia me apaixonando por aquela cidade bucólica, cheia de casinhas fofas com jardins incríveis, parques lindos e monumentos que remetiam à Inglaterra vitoriana. Chegamos no hostel e eu já gostei logo de cara: Jailhouse, fora uma cadeia até 1999, que coisinha meiga! O charme do lugar era, claro, preservar o espírito de cadeia. Fui fichada na recepção, e dispunha de pijamas listrados, canecas listradas, cobertores listrados – moda xilindró outono/inverno 2010!

A Nova Zelândia é um país tão pacato, mas tão pacato, que para não morrer de tédio e de falta do que fazer os kiwis prolongam ao máximo a tarefa mais simples. Foram uns 20 minutos para cadastrar duas hóspedes na recepção.

Alocadas, saímos com a Mary para conhecer o centro da cidade, onde o trânsito de veículos estava na maior parte fechado. Se o terremoto nos provocara contratempos, pelo menos iríamos fazer turismo do terremoto. Andávamos na rua e, de trecho em trecho, havia casas antigas ruídas, vários prédios embargados, vidros quebrados, tijolos espalhados, uma ou outra calçada desalinhada. Mas não, não era o caos. Apesar de tudo, o clima em Christchurch era muito tranqüilo, e os habitantes até faziam piada – e o faziam porque o terremoto terminara sem vítimas fatais.

Almoçamos num restaurante chinês e andamos um pouco pelo centro. Eu já nem dava bola para os detalhes do terremoto, a cidade ainda assim, naquele dia cinzento e de vento frio, era tão linda, tão fofa e européia, que nem me preocupava. Estava encantada. Mary nos devolveu ao hostel, ou melhor, à cadeia, junto com um convite para o chá de bebê de sua filha (pois ela estava grávida), na noite seguinte.

Entramos. E enquanto eu deitava para um cochilo, uma chuva fria desceu para envolver aquele bairro industrial silencioso numa atmosfera triste de exílio. Acordei já de noite e com fissura de internet. A internet na Nova Zelândia é mais barata que na Austrália, mas ainda bem mais cara que no Brasil. Fui até a recepção e paguei dez dólares por quatro horas de acesso, e passei a noite navegando, twittando, subindo fotos…

 

"Eu sobrevivi ao terremoto de Christchurch - Setembro/2010"

 

Meu corpo inteiro estava atento para o chão. Eu ainda não confiava no chão. Juro em uma vez ou outra tê-lo sentido se mover por menos de um segundo, e é uma sensação bastante desagradável.

No dia seguinte eu e Léia acordamos e passeamos pela cidade. Fomos andar pelo rio, e aí… e aí foi paixão, cara! Pelo rio, quero dizer. Pelos parques que correm nas suas duas margens, com um gramado delicioso, árvores de chorão, flores. Esse riacho povoado de patinhos, cortado por pontezinhas, sob as quais passam gondoleiros muito empenhados no seu romântico trabalho de levar casais apaixonados para passear.

Tomamos o breakfast num café à beira do rio do qual eu vou sentir sempre dolorosas saudades, porque era lindo, lindo, lindo… e gostoso! Se um dia você for à Christchurch, por favor, vá a esse café!

Depois andamos, andamos… Visitamos a praça central com aquela igreja emblemática, visitamos lojas de souvenirs, visitamos a imensa biblioteca da cidade, fiz compras num brechó danado de legal, tomamos cerveja num pub e, ao anoitecer, seguimos para o chá de bebê na casa da Mary. Visitando aquela casinha fofa no subúrbio de Christchurch, só pude ficar imaginando a vida maravilhosamente tranqüila naquele lugar. O chá de bebê foi invadido por um batalhão de brasileiros. Brasileiros que moram e trabalham na Nova Zelândia, imigrados, casados com kiwis e outros gringos. Olha que tem MUITO brasileiro ali! Mas no chá tinha especialmente brasileiras e eu conversei com várias, elas me contando como é a vida na kiwilândia e como foi passar pelos 40 segundos de um terremoto de 7,5 graus. Estavam ainda traumatizadas.

Mas eu tinha que ir, porque no dia seguinte pegaria o trem. Deixei a festa que prosseguia noite adentro, dei um último abraço na Mary e parti para a minha cadeia.

Acordei cedinho, me despedi da minha amiga brasileira e parti com meu malão para a estação de trem. O TranzAlpine, o trem que cruza os Alpes neozelandeses. Sentei numa cadeirinha solitária, e arrisquei várias peregrinações ao primeiro vagão para comprar café. Na janela, montanhas, montanhas, montanhas. Neve. E o leito pedregoso de largos rios. Eu estava esperando que fosse mais ou menos como no Senhor dos Anéis, quando o grupo está cruzando as montanhas em busca dos portões de Moria. Mas não, não é bem assim. Mas sim, vale a pena do mesmo jeito.

O que eu não sabia era que logo quando parti, houve um aftershock em Christchurch. A Terra Média tremia…

Sim senhores, o próximo episódio é o capítulo FINAL!

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Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

outubro, 14 - 2010

A desvantagem de atravessar um país continente é que cada viagem é uma baita viagem. Na Austrália, para ir de uma cidade a outra, não costumava levar menos que 12 horas de ônibus. Depois de rodar a estrada noutra madrugada, voltei a Melbourne – o ponto de partida da minha viagem – para minha última e corrida semana na Austrália. Voltei para a mesma rua, o mesmo hostel, para acompanhar o Worldcon, que aconteceria no mesmíssimo lugar onde eu havia participado do congresso de psicologia, 2 meses antes. Nesses dias a câmera fotográfica ficou praticamente esquecida, eu estava mais preocupada em curtir do que em registrar. Cheguei em Melbourne dois dias antes do Worldcon e fui logo revisitar os pontos turísticos que mais havia gostado. Fiz minha última visita ao Queen Victoria Market, que é uma espécie de 25 de Março com Mercado Municipal, onde comprei souvenires e frutas e me deliciei com as comidas análogas ao nosso pastel de feira.

 

Melbourne Convention and Exhibition Centre

Essa foi minha última folga, porque dali em diante, entre os dias 02 e 06 de setembro, estaria mergulhada de cabeça na maratona do 68th World Science Fiction Convention – Aussiecon 4! E foi que na quinta feira, dia 2, cedinho, me arrumei e fui para o Melbourne Convention and Exhibition Centre buscar meu crachá, minha bolsa e minha inscrição como panelista, com o coração saltando e o espírito dividido entre a alegria de fã e a responsabilidade de representante.

 

A abertura do evento foi curta e simples: este era o quarto Worldcon a acontecer na Austrália e em homenagem fizeram um clipe com uma colagem de filmes de SF & F misturado com clássicos do cinema aussie, como o Crocodilo Dundee e as drag queens de Priscilla, a rainha do deserto. Não sei quantas pessoas estavam presentes no evento, mas sei que era um número de quatro dígitos: o evento era enorme, e me disseram que os Worldcons dos EUA costumam ser ainda maiores.Logo depois da abertura eu estava escalada para participar do meu primeiro panel: “Queer representations in speculative fiction” ao lado de Erika Lacey e Andrew M. Butler. E veja só, logo nos meus primeiros minutos do meu primeiro Worldcon, eu estava sentada atrás de uma mesa para falar de improviso em inglês a um público nativo em língua inglesa. Claro que logo de cara bateu uma insegurança, mas respirei fundo e fui em frente. Andrew e Erika citaram obras que trabalham com sexualidade, personagens gays e lésbicas. Falamos do quanto os autores clássicos não contribuíram para a questão, e como era difícil para os mesmos ousar quando se propunham a tal. Citando as obras da Ursula Le Guin (especialmente A Mão Esquerda da Escuridão, Os Despossuídos e The Telling), destaquei a diferença que há entre produzir uma obra que discuta sobre sexualidade ou simplesmente escrever uma obra que inclua personagens gays e lésbicas, inserindo a orientação sexual como uma mera característica – coisa que só passou a acontecer com mais naturalidade no território da ficção especulativa nas últimas décadas. Pra terminar, ainda mandei uma pergunta para os outros panelistas e o público sobre como trabalhar a empatia de um personagem gay ou lésbica para o público geral. Terminado o panel, houve quem viesse comentar que querer emplacar personagens gays e lésbicas para o público geral era utopia minha.

Sem tempo para respirar, saí do primeiro panel e já fui para a sala seguinte para a primeira das minhas apresentações acadêmicas. Esclarecendo: no Worldcon há uma programação acadêmica que ocorre em esquema de simpósio, e eu estava representando o grupo do Prof. Luís Paulo Piassi da USP, que estuda obras de FC. Fui escalada para apresentar o trabalho do Emerson Gomes e da Sônia Montone: “An historiographic view about HG Wells’ The Time Machine” em um bloco de pesquisas sobre a obra do Wells. A sala estava lotada e o feedback do público na apresentação foi excelente. Ao final algumas pessoas vieram cumprimentar os autores do trabalho e dar dicas de referências bibliográficas, outras vieram curiosas me perguntar do Brasil, e acabei até conversando em português com um tasmaniano que morou um ano no Mato Grosso do Sul.

No dia seguinte, sexta feira, panel acadêmico: “These are not the people you are looking for: race in SF/F”, com Sheldon Gill (malaio naturalizado australiano), Ika Nurain (malaia, escritora em língua inglesa), Alaya Johnson (americana, escritora de fantasia), Anita Harris Satkunananthan (indo-australiana estudiosa de literatura), China Miéville (escritor britânico muitíssimo bem cotado no momento) e eu, que era a única latinoamericana presente na convenção. Sala bastante cheia, começamos a mesa nos apresentando. Alaya Johnson, que é uma mulata novaiorquina lindíssima, denunciou o racismo no mercado literário e nas editoras norte-americanas, e no quanto foi difícil convencê-las a colocar mulheres não brancas/caucasianas na capa dos seus livros. Já Anita falou de algumas obras de ficção científica e fantasia que estudou, analisando a questão de gênero e etnia, e até se emocionou falando das desigualdades implícitas dentro das mesmas. Na minha vez, falei sobre a representação dos brasileiros e outros latinos na literatura de ficção científica, citando como exemplo o livro Brazyl, do Ian McDonald (que concorreu ao prêmio Hugo em 2009). Comentei, aludindo em partes a um artigo publicado pelo Fábio Fernandes, que poucos foram os brasileiros que leram a obra, porque Brazyl não foi publicado no Brasil, mas entre quem leu existe a opinião de que Ian McDonald fez um trabalho tão bom que um brasileiro poderia tê-lo escrito, acrescentando um porém: se um brasileiro o tivesse feito, dificilmente teria o livro traduzido e publicado em língua inglesa. Falei sobre a barreira que a língua é para nós escritores não anglófonos. Comentei que o fato de nós, brasileiros, sermos cada vez mais visíveis no plano internacional não nos dá uma voz própria: continuamos sendo descritos a partir de um ponto de vista externo, e com muitas dificuldades de representarmos a nós mesmos nesse mercado literário dominante, que é o da língua inglesa. Já o China Miéville, que é, entre outras coisas, PhD em relações internacionais, fez uma ótima análise sobre a hipocrisia dentro do meio editorial, mas que eu não conseguiria parafrasear aqui com palavras tão afiadas. Foi uma mesa excelente e saí de lá dando uma entrevista para uma rádio de Melbourne.

