Posts Tagged ‘ciência’

h1

Do the evolution, baby!

fevereiro, 13 - 2009

“I’m ahead, I’m a man
Im the first mammal to wear pants,
I’m at peace with my lust
I can kill cause in God I trust,
It’s evolution, baby!”

                                                 (Pearl Jam)

darwin

Lembro daquele dia, quando eu tinha 6 anos, em que peguei um peixinho no lago e saí correndo feliz da vida para mostrar às pessoas. Disseram que não era bem um peixe, era um girino, filho de algum sapo desnaturado. Mas como? Como assim? Fiquei abismada em saber que uma coisinha tão bonitinha e nadante estava destinada a se tornar um bicho feio melequento. Queria tirar a prova e ninguém me demoveu da ideia: levei o girino pra casa, iria observar o seu desenvolvimento. Coloquei-o num baldinho de água de água limpa e devidamente clorada da torneira, acho que devo ter colocado umas plantinhas arrancadas do jardim para ele se esconder. Tentei alimentá-lo com pedacinhos de pão, sucrilhos, bife… mas ele recusava e eu não sabia direito o que os girinos comiam. Ao fim de dois dias, com muito pesar, tive que comunicar meus pais que ele havia falecido.  Mas a metamorfose, depois vim a saber,  não era de mentira. Que coisa incrível, uma criatura virando outra completamente diferente!

Um dia vieram os lagartos, imensos, de cem toneladas e rugido ensurdecedor. Invadiram os cinemas, as bancas de jornais, as lojas de brinquedos… Vieram em forma de epidemia, não me pouparam: contraí dinomania severa. Desenvolvi um estranho frenesi por qualquer espécie de material relacionado a paleontologia, cheguei a ser mais íntima dos paquicefalossauros do que dos camelos do simba safári. Acreditar em dinossauros era diferente de acreditar em fadas, em papai-noel, em mula-sem-cabeça. Eles existiram! E evidentemente não existiam mais. Quando virava as páginas finais do período cretáceo surgia um sentimento muito parecido com indignação. Uma sensação de perda. Houve aqui criaturas extraordinárias que ninguém jamais saberá como foram na realidade, que cores tinham, como se movimentavam, como se comportavam? Sangue quente ou sangue frio? E os ambientes em que viveram, como se pareciam?

Calculando a perda definitiva de todos esses detalhes que nem um milhão de ossadas poderão reconstituir, comecei a compreender o quanto é dinâmico o ciclo da vida na Terra.  Talvez por essa razão eu tenha abraçado a teoria da evolução sem titubear: ela foi mais um brinquedo no meu berço. Muito lógica, muito óbvia: podia ser doloroso pensar em algumas das suas implicações, mas a ideia geral fazia com que eu me sentisse em casa.

Sei que foi estranho crescer e perceber que algumas pessoas não eram capazes de absorvê-la tão facilmente. Mais estranho ainda perceber que havia gente muito mais crescida metida em guerras ideológicas por causa da mesma. Tive que considerar que há pessoas que mamam na religião como eu mamei na ciência – coisa que veio do berço, da criação, da teimosia, whatever

Nunca me incomodou muito, para dizer a verdade. Uma vez dentro de uma universidade científica, cursando uma faculdade voltada à pesquisa em biológicas, o criacionismo ficou reduzido a uma curiosidade muito, muito distante, trancada do lado de fora da nossa rotina cheia de relatórios. O conceito de evolução não era um simples tijolo, mas uma viga de aço fundamentando toda a biologia que aprendemos.  Lembro de ter assistido a seminários maravilhosos com pesquisadores em busca das origens bioquímicas da primeira célula. Lembro de ter ficado chocada quando meu professor de neurofisiologia, Luís Eugênio Mello, comentou que nos Estados Unidos ainda existem pesquisadores que vão a congressos científicos defendendo o criacionismo.

Pois há um fenômeno pitoresco que acomete os americanos – ele disse. Nos EUA existe um grande número de universidades de fundação religiosa, sobretudo protestante, e contrárias à teoria da evolução. Desse modo, os EUA foram durante muito tempo um solo acadêmico não exatamente estéril, mas difícil para germinar pesquisas evolucionistas. Não é de estranhar que alguns dos principais estudiosos da área sejam da terra natal de Darwin, só para citar Richard Dawkins.

Uma crítica ao modelo evolucionista é que ele tem falhas, há quem diga que Darwin não conseguiu explicar o mundo natural com perfeição. É claro que não. Na época de Darwin a biologia não passava de um rascunho de ciência, não se conhecia praticamente nada sobre os processos estruturais, bioquímicos e biofísicos que constituem a vida. A própria teoria celular surgiu nesse tempo, e ainda nem se sonhava com a genética (só para ter uma ideia, as descobertas de Mendel sobre a hereditariedade só foram publicadas 7 anos depois da Origem das Espécies de Darwin e ficaram no anonimato até que fossem redescobertas em 1900). Isso apenas torna mais meritória a teoria de Darwin: ele não tinha conhecimentos que sustentassem suas ideias, não dispunha de tradição científica nenhuma para se basear, não havia gigantes ofertando-lhe os ombros para que ele enxergasse longe; todas as observações ele fez sozinho enquanto viajava o mundo a bordo do Beagle, e a gestação da teoria não levaria menos que 20 anos.

Imagino qual seria a reação de Darwin perante os projetos genoma que estão desenhando nossa árvore genética rumo à ancestralidade comum; e quando soubesse do mecanismo das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; ou das descobertas arqueológicas do último século, que tem nos aproximado cada vez mais do elo perdido entre o homem e seu parente mais próximo. Essas são notícias que eu adoraria dar. Se hoje pudesse tapear um século e meio, visitaria Charles Darwin com minha maleta repleta de novidades. Falaria dos mecanismos que ele mesmo ignorava, levaria recortes de jornal para mostrar como sua encrenca se perpetua através dos séculos, como sua teoria virou bandeira de militância ateísta, e sobretudo: evidências como o mundo foi forçado a mudar e se curvar à sua descoberta.

Acredito que o embate da evolução com a religião não esteja fundamentado nas origens da vida, mas no seu significado presente, neste antropocentrismo vicioso: NÓS, A HUMANIDADE, os diletos de Deus, a razão do universo, o centro de todas as coisas, de repente sabotados pela nossa própria inteligência a nos provar que a Terra não é plana, também não é o centro do universo, nem sequer do sistema solar;  que as nossas fontes de riqueza são finitas; que somos primos do macaco e aparentados de todos os seres vivos por um ancestral comum; que talvez não estejamos sozinhos no universo, porém continuaremos isolados; que nossa vida pode surgir dentro de uma proveta… e o que virá depois? Uma prova de que não existe Deus? De que não existe vida depois da morte? De que não há paraíso? De que a humanidade é vulnerável no caos? De que daqui milhões de anos as criaturas que habitarão o mundo serão totalmente diferentes do que somos e todo nosso delírio de grandeza estará enterrado sob mil camadas sedimentares virando petróleo?

Mas e se essa for a verdade, por quanto tempo vamos varrê-la para baixo do tapete até admitir que não há outra escolha senão pôr um fim à nossa longa infância?

Se Darwin não tivesse nos legado a teoria da evolução – que viria à tona, mais cedo ou mais tarde – hoje o mundo seria muito diferente (e nada interessante, creio eu). O terremoto, a polêmica, o cisma – dos quais ainda hoje sentimos os ecos – foram libertadores simplesmente porque puseram abaixo o absolutismo dos dogmas. Negar as sagradas escrituras seria negar a divindade dos homens que a escreveram, recusar a nossa natureza divina para abraçar o parentesco com o macaco . É muito compreensível que algumas pessoas resistam à essa ideia.

A boa notícia é que se a humanidade sobreviver, virá a se tornar uma outra coisa um dia. E quem sabe essa pós-humanidade não esteja um pouco mais próxima desse ideal de perfeição tão humano que ousamos chamar de divino?

h1

Acharam Copérnico!

novembro, 24 - 2008

Cientistas descobriram que uma ossada encontrada há 3 anos na catedral de Frombork, na Polônia, é mesmo de Nicolau Copérnico, morto em 1543.

Como? Compararam o DNA extraído dos dentes com o DNA dos pêlos encontrados dentro de um livro que pertenceu ao astrônomo e descobriram que as sequências de ambas amostras são compatíveis. A análise do crânio se encaixa perfeitamente com o retrato, mostrando até o nariz quebrado. 

copernico2p

Copérnico, como ele deve ter parecido, e o encaixe do crânio encontrado

Copérnico foi quem formulou o modelo heliocêntrico – os planetas giram ao redor do Sol, e não todos os astros ao redor da Terra, segundo o modelo ptolomaico, o único aceito na época. O que pouca gente sabe é: por que Copérnico, que teve a idéia, não sofreu as perseguições da Igreja, como aconteceu com seus sucessores Galileu Galilei, Johannes Kepler e Giordano Bruno?

copernico

“Copérnico Conversa com Deus” – quadro de Jan Matejko

Resposta: Copérnico foi esperto. Primeiro porque tinha uma relação mais estreita com a Igreja: era doutor em direito canônico e foi cônego. Segundo porque sua principal obra, De Revolutionibus Orbium Coelestium, foi publicada no final de sua vida, quando ele estava praticamente no leito de morte. Ninguém poderia implicar com um morto, logo seus sucessores herdaram o modelo heliocêntrico e as confusões com a Contra-Reforma, no caso de Kepler, e a Inquisição, no caso de Galileu e Giordano Bruno.

h1

A Dança das Tribos

novembro, 20 - 2008

tribo

Na pré-história, o caçador que saísse para caçar e voltasse para uma tribo que não fosse a sua, corria um sério risco de se tornar a janta. Muito cedo havia que se aprender uma regra muito básica de sobrevivência: os outros são o perigo, os nossos são o abrigo. Saber diferenciar entre os mesmos e os outros era definitivamente uma questão de vida e morte.
“Não fale com estranhos”. “Não vá muito longe de casa”. “Não aceite nada que um desconhecido lhe oferecer”. – Quantos desses conselhos ouvimos de nossos pais durante a infância? Eles nos alertam sobre o perigo que são os outros.
Hoje os tempos mudaram, mas o ser humano continua sendo o predador – e tecnicamente o único – de outro ser humano.
A evolução nos legou um sistema de reconhecimento que nos alerta contra os potenciais predadores de nossa própria espécie. Um alarme soa quando a criatura que está à nossa frente é diferente daquelas com as quais costumamos conviver: ela é de outra cor, ou se veste de um modo diferente, ou tem trejeitos estranhos, ou fala com sotaque… Por regra, facilmente você identifica um outro no meio de vários mesmos, ainda que as diferenças sejam sutis. O outro incomoda. O cérebro demora a tolerar sua presença e continua sinalizando: atenção, perigo!
A verdade é que você nunca sabe o que o outro pode lhe fazer. E por mais que esteja consciente de que não há nenhum risco, perdura uma sensação visceral, involuntária, talvez até insconsciente de que aquele é um outro.
Mas aí o tempo passa, o outro se torna o seu vizinho, vocês convivem no dia-a-dia, se conhecem, se acostumam… e o alarme se atenua ou simplesmente deixa de tocar. Depois de um tempo de convívio, o outro se torna um mesmo, alguém perfeitamente familiar.

Só na última década os cientistas conseguiram olhar para dentro de um cérebro humano em funcionamento e entender o que faz com que os outros sejam “outros” e os mesmos sejam “mesmos”. Os pivôs são duas pequenas estruturas em forma de amêndoa que se localizam na base do cérebro – as amígdalas. São elas que produzem a sensação de medo e funcionam a qualquer sinal de perigo, inclusive aos que não percebemos conscientemente. Viu-se que as amígdalas se ativam mais intensamente quando uma pessoa observa o rosto de um grupo étnico diferente do seu, e isso não tem nada a ver com o seu posicionamento – se ela é racista ou não – é uma reação automática que acontece a despeito do esforço consciente para inibi-la.
Isso quer dizer que a natureza nos torna automaticamente racistas?
Não exatamente. O racismo parece ser um artefato comportamental de um sistema muito antigo de avaliação social – que deve ter tido uma importância evolutiva no passado, mas que causa problemas hoje em dia. Pensando assim, as mesmas ideologias que deram origem a monstros como o holocausto nazista e o apartheid nasceram de um instinto natural pela preservação da tribo, só que exacerbado de forma patológica e num momento histórico totalmente inadequado. Daí concluímos que o ser humano civilizado é mais vítima de seus instintos do que pode imaginar, responde a eles inconscientemente e muitas vezes usa toda a sua razão e inteligência para tentar justificá-los.

amigdalas

As amígdalas estão representadas como essas coisinhas vermelhas na base do cérebro

Observando a amígdala por ressonância magnética funcional, Elizabeth Phelps e sua equipe descobriu que norte-americanos brancos eram mais responsivos a faces de negros do que negros a faces de brancos. Isso provavelmente acontece porque os negros norte-americanos estão inseridos dentro de uma sociedade e uma cultura majoritariamente comandada por brancos, de modo que estão muito mais familiarizados com os brancos do que os mesmos brancos para com eles.

É interessante notar como a dinâmica das raças no Brasil se desenvolveu e como isso levou o racismo tupiniquim a se diferenciar do norte-americano. A história dos EUA construiu uma verdadeira barreira entre as raças que perdura até os dias de hoje, apesar da relativa igualdade de direitos conquistada. Esse modelo do “não se misture com eles” tem se mostrado o mais eficiente modo de reforçar o preconceito e a discriminação em qualquer cultura do mundo. Já no Brasil, desde os tempos coloniais os negros estavam inseridos dentro da vida dos brancos – eram os criados da casa senhorial, eram as negrinhas da senzala com quem os senhores se deitavam e os filhos bastardos que tinham com elas, eram praticamente toda a força de trabalho braçal das fazendas. Apesar do Brasil ter abolido a escravidão tardiamente e de todas as injustiças que se perpetuaram desde então, aqui negros e brancos partilharam uma relação de proximidade muito grande. Por esse motivo, no Brasil a barreira da pobreza se tornou muito mais sólida do que a das raças – aqui não temos guetos raciais, e sim favelas que nivelam a todos pela miséria.

babies

Importar modelos de compensação de países segregacionistas é um dos maiores erros que o Brasil pode cometer para tentar retificar a história, justamente porque daria importância a uma característica que aprendemos a ignorar (ao menos, melhor do que muitos outros países): a cor da pele.
Há certas coisas que os olhos podem ver mas o coração não deveria sentir.

De acordo com o que a psicologia social já sabe, a única forma em tornar os outros nossos mesmos é o convívio próximo: dar uma oportunidade para que você próprio se familiarize com um estranho, e deixá-lo familiarizar-se com você. A única saída é a convivência. Que negros, brancos, amarelos e vermelhos compartilhem o mesmo espaço, que homens e mulheres tenham os mesmos salários, que homossexuais namorem em público, que portadores de deficiência sejam atendidos em sua cidadania, que direitos e deveres sejam partilhados em comum, sem sufocar aquilo que temos de mais belo: nossa variedade, pois essa é a única maneira de ensinarmos tolerância a nós mesmos e deixarmos de nos encarar como estranhos, mas sim como membros de uma gigantesca tribo.

***

Aos biomédicos desejo um feliz dia do biomédico. A todos, um dia da Consciência Negra cheio de reflexões.

h1

Sob a luz do luar, alguém cantou…

outubro, 24 - 2008

Au clair de la lune

Au clair de la lune, mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Ma chandelle est morte, je n’ai plus de feu.
Ouvre-moi ta porte, pour l’amour de Dieu.

Au clair de la lune, Pierrot répondit :
-Je n’ai pas de plume, je suis dans mon lit.
Va chez la voisine, je crois qu’elle y est
Car dans sa cuisine, on bat le briquet.

Au clair de la lune, l’aimable lubin
Frappe chez la brune, elle répond soudain
-Qui frappe de la sorte ?, il dit à son tour
-Ouvrez votre porte pour le Dieu d’Amour

Au clair de la lune, on n’y voit qu’un peu
On chercha la plume, on chercha du feu
En cherchant d’la sorte je n’sais c’qu’on trouva
Mais je sais qu’la porte sur eux se ferma.

 

Sob a luz do luar

Sob a luz do luar, meu amigo Pierrot,
Empresta-me tua pena para uma carta escrever
Meu candeeiro se apagou, não tenho um lume sequer
Abre-me tua porta, pelo amor de Deus

Sob a luz do luar, Pierrot respondeu:
Eu não tenho uma pena, e já me deitei,
Bate na próxima porta, creio que eles estão,
Pois vejo que na cozinha uma luz se acendeu.

Sob a luz do luar, o amável Lubin
Bate na porta da morena, que de pronto lhe responde:
“Quem bate deste jeito?”, e ele diz em sua vez:
“Abre tua porta para o deus do amor!”

Sob a luz do luar pouco se pode ver.
Procuraram pela pena, procuraram pelo fogo,
E procurando deste modo, não sei se encontrou
Apenas sei que aquela porta atrás deles se fechou.

(tradução livre)

De todas as pessoas que cantaram esta canção folclórica francesa em 8 de Abril de 1860, uma delas estava em frente ao fonautógrafo de Monsieur Scott e acabou deixando para a posteridade a primeira gravação da voz humana, registrada sem que o inventor do aparelho sonhasse em um dia reproduzi-la.
O fonautógrafo, patenteado por Édouard-Léon Scott de Martinville, consistia em um cone aberto que convergia as ondas sonoras sobre uma membrana, cuja vibração movia uma agulha que riscava um rolo de papel esfumaçado acoplado a uma manivela. A única função do aparelho era obter a assinatura visual dos sons, o que poderia ajudar no estudo da acústica. Métodos de reprodução do registro sonoro ainda eram uma possibilidade remota para a tecnologia da época, isso até que Thomas Edison inventasse o fonógrafo (ou gramofone) em 1878.

Fonautógrafo

O fonautógrafo de Monsieur Scott, de 1857.

Neste ano, quase um século e meio depois, os áudio-historiadores do projeto First Sounds recuperaram o primeiro registro de voz e efetivamente “despertaram um morto”. A gravação foi digitalizada, corrigida e limpa do excesso de ruídos. De sua reprodução soou uma voz incompreensível, etérica, mas reconhecivelmente humana, cantando a quinta linha de Au Clair de la Lune. Quando a ouvi pela primeira vez, senti um arrepio lá no fundo da alma.  “Meu Deus, a gravação está péssima!!” – pensei – “Mas há algo mágico nela: há uma voz, há uma melodia, um tom vago, e nada mais”.

Ouça a gravação de Au Clair de la Lune (1860).

A gravação tem data, mas não há o registro de um nome. Não dá para saber se esse cantor anônimo é um homem ou uma mulher, o timbre não foi preservado, tampouco dá para entender a letra, as palavras se dissolveram numa nuvem de ruído.  Desse cadáver sonoro restaram apenas as notas, o canto fantasmagórico de uma pessoa que nunca vamos saber quem foi, e que provavelmente nunca desconfiou que o mundo inteiro a ouviria cantar, ainda que de relance e a uma distância inimaginável… 148 anos no futuro!

h1

Ficção científica, o universo e tudo mais…

outubro, 5 - 2008

Normalmente, quando as pessoas que convivem comigo descobrem que sou escritora de ficção científica, a reação costuma ser de estranhamento. Não sei bem a razão, talvez porque nunca foi comprovada a existência de vida nerd loira, ou – o que é mais plausível – porque não entendem nada sobre ficção científica.

“Ficção científica? Historinhas de naves alienígenas? Que coisa mais infantil! Mais cafona, fora de moda…!”

Pois eu digo a você que ficção científica é tudo de bom. E é uma pena que as pessoas não conheçam, e por não conhecer, confundam-na com um produto adolescente, irreal, que só agrada a nerds e gente estranha. Isso faz com que a FC permanece intocada como uma ilha de desconhecimento cercada de ignorância por todos os lados. O preconceito contra o gênero foi construído em dois níveis bastante diferentes: o daquelas pessoas que não sabem nada sobre tudo – a população analfabeta funcional – e o daquelas outras que pensam que sabem demais – os acadêmicos e literatos –, detentoras da ignorância culta, míope e com armações de tartaruga.

Pode parecer idiota que alguém dê importância a essas pequenas querelas literárias, mas é em razão do preconceito que muitas editoras simplesmente excluíram o gênero de suas linhas de publicação e muitos escritores fogem do rótulo na tentativa de serem “levados a sério” pelas academias.

E por falar em academias… Atualmente, Doris Lessing é a única autora de FC (entre outros gêneros) a ser laureada com o prêmio Nobel de literatura. Não obstante, a série Shikasta – de ficção científica – é das menos citadas de sua produção literária. Como é praxe, os livros de um recém-ganhador do Nobel costumam ressuscitar nas prateleiras das livrarias. Foi isso que aconteceu com as obras de Lessing, que foram reeditadas e hoje podem ser encontradas com folga nas principais redes livreiras. Você só não vai encontrar Shikasta…

 

E o que é ficção científica, afinal?

É um gênero muito rico, que engloba vários subgêneros, comportando obras tão diferentes entre si que muita gente nem suspeita se tratar de FC. Costumam designa-la também como ficção especulativa, porque sua função é especular sobre realidades diferentes e explorar novos universos de possibilidades. É a ficção do: “como seria se…?”, e sobre essa pergunta, os autores constroem universos inteiros dentro de uma complexidade própria, abordando aspectos científicos, políticos, tecnológicos e culturais; partindo de premissas que nos conduzem a reflexões por horizontes além dos limites do convencional. E é aí que reside o grande valor da ficção científica: ela exercita a criatividade, a imaginação, o raciocínio, o poder de abstração e a flexibilidade de pensamento. São habilidades exploradas pela literatura como um todo, mas que florescem de forma especial quando a ficção extrapola as fronteiras do cotidiano.

A ficção científica pode ser fatiada em vários subgêneros, que não são absolutos. Muitas obras não podem ser classificadas dentro de uma vertente ou outra, por reunirem características de vários subgêneros. Farei um resumo das principais vanguardas da FC, mas entenda que as fronteiras que separam uma e outra são tênues, algumas fizeram sentido em momentos específicos da literatura, outras são divisões tão virtuais quanto as dos times de futebol.

 

Hard Science Fiction

Cena de 2001 – Uma Odisséia no Espaço

É um dos gêneros mais clássicos da FC, cujo principal representante é o escritor Arthur C. Clarke e sua famosa Odisséia 2001. O grande barato da FC hard é dar embasamento científico para as maravilhas tecnológicas inventadas pelo autor, valorizando a acurácia, a viabilidade técnica, os detalhes, a verossimilhança. Imagine uma nave em órbita, a milhares de quilômetros da Terra, e pense numa forma de fazer com que nela exista gravidade. Esse é um problema clássico para os diretores de Hollywood (tendo em vista que a gravidade zero pode gerar um buraco-negro no orçamento de um filme). No filme Armageddon, a solução foi instalar um “botão de gravidade” na parede da nave; já na Odisséia 2001, a solução de Arthur Clarke foi dar à estação orbital um eixo de rotação mantido por inércia, para que a força centrípeta sirva como gravidade simulada. Nesse quesito, a ficção hard passa muito perto da ciência aplicada, e, como próprio nome diz, é hard – dura, difícil – porque exige que o escritor tenha um bom conhecimento científico.

Além da série Odisséia, outras obras interessantes são Encontro com Rama, A Cidade e as Estrelas e O Fim da Infância; todas essas do vovô Clarke.

 

Soft Science Fiction

Arte de capa de Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein

Contrapondo à ficção hard, que tem foco nas ciências exatas e tecnologia, a ficção soft é centrada no ser humano e na sociedade. Refere-se, de modo geral, às obras de ficção científica com um pé nas ciências humanas, cujo intuito é, através de comparações, tecer críticas sobre os modelos sócio-culturais e político-hierárquicos de nossa realidade. A soft sci-fi floresceu nos anos 60/70, num momento histórico de grandes transformações sociais; época em que o movimento feminista estava nas ruas, nascia o movimento gay, triunfava a luta pela igualdade racial com a derrubada das leis racistas nos EUA, a América Latina sofria com o cabresto das ditaduras militares e o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria.

Os autores que mais se destacaram nesse gênero foram Robert Heinlein (com Um Estranho Numa Terra Estranha) e Ursula K. Le Guin (com A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos).

Em A Mão Esquerda da Escuridão, Le Guin apresenta um planeta onde vive uma espécie humana muito singular pela característica de ser totalmente hermafrodita e andrógina. Não existem sexos nem papéis sexuais pré-estabelecidos, toda e qualquer pessoa pode ser pai e ser mãe. Na viagem através desse mundo, o leitor experimenta a vivência de uma realidade onde a dicotomia mais básica da nossa psique – o masculino/feminino – é rompida. Uma experiência literária e tanto!

 

Distopia

Grandiosidade é a marca registrada dos regimes autoritários

Um gênero inteiro dedicado a tratar de utopias que saíram pela culatra. Ficção ou nem tão ficção assim, as distopias exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. É provável que estejam entre as obras mais conhecidas da ficção científica (raramente assumidas como FC): Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Caçador de Andróides (ou Blade Runner, Philip K. Dick) e The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). No cinema, bons exemplos são os filmes Gattaca, Filhos da Esperança, Aeon Flux, além das adaptações das obras já citadas. A receita da boa distopia é angustiar o leitor situando-o numa atmosfera opressiva, de regras intrincadas, leis injustas, estreita vigilância, desesperança e desilusão. Um dos meus livros preferidos nessa vertente é The Handmaid’s Tale, que remonta a um Estados Unidos alternativo dominado por uma ordem religiosa fundamentalista que instituiu uma estrutura social rígida baseada nos preceitos do Velho Testamento. Para tal, todas as mulheres perdem o status de cidadãs e são apropriadas pelo Estado, grande parte delas se tornam aias, na verdade, ventres-de-aluguel, e são mandadas para as casas dos coronéis do sistema para lhes dar filhos. O detalhe é que após uma guerra química os homens ficaram estéreis, e caso as aias não consigam conceber a curto-prazo, são enviadas para campos de extermínio. Injustamente, The Handmaid’s Tale é uma obra pouco conhecida no Brasil, (onde foi publicada como O Conto da Aia, em 2006, pela Rocco). Na minha opinião, é uma distopia tão potente quanto 1984.

 

Space Opera

Duna, de Frank Herbert, já está na sua terceira adaptação cinematográfica

A faceta mais pulp da FC. Aqui estão as guerras de naves que fazem barulho no espaço, as pistolas de raios-laser, os caçadores de recompensa e salvadores de mocinhas indefesas raptadas por monstros do espaço sideral. O space opera traz a marca das aventuras melodramáticas e românticas, do maniqueísmo – bem versus mal (sendo que o bem sempre vence no final) – gerador de heróis galantes invencíveis e vilões terríveis e feios. São exageros e clichês inumeráveis, mas que fizeram história no cinema e nos folhetins estilo Amazing Stories. Algumas obras que flertam (muito) com o space opera são Star Wars, Battlestar Galactica e Duna (de Frank Herbert). Em Duna, por exemplo, há uma atmosfera messiânica cercando a figura do herói, Paul Atreides, que move uma guerra contra seu arqui-inimigo, o maquiavélico Barão Harkonnen, para vingar a morte de seu pai e reconquistar o poder sobre seu feudo – o planeta Arrakis-Duna. Nada aqui é tão simples ou tão bobo como os clichês do space opera fazem parecer. Herbert teve o mérito de construir um cenário magnífico, com tramas políticas complexas e uma saga muito envolvente e bem narrada, que tornaram Duna o mais venerado épico da ficção científica.

 

Cyberpunk

 

A inconfundível estética cyberpunk

Vida desgraçada com alta tecnologia – essa é a premissa e a promessa do estilo cyberpunk. Tudo começou em 1984 com a publicação de Neuromancer, de William Gibson, um romance tão diferente de tudo que existia até então, que provocou um impacto imediato e profundo na ficção científica. Aqui, o hacker é o herói, o ciberespaço é o campo de batalha, o submundo das ruas é o cenário, o capitalismo selvagem é o pano de fundo, os implantes ciborgues, computadores e aparatos eletrônicos são o tempero.

O cyberpunk é dotado de um apelo estético poderosíssimo, reconhecível a quilômetros de distância. São comuns os cenários noturnos das megalópoles industriais, as roupas escuras de tecidos sintéticos, aparelhagem tecnológica, muitos implantes, sexo, drogas e rock’n’roll, o estilo de vida desconexo e anfetaminado, o palavreado de sarjeta, espiões, mercenários, samurais pós-modernos, figurões da máfia, inteligências artificiais, megacorporações, a coisificação generalizada, o desencantamento da realidade e o sempre presente mundo virtual. Foi com Neuromancer que nasceu a idéia do ciberespaço, uma profecia que se realizou anos mais tarde com o surgimento da internet. Já outro clássico cyber, Snowcrash (Nevasca), de Neal Stephenson, originou a idéia de realidade virtual compartilhada, o que hoje temos com o Second Life.

Se você está pensando em Matrix, acertou. A rede matrix, propriamente dita, surgiu em Neuromancer, que foi o ponto de partida para a trilogia cinematográfica Matrix, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions.

O cyberpunk nasceu como a profecia de um “futuro terrível, porém provável”, ao menos, era o futuro para o qual o mundo parecia estar caminhando nos anos 80. Mas hoje em dia o futuro não é mais como era antigamente. A onda cyber nos atingiu, legou-nos a internet, os celulares e as noites delirantes em companhia dos computadores; e passou… tantas coisas mudaram, tantas ficaram como sempre são. É nesse instante que o filósofo olha para o hacker e pergunta: “e agora? o que vem depois?”, e o hacker responde: “Não vem. O cyber morreu. Viva o pós-cyber!”

 

Steampunk

Amostra de um futuro que jamais houve

Um dia William Gibson (o mesmo autor de Neuromancer) acordou com um bug nas idéias, se reuniu com Bruce Sterling e juntos eles decidiram desenterrar o projeto da máquina diferencial de Charles Babbage (que se tivesse funcionado teria se tornado o primeiro computador da história, isso em… 1822!), puseram-na para funcionar sob forças fictícias e criaram um desvio na história, situando a revolução da informática um século antes que ela realmente acontecesse. O resultado foi The Difference Engine, outro romance que chegou para abalar a FC com estilo.

Imagine você que maravilha o mundo computadorizado batendo cartões em máquinas a vapor, os céus tomados por zeppelins movidos por piloto automático e a Rainha Vitória atravessando os oceanos com os submarinos da Nautilus Rapinante Ltda. Sim, isso mais parece Júlio Verne recauchutado, com engrenagens de ouro e rococós barrocos. O steampunk – punk a vapor – é a tendência que veio explorar o progresso científico que o passado poderia ter vivido e que jamais aconteceu. A premissa sempre é fundamentada em um ponto crítico da história, gerando um desvio para uma revolução tecnológica bem-sucedida.

Nos quadrinhos, o gênero foi muito bem explorado por Alan Moore em A Liga Extraordinária (cuja adaptação cinematográfica deixa a desejar). E mais recentemente, o filme A Bússola de Ouro traz uma linda amostra dos devaneios estéticos do steampunk.

Na verdade, o punk a vapor é um gênero pouco ou nada funcional, mas com um apelo estético fortíssimo, retro-futurista e quase parnasiano. Em outras palavras: “essa engenhoca do vovô não serve pra nada, mas é tão bonitinha, tão legal, tão bacana…!!”

 

História Alternativa

 

 E se…?

E se os nazistas tivessem ganho a segunda guerra mundial? E se Napoleão vencesse a batalha contra a Rússia? Como seria se a colonização holandesa tivesse vingado no Brasil?

Perguntas desse tipo deram origem a um gênero inteiro dentro da ficção especulativa que se dedica a recontar a história, criando realidades alternativas que divergiram da nossa em um ponto crucial do passado.

A obra mais conhecida é O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que responde exatamente à questão: e se o Eixo tivesse vencido a segunda guerra? O romance de Dick apresenta um mundo dominado por duas potências: Alemanha e Japão. Os personagens são pessoas comuns oprimidas pela estrutura social fundamentada nas ideologias racistas que se tornaram parte do zeitgeist dessa nova ordem mundial, onde os negros são escravos e os poucos judeus que ainda existem vivem na iminência do extermínio.

Também é digno de nota o livro Outros Brasis, de Gérson Lódi-Ribeiro, que traz insights de realidades alternativas brasileiras. Por exemplo, se o Quilombo dos Palmares tivesse resistido, teriam os quilombolas criado seu próprio Brasil Palmarino? E ainda, se o Paraguai tivesse ganho a Guerra do Paraguai, teria se tornado a potência sulamericana que de fato prometera ser? E não seria o Brasil somente um paisinho agrícola sob sua esfera de influência? Questões intrigantes, possibilidades infinitas.

 

New Weird

 

Concepção artística de Perdido Street Station

Novo estranho. Novo, muito novo mesmo, tem sido considerado por algumas pessoas o gênero da vez. E como toda avant-garde que se preze tem um manifesto de origem, cito o manifesto new weird, na definição de Jeff VanderMeer:

“New weird é um tipo de ficção urbana de segundo mundo, que subverte as idéias romantizadas de ‘lugar’ encontradas na fantasia tradicional, principalmente pela escolha de modelos complexos e realistas de mundo como ponto de partida para cenários que podem combinar elementos tanto de ficção científica como de fantasia.”

 

Em outras palavras, é uma ficção que acontece em um lugar que pode ser qualquer lugar, e faz uma miscelânea de influências mil, colocando no mesmo balaio elementos que não têm aparentemente nenhuma relação entre si. É um estilo que apela para o bizarro e o estranho, e também tem uma estética própria – muuuuiiito psicodélica! O gênero é tão novo que existe apenas um autor que é rotulado new weird por unanimidade: China Miéville, e sua obra considerada a última bolacha do pacote: Perdido Street Station.

Quem fez uma incursão no gênero foi Alan Moore, com a série de quadrinhos Promethea. Promethea é um arquétipo de heroína que se manifesta sob inspiração em algumas mulheres – e homens também – abrindo os portais de um universo semiótico de faz-de-conta, onde vivem os arquétipos. É uma história se passa em um lugar que poderia ser qualquer lugar no mundo, e bate no liquidificador elementos de ficção científica, policial, noir, fantasia, mitologia e o que mais a imaginação puder comportar…

 

Conclusão

Após um longo período de estiagem, as editoras brasileiras voltaram a se interessar pela ficção científica. Há iniciativas tímidas de reedição de clássicos e algumas publicações inéditas isoladas. É certo que nestes últimos dois anos se publicou mais FC no Brasil do que nas duas últimas décadas. Se você se interessar em conhecer mais, aqui vai uma dica: não procure a prateleira de “ficção científica” nas livrarias, pois as melhores obras do gênero não estão rotuladas como tal. Antes disso, procure pelo nome dos autores indicados, e considere eventualmente procurar livros em sebos.

Tenha em mente que muitas paixões despertaram quando o livro certo caiu nas mãos certas.

h1

Sobre arte & ciência…

setembro, 22 - 2008

“O que a boa ciência procura eliminar, a boa arte busca provocar – mistério, que é letal para uma e vital para a outra.”

John Fowles

h1

Atentado a bomba na Unifesp

agosto, 29 - 2008

Era só essa que me faltava!

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u435524.shtml

Suposta bomba esvazia área próxima à Unifesp na zona sul de São Paulo

Policiais do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais da PM) detonaram na madrugada desta quarta-feira uma suposta bomba deixada em uma das entradas do Instituto de Farmacologia e Biologia Molecular da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), zona sul da cidade.

Ela chamou a polícia após receber duas ligações anônimas de que havia uma bomba no prédio. No local, os membros do Gate encontraram uma caixa de sapato amarrada com fitas e um interruptor dentro de uma sacola azul deixada na parte de fora do edifício.

O objeto foi deixado em um jardim próximo à entrada da rua 3 de Maio, na Vila Clementino. O prédio foi esvaziado e todo o quarteirão da entrada da Unifesp foi interditado.

O prédio foi esvaziado para que a polícia realizasse uma explosão controlada do artefato. Após a operação, ocorrida por volta de 0h20, a equipe do Gate encontrou pedaços de uma bateria e de um relógio despertador.

A polícia informou que o objeto será submetido à análise para determinar se era ou não uma bomba caseira e se o artefato tinha realmente potencial explosivo.

O local foi completamente liberado para os moradores por volta das 1h30 de hoje.

O caso foi registrado no 16º DP (Vila Clementino).

Quem assumiu a autoria da bomba foi uma organização chamada Frente de Libertação Animal (ALF). Segundo eles, foi um “presente” pelos 25 anos do COBEA (Colégio Brasileiro de Experimentação Animal). O grupo publicou uma nota e uma foto do explosivo no site de mídia independente: http://prod.midiaindependente.org/pt/blue//2008/08/427088.shtml .

Agora eu tenho motivos para dizer que literalmente faço pesquisa com emoção! Essa turminha defensora dos camundongos tá me dando uma vontade irresistível de começar a praticar vivissecção em humanos!

h1

O Rap do LHC

agosto, 2 - 2008

Olha só o que os físicos do CERN aprontaram:

Essa turma sabe como deixar uma nerd (e tarada por aceleradores de partículas) exultante. É simplesmente genial!! Não há maneira mais didática de explicar bóson de Higgs e microdimensões! A compositora é Kate McAlpine, uma escritora de ciências de 23 aninhos que trabalha no CERN (Kate, do you want to marry me?!!!), ela disse que escreveu a música em 40 minutos, num percurso de ônibus entre Genebra e o laboratório, é mole?

Agora cante comigo:

LHCb sees where the antimatter’s gone.
ALICE looks at collisions of lead ions
CMS and ATLAS are two of a kind:
They look for whatever new particles they can find.
The LHC accelerates the protons and the lead,
and the things that it discovers will rock you in the head…

h1

A Integração dos Mundos Virtuais

agosto, 1 - 2008

Começou. A palavra é interoperabilidade. A idéia é criar plataformas de teleporte entre mundos virtuais diferentes. A primeira ferramenta do gênero é o Open Grid Public beta, da Linden Lab, que possibilita a interatividade de outros ambientes virtuais com o Second Life. Isso permite ao usuário criar um avatar em um determinado jogo (p. ex. The Sims) e teleportá-lo para outro mundo virtual (Second Life).
Não, nunca usei o Second Life, mas essa notícia me causou uma sensação diferente, é interessante notar algo que você explorou na ficção aos poucos ganhar terreno na realidade. Dois contos publicados no meu livro Fábulas tratam de avatares errantes em mundos virtuais. Uma dessas histórias apresenta o planeta Terra dominado por uma rede integrada, que emerge com a diluição das fronteiras entre as redes, os códigos e os ambientes virtuais. A interoperabilidade e os roteadores de sinal tornam algumas entidades do universo cyber praticamente onipotentes e onipresentes, capazes de intervir nas movimentações financeiras, na programação de robôs, de satélites em órbita, do piloto automático dos veículos, ou até mesmo de controlar o marca-passo no peito de alguém.
Vou me lembrar dessa notícia: a interoperabilidade começou. Talvez signifique que dentro de algumas décadas teremos avatares soltos por aí, vagando livres por mundos virtuais sem fronteiras e horizontes muito além dos habituais códigos de programação.

Interface do Open Grid

h1

A misteriosa sexualidade feminina

junho, 12 - 2008

Recebi uma reportagem do NY Times esta manhã, cortesia da minha amiga Giseli, que, como pesquisadora na área de sexualidade e psicofisiologia – e não apenas como pesquisadora, – eu A-DO-REI!!

Sabe aquelas neuras que passam pela sua cabeça e a levam a perguntar: “Caramba, será que isso só acontece comigo? Sou tão diferente das outras?”. A resposta é: não. Debaixo do véu das normas culturais, parece que não somos tão diferentes assim.

Curti bastante o trabalho da Dra. Chivers. Quem sabe, desmistificando a intrincada sexualidade feminina, não podemos ajudar as mulheres a entenderem a si mesmas e umas às outras?

Depois dessa reportagem me sinto mais segura para dar aquela piscada 😉

Segue um trecho:

“O que excita as mulheres? Não, não é um homem nu”

“Mulheres! Vejam o esplendor da forma nua masculina: esbelta e poderosa, um milagre de músculos esculpidos, caminhando confiante pela areia ou alongando-se na sua frente em sua glória deslumbrante.

Pensando bem, talvez vocês prefiram outra coisa. Assim dizem os cientistas nas fronteiras da pesquisa em torno da eterna questão do que as mulheres acham erótico. A mais recente resposta parece ser: homens nus não ou ao menos não simplesmente homens nus.

“Para as mulheres heterossexuais, olhar para um homem nu caminhando na praia é tão excitante quanto ver uma paisagem”, diz a pesquisadora Meredith Chivers em um novo documentário sobre bissexualidade chamado “Bi the Way”, apresentado no festival de cinema de Nova York NewFest, no dia 6 de junho.
Chivers, pesquisadora do Centro de Vício e Saúde Mental da Universidade de Toronto, diz que tem dados para corroborar sua afirmativa. Recentemente, ela publicou resultados de um estudo no qual ela mostrava vídeos de homens e mulheres nus em várias situações sexuais e não sexuais e media a excitação genital de quem assistia as cenas.

As mulheres heterossexuais não ficavam mais excitadas por homens atléticos nus fazendo ioga ou jogando pedras no oceano do que ficavam com as cenas controle: imagens dos Himalaias cobertos de neve. Quando as mulheres heterossexuais viam um vídeo de uma mulher nua fazendo ginástica, por outro lado, seu fluxo sanguíneo aumentava significativamente.

O que realmente importa para as mulheres, ao menos no ambiente artificial do estudo em que a voluntária assistia a filmes ligada intimamente e a um aparelho chamado photoplethysmograph, não é o gênero do ator, mas seu grau de sensualidade, disse Chivers. Ainda mais do que pessoas nuas fazendo exercícios, elas ficavam excitadas com vídeos de masturbação e mais ainda por vídeos gráficos de casais fazendo amor. Mulheres com mulheres, homens com homens, homens com mulheres: não importava muito para as mulheres, disse Chivers.

“As mulheres parecem fisicamente não diferenciar entre os sexos em suas respostas sexuais, ao menos as mulheres heterossexuais”, disse ela. “Para as mulheres heterossexuais, o gênero não importa. Elas responderam ao nível de atividade”.

O trabalho de Chivers acrescenta a um corpo crescente de evidências científicas que coloca a sexualidade feminina em uma continuidade entre a heterossexualidade e a homossexualidade, em vez de um fenômeno excludente. “Ela está assinalando o que é meio óbvio e ainda assim não explorado: que as mulheres são fluidas em sua sexualidade”, disse uma das diretoras de “Bi the Way”, Josephine Decker, em uma festa após a apresentação do filme em um bar de temática russa.

Mesmo em uma cultura em que muitas vezes ser bissexual passa a ser chique – Britney e Madonna deixam o lugar para Lindsay Lohan e Samantha Ronson (fotografadas se beijando em Cannes, França)- e apesar dos dados da pesquisa mostrarem que os jovens, em particular, estão abertos à experimentação sexual, a bissexualidade ainda tende a ser tratada como novidade, como casualidade excitante, uma fase ou até uma forma de esconder a homossexualidade. A própria Chivers foi autora de um estudo de 2005 usando métodos similares que revelaram que os homens que se diziam bissexuais eram significativamente mais excitados por um único sexo, em geral o masculino.

As mulheres, contudo, são fundamentalmente diferentes, dizem alguns pesquisadores. Uma pesquisadora da Universidade de Utah, Dra. Lisa M. Diamond, publicou um estudo em janeiro na revista “Developmental Psychology” que acompanhava a vida amorosa de 79 mulheres não heterossexuais que se diziam lésbicas ou bissexuais ou nenhuma das opções anteriores. Ao longo de dez anos, as mulheres continuavam a ser atraídas por ambos os sexos, concluiu Diamond.

A resposta das mulheres às imagens dos casais se estende até para outras espécies, concluiu Chivers. Em um experimento de 2004 e novamente no estudo recente, publicado em dezembro de 2007 na revista “Journal of Personality and Social Psychology”, Chivers e seus colegas concluíram que as mulheres eram ligeira mas significativamente excitadas por centenas de chimpanzés bonobo cruzando. Os homens não mostraram a mesma resposta.

E quando Chivers pediu que as mulheres classificassem sua própria excitação diante dos vídeos que assistiam, as mulheres, homo ou heterossexuais, tendiam a dar maior classificação para filmes mostrando mulheres. “As mulheres heterossexuais reagem às mulheres, diferentemente do que se imaginaria”, disse Chivers. “Por que as mulheres são tão excitadas por outras mulheres?” Os homens, homo ou heterossexuais, assim como as lésbicas, foram mais previsivelmente excitados por imagens de seu sexo preferido, disse Chivers.

É difícil saber como entender essa informação. Chivers não faz alegações corajosas a respeito. “Concluir que as mulheres são bissexuais com base em sua resposta sexual seria negar a complexidade e as várias dimensões da sexualidade feminina”, escreveu em seu artigo. Ela admitiu, contudo, que a aparente flexibilidade das mulheres “esteja relacionada a um maior potencial de bissexualidade nas mulheres do que nos homens”.

h1

Reflexões metodológicas na margarina e a razão do silêncio prolongado

junho, 3 - 2008

Era uma vez um artigo científico que foi submetido para uma revista X. Dois meses de coleta, dois meses de análise, um mês de escrita. Uma pesquisa rápida pede uma publicação rápida. Um trabalho legível, frio, claro, linear e impessoal como toda comunicação científica deve ser. Introdução, métodos, resultados, discussão, bibliografia; conteúdo completo, sucinto e auto-explicativo: redondo como uma pérola.

O artigo foi.

O artigo voltou.

Uma carta do revisor da revista X, igualmente clara, legível, linear e impessoal veio parar em minhas mãos, gentilmente descascando o meu trabalho: “Está certo, mas, por que não fazer assim? E por que não fazer assado?”.

“Assim”, “assado”, mas com quantos graus de liberdade? Que coeficiente de certeza? Qual a minha média de esperança? Eu não fazia a mais irrisória idéia do que ele queria me dizer.

No mundo da pesquisa – quem já se enfiou num laboratório bem sabe – isso é rotina. Recusa de artigo e parecer de revisor passam a ficar indolores com o tempo. Se a negativa for inevitável, você tem a possibilidade de afogar suas mágoas nos diagramas cartesianos e nos cