Posts Tagged ‘ciência’

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A primeira foto do bebê

janeiro, 7 - 2010

“Aspectos afetivos e cognitivos da homofobia no contexto brasileiro – Um estudo psicofisiológico.”

Cristina Lasaitis, 2009 – Mestrado

Aí está a síntese dos meus esforços de 2009: três anos de experimentos, dois artigos publicados, centenas de voluntários analisados, muitos contos que não escrevi, as unhas roídas e uns 10 quilos de café extra-forte. O parto foi difícil e o rebento é pesado e lindo! Tem 182 folhas, capa bordô e letrinhas prateadas.

Minha sensação agora, passado tudo é… NÃO QUERO VER TESE POR UM BOM TEMPO!

Quer dizer, até o doutorado, que talvez comece este ano.

Eu diria que a pós-graduação é um delicioso (e insano) meio de vida – não um fim, um meio mesmo. Um estilo de vida que enlouquece mas que pode lhe dar bastante liberdade de movimento e de criação, o que é bom quando é exatamente isso que você deseja.

Minha tese deverá estar disponível no banco de teses da CAPES dentro de dois anos. Demora tudo isso porque os resultados do estudo ainda tem que ser publicados.

Agradeço a todas as pessoas que me ajudaram nessa empreitada, não seria possível sem a mãozinha de muita gente que acreditou, investiu e participou desse trabalho, que teve uma importância imensurável na minha vida.

E vamos pra próxima!

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Science Fiction in action

setembro, 11 - 2009

Momento digestivo do dia. Já comeu hoje?

Vi no blog do Warren Ellis, mas deu na Discovery:

Um raro parasita que se abriga dentro do peixe hospedeiro antes de comer sua língua e substituí-la por ele mesmo foi encontrado na costa de Jersey.

Olha que meigo o bichinho:

bicho

Na dúvida, coma de boca fechada.

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A vida, em tese

junho, 9 - 2009

Não estou conseguindo progressos com a minha tese. Organizo o roteiro, sento para escrever, mas não saio do lugar. É preciso um esforço sobre-humano para conseguir um pouco de concentração; o problema é que sou só humana, demasiadamente humana.
Quem já passou pela TPM (tensão pré-mestrado) diz que esse bloqueio é normal.

Eu não quero admitir que estou em crise (ou não quero admitir minha incapacidade de lidar com ela). Às vezes, nalguns momentos, uma parte de mim encara outra parte de mim e xinga: “sua indisciplinada!” Não é possível uma pessoa ser tão selvagem a ponto de não conseguir se domesticar.

Mas são outros fantasmas que me dominam: ansiedade. Muita ansiedade.

Quando comecei esse projeto de mestrado ele me parecia a coisa mais apetitosa do universo. Agora mal consigo olhar pra ele. Não sei explicar, cansa.
O que aconteceu? Por que esse desânimo agora, tão perto da linha de chegada?

Eu acho que tenho a resposta. Mas sinto que para conseguir renovar o fôlego e pegar no tranco vou ter que repassar algumas das razões pelas quais cheguei até aqui. Me acompanha?

Rebobinando a fita, voltemos ao x da questão:

Afinal, por que uma pessoa resolve se tornar cientista?
Alguns dirão: porque gosto de ciência, porque quero descobrir a cura do câncer, porque sonho em ganhar o prêmio Nobel, porque tenho uma quedinha por aventais brancos e tubos de ensaio… As razões são as mais diversas.

Minha resposta é que muito cedo percebi que só uma formação científica me daria recursos para saciar essa curiosidade infinita que não sei de onde vem. Entender como funciona o universo é pra mim uma necessidade básica. Formular perguntas e não se contentar com o silêncio: aventurar-se na busca pelas respostas. Ir ao encontro das evidências por seus próprios meios. Tecer conclusões através de uma análise lógica. Ter massa crítica para se libertar de pressupostos, preconceitos, superstições, opiniões alheias e distorções midiáticas.

As razões que as pessoas encontram para se tornarem cientistas são formidáveis! As teorias são as entidades mais elegantes do mundo conceitual. Em teoria, tudo é lindo. Teoricamente as utopias existem, as terapias funcionam, os erros são descartados e a profissão de cientista é puro glamour.

Agora, na prática…

Melhor nem falar da prática.

Pensando bem, vou falar sim. A prática não é nada elegante. É onde a biologia fede, a física dá choque e a química explode. É onde o cientista se descabela, ganha olheiras e fica com aquele visual que todo mundo acha super descolado.

Na prática o pesquisador rebola para conseguir incentivo financeiro para a pesquisa. Rebola para administrar um laboratório equipado com aparelhos caros e material importado, à deriva no câmbio nem sempre favorável de um país em desenvolvimento. Rebola para conseguir pessoal qualificado, alunos interessados e bolsa pesquisa para todos eles. Rebola para conduzir os experimentos reproduzindo os níveis de qualidade dos laboratórios internacionais. Reza para conseguir dados inéditos. Rebola para escrever artigos num inglês impecável, não sendo essa a sua língua nativa. Reza para uma boa revista aceitar publicar seu trabalho e para que nenhum editor torça o nariz ao olhar o endereço (pois eles sabem que os países latinoamericanos praticamente não investem em pesquisa, os laboratórios estão sucateados e por isso mesmo acham que os trabalhos que produzem não devem ser confiáveis – além de serem escritos nesse inglês xinfrim). E o pior de tudo: o pesquisador brasileiro rebola para conseguir se sustentar, não tem aposentadoria, acesso a seguridade social ou sequer plano de saúde. Pode ter sua bolsa pesquisa simplesmente não renovada pelas entidades de fomento. Pode ter seu trabalho simplesmente ignorado pelas boas revistas da área. Na prática, é uma profissão de muita fé, rebolado, e não tem nenhum glamour.
Não é à toa que a pesquisa e a docência estejam tão ligadas no Brasil. O pesquisador não tem outra opção senão virar professor nas universidades, e dar aulas ao mesmo tempo em que faz pesquisa e orienta alunos. È óbvio que às vezes ele não consegue fazer direito nenhuma dessas coisas.

Esse não é, decididamente, um futuro com o qual eu sonharia.

Depois de dois anos em que estive trabalhando sobre uma bancada, fazendo minha iniciação científica em biologia molecular, quase nada sobrou daquele ideal encantado de me aventurar pelos mecanismos do universo e buscar minhas próprias respostas. A vida ficou subitamente reduzida a três proteínas, uma hipótese e um protocolo experimental. E muito tédio também, me dedicando a um projeto que, do fundo do coração, nem era meu, nem tinha qualquer sentido especial para mim.

Conheci outros jovens pesquisadores nessa mesma condição: vítimas de um trabalho desejado que aos poucos vira um martírio. E muito me assustei quando descobri, nessa minha crise laboratorial-existencial, que Newton estava certo: a inércia é implacável!
Os alunos precisam fazer um estágio, então entram em um laboratório, conhecem a linha de pesquisa, aceitam um projeto que é só um anexo do projetão do orientador, ganham uma bolsa que às vezes não chega a um salário mínimo (no caso da iniciação científica) e passam um tempo trabalhando sobre aquele minúsculo assunto que dificilmente o levará a uma descoberta, que mais dificilmente ainda terá uma aplicação a curto-prazo. Aos poucos vão morrendo as ambições de infância, aquela paixão pela ciência que agora parece tão pueril. O universo infinito perde atenção para a proteína. O sonho vasto perde espaço para a nota de rodapé. O cientista morreu e no lugar ficou só a máquina de publicar artigos. Há pessoas que caem nessa teia e jamais conseguem se livrar. E é medonho quando você vira um autômato, pois nem se questiona quando seu grande sonho perdeu totalmente o sentido.

Agora me responda: quanto tempo da sua vida você está disposto a vender por algo que não lhe dá sentido?

Eu me fiz essa pergunta quando me formei, depois de ter passado dois anos muito estressantes num laboratório. Tirei um tempo pra repensar meus planos. Foi quando fiz minha viagem pela América do Sul, que foi também uma viagem de “autoconversa”. Fui andar no meio das ruínas para perceber que neste mundo eu também estou só de passagem. Viajar é uma experiência muito enriquecedora, sobretudo quando você aproveita para viajar também internamente. Parece que consegui trazer, junto com os souvenires, um fôlego novo, novas resoluções para pôr em prática na vida.
Não por coincidência, foi nesse ano em que a literatura começou “a funcionar” para mim, e eu comecei a levá-la mais a sério.

Quando resolvi que estava na hora de fazer um mestrado, desenterrei do baú aquele antigo ideal: quero buscar respostas para as coisas que me assombram!
Decidi que só valeria a pena se me lançasse numa pesquisa que me dava ganas, que me desafiasse! Um assunto nada impessoal. Uma aventura toda minha.

Fui para um departamento que não tinha nada que ver com o que fazia antes – o de Psicobiologia. Fui adotada por professores maravilhosos, que me deram liberdade para exercitar esse meu modus operandi autodidata (e caótico).
Minha escolha foi estudar a dimensão emocional da homofobia. Eu queria isso. A homofobia é dessas coisas que me deixam angustiada perguntando por que as pessoas tornam o mundo tão complicado umas às outras. Queria trabalhar em algo que pudesse ser retribuído à sociedade em curto-prazo. Mas muito mais do que isso; foi também um modo de me habituar a lidar com um tema espinhoso com naturalidade. Com os rótulos de “tabu” e “polêmica”, a homossexualidade e seus assuntos relacionados raramente são abordados pelos pesquisadores das ciências básicas (ou com o jeito de fazer pesquisa dos cientistas básicos). Considerando que se eu não o fizesse, em meu lugar ninguém faria.
Desta vez, não poderia me queixar de tédio. Escrevi meu projeto em frenesi, devorei os artigos científicos da área. Consegui uma bolsa. Ao longo de dois anos conduzi a pesquisa com as dificuldades e tropeços inerentes ao meu pára-quedismo autodidata.

E a covardia vem me pegar justamente agora, quando olho aquela montanha de dados implorando para serem organizados em tese. Eu tento pensar num modo de organizar tudo num raciocínio lógico e minha entropia mental vai ao máximo. Também aconteceu, mais de uma vez, de estar escrevendo a introdução da tese e começar a entrar num transe de indignação e revolta (o lado pessoal reagindo) que me faz suspender o trabalho por mais um tempo.

Mas que outra razão nos atiça senão um belo desafio? Decifrar esfinges. Enfrentar fantasmas…

Sei de uma coisa: dá bastante trabalho procurar as respostas para as perguntas que você fez.

Vale a pena?  Imensamente.

Mas a gente precisa se convencer disso e lembrar, de tempos em tempos, a que veio.

Agora sim, acho que consigo voltar para a minha tese.

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Publicações científicas

março, 26 - 2009

Se há uma semelhança entre escritores e cientistas é que ambos creditam sua competência (e autoestima) profissional àquilo que publicam. São dois mundos governados respectivamente por grandes editoras e revistas de alto impacto, nas quais o direito de publicação é um passaporte para o reconhecimento.

Um pesquisador sem resultados publicados é como um escritor sem livros, experimenta uma sensação de incompletude, de semiprofissionalismo. Por mais que trabalhe, você não é ninguém caso não tenha uma obra para mostrar. O simples fato de publicar na mídia formal já leva a carreira a um outro patamar, é a superação de uma barreira.

Foi assim que me senti quando publiquei o primeiro livro da minha autoria. É assim que me sinto agora como pesquisadora. Apesar da minha atuação acadêmica ter começado antes da carreira de escritora, só agora começam a aparecer os frutos. Não publiquei meu livro por uma grande editora, também não estou publicando meus trabalhos em revistas de alto impacto indexadas no ISI, mas só essa sensação de ser publicada nada paga, é um alívio, um bom começo.

E são muitos motivos para comemorar. A princípio, é bem difícil conseguir publicar os resultados de uma pesquisa de mestrado dentro do prazo curtíssimo do próprio mestrado. E veja só, para quem não tinha nenhum artigo publicado, me vêm logo dois de uma vez: meus primeiros rebentos científicos são gêmeos!

São dois artigos sobre a validação de um instrumento de indução de estados emocionais que uso na minha pesquisa, publicados este mês na Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul e no Jornal Brasileiro de Psiquiatria. Ambos já estão disponíveis (baixáveis em pdf) pela SciELO.

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Lasaitis C, Ribeiro RL, Freire MV, Bueno OFA. Atualização das Normas Brasileiras para o International Affective Picture System (IAPS). Rev Psiquiatr RS. 2008;30(3):230-235

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Lasaitis C, Ribeiro RL, Bueno OFA. Brazilian norms for the International Affective Picture System (IAPS) – comparison of the affective ratings for new stimuli between Brazilian and North-American subjects. J Bras Psiquiatr.2008;57(4):270-275.

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Notícias do país das bananas

fevereiro, 14 - 2009

Verba para ciência sofre redução de 18% em 2009

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, classificou como irresponsável o corte de 18% no orçamento da sua pasta, aprovado pelo Congresso Nacional para 2009, e admitiu que, se a situação não se reverter, “bolsistas terão de ser mandados embora”.

A peça orçamentária foi feita pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS). “O relator demonstrou falta de responsabilidade, de compromisso, com o futuro do Brasil”, afirmou Rezende à Folha ontem.

Rezende diz que o corte no orçamento é irresponsável; caso a situação não seja revertida, bolsistas terão de ser mandados embora.

O corte de R$ 1,1 bilhão representa um valor 10% maior do que toda a receita de 2008 da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a agência estadual de fomento à pesquisa mais rica do país, que sustenta quase toda a ciência paulista.

Apesar de dizer que existem “incertezas” sobre o futuro, o ministro afirma que tentará resolver a questão das bolsas dentro do Executivo. “Acharemos uma saída e isso [a perda do benefício] não vai ocorrer.”

O corte no orçamento recebeu críticas duras da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e da ABC (Academia Brasileira de Ciências). Os presidentes das duas instituições consideram a situação “extremamente grave” e dizem que, se os recursos forem realmente cortados, a política científica nacional ficará “desanimadora”.

Para Jacob Palis Jr, da ABC, esse corte seria como “dar um tiro no pé”. Ele demonstrou seu ponto de vista com o exemplo dos Estados Unidos: “No meio da maior crise que o país já teve, o presidente [Barack Obama] convocou grandes líderes científicos para participarem do governo e se comprometeu com o aumento dos investimentos no setor”, disse. “[Fazer cortes em ciência] é uma política de suicídio. A maneira de sair da crise é ser competitivo”, disse Palis.

Marco Antonio Raupp, da SBPC, concorda que investir em ciência e tecnologia é uma saída para a crise financeira e manifesta preocupação com a redução de recursos. Ele conta que “o Orçamento saiu do Executivo muito bem”. “Mas, no Congresso, de uma forma que a gente não entendeu direito, teve cortes significativos. Tudo isso nos pareceu arbitrário, uma aberração”, disse.

O ministério também foi pego de surpresa. “Tomamos conhecimento da proposta do relator na véspera da votação [em dezembro]”, disse Rezende.

“O governo, e o presidente Lula reafirmou isso, tinha a ideia de chegar ao fim de 2010 com 1,5% do PIB em investimentos de Ciência e Tecnologia. Atualmente, investimos na casa de 1%. Então, o aumento deveria ser de 50%. Esses cortes vão na contramão, evidentemente”, afirmou Palis.

Segundo ele, o prejuízo às bolsas de estudo é “um crime”. Em 2007, o país chegou a produzir 10 mil doutores. E a previsão para 2009 era de produzir 11,5 mil doutores. “Talvez isso não aconteça se esses cortes prevalecerem.”

Além das bolsas, os presidentes temem que os cortes afetem os recém-criados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia –fato que Rezende rebate– e que eles travem o sistema de inovação no País. Esse programa, que cria centros de excelência em pesquisa no país, foi anunciado com pompa e circunstância pelo ministério no fim do ano passado.

Para os dirigentes científicos, o novo orçamento também pode prejudicar a tentativa de manter bons pesquisadores na Amazônia e atrair novos cientistas para a região.

* * *

Engraçado, eu não lembro de ter visto algum corte nos impostos que pago. Alguém aí sentiu que está pagando menos?

Sei que no Brasil a profissão de pesquisador é uma das mais ingratas. A “profissão” não tem regulamentação, a grande maioria dos pesquisadores trabalha sem carteira assinada ou vínculo empregatício, como meros professores visitantes ou adjuntos nas universidades públicas do país. Não há benefícios, 13º, licença maternidade ou aposentadoria. Não raro, a verba sequer é suficiente para manter os gastos de manutenção do laboratório, o “salário” dura enquanto durar a bolsa pesquisa, e a cada ciclo de aproximadamente quatro anos o profissional fica na dependência de uma renovação do auxílio junto às instituições de fomento, que têm poder total para decidir sobre a continuidade do projeto de pesquisa.

Tem dúvida de qual é o sentimento das pessoas que trabalham hoje com pesquisa científica no Brasil? O tamanho da desilusão de profissionais recém-formados que ainda têm expectativas quanto a um mestrado ou doutorado?

Mais do que nunca vê-se a opção de ir trabalhar no exterior como a única saída. O pior é que eu sei que na próxima eleição os candidatos à presidência (alô, Dilma?)  ainda vão fazer discurso denunciando a vergonha da fuga dos cérebros.

Cortar investimento em ciência é vergonhoso para um país emergente que diz ter sérias pretensões de ser alguma coisa na nova ordem mundial. O que há em comum entre as novas potências (inclusive China e Coréia do Sul) é a produção de ciência e tecnologia que depois venderão aos pobres burros que não têm condições de investir e por isso pagam muito mais caro para importar.

Meu sentimento no momento é: excelentíssimo senador Delcídio Amaral, uma banana trangênica pra você!!

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Do the evolution, baby!

fevereiro, 13 - 2009

“I’m ahead, I’m a man
Im the first mammal to wear pants,
I’m at peace with my lust
I can kill cause in God I trust,
It’s evolution, baby!”

                                                 (Pearl Jam)

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Lembro daquele dia, quando eu tinha 6 anos, em que peguei um peixinho no lago e saí correndo feliz da vida para mostrar às pessoas. Disseram que não era bem um peixe, era um girino, filho de algum sapo desnaturado. Mas como? Como assim? Fiquei abismada em saber que uma coisinha tão bonitinha e nadante estava destinada a se tornar um bicho feio melequento. Queria tirar a prova e ninguém me demoveu da ideia: levei o girino pra casa, iria observar o seu desenvolvimento. Coloquei-o num baldinho de água de água limpa e devidamente clorada da torneira, acho que devo ter colocado umas plantinhas arrancadas do jardim para ele se esconder. Tentei alimentá-lo com pedacinhos de pão, sucrilhos, bife… mas ele recusava e eu não sabia direito o que os girinos comiam. Ao fim de dois dias, com muito pesar, tive que comunicar meus pais que ele havia falecido.  Mas a metamorfose, depois vim a saber,  não era de mentira. Que coisa incrível, uma criatura virando outra completamente diferente!

Um dia vieram os lagartos, imensos, de cem toneladas e rugido ensurdecedor. Invadiram os cinemas, as bancas de jornais, as lojas de brinquedos… Vieram em forma de epidemia, não me pouparam: contraí dinomania severa. Desenvolvi um estranho frenesi por qualquer espécie de material relacionado a paleontologia, cheguei a ser mais íntima dos paquicefalossauros do que dos camelos do simba safári. Acreditar em dinossauros era diferente de acreditar em fadas, em papai-noel, em mula-sem-cabeça. Eles existiram! E evidentemente não existiam mais. Quando virava as páginas finais do período cretáceo surgia um sentimento muito parecido com indignação. Uma sensação de perda. Houve aqui criaturas extraordinárias que ninguém jamais saberá como foram na realidade, que cores tinham, como se movimentavam, como se comportavam? Sangue quente ou sangue frio? E os ambientes em que viveram, como se pareciam?

Calculando a perda definitiva de todos esses detalhes que nem um milhão de ossadas poderão reconstituir, comecei a compreender o quanto é dinâmico o ciclo da vida na Terra.  Talvez por essa razão eu tenha abraçado a teoria da evolução sem titubear: ela foi mais um brinquedo no meu berço. Muito lógica, muito óbvia: podia ser doloroso pensar em algumas das suas implicações, mas a ideia geral fazia com que eu me sentisse em casa.

Sei que foi estranho crescer e perceber que algumas pessoas não eram capazes de absorvê-la tão facilmente. Mais estranho ainda perceber que havia gente muito mais crescida metida em guerras ideológicas por causa da mesma. Tive que considerar que há pessoas que mamam na religião como eu mamei na ciência – coisa que veio do berço, da criação, da teimosia, whatever

Nunca me incomodou muito, para dizer a verdade. Uma vez dentro de uma universidade científica, cursando uma faculdade voltada à pesquisa em biológicas, o criacionismo ficou reduzido a uma curiosidade muito, muito distante, trancada do lado de fora da nossa rotina cheia de relatórios. O conceito de evolução não era um simples tijolo, mas uma viga de aço fundamentando toda a biologia que aprendemos.  Lembro de ter assistido a seminários maravilhosos com pesquisadores em busca das origens bioquímicas da primeira célula. Lembro de ter ficado chocada quando meu professor de neurofisiologia, Luís Eugênio Mello, comentou que nos Estados Unidos ainda existem pesquisadores que vão a congressos científicos defendendo o criacionismo.

Pois há um fenômeno pitoresco que acomete os americanos – ele disse. Nos EUA existe um grande número de universidades de fundação religiosa, sobretudo protestante, e contrárias à teoria da evolução. Desse modo, os EUA foram durante muito tempo um solo acadêmico não exatamente estéril, mas difícil para germinar pesquisas evolucionistas. Não é de estranhar que alguns dos principais estudiosos da área sejam da terra natal de Darwin, só para citar Richard Dawkins.

Uma crítica ao modelo evolucionista é que ele tem falhas, há quem diga que Darwin não conseguiu explicar o mundo natural com perfeição. É claro que não. Na época de Darwin a biologia não passava de um rascunho de ciência, não se conhecia praticamente nada sobre os processos estruturais, bioquímicos e biofísicos que constituem a vida. A própria teoria celular surgiu nesse tempo, e ainda nem se sonhava com a genética (só para ter uma ideia, as descobertas de Mendel sobre a hereditariedade só foram publicadas 7 anos depois da Origem das Espécies de Darwin e ficaram no anonimato até que fossem redescobertas em 1900). Isso apenas torna mais meritória a teoria de Darwin: ele não tinha conhecimentos que sustentassem suas ideias, não dispunha de tradição científica nenhuma para se basear, não havia gigantes ofertando-lhe os ombros para que ele enxergasse longe; todas as observações ele fez sozinho enquanto viajava o mundo a bordo do Beagle, e a gestação da teoria não levaria menos que 20 anos.

Imagino qual seria a reação de Darwin perante os projetos genoma que estão desenhando nossa árvore genética rumo à ancestralidade comum; e quando soubesse do mecanismo das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; ou das descobertas arqueológicas do último século, que tem nos aproximado cada vez mais do elo perdido entre o homem e seu parente mais próximo. Essas são notícias que eu adoraria dar. Se hoje pudesse tapear um século e meio, visitaria Charles Darwin com minha maleta repleta de novidades. Falaria dos mecanismos que ele mesmo ignorava, levaria recortes de jornal para mostrar como sua encrenca se perpetua através dos séculos, como sua teoria virou bandeira de militância ateísta, e sobretudo: evidências como o mundo foi forçado a mudar e se curvar à sua descoberta.

Acredito que o embate da evolução com a religião não esteja fundamentado nas origens da vida, mas no seu significado presente, neste antropocentrismo vicioso: NÓS, A HUMANIDADE, os diletos de Deus, a razão do universo, o centro de todas as coisas, de repente sabotados pela nossa própria inteligência a nos provar que a Terra não é plana, também não é o centro do universo, nem sequer do sistema solar;  que as nossas fontes de riqueza são finitas; que somos primos do macaco e aparentados de todos os seres vivos por um ancestral comum; que talvez não estejamos sozinhos no universo, porém continuaremos isolados; que nossa vida pode surgir dentro de uma proveta… e o que virá depois? Uma prova de que não existe Deus? De que não existe vida depois da morte? De que não há paraíso? De que a humanidade é vulnerável no caos? De que daqui milhões de anos as criaturas que habitarão o mundo serão totalmente diferentes do que somos e todo nosso delírio de grandeza estará enterrado sob mil camadas sedimentares virando petróleo?

Mas e se essa for a verdade, por quanto tempo vamos varrê-la para baixo do tapete até admitir que não há outra escolha senão pôr um fim à nossa longa infância?

Se Darwin não tivesse nos legado a teoria da evolução – que viria à tona, mais cedo ou mais tarde – hoje o mundo seria muito diferente (e nada interessante, creio eu). O terremoto, a polêmica, o cisma – dos quais ainda hoje sentimos os ecos – foram libertadores simplesmente porque puseram abaixo o absolutismo dos dogmas. Negar as sagradas escrituras seria negar a divindade dos homens que a escreveram, recusar a nossa natureza divina para abraçar o parentesco com o macaco . É muito compreensível que algumas pessoas resistam à essa ideia.

A boa notícia é que se a humanidade sobreviver, virá a se tornar uma outra coisa um dia. E quem sabe essa pós-humanidade não esteja um pouco mais próxima desse ideal de perfeição tão humano que ousamos chamar de divino?

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Acharam Copérnico!

novembro, 24 - 2008

Cientistas descobriram que uma ossada encontrada há 3 anos na catedral de Frombork, na Polônia, é mesmo de Nicolau Copérnico, morto em 1543.

Como? Compararam o DNA extraído dos dentes com o DNA dos pêlos encontrados dentro de um livro que pertenceu ao astrônomo e descobriram que as sequências de ambas amostras são compatíveis. A análise do crânio se encaixa perfeitamente com o retrato, mostrando até o nariz quebrado. 

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Copérnico, como ele deve ter parecido, e o encaixe do crânio encontrado

Copérnico foi quem formulou o modelo heliocêntrico – os planetas giram ao redor do Sol, e não todos os astros ao redor da Terra, segundo o modelo ptolomaico, o único aceito na época. O que pouca gente sabe é: por que Copérnico, que teve a idéia, não sofreu as perseguições da Igreja, como aconteceu com seus sucessores Galileu Galilei, Johannes Kepler e Giordano Bruno?

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“Copérnico Conversa com Deus” – quadro de Jan Matejko

Resposta: Copérnico foi esperto. Primeiro porque tinha uma relação mais estreita com a Igreja: era doutor em direito canônico e foi cônego. Segundo porque sua principal obra, De Revolutionibus Orbium Coelestium, foi publicada no final de sua vida, quando ele estava praticamente no leito de morte. Ninguém poderia implicar com um morto, logo seus sucessores herdaram o modelo heliocêntrico e as confusões com a Contra-Reforma, no caso de Kepler, e a Inquisição, no caso de Galileu e Giordano Bruno.