No sábado, dia 4, um panel de muito, muito peso: “Fred Hoyle: Scientists and Science Fiction”, ao lado de dinossauros da FC como Gregory Benford, Jeff Harris e Alastair Reynolds. Sala lotada e 3 escritores-cientistas com muito mais experiência do que eu nas costas. Gregory Benford foi amigo de Fred Hoyle durante muitos anos e, por isso mesmo, acabou falando quase o tempo todo sobre a vida e obra de Fred Hoyle. A mim coube fazer algumas perguntas no final sobre as ideias polêmicas de Hoyle, que recusava a teoria do big-bang em favor do design inteligente (mesmo quando a teoria foi considerada provada pela medição da radiação cósmica de fundo), negava a origem espontânea da vida em favor da panspermia, e negava a origem fóssil do petróleo.

Já no domingo, enfrentei uma maratona de 3 panels. Comecei com uma apresentação acadêmica do grupo da USP, dessa vez a autora era a Rhamyra Toledo e o trabalho era: “The relations between science and social representations in Orson Scott Card’s Speaker for the Dead”. Na sequência, entrei em outro panel: Make Room! Make Room! , ao lado de Gord Sellar, Sam Scheiner (que acabou de publicar um livro de ecologia no Brasil) e Jonathan Cowie. Baseados em “Make Room! Make Room!”, a obra do Harri Harrison que inspirou o filme Soylent Green, falamos sobre o impacto da superpopulação na Terra. A discussão girou em torno de teorias neomalthusianas, aquecimento global e devastação ambiental. Falei sobre o desmatamento da Amazônia (equivalente a um estado do Rio de Janeiro por ano), sobre nossa recente euforia econômica com a entrada do Brasil no BRIC, e como é injusto para as nações em desenvolvimento terem que desacelerar o crescimento em virtude dos acordos sobre as emissões de carbono. Me senti muito a vontade e  foi o panel que mais curti em toda a convenção. Por último, eu e Erika Lacey dividimos a mesa no panel “The future of gender and sexuality”. Erika é uma leitora voraz, e citou dezenas de obras que tratam da questão gênero e sexualidade em ficção especulativa. Eu falei sobre pós-generismo e sobre a evolução das técnicas de reprodução assistida. O público era pequeno, e logo abrimos para perguntas e comentários da platéia. Discutiu-se longamente sobre homofobia, sexismo e política.

Finalmente, na segunda feira me dei ao direito de me fantasiar de fã e caçar autógrafos. Dos panels que assisti, achei particularmente interessantes um sobre as consequências da imortalidade, um workshop sobre como escrever cenas de luta, e as palestras do escritor e convidado de honra Kim Stanley Robinson, todas ótimas!

 

Robert Silverberg e Kim Stanley Robinson

 

Autografei livros com o George R.R. Martin (que acabou de publicar “Guerra dos Tronos” no Brasil pela Leya), com o China Miéville (que vai ser publicado no Brasil pela Tarja Editorial), com o Kim Stanley Robinson (que ainda não tem livro publicado por aqui, alô editoras!) e com a Alaya Johnson (que já veio ao Brasil e com quem deixei um exemplar do meu livro Fábulas).

 

Eu e George R.R. Martin

 

Mas eu tenho que falar do Green Room! Os participantes dos panels têm o direito de usar o Green Room, que é uma salinha preparada para matar a fome, a sede, as dúvidas e onde os panelistas podem se reunir, conversar e preparar os panels. O Green Room tinha uma cafeteira de ficção científica, um buffet delicioso de frutas, queijos e doces, refrigerantes, chocolates, e até coalinhas de brinde para pendurar na lapela, tudo de graça e à vontade. Tinha dias que eu trocava o café da manhã no hostel pelo café da manhã no Green Room, que além de ter a vista belíssima do panorama de Melbourne, estava quase sempre povoada de escritores nos mais variados níveis de fama e reconhecimento, incluindo Robert Silverberg, Charles Stross, John Scalzi, George R.R. Martin, Kim Stanley Robinson… Quando eu descobri o Green Room, não queria mais sair do Green Room!

 

Green Room

 

Também não poderia deixar de falar da cerimônia do Hugo Awards! Para quem não conhece, o prêmio Hugo é o prêmio máximo da literatura de ficção científica e fantasia, atendendo diversas modalidades em diferentes mídias: literatura, fanzines, revistas especializadas, quadrinhos, artistas gráficos, filmes e seriados. Quem apóia ou participa do Worldcon tem o direito de votar para o Hugo Awards, e esta foi a primeira vez que eu votei.

O Hugo Awards é um evento de gala, o mais glamoroso do tipo. O mestre de cerimônias deste ano foi o escritor de ficção científica Garth Nix, que segundo ele mesmo, estava usando as botas de caubói do Isaac Asimov, a gravata do Robert Heinlein, os óculos do Cory Doctorow, só não teve dinheiro para comprar as cuecas do Neil Gaiman. Logo no início houve uma retrospectiva do ano de 2009 com os candidatos ao prêmio Hugo – é exatamente este vídeo que você pode assistir clicando abaixo.

Depois foi apresentado o troféu Hugo de 2010. O troféu Hugo é um foguete, e só a base é mudada de ano a ano. A base deste ano, de inspiração australiana, foi criação de Nick Stathopoulos. E então passou-se às premiações.

Melhores momentos:

Uma das partes mais interessantes foi quando Robert Silverberg foi receber o prêmio de best fan writer que saiu para o escritor Frederick Pohl (que tem 90 anos e já ganhou outros Hugos).  Sobre essa premiação inusitada, Silverberg simplesmente comentou: “that’s weird!”

O escritor Robert Silverberg daria um ótimo comediante stand up. Quando subiu ao palco para apresentar o prêmio de melhor editor, Silverberg fez a platéia cair na gargalhada analisando a dificuldade de ser engraçado apresentando um prêmio tão sem charme e sem graça como o de “melhor editor”.

Quando o prêmio de best semiprozine saiu para Clarkesworld, Cheryl Morgan veio ao palco muito concentrada no iPhone, tropeçou nos degraus e quase se esborrachou na escada. Veio ao microfone e pediu desculpas: estava fazendo live-blogging.

Enquanto todos os seus colegas estavam na estica e engravatados, um embasbacado Peter Watts subiu ao palco de calça jeans e camiseta confessando que não contava receber o prêmio de best novelette e nem tinha preparado discurso. Logo depois, Charles Stross subiu ao palco para receber o prêmio de best novela no mesmo embasbacamento, dizendo: “estava tão certo de que não iria ganhar que nem preparei discurso. Obrigado!”

Finalmente, o momento que todos esperavam. Kim Stanley Robinson veio apresentar o  vencedor de best novel, melhor romance, o prêmio mais esperado, concorrido e almejado. Abriu o envelope e então começou a divagar longamente sobre a natureza das estatísticas: coisas muito improváveis acontecem, somos todos improváveis, e aconteceu uma coisa improvável: um empate no primeiro lugar! Havia dois vencedores: The City & The City, do China Miéville e Windup Girl do Paolo Bacigalupi. China estava presente e subiu ao palco para agradecer. Disse que era véspera do seu aniversário de 38 anos e que este havia sido o melhor presente que poderia ganhar. Paolo não estava presente. Não entendo bem como são calculados os votos para o prêmio Hugo, mas levando em conta que deu empate na votação, é legal pensar que dei um Hugo Award de aniversário para o China Miéville.

Segue a lista de premiados do Hugo de 2010:

Best Novel: TIE: The City & The City, China Miéville (Del Rey; Macmillan UK); The Windup Girl, Paolo Bacigalupi (Night Shade)

Best Novella: “Palimpsest”, Charles Stross (Wireless; Ace, Orbit)

Best Novelette: “The Island”, Peter Watts (The New Space Opera 2; Eos)

Best Short Story: “Bridesicle”, Will McIntosh (Asimov’s 1/09)

Best Related Work: This is Me, Jack Vance! (Or, More Properly, This is “I”), Jack Vance (Subterranean)

Best Graphic Story: Girl Genius, Volume 9: Agatha Heterodyne and the Heirs of the Storm Written by Kaja and Phil Foglio; Art by Phil Foglio; Colours by Cheyenne Wright (Airship Entertainment)

Best Dramatic Presentation, Long Form: Moon Screenplay by Nathan Parker; Story by Duncan Jones; Directed by Duncan Jones (Liberty Films)

Best Dramatic Presentation, Short Form: Doctor Who: “The Waters of Mars” Written by Russell T Davies & Phil Ford; Directed by Graeme Harper (BBC Wales)

Best Editor Long Form: Patrick Nielsen Hayden

Best Editor Short Form: Ellen Datlow

Best Professional Artist: Shaun Tan

Best Semiprozine: Clarkesworld edited by Neil Clarke, Sean Wallace, & Cheryl Morgan

Best Fan Writer: Frederik PohlBest Fanzine: StarShipSofa edited by Tony C. Smith

Best Fan Artist: Brad W. Foster

Como comentei, o Worldcon é enorme, e aparentemente metade dos hóspedes do meu hostel estavam participando do evento. Nos corredores do hostel, a toda hora esbarrava com minha colega de panel Anita Satkunananthan, com quem conversei bastante. Na rua encontrava outros colegas panelistas, vivia esbarrando com o Sheldon Gill, encontrava a Ika Nurain na pizzaria… Conheci também um casal de steamers (fãs e cosplayers de steampunk) australianos que moram na Nova Zelândia, que elogiaram a organização do Conselho Steampunk brasileiro, um dos mais atuantes do mundo. Infelizmente eu perdi a maior parte das festas e baladas do Worldcon porque tinha que voltar cedo para o hostel para preparar os panels do dia seguinte. Na segunda feira, dia 6 de setembro, eu estava tendo meu dia de fã, feliz mas num danado clima de despedida. Lembro de estar no Green Room tomando meu último café, com a Alaya Johnson perguntando se ainda me veria depois da cerimônia de encerramento – bem que eu gostaria… Mas foi tudo tão rápido! Naquela tarde o Worldcon terminou, eu fui direto para o hostel para lavar as roupas e arrumar a bagagem, e logo depois, durante a madrugada, estaria puxando minha mala pelas ruas de uma Melbourne vazia, chuvosa, adormecida. Peguei um ônibus e segui para o aeroporto sozinha, vendo a cidade sumir na garoa e na escuridão. Antes do sol nascer, meu avião decolou, e eu dei adeus à Austrália.

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Australionauta, o relato – Parte 8

outubro, 13 - 2010

A Austrália tem menos de 22 milhões de habitantes em um território que é quase do tamanho do Brasil. Metrópoles mesmo são Sydney, Melbourne e Brisbane (quanto a Perth, não conheci), o resto são cidadezinhas de médias a ínfimas. Mas Sydney, em particular, não me pareceu menor em extensão do que São Paulo. O subúrbio de Sydney é imenso e povoado de casinhas do tipo que encontramos nos condomínios fechados do Brasil: bonitonas, com jardins generosos, e normalmente sem muros e sem cercas (o que não quer dizer que a criminalidade na Austrália seja zero; na casa de tia Júlia, onde me hospedei, já entrou ladrão). Uma coisa que chama a atenção na Austrália é a quase total ausência de prédios fora dos centros metropolitanos. Como resultado das imensidões suburbanas, o trânsito das rodovias radiais é denso, principalmente no horário do rush. Mas o transporte forte de Sydney é mesmo o trem. Sydney e redondezas tem uma malha ferroviária gigantesca, que, dizem, só não é mais complexa que os metrôs de Londres e Paris. E não é fácil se orientar: há dezenas de linhas, muitas plataformas, e em cada plataforma passam trens que fazem diferentes trajetos, o passageiro tem que ficar atento e conferir o trajeto do trem, ou corre o risco de ir parar do outro lado da cidade. Os trens são de dois andares e não costumam andar cheios, viaja-se tranquilamente sentado. O porém é que se paga muito caro pelo conforto: por uma viagenzinha do subúrbio até o centro eu não pagava menos que 4 dólares.  Eu caía no trem de Sydney e me perdia feliz: ia para Chinatown (o bairro da Liberdade sydnense), ia para Circular Quay ver a Opera House, ia para George Street (um análogo de Av. Paulista com Faria Lima), ia para Katoomba (a Campos do Jordão australiana), ia para o Kings Cross (uma espécie de Rua Augusta), e andava, e olhava, e seguia por Sydney me perdendo e me encontrando.

Me perdia no trem quase todos os dias. Às vezes me distraía com um livro e perdia a estação; quando atinava, estava sozinha dentro do trem, que fechava as portas e continuava parado, então via um guardinha passando do lado de fora e o anúncio no alto-falante pedindo para o “último passageiro sair, por favor, pois esta era a estação final”. Outras vezes, ia parar em estações improváveis como Emu Plains, rodeada de mato por todos os lados, ou saía de Sydney sem querer, pegando a linha errada…

Mas havia também o ferry boat. E nada mais charmoso a fazer na baía de Sydney do que andar de ferry. Num sábado de sol fui até Circular Quay, ao lado da Opera House, pegar o ferry para ir até o zoológico de Taronga, o zoo com a vista mais espetacular do mundo, pois fica de frente para  o cartão postal de Sydney.

Você faz a viagem de barquinho contornando a Opera House e atravessando a baía de Sydney até o outro lado, onde está o zoológico. Aí pega-se um bondinho para subir até a entrada e descer feliz vendo os bichos. Além dos animais must-have (elefante, girafa, zebra, gorila, etc), o Taronga Zoo é o lugar certo para conhecer toda a fauna australiana, andar no meio de cangurus, wallabies, emus, abraçar o coala, ver ornitorrinco, eqüidna, wombat, diabo da Tasmânia, lagarto de língua azul, crocodilo, as mais variadas aves, anfíbios, lagartos, cobras e insetos australianos.

O Taronga Zoo é atualmente a instituição que mais investe na preservação do diabo da Tasmânia, que está desaparecendo da natureza devido a um vírus que provoca um tumor no focinho e mata o diabo ainda jovem, antes mesmo de atingir a idade reprodutiva. Ainda não há uma cura, tratamento ou vacina e os exemplares mantidos saudáveis em cativeiro são atualmente a única esperança de sobrevivência da espécie.

Sydney também tem praias bonitas. Um dia minha prima aussie me levou para visitar as praias chiques do norte de Sydney, como Palm Beach, que fica em uma península, desembocando numa baía extraordinária, cheia de iates e casas de veraneio caríssimas. Fui também conhecer Bondi Beach, a praia mais badalada de Sydney, infestada de surfistas, charmosíssima, cool, cheia de bistrôs e restaurantes, bares e hotéis, e me lembrou bastante Viña del Mar, no Chile.

No meio do passeio, uma atração inusitada: um cemitério a beira mar. Um lugar calmo e bonito para se cair morto. Passeei por entre os túmulos, conhecendo celebridades mortas e tirando fotos de estátuas lindíssimas…

Conhecendo mais o centro de Sydney, me esgueirei para os lados de Chinatown, o bairro asiático, com restaurantes, cabelereiros, lojas de moda japonesa, lojas de souvenir e artigos made in China… Ali perto, no centro, passei por lojas de armamentos, que vendem espadas, capacetes, uniformes, carabinas, armaduras de cavaleiro templário a guerreiro mongol, e até uma loja de memorabilia militar (especialmente memorabilia nazista), com medalhas e uniformes legítimos do III Reich. Creepy.

Fui também andar pelos bairros de Paddington e Kings Cross. Paddington é o bairro gay, e o Kings Cross é o histórico bairro da luz vermelha de Sydney, mas baixo meretrício é coisa do passado, hoje ambos os bairros são familiares, trendy e cool. Em Kings Cross tem verdadeiras sex shoppings e clubes “for gentlemen” onde a prostituição é legal, e que ficam lado a lado com as lanchonetes, livrarias, lojas e mercados.

Em Sydney provei culinárias nunca dantes degustadas: fui levada por meus primos aussies a um restaurante tailandês maravilhoso em Paddington, e também a um restaurante austríaco de Schnitzel, e também provei a culinária tradicional lituana no clube da colônia. Descobri restaurantes japoneses ótimos e acessíveis, cafés italianos, e até cozinha vietnamita. Em Sydney cozinhei a melhor macarronada que fiz na vida. Em Sydney lavei roupa e pendurei naqueles varais circulares que se vê nos filmes estrangeiros. Em Sydney… em Sydney…

Um dia eu tive que fechar as malas, me despedir de uma tia Júlia segurando o choro, me despedir do bucólico bairro de Rhodes, me despedir daquela cidade que não cabe em um adjetivo, dar um último abraço na minha prima Reggie e partir de volta para Melbourne, onde teria pela frente o Worldcon e minha última semana na Austrália.

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Australionauta, o relato – Parte 7

outubro, 8 - 2010

A Austrália parece um pedaço da Europa (ou melhor, da Inglaterra) que se perdeu numa zona subtropical.  É a impressão que se tem quando você anda pelos subúrbios de Sydney e de Melbourne. Pela primeira vez na vida me senti longe da zona de influência norte-americana. Estava fazendo o câmbio em dólares americanos, verdade, mas com a recente desvalorização (o dólar australiano está valendo praticamente o mesmo que o americano) me parece que não teria perdido nada se tivesse optado por euros ou libras. Você liga a TV e não assiste à invasão de filmes, séries e programas americanos, em vez disso, muita programação britânica, juntamente com programas australianos e neozelandeses. Não que a qualidade seja melhor. Fazia muito sucesso o X Factor, que é uma versão australiana do American Idol, e tinha também o Dance With the Stars, uma versão melhorada da “dança dos famosos”. Tinha um reality show chamado “The World’s Strictest Parents”, que era uma espécie de troca de família em que os adolescentes iam passar um tempo na casa de pais substitutos bastante metódicos. Tudo muito forçado para ganhar dramatismo na TV, claro. Havia outro reality show que era uma competição entre candidatas a top model, igualmente forçado. O que achei mais interessante foi uma novela de ficção científica neozelandesa chamada “The Tribe”, que conta uma história onde todos os adultos desapareceram, e apenas restaram no mundo as crianças e os adolescentes. Estes, com toda a responsabilidade nas mãos, remodelaram toda a estrutura da sociedade e passaram a viver em tribos – cada tribo com sua moda, seu lifestyle, e seu comportamento próprio; e o que se desdobra daí são as disputas entre as tribos e seus membros. Um estudo antropológico muito bom dentro de uma novelinha adolescente, quem me dera ver um programa desses no lugar de “Malhação”!

Que mais? Na maior parte do tempo o jornalismo australiano falava sobre a política australiana, a primeira ministra Julia Gillard era uma figura onipresente na TV e eu ficava me perguntando de onde ela tirava tempo para governar (se é que governava). Quanto aos esportes, os aussies e kiwis são fanáticos por rugby (cujos heróis nacionais são, respectivamente, os jogadores do Qantas Wallabies e do All Blacks), tem também críquete e australian football (com regras muito próprias, não me perguntem), e o esporte feminino de maior popularidade é o netball, que é parente do basquete. Ainda na casa da tia Júlia, assistimos a um documentário da Discovery sobre o Brasil: mostrava uma piloto de helicóptero paulistana, uma menina participando da procissão em Ouro Preto, uma moça desfilando pela Mangueira no carnaval… Me ajudou a ter uma ideia da visão estrangeira sobre o Brasil. A pergunta que os gringos mais me faziam era: “vocês falam português ou espanhol?” Em geral, esse cartoon resume perfeitamente as coisas que perguntam a um brasileiro no exterior. Certa vez, falei que era brasileira para um sujeito, e ele mudou de expressão e começou a se mexer na cadeira com uma animação bizarra, meio carnavalesca e meio tarada. Muito séria, perguntei: “What is this?”, e ele parou, sem graça. Às vezes você é obrigado a se confrontar com o fato de que a imagem do Brasil lá fora não é das melhores…Encontrei poucos brasileiros na Austrália. Conversei apenas com três; duas que encontrei em Surfers Paradise mas moravam em Sydney e trabalhavam de nanny, e mais um em Melbourne, que estava tentando imigrar para a Austrália como eletricista. De vez em quando eu andava pelas ruas e, naquela Babel flutuante em que se ouve de tudo, distinguia um português do Brasil passando através de mim em efeito Doppler. Os brasileiros estão em todo lugar! Na Nova Zelândia somos mais onipresentes, mas eu ainda chego lá…

Calm down, take it easy!

Como eu ia dizendo, a Austrália é muito britânica. Mas a Austrália tem fama de ser um país “relax”, e por vezes os australianos são comparados aos brasileiros no quesito alegria e cordialidade. Eu diria que somos um tanto diferentes; eles sim são mais gentis e cordiais do que nós – na Austrália esses valores são endêmicos! É natural um desconhecido improvável chegar do nada e lhe cumprimentar: “how are you today?”, isso não quer dizer que ele está te cantando, que está interessado em você ou querendo roubar o seu relógio: ele só está sendo ele mesmo. É muito bom esse clima, as pessoas o recebem com um sorriso, são atenciosas, ficam felizes em ajudar. Senti uma grande diferença quanto a respeito e dignidade. Pra começar, não tem esse papo de cantar mulher na rua, ficou muito evidente o quanto esse hábito machista nojento é coisa dos brasileiros (ou dos latinos). Segundo: os moradores de rua não são indigentes nem párias, como são tratados os mendigos no Brasil. São humildes, mas não são miseráveis – existe um certo preconceito, sim, pois os aussies os consideram preguiçosos: “estão na rua porque não querem trabalhar” – mas ainda são tratados como seres humanos, as pessoas param para conversar com eles na rua, veja só a diferença. A triste exceção são mesmo os aborígenes, mais próximos à mendicância propriamente dita. Lembro ainda de ter visto travestis muito bem vestidas, inclusive uma executiva. Diante de tudo isso, fiquei meio deprimida em perceber como é gritante o jeito como tratamos mal nossos moradores de rua, travestis, mulheres, etc. E como somos desconfiados!

Vi muitos músicos de rua, e músicos bons! Gente tocando rock, reggae, country, clássica… Geralmente deixavam um cartaz falando por que pediam dinheiro, lembro de uma cantora que estava juntando para gravar o primeiro disco. O lado carnavalesco dos australianos fica evidente, talvez, pelo hábito de inventar desculpas pra sair pelado por aí. É um costume bastante europeu, também, cheios de fazer passeatas nudistas. Não vi ninguém saindo pelado na rua, mas em Brisbane vi um pessoal andando de bicicleta só de capacete e sunga laranja – o mais engraçado era que era uma manifestação de trabalhadores!

Os australianos também são famosos por se entupir de cerveja. Bebe-se muito. Ou melhor, entorna-se! E olhe que sai caro, pois não se paga menos de 4 dólares por uma garrafinha de cerveja na Austrália (isso se você for no mercado, no pub sai mais que o dobro). Mas o preço não surte muito efeito sobre eles. Lembro de ter visto muita gente fumando, e lá um maço de cigarro não sai por menos de 16 dólares. Pois é, bebidas e cigarros são sobretaxados, não poderia ser assim aqui também?

Em Melbourne achei engraçado como num sábado à noite as pessoas na rua pareciam todas vestidas para ir num casamento, é uma elegância provinciana… E o uniforme dos estudantes? Simplesmente charmosos: as meninas usam sainhas plissadas xadrez(muitas vezes com pernas de fora num frio de 0 grau), camisa social e blazer, os meninos sempre de terninho e gravata, às vezes chapéu ou boina. No horário de saída das escolas via-se um desfile de uniformes bonitinhos.Nas cidades australianas são muitos shoppings, teatros, galerias e museus. Toda cidade grande tem um cinema IMAX. É fascinante a quantidade de cafés e bistrôs, um do lado do outro! Os australianos e neozelandeses são muito outdoors: vivem para fora de casa, saem muito para bares, cafés e restaurantes; invadem praças e parques (que eles têm aos montes, e são maravilhosos) fazendo jogging, andando de bike, skate, patins… É uma qualidade de vida de fato invejável.

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Australionauta – Interlúdio

outubro, 5 - 2010
Como descrever a honra que foi passar uma semana na casa da tia Júlia? Uma senhora lituana que veio ainda criança para a Austrália e trabalhou a vida toda como professora primária. Ganhara o sobrenome Lasaitis do marido, também lituano e já falecido. Ela mora sozinha em um sobrado delicioso à beira do rio que corta Sydney, no bairro de Rhodes, longe do centro. Das janelas eu podia ver o rio e um parque maravilhoso, verde, construído em homenagem aos veteranos aussies da 1ª guerra. Tia Júlia pouco sai de casa, tem idade e um enfarte na conta. Com os problemas de saúde, não agüenta caminhar muito. Ainda assim, mora sozinha, cuida de si, da casa, das plantas, faz compras e é presidente de uma associação de mulheres da colônia lituana de Sydney.
Na casa da tia Júlia ocupei um quartinho de hóspedes daqueles que tem uma parede na diagonal por causa do telhado, com muito jeito de casa estrangeira. Uma foto (ou seria um daguerreótipo?) dos pais dela ainda jovens, em roupas de casamento, me vigiavam na cama, enquanto eu dormia. Casa fria: em cada cômodo que tia Júlia ia, ela ligava um aquecedor. Casa antiga, daquelas em que o vaso sanitário e a pia ficam em cômodos diferentes. Casa gringa, com paredes internas que parecem de papelão. Mas o mais importante: casa fofa, muito aconchegante e repleta de livros.
Eu acordava de manhã e descia as escadas para encontrar tia Júlia na sala de jantar, às vezes jogando paciência, às vezes fazendo cruzadinha, normalmente lendo, cercada de jornais. E os livros? A casa repleta de estantes –  casa de leitora compulsiva. Às vezes nos sentávamos na sala para ler e falávamos de autores, de livros… uma afinidade tão rara. Tomava café da manhã na cozinha, olhando para aquele rio e aquele parque. Café da manhã australiano: com café solúvel, torradas, manteiga, vegemite, mas eu sempre recusava o bacon com ovos. Não fiz questão de me acostumar com frituras no café da manhã (eu, que já havia engordado além da imaginação). No almoço, tia Júlia me apresentava pratos típicos lituanos deliciosos (e também pesados), fiz questão de anotar a receita de uma panqueca de batatas com creme azedo que pretendo replicar aqui em casa qualquer dia. E depois das refeições, geralmente ela brigava comigo pela minha obsessão, persistência e teimosia em lavar a louça, que não estou acostumada a deixar pra depois.
Enquanto hóspede na casa de tia Júlia, fiz 3 viagens simultâneas: uma por Sydney e região, outra pela literatura(com os livros que pegava emprestado), e outra pelo tempo, através das memórias de tia Júlia. Sentava-me numa das 3 salas daquele reino, perante a matriarca, e ia retrocedendo até uma antiga, talvez lendária, Lituânia. Detalhe: tanto eu quanto tia Júlia somos filhas únicas, imagine a empatia! Ela me contava da sua infância em uma cidade lituana: falou-me do seu aniversário de 6 anos, quando ganhara um escorregador colorido feito pelo pai, mas que só pudera usar uma vez, no seu aniversário, porque logo depois precisaram fugir da invasão russa.
Durante a 2ª guerra mundial, a Lituânia teve a sorte ingrata de estar no meio do fogo cruzado entre a Alemanha nazista e a Rússia.  Os russos, disse a tia Júlia, eram invasores terríveis: matavam, roubavam e estupravam como bem entendiam nos territórios conquistados. Quando os russos entraram e conquistaram a Lituânia, proibiram o lituano como língua oficial: não podia mais ser falado nas escolas, não podia mais ser ensinado. E então a Alemanha retaliava: invadia e tentava expulsar os russos. Entre a cruz e a espada, os lituanos preferiam o domínio dos nazistas, que eram mais civilizados. Terríveis com seus inimigos e com os judeus – verdade! – mas não tão maus senhores para os outros quanto os russos. Os alemães iriam colocar um alemão para chefiar os trabalhadores lituanos e a vida prosseguia.
*
Em 1944 os russos invadiram e os alemães ofereceram asilo aos lituanos. Tia Júlia (então com 6 anos) e seus pais embarcaram nos caminhões mandados pelos alemães, e que já estavam partindo, não tiveram tempo de pegar seus pertences – não sabiam que não voltariam! Eles pensavam que o exílio seria curto, que os russos logo seriam expulsos da Lituânia e eles poderiam voltar para casa. Mas não foi bem assim…
No abrigo alemão eles encontraram fileiras de camas dentro de um galpão, cada família costumava isolar uma área pendurando lençóis, improvisando “paredes”. Era uma forma – a única forma – de encontrar um pouco de privacidade naquele ambiente compartilhado por dezenas de famílias. Os pais da tia Júlia passaram a trabalhar para os alemães: sua mãe lavando banheiros e seu pai trabalhando com a manutenção das linhas de telefone.
No dia que eles chegaram ao abrigo, um soldado alemão que partia para a Lituânia perguntou ao pai da tia Júlia se eles queriam algo “de casa”, ao que ele respondeu, pedindo que trouxesse o ferro de passar roupas para sua mulher e uma boneca para a filha. Eles duvidavam que o soldado iria voltar, mas ele voltou: trazendo exatamente as coisas que pediram, inclusive a boneca – a única lembrança que restou da infância de tia Júlia na Lituânia – a mesma boneca que hoje mora sobre uma mesa na sala de TV, preservada por mais de 60 anos, e que desde então passei a olhar com uma certa reverência.
Certa vez a família tentou voltar para a Lituânia, e passaram por Dresden. Naquela noite, conseguiram chegar até uma vila lituana. Tia Júlia havia perdido um sapato no meio do caminho, que o pai dela voltou pela estrada para procurar. Foi no mesmo instante em que começaram a chegar os aviões para bombardear a cidade de Dresden, ali perto. Eles viram e ouviram tudo: a cidade devastada, queimando nos dois dias que se seguiram ao bombardeio (13 e 14 de fevereiro de 1945).
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Ela passou os dias me contando “causos” vividos pelos refugiados do acampamento alemão. Contou que sua mãe começara a vender cigarros no mercado negro, e transportava o contrabando debaixo das roupas, improvisando uma barriga de grávida. Um dia, no trem, diante dos oficiais da SS ela ficou nervosa e começou a passar mal. Um dos guardas se preocupou, chegou perto e começou a acudi-la. A mãe de tia Júlia retomou o fôlego, agradeceu ao guarda da SS e foi embora; desde então ela desistiu de vender no mercado negro, com medo do que lhe aconteceria se fosse pega.
Já o pai de tia Júlia, que fazia a manutenção dos telefones dos nazistas, andava nas ruas de cabeça erguida, olhando para os postes e contando a todos que fiação ia para onde. Um dia os SS o viram fazendo isso e desconfiaram que ele estivesse tramando algo com as linhas de telefone nazistas. Pegaram o homem e mandaram para a cadeia para passar por interrogatório. O pai de tia Júlia passou uma noite nas mãos do SS e no dia seguinte voltou para o acampamento lívido, apavorado. Nunca mais andou pelas ruas decodificando o mapa telefônico da Alemanha.
A família da tia Júlia depois se mudaria para a parte americana da Alemanha, onde eles viveriam durante alguns anos. Terminada a 2ª Guerra, os rumores eram de que todos os não-alemães seriam deportados para os seus países de origem. A Lituânia havia sido anexada à União Soviética (e assim ficaria até 1990) e os lituanos fariam qualquer coisa para evitar viver sob o domínio dos russos. A mãe de tia Júlia estava desesperada para imigrar a qualquer país que os oferecesse refúgio. Primeiramente, tentaram imigrar para os Estados Unidos (como fizeram alguns lituanos), mas acabaram indo para a Austrália junto com alguns alemães, inicialmente com um contrato de trabalho de 2 anos, mas acabaram ficando pelo resto da vida.
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Tia Júlia conta que em meados do século XX a truculência dos australianos para com os “novos australianos” (como ela) era imensa. Ao ver os imigrantes andando nas ruas, os australianos gritavam “go back home!”. Certa vez, uma senhora perguntara à tia Júlia, então uma criança de 10 anos, se ela gostava da Austrália, já emendando: “porque se não gosta, pode voltar para onde veio!” E assim foi a vida dos imigrantes: trabalhando, se naturalizando e despertando inveja nos australianos que não tinham o mesmo sucesso.
Durante dias fui vivendo e me alimentando desses relances da memória de tia Júlia. Às vezes eu tinha que procurar por entre as décadas e os países para achar a porta do quarto, deitar e rebobinar a fita até 2010, temporariamente me desligando da Alemanha nazista, da Lituânia pré-soviética, caindo de volta na Austrália, ouvindo o sussurro e o sotaque da televisão inda ligada na sala, onde fazia tricô aquela senhora – aquela garota – que fora testemunha do bombardeio a Dresden.
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Australionauta, o relato – Parte 6

setembro, 28 - 2010

Não, nem tudo na Austrália funciona às mil maravilhas. Como por exemplo a internet. Ou como o ônibus desgraçado que peguei para viajar de Byron Bay a Sydney. Eita, viagem longa! Foram 12 horas noite adentro no busão cheio de baratas e sem bancos reclináveis. Um tédio. Um castigo. Sem conseguir dormir, queria ficar acordada. Sem conseguir ficar acordada, queria dormir. Revirava os olhos entre a consciência e o coma, e quando abria, via uma baratinha passeando no encosto do banco da frente… Argh!

A desvantagem é que depois duma viagem dessas você chega estragada. Sydney… Sydney é imensa, até mesmo para o padrão duma paulistana. Ainda tive que pegar taxi para o meu hostel que ficava perto da Harbour Bridge.

Sydney está entre as 10 cidades mais caras do mundo, e reluz a ouro. Meu hostel em Sydney foi o mais caro da viagem, só pelo luxo de ter vista para a ópera, mas valia a pena. Ali eu estava no The Rocks, um charmoso bairro antigo de Sydney, a um tropeço da Harbour Bridge, monstruosa, belíssima, e a poucos minutos de caminhada da Opera House, very impressive. Claro que a primeira coisa que eu fiz assim que larguei as malas e tomei um banho foi ir correndo me ajoelhar diante do monumento.

Ai a Opera, como é a Opera? Para falar de monumentos arquitetônico, vou usar uma comparação. Quando fui pra Brasília, olhei para o Palácio do Planalto e pensei: “é essa coisa mixuruca? Dava a impressão de ser tão maior!” Não é o tipo de impressão que se tem com a Opera House, que é realmente enorme e bela a cada ângulo que se olhe. De um lado da Opera tem-se um imenso jardim botânico que eu não tive muito tempo para explorar, apenas cumprimentei as cockatoos e fui embora. Do outro lado, há Circular Quay, com hotéis, lojas, restaurantes, bistrôs, ancoradouro de ferry boat e estação de trem. Muitas lojas de souvenir, e as mais caras, pra variar. Entrei numa loja atraída pelas lindíssimas máscaras do carnaval de Veneza, e, meio besta, perguntei à vendedora se elas tinham alguma coisa a ver coma a Austrália. A vendedora: tem a ver com a ópera!

Óbvio! Como não pensei nisso antes?

Levando-me do cartão postal até o centrão há a George Street, a avenida comercial mais quente de Sydney, com shoppings, galerias, bancos, pubs e todo o comércio que se pode imaginar. Tudo muito chique e moderno. E meio surrealista também: de repente você vê o monorail saindo de um prédio, andando suspenso pela rua e entrando em outro prédio, é bonitinho. O que me chamou muito a atenção foi a Apple Store, que em Sydney é uma “Apple Shopping”, gigante, com 3 andares, e sempre cheia. Não é de estranhar que o que eu mais via na mão dos australianos era iPhone.

Esqueci de dizer que meu hostel ficava bem acima de um sítio arqueológico. Pois é. Como se tratava do bairro mais antigo de Sydney, ali escavavam as relíquias da época da colonização da Austrália. Minhas companheiras de quarto também eram um diferencial. Partilhei a beliche com uma norte-americana que sabia tudo de literatura de ficção científica. Cada livro que eu citava ela já tinha lido, me senti tão feliz em achar alguém que me entendia! E a parte boa de se hospedar em hostel caro é que os turistas abandonam coisas muito boas na cozinha, às vezes eu fazia refeições inteiras com coisas pegas na free food shelf (estava escrito: “help yourself!”, e eu muito me ajudava).

A essa hora a síndrome de abstinência da internet começava a bater e eu pegava meu notebook e mergulhava no primeiro McDonalds. Comi fast food que nem uma doida. Supersize me, baby!

Mas não foram mais do que dois dias que fiquei aí, no coração de Sydney. Eu estava para embarcar numa viagem realmente nova.

Anos antes eu tive a ideia de tentar traçar a árvore genealógica da família Lasaitis com a ajuda da internet. No século XX os Lasaitis saíram da Lituânia e se espalharam pelo mundo. Fui encontrar ramos da família nos EUA e também na Austrália. O mais curioso: buscando no Google acadêmico, encontrei uma suposta prima australiana que fazia pesquisa biomédica, a Regina. Ainda naquela época escrevi a ela – do modo convencional, por cartinha – me apresentando e pedindo informações sobre eles, anexando fotos da família, e… Vendo fotos, concluímos que meu tio australiano e meu pai são parecidíssimos, fazendo as continhas, chegamos à teoria de que meu avô devia ser primo do avô da Reggie, o que nos fazia primas em sétimo grau (eu acho). Mantivemos a partir de então um contato, de vez em quando mandando cartões de Natal para o respectivo outro lado do mundo.

Agora eu estava na Austrália, e iria conhecer os Lasaitis australianos, e que eram muito mais lituanos da gema do que eu.

Num sábado de sol meu primo australiano Andrew veio me buscar no hostel e me levou para o subúrbio de Sydney, a um bairro fofo chamado Rhodes, onde conheci a matriarca da família, tia Júlia, e também conheci pessoalmente a Reggie. Logo eles me botaram no carro e embarcamos num passeio rumo às Blue Mountains, na região de Katoomba. Antes de ver as montanhas azuis, uma parada para conhecer mais primos. Agora eu estava num daqueles bairros tranquilíssimos, de uma cidadezinha ínfima, com casas de boneca e jardins abertos, sem cercas. Era a casa do Anthony, onde ele vive com a esposa e os dois filhos. Me receberam com vinhos e quitutes maravilhosos (meudeus, como cozinham!). Um lanche rápido, Regina e eu caímos na estrada e vamos para as Blue Mountains.

Blue Mountains é um parque nacional, com montanhas, trilhas e pontos de obsevação. O que se vê? Um monumento de pedra que os aborígenes chamam de Três Irmãs, e ao fundo um tapete de floresta que se perde no horizonte com as montanhas… tão longínquas que parecem azuis. Um silêncio, uma paz indizível…

Na volta Reggie me sugeriu tirar um dia para voltar a Katoomba e conhecer a cidade, coisa que fiz mais tarde. Katoomba é uma Campos do Jordão australiana, cidadezinha charmosa que parece embalsamada numa verve colonial, o que mais tem são lojas de antiguidades, sebos de livros muito velhos, cafés onde os velhos vão tomar café, adegas de vinhos, e mais lojas de antiguidades. Katoomba é um dos lugares na Austrália onde neva no inverno, e eu não ligaria nem um pouco de me hospedar num daqueles chalés durante alguns meses para escrever um livro e morrer de tédio. Seria um tédio com graça, um tédio bastante charmoso.

Na semana seguinte eu ficaria hospedada na casa da tia Júlia, no subúrbio de Sydney, à beira do mesmo rio que banha a Opera House, e teria a estranha e gostosa sensação de ter casa e uma família nova. Mas isso merece um capítulo à parte.

Próximo episódio: Lavando roupa e cozinhando em Sydney.

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Australionauta, o relato – Parte 5

setembro, 26 - 2010
Quando estava em Queensland fui tentada diversas vezes a embarcar num tour até Maroochydore, onde fica o Australia Zoo, propriedade do caçador de crocodilos. Crocodilo Dundee? Nãão! Estou falando de Steve Irwin! Hoje muito mais famoso e comemorado do que seu compatriota fictício.
Após uma bem sucedida carreira como naturalista e celebridade televisiva, Irwin morreu em 2006, ferido no coração por uma arraia enquanto gravava um documentário na Grande Barreira de Corais. Morreu e virou instantaneamente um mito (ou, devo dizer, um culto?) na Austrália, com direito até a sósias zumbis assombrando as festas de Halloween. Você entra nas lojas e vê boneco do Steve Irwin, material escolar do Steve Irwin, animais de plástico do Steve Irwin, walkie talkie do Steve Irwin, bússola do Steve Irwin, toda uma série de brinquedos do Steve Irwin. Aqui e acolá, às vezes vê-se um pôster grandão, com o bloke segurando um crocodilo e fazendo uma cara de… Steve Irwin.
Valeu, Steve! Infelizmente eu não fui ao Australia Zoo porque seria uma mordidona de crocodilo nas minhas economias de mochileira.
Como vocês sabem a Austrália tem a maior população de crocodilos de água salgada do mundo, bem como uma grande população de tubarões atacando por toda a costa, e pra alimentar todos esses bichões só mesmo com muito surfista.
Durante o inverno austral você pode ir à praia que quiser e mesmo naquelas mais remotas e improváveis poderá ver surfistas aos cardumes. Eu tive a prova de que na Austrália tem muitos amantes do surf – mas digo, amantes MESMO, tarados – quando, ainda em Victoria, passei por Bells Beach (praia de origem de marcas famosas, como Quicksilver e Rip Curl) e num clima que era simplesmente glacial, perfeito pra pingüim e leão marinho, eu – que fiquei à beira do penhasco toda encapotada e tremendo que nem gelatina em cima de trio elétrico – vi um bando de malucos surfar no Mar da Tasmânia, enfrentando aquele vento assassino e as ondas abaixo de zero. Não sou católica, mas acho que deve existir uma Nossa Senhora do Surfe pra proteger aqueles caras.
E só mesmo na Austrália poderia existir uma cidade chamada Surfers’ Paradise!
Já disse que tenho um primo que fabrica pranchas de surf? Procure no Google pelo Boto Lasaitis e você verá. Mas como diz o ditado, casa de churrasqueiro, espeto de brócolis: nunca tive uma prancha de surf. Tive muita vontade de contratar uma escolinha para tomar umas aulas enquanto estava em Surfers Paradise, mas no fim acabou vencendo meu lado baleia branca das águas tropicais morrendo de frio no Pacífico Sul.
Mas eu me prometi que entraria no mar, e promessa é uma coisa que eu faço e nunca me cobro. Deixei minha bela marina em Surfers Paradise e peguei o ônibus para desembarcar horas depois em Byron Bay.
Apesar da homenagem, a cidade não faz nenhum jus a Lord Byron. Como definir Byron Bay, meudeus?
Imagine a cidade praiana mais tranqüila, mais vida boa que você conhece. Imaginou? É um pouco mais tranqüila e vida boa do que isso. Acrescente muita natureza, muito charme e muitas cores. Imagine uma cidade do tamanho ideal para não ter nenhum McDonalds, e onde metade do comércio são lojinhas de roupa indiana. Imagine pessoas tocando violão e guitarra em cada esquina nos finais ensolarados de tarde. Imagine praias desertas. Imagine ver por toda cidade surfistas molhados (e molhadas) carregando pranchas debaixo do braço. Imagine hippies circulando com suas kombis floridas. Imagine ônibus e muros pintados em cores psicodélicas. Imagine o que John Lennon imaginou… Imagine.
É o paraíso, velho!
Me hospedei num hostel que era outra versão daquela música Hotel California; affordable, com piscina, varandonas ao sol, café à vontade e de vez em quando umas panquecas for free no café da manhã. Ali eu preferia que o tempo não passasse.
A praia… a praia principal não é habitada, mas tangencia a cidade e é de fácil acesso. Bastante limpa e bonita. Tomei muita coragem e num dia de sol arrisquei dar um mergulho ao lado dos surfistas. Mas no inverno bate um vento frio e o entardecer é meio gelado. Eu me enrolava toda na canga e na toalha e ficava lendo de frente pro mar.
Explorar as galerias e lojas da cidade era uma delícia! Além de lojas de moda surf e indiana, Byron Bay tem grifes de roupa tribal e alternativa. Tudo bastante caro, é verdade. Passei mal provando as roupas maravilhosas da loja de moda tribal e não levei nada. Pouco depois, numa lojinha de moda neogótica e rockabilly nem com todas as forças pude resistir à tentação de comprar um corset!  Foi o maior luxo que me paguei nessa viagem.
De passagem, fiz amizade com outros turistas que estavam por lá: uma surfista da Nova Caledônia, uma dançarina exótica da Malásia, um australiano da construção civil… E íamos pra balada. É uma obrigação de todos os turistas em Byron Bay conhecer o Cheeky Monkeys, um pub muito divertido, cheio das brincadeiras e promoções. Todas as noites rolavam alguns quitutes de graça e joguinhos cujos prêmios variavam desde jarros de cerveja até estadias em hostel. Tomei bastante cerveja ganhada, o resto eu não lembro.
Outra coisa obrigatória a se fazer em Byron Bay é caminhar até o farol. Subindo o Cape Byron, de repente se chega a uma estrada com uma vista belíssima, de um lado a praia principal de Byron, do outro uma praia deserta, que só não é mais deserta porque tem surfista. Subindo até o farol, no alto de um penhasco, a visão é simplesmente paradisíaca, e lá no mar azul, se você prestar atenção, consegue ver as baleias saltando.
Outro passeio que eu achava obrigatório em Byron Bay é o tour para Ninbin. Ninbin é uma vila hippie que fica a uns 40Km de Byron Bay, você vai num ônibus pintado de arco-íris, parando durante o caminho em lagoas e cachoeiras.
Eu achava que iria chegar em Ninbin e ver uma comunidade hippie de verdade, como nos anos 70, mas quando cheguei lá descobri que Ninbin vive exclusivamente da sua fama de capital australiana da maconha (sim, a maconha é tão ilegal lá quanto aqui), e tudo o que há nas 2 ruas da cidade são lojinhas de roupa indiana e de souvenires que prestam tributo à marijuana. E claro, uma brisa com um cheiro bastante característico. Assim que chegamos em Ninbin nosso guia alertou para os biscoitos de marijuana que são vendidos na cidade: se você comer mais do que meio biscoitinho vai parar em Júpiter.  Só sei que não provei biscoitinho, não comprei souvenir, não viajei na brisa, não contribui com o museu da maconha, a única coisa que gostei mesmo de fazer em Ninbin foi ir a um bistrô e ganhar um café delicioso de uma garota para quem dei uma moeda do Brasil.
Cada um vê o arco-íris como prefere.
E no próximo episódio: SYDNEY!
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Australionauta, o relato – Parte 4

setembro, 24 - 2010

Depois de passar uma semana na Austrália central, tomei o avião para Brisbane.

Voando Qantas, você descobre o quanto a compania é poderosa na Austrália: opera a maior parte dos vôos comerciais e em aeroportos onde outras empresas não operam, dá nome e patrocina a seleção oficial de rugby da Austrália (Qantas Wallabies) e tem até um canal de televisão próprio para transmitir diariamente dentro das aeronaves. Não vou falar do charme das aeromoças, de blazerzinho azul com vestido de estampa aborígene, nem dos vinhos australianos de Barossa Valley oferecidos durante o vôo, mas… ops, já falei.

O aeroporto de Brisbane é uma sacanagem, cobra A$4 o aluguel do carrinho de malas. Eu estava carregadíssima, com duas mochilas cheias, uma pendurada na frente, outra nas costas, e uma mala laranja made in China com um carrinho que eu vinha cansando de remendar, e que foi despachada na esteira já sem as rodinhas. Não pago, não pago, não pago o carrinho do aeroporto, e fui toda atrapalhada arrastando a mala sem rodinhas por aí, até achar uma van que me levasse para a cidade.

Mesmo no inverno o clima de Brisbane é bom, pela primeira vez eu não tremia de frio. Passeei muito pelo centro da cidade, lotada de shoppings e boulevares charmosos, galerias antigas e bem conservadas, museus, casinos… Foi de certo modo um turismo de compras: comprei uma mala nova e joguei a laranja sem rodinhas fora, fiz compras no mercado, feira e comprei livros numa livraria especializada em ficção científica, fantasia e literatura policial. Brisbane tem um jeito muito de Brasil, mas é um Brasil utópico, com prédios lindos e bem conservados, parques idem, um rio limpo cortado por pontes surrealistas, ladeado de ciclovias, com parque aquático e praia artificial gratuitos e abertos ao público.

Eu já falei dos restaurantes japoneses da Austrália? Devido à grande imigração asiática, são muitos os restaurantes japoneses, chineses, tailandeses, vietnamitas, coreanos, indiandos… Mas os japoneses, em particular, já absorveram o conceito de fast food há muito tempo. Atenção temakerias brasileiras, vocês não estão com nada! Na Austrália os restaurantes japas têm uma vitrine semelhante à das sorveterias, onde variados rolinhos de sushi são expostos de acordo com os sabores. Os rolinhos têm umas duas ou três polegadas cada, metade do tamanho da folha de alga verde, é fácil para o sushiman fazer e fácil para o cliente escolher e comer, segurando no guardanapo mesmo, sem precisar de palitinhos e toda aquela parafernália que só torna mais caro. E o melhor: os rolinhos custam em média de A$2 a A$2.50, o que dá uns quatro reais cada. Dois rolinhos são o bastante para matar a vontade do amante de sushi e paga-se menos do que cobra a mais barata das nossas temakerias, consequentemente, o restaurante fica muito mais acessível e popular, e nos horários de almoço eu cheguei a ver filas que dobravam a esquina.

Passei cinco dias em Brisbane e depois peguei o ônibus para a Gold Coast.

O ônibus. Na Austrália a maior compania é a Greyhound Pioneer, que opera no país inteiro e com monopólio em algumas regiões. Tem opções de passagem que nunca vi no Brasil. Você pode comprar ticket por quilometragem, por período, ou por trechos, e o melhor de tudo: hop on/hop off! Significa que você pode ir parando e ficando nas cidades até completar todo o trajeto do trecho que você escolheu. Comprei um desses tickets para ir de Brisbane até Melbourne pagando A$216, preço salgadinho, mas para os padrões australianos foi uma pechincha.

A cidade must see da Gold Coast é obviamente Surfers Paradise. Já tinham me avisado: Surfers é balada, balada e balada! Você sabe que está chegando quando vê o céu povoado de arranha-céus chiquérrimos, e nas ruas o charme de Riviera Francesa tropical, com grifes caras, shoppings (coisa que mais tem na Austrália) e boulevares a beira mar.

Meu hostel ficava a quinze minutos de carro do centro, em Mariner’s Cove. Esse foi o hostel nota 10 da viagem, no segundo andar de uma marina, de frente para o mar e os hiates, com paredes de vidro e varandas imensas, tudo muito tropical e arejado. A paisagem compensava a distância e o isolamento. Eu ia para o centro na van gratuita do hostel, mas podia passear a qualquer hora por entre os barcos, podia ir a pé ao Sea World. Ao meu lado, hotéis de altíssimo padrão: Palazzo Versace, Sheraton Plaza, e o shopping Mariner’s Cove, cheio das lojas de grife, e eu feliz da vida no hotelzinho califórnia de 25 dólares.

A Gold Coast é uma espécie de Orlando australiana, lotada de parques temáticos. Ficando uma semana, fechei pacote para visitar 3 parques: Wet’n Wild, Sea World e Movie World. O Wet’n Wild foi a decepção: fui num dia chuvoso e frio, o parque estava vazio, metade das atrações não funcionavam, sozinha eu não podia ir nos toboáguas de bóias duplas e múltiplas (a desvantagem de viajar sozinha) e passei a maior parte do tempo morgando na piscininha quente. No dia seguinte, com sol, Movie World – o parque da Warner Bros. Foi o mais divertido. Uma espécie de conto de fadas hollywoodiano que misturava numa mesma esquina Batman, Super Man, Shrek, Scooby Doo, Looney Tunes, Marilyn Monroe, Harry Potter, e olhe que até souvenir do Crepúsculo vendia. O dia inteira tinha showzinho na praça principal, e as montanhas russas eram maravilhosas, com exceção da “Máquina Letal”, que era realmente uma máquina letal.

E que mais posso dizer? O desfile de personagens é a atração obrigatória, e eu achei interessante. Eu, que gosto de fantasias. Achei incrível a força de vontade do sujeito que tinha que se vestir de Batman e manter a cara de sério diante daquelas multidões de japoneses querendo tirar foto.

Por último o Sea World, também é um parque interessante, onde tudo se paga à parte. Quer tocar nos golfinhos? Paga à parte. Quer dar comida para os tubarões? Paga à parte. Quer andar de pedalinho? Pague no balcão. Mas para quem gosta de olhar bichos e de montanha russa, era bem interessante. Gostei particularmente de ter contato com as arraias, que eram de graça. As arraias nadam na beira do tanque e você pode acariciar as asinhas, acho até que elas gostam. Os tubarões são lindos, e os ursos polares são incríveis, uns bichões de 2 toneladas brincalhões feito cachorrinhos. Já a parte das crianças era patrocinada pela Vila Sésamo.

Entre o Sea World e o meu hostel tinha uma loja de frutos do mar que era também um fantástico (e concorrido) restaurante de fish and chips. Eu que sou uma peixólatra me acabei, e tive a insana ideia de comprar uma dúzia de ostras para o meu jantar. E assim, no hostel, experimentei pela primeira vez as tais das ostras, que comida mais sem graça! Fiz um minguado sashimi de salmão e fiquei com fome o resto da noite.

Mas em Surfers Paradise evoluí ainda mais no conhecimento da culinária japonesa-australiana. Fui a um restaurante japonês escondidinho nas galerias da cidade, daqueles onde os pratinhos passeiam de esteira hipnotizando os clientes, e pedi um sushi muito prático: vinha numa tigela, todo o arroz na parte de baixo e os pedaços de peixe todos na parte de cima. Menos trabalho, mais barato e mais gostoso também. Restaurantes japoneses do Brasil, aprendam!

Não fui nas baladas, mas freqüentei o pub da minha tranqüila marina, onde eu tinha acesso grátis à internet a partir do McDonalds. Adorava acordar e ir tomar meu café da manhã no McDonalds de Mariners Cove, onde pedia um bom café espresso, um muffin, e checava meus e-mails enquanto assistia os ricos de férias numa espécie de Revista Caras ao vivo.

Meu único lamento foi não poder ter viajado para o norte de Queensland, não ter visto Sunshine Coast, Cairns, Airlie Beach, a Grande Barreira de Corais e o Cape Tribulation.  Mas gostei do que vi, e Surfers Paradise vai me deixar saudades.

E no próximo episódio: Surfistas, hippies & lojinhas indianas, viva BYRON BAY e a marijuana!

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Australionauta, o relato – Parte 3

setembro, 24 - 2010
De Coober Peddy a Alice Springs é mais um dia de estrada.  Levanta-se antes do sol nascer, improvisa-se um breakfast ainda no escuro, e hit the road. O nascer do sol nos pega pelo caminho: a primeira pontinha surgindo do horizonte vermelho. Ainda na Austrália do Sul cruzamos a maior cerca do mundo, contra dingos e coelhos.
Mais à frente, já perto de Alice Springs, paramos na Camel Farm, uma fazenda que cria camelos de corrida, e, claro, damos uma voltinha em cima da corcova. Sacoleja…sacoleja… logo entendi por que os beduínos muitas vezes preferem andar ao lado dos camelos do que montados. Quando o camelo corre, então, é uma delícia, você acha que vai sair voando. Na Camel Farm também acariciamos um dingo que vive como cachorro, vimos cangurus, lhamas e emus. A parte mais engraçada foi ver um camelo sair pulando feliz atrás do trator que vinha lhe oferecer um cubo de feno.
No final da tarde chegamos a Alice Springs, e eu desmaiei de cansaço assim que cheguei ao backpacker. Teria pela frente uma semana em Alice Springs.
Alice é um oásis no coração da Austrália, cercada pelas montanhas McDonnel, cortada por um rio intermitente, a maior parte do tempo seco. Não tem nenhum prédio com mais de 3 andares e se bobear é bem menor que meu bairro, mas é a capital aborígene e tem aquele charme meio Crocodilo Dundee.  São muitas as lojas de souvenir e galerias de arte aborígene, e para quem quiser tem até oficina gratuita de didgeridoo. Mas a característica mais marcante é certamente a presença dos aborígenes.
Falemos dos aborígenes.
A história nos ensinou que toda colonização traz consigo uma grande dose de exploração e filhadaputagem, e nesse quesito os colonos australianos foram mestres.  Antes dos brancos chegarem à Austrália, lá viviam várias tribos aborígenes com suas culturas de 40 mil anos – eu disse: quarenta mil anos! – no seu modo de viver, oito vezes mais antigo do que a civilização que conhecemos. Para quem vê o outback, fica evidente que a sobrevivência nesse ambiente não é bolinho. Para sobreviver a ele é preciso aprender. Para encontrar água e comida e saber evitar as inúmeras plantas e animais venenosos, os nativos precisaram desenvolver e perpetuar um vasto conhecimento sobre o deserto, criaram uma cultura muito rica, e uma mitologia que dá a cada monumento, cada animal, planta e pedra uma história própria no Tempo do Sonho. A cultura aborígene tem leis próprias, proibições, punições, rituais, regras e código de conduta. Quando uma pessoa morre, dependendo do quanto ela é querida, o luto pode durar de uma semana a dez anos. Sendo nômades, não criaram uma relação de posse com a terra. Então vieram os brancos, e começaram a demarcar território com suas cercas, e soltar o gado nos campos. E os aborígenes, que não foram avisados, viam as vacas, tão bobas, e iam caçá-las. Os colonos, claro, abriam fogo contra os aborígenes e muitos deles assim foram mortos. Mas essas são histórias da época da colonização, certo? Errado. O absurdo é que até a década de 60 os aborígenes constavam na constituição como “fauna e flora”, e com quem matasse um aborígene não acontecia nada. Faz apenas 50 anos que oficialmente os aborígenes ganharam o status de seres humanos na Austrália.
Imagino que você já tenha ouvido falar da “geração roubada”. Em alguns lugares da Austrália (como Victoria, até onde sei), uma campanha do governo deu início ao roubo de uma geração inteira de crianças aborígenes, que eram tomadas à força de suas famílias e comunidades para serem criadas nas casas dos brancos e ensinadas dentro de uma cultura branca “superior”. O que aconteceu a muitas dessas crianças foi que elas foram privadas do contato com a sua cultura original de quarenta mil anos e também não se integraram por completo dentro da civilização branca. Apenas em 2007 o primeiro ministro da Austrália pediu perdão oficialmente pela geração roubada – tarde demais, e sem conserto.
Hoje em dia as comunidades aborígenes são protegidas pelo governo, mas quando vêm à nossa civilização os aborígenes enfrentam uma situação de quase-indigência, e é o que há de mais próximo à mendicância que você há de ver na Austrália. Quem não gosta de ter um supermercado perto de casa, comprar chocolate, frango, macarrão instantâneo, sucrilhos? É óbvio que é mais fácil para os aborígenes ir ao supermercado do que viver procurando raízes no deserto. Acontece que o organismo deles, acostumados durante milhares de anos a uma dieta frugal, não está adaptado para ingerir a tremenda quantidade de gordura e açúcar que consumimos. As doenças do nosso tempo: diabetes, hipercolesterolemia, hipertensão, obesidade, alcoolismo, atacam em cheio os aborígenes. Quando um adoece e vai para a cidade se tratar, a família toda o acompanha. O parente fica no hospital e os outros ficam por aí. Com o auxílio do governo, eles retiram dinheiro para sobreviver, ir ao mercado, comprar roupas, etc. Como o banho não é um costume nas comunidades aborígenes (onde a água é escassa), eles cheiram mal, e os hostels não aceitam hospedá-los. Então ficam vagando pelas esquinas, pelo leito do rio seco, dormem onde encontram um colchão de gramado verde. Nômades, ficam andando em círculos pela cidade como andam no deserto. E é assim que vemos aborígenes o tempo todo circulando por Alice Springs. Muito tímidos, não estão habituados a olhar nos olhos. E eu que também sou tímida, nem me aproximei.
Ainda em Melbourne havia contratado o “The Rock Tour” – um tour de 3 dias rumo ao Kings Canyon e ao Uluru Kata-Tjuta. Estava na hora de conhecer a pedrona.
20 turistas e um guia que se intitulava “mãe, pai, médico, baby sitter e enfermeira” do grupo durante 3 dias e 2 noites. Partimos para o oeste, primeira parada: Kings Canyon. Numa Austrália tão plana, foi até estranho ver montanhas tão altas e um canyon tão profundo. De início, uma boa escalada morro acima, agüentando o sol e – o pior – as moscas, que tem alguma fixação suicida por engolimento, pois voam direto para a sua boca. Esse foi o único trecho da viagem inteira em que eu realmente passei calor. Anda-se pelo alto do cânion aprendendo sobre as rochas e as plantas típicas – conhecimento aborígene – até chegar ao belíssimo jardim do éden, nas profundezas do cânion.
Na estrada novamente. Ao entardecer, paramos na estrada para recolher galhos secos para a fogueira. Primeira noite de acampamento sob as estrelas, numa região erma, sem outros confortos da civilização além de nossos sacos de dormir. No meio da madrugada eu acordo e, acima de mim, a Via Láctea, mais visível que nunca.
O segundo dia nos trouxe  uma tempestade. Desabaram cataratas sobre o outback. Chegamos ao parque nacional e fomos direto ao Kata Tjuta, ou os Olgas. Na chuva eu molhei a única blusa de moletom que havia levado, e o vento frio me desencorajou totalmente a seguir a excursão na caminhada pelos Olgas. Fiquei debaixo de um toldo, tiritando de frio, olhando as pedras de longe. Dos Olgas (Kata Tjuta) se vê o perfil distante da Ayers Rock (Uluru), e vice-e-versa. Na estrada de novo, fomos na direção do monólito. E ali estava a Ayers Rock, de pertinho, para a alegria de nossas câmeras fotográficas.
No final da tarde fomos para um lugar com mesas de piquenique onde os turistas de luxo pagam duzentos dólares para tomar champanhe vendo a Ayers Rock mudar de cor ao pôr-do-sol. Ali jantamos com o mesmo priviégio, mas sem tomar champanhe nem desembolsar grana. Ao cair da noite, nosso guia, o lendário Skippy, pôs para tocar Down Under no último volume e dirigiu em frenético zigue-zague pelo estacionamento do parque.
Na segunda noite o clima que pairou sobre o outback foi polar. Nosso acampamento, agora perto do parque nacional, tinha vestiário e chuveiros com água quente (minha salvação), mas iríamos dormir sob as estrelas de novo… e quem disse que dormiríamos? A temperatura caiu abaixo de zero e eu tremi a noite toda dentro do saco de dormir, sem conseguir sentir meus pés gelados, tive o sincero medo de ficar com hipotermia. Antes do sol raiar já estávamos de pé e prontos para embarcar. Tomaríamos o breakfast com vista para a pedra, disputando com hordas de turistas por um ângulo de fotografia no instante em que o sol raiou. Tomado o café da manhã, fomos caminhar ao redor da Ayers Rock, sob o seu vulto, ao sopé da pedra.
Imensa, uma pedra só, enterrada no solo na vertical. A Ayers Rock é como a ponta de um iceberg, sendo que os geólogos ainda não sabem exatamente qual o calibre subterrâneo da pedrinha. Mas é bonita, sim, com contornos graciosos, e um lindo jardim nativo em volta. A coloração da pedra se deve ao alto teor de ferro. A região esteve submersa por mar duas vezes, e a mistura de sal, ferro, sol e vento resulta na ferrugem. A pedra não está simplesmente erodindo, ela está enferrujando. Caminhando em torno do Uluru, nosso guia nos fala sobre cada trecho. O que os aborígenes faziam aqui e ali, onde era a creche, onde era a cozinha… Muitos trechos não podem ser fotografados, são sagrados para os aborígenes. Há lugares de um sagrado masculino que não podiam ser vistos pelas mulheres, há lugares de um sagrado feminino que não podiam ser vistos pelos homens. Claro que os turistas vêem de tudo e, a despeito da proibição, fotografam tudo. Tirei várias fotos das partes liberadas, mas por alguma maldição aborígene cometi um erro fatal na hora de salvar os arquivos, formatei o cartão e perdi quase tudas as fotos tiradas em Alice Springs e na Ayers Rock. Não me sobrou uma foto sequer do Kings Canyon, e quando me dei conta da cagada passei longos dias tentando me perdoar. Whatever…
Pode subir na Ayers Rock? Sim, mas é bastante desaconselhável. O Uluru é muito sagrado para os aborígenes, eles não podem proibir os turistas, mas pedem por favor para não subir. A escalada é péssima, não tem proteção e é terrivelmente perigosa, 35 turistas morreram nos últimos anos tentando escalar. E lá em cima não tem nenhuma atração, não tem McDonalds, não tem banheiro. Quem sobe, acelera o processo de erosão e ajuda a poluir o local (pois, como disse, lá em cima não tem banheiro).
Conta-se que no ano passado uma striper francesa escalou a Ayers Rock e fez um striptease lá no alto, o que foi uma ofensa terrível para os aborígenes. Quando desceu, foi deportada de imediato.
Nos despedimos da Ayers Rock, e à noite, de volta a Alice Springs, fomos ao pub encher a cara.
E no próximo episódio: QUEENSLAND – The Sunshine State
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Australionauta, o relato – Parte 2

setembro, 23 - 2010
Jet lag, você já teve?
É uma sensação gostosa. O relógio marca seis da manhã mas todas as células do seu corpo dizem que são 4 da tarde, você passa a noite em claro e tem vontade de comer lasanha no café da manhã.
A despeito de um fuso horário com 13 horas de diferença, por increça que parível eu não tive jet lag. Já no Brasil andava totalmente invertida, dormindo às 8 da manhã e acordando às 5 da tarde, quando fui para a Austrália entrei no fuso horário dos bons cristãos, acordando e dormindo cedinho.
Por falar em cristãos, li em algumas fontes que a Austrália é o país com a maior porcentagem de ateus na população e, na minha opinião, levando em conta a cultura, a educação e o nível de vida, não é de estranhar. Na Austrália são  poucas as Igrejas protestantes, dividindo o espaço com a igreja católica e a anglicana. Mas tem templos, claro, e arquitetonicamente muito bonitos, tirei várias fotos.
Em Melbourne duas atrações que deixei de comentar no tópico anterior são o Melbourne Aquarium e o Queen Victoria Market. Não sei se vocês sabiam, mas eu gosto muito de aquários, gosto tanto que não me atrevo a comprar um. Para quem curte, o Melbourne Aquarium é de cair o queixo. Logo na entrada você é saudado por dezenas de pingüins imperadores, e nas alas seguintes aprende sobre os fósseis escavados na Austrália (o terreno mais antigo do mundo), a missão australiana na Antártica, e segue para a ala dos aquários com biótopos do mundo inteiro (aquários amazônicos, do malawi, de Sumatra, de ciclídeos, tem até aquário do outback australiano).  O final reserva uma surpresa: uma sala enorme onde quem fica dentro do aquário somos nós, e os peixões, raias, tubarões e tartarugas nadam ao redor e sobre a cabeça dos visitantes, nos túneis. A visão de uma arraia gigante passando sobre sua cabeça é inesquecível!
Para compensar a ausência de uma 25 de Março e de um Mercado Municipal, Melbourne tem o Queen Victoria Market, três pavilhões cobertos com feirinhas onde você acha um pouco de tudo: roupas, souvenirs, cama mesa e banho, cafés, quitandas, vinhos, barraquinhas de legumes e frutas, padarias, docerias, açougues, peixarias, lojinhas que vendem os mais variados petiscos para comer na hora ou levar pra casa. Faltou só o bom pastel de feira com caldo de cana, mas aí já é pedir demais.
E parques! Quantos parques! As cidades australianas são muito verdes, todas com muitos parques, praças e jardins botânicos. Os subúrbios são imensos, povoados com aquelas casinhas fofas do tipo que se vê em filme, com varandinha, jardim e normalmente sem muros ou cercados. Nada de prédios, para construir mais do que dois andares é preciso permissão especial. Por essas e outras, os prédiões só se vê mesmo no centro das grandes cidades. A Austrália é plana, literalmente plana. E apesar do vazio demográfico, o trânsito tem seus momentos de caos.
Uma grande preocupação dos australianos, sobretudo os australianos de Victoria, é a água. Diferentemente do Brasil, a Austrália não tem vastos lençóis freáticos nem aqüíferos generosos. Uma imensa porção do centro-norte do país, englobando praticamente todo o outback, foram cobertas por mar em duas ocasiões de sua história geológica e o terreno é salgado. Acrescente ainda que o padrão de chuvas da Austrália é o menos confiável do mundo e, para colocar a cereja no bolo, os colonos devastaram 99% da mata nativa, fodendo de vez com o ciclo da água. O reservatório de água no subsolo australiano é finito, não se renova, diminui a cada ano. A previsão é que nos próximos 15 anos o estado de Victoria será obrigado a importar água de outras regiões da Austrália (que não estão em situação muito melhor) e/ou passar a dessalinizar a água do mar (um processo caríssimo). O problema da água é generalizado e na Austrália, em todos os banheiros de hostel em que entrei para tomar banho, havia um cartaz pedindo que não passássemos dos 4 minutos no chuveiro (encontrei um francês que me contou que em Melbourne se hospedou em um lugar onde tocava o alarme no hostel inteiro caso o hóspede passasse dos famigerados 4 minutos).
Depois de 15 dias em Melbourne, fechei a mala segui para a Southern Cross Station, uma moderna estação de trens e ônibus com arquitetura arrojada e teto ondulado, para pegar o bus que me levaria numa viagem de um dia inteiro para o oeste, até Adelaide.
Seguindo para o interior de Victoria, andando o dia inteiro, o que se vê são plantações e gado. De vez em quando uma cidadezinha típica do interior australiano, com duas dúzias de casas, totalmente silenciosas e vazias, onde todo movimento que se vê é uma bola de feno atravessando a rua ou, com sorte, um velhinho passeando pela calçada de cadeira motorizada. Cidadezinhas para se morrer de tédio. Em uma dessas cidades anônimas, desci do ônibus e comprei uma porção de fish and chips (uma iguaria na Austrália!) carregados de óleo e curti uma azia o restante da viagem.
Carregada de malas, cheguei à noite em Adelaide para conhecer o pior hostel que pegaria durante a viagem, um tal de Oz Backpacker. Por sorte, durante uma só noite. E eu estava tão cansada (e ainda doente) que nem tive muito tempo de me incomodar com os quartos mofados e bagunçados, os banheiros não exatamente limpos e com as vidraças quebradas que deixavam passar um ventinho gélido, ou o vestiário bissex (detalhe que só descobri quando um sujeito entrou para tomar banho na cabine ao meu lado).  Depois de algumas horas desmaiada na cama do Oz, levantei ainda de madrugada para tomar a van que me levaria a Alice Springs. E lá fui eu rumo ao outback, sem sequer ter conhecido a Adelaide em que pisei.
Meu tour para Alice Springs tinha 7 pessoas, contando o motorista, fantasiado de safári australiano dos pés à cabeça.  Muito frio na estrada. Amanhecendo o dia, vimos o último braço do mar no sul da Austrália, em Port Augusta. Dali para a frente a paisagem tornava-se progressivamente mais inóspita e seca. Primeira parada: Flinders Ranges. Uma cordilheira rasa na paisagem, tão antiga quanto a Terra, e que no passado abrigara montanhas mais altas que o Everest. Observando-a ao longe, conversamos sobre fósseis. No solo da Austrália tem sido encontrados os fósseis de invertebrados mais antigos, datados de mais de um bilhão de anos atrás.
A estrada do outback é bem pavimentada e corre ao lado da linha do The Ghan, o famoso trem “trans-outbackiano”. De vez em quando, um lugar para parar o carro e fazer pique-nique, ou uma roadhouse com posto de gasolina. O outback não é necessariamente distante da civilização. Paramos para almoçar num desses descansos de estrada, frente a um lago de sal, que nunca se viu tão cheio, e cuja água – disse o guia – era ainda mais salgada que a do Mar Morto. Algumas regiões do outback estão abaixo do nível do mar, e duas vezes no passado o coração da Austrália se encheu de água.
O inverno no outback é frio pra valer. Vento gelado, noites congelantes. Mas avisaram-me que eu não ia querer conhecê-lo no verão, quando se torna uma fornalha cheia de moscas.
Dá pra ver canguru? De dia, não. Os cangurus e wallabies (como quase todos os outros animais do deserto) têm hábitos noturnos, e geralmente são mais visíveis nas estradas depois do pôr-do-sol. Muitos são atropelados. Animais que se vê com freqüência são os emus. De vez em quando, camelos.
No final da tarde a excursão chegou a Coober Peddy, a cidade das minas de opala. Coober Peddy foi invadida por mineiros quando se descobriu lá a maior jazida de opalas do mundo – e opalas de uma qualidade única, nunca dantes vista. Muita gente enriqueceu, e na própria cidade desenvolveram-se tecnologias novas de escavação do solo. As máquinas foram abrindo galerias no chão e os mineiros, muito convenientemente, lá foram se instalando.  Hoje em dia a maioria das casas, hotéis, lojas e até uma igreja ficam debaixo do chão, nas minas desativadas.
Quando se chega em Coober Peddy, percebe-se que ficar debaixo da terra é uma delícia: lá fora um frio de trincar os dentes, e dentro da terra, quentinho. No verão, o inferno lá fora, e debaixo do solo, fresquinho. Fomos instalados em um hostel com várias galerias debaixo do solo, e saímos à noite para conhecer a cidade. Depois da janta, uma passada no orfanato de cangurus.
O orfanato de cangurus é tocado por um casal, donos de uma loja de arte aborígene, que dedicam grande parte de seu tempo e dinheiro para acolher os joeys (filhotes de cangurus) resgatados das bolsas das fêmeas atropeladas na estrada. Enquanto os pais adotivos contavam sobre o trabalho que dá criar cangurus, demos amendoins para dois canguruzinhos jovens, já praticamente adolescentes, e depois pegamos no colo o caçula, que ainda passa a maior tempo numa bolsa postiça.
Findo o passeio, voltamos tiritando de frio para nossa confortável cama dentro da terra, quentinha, sem janelas e sem estrelas.
E no próximo episódio: AYERS ROCK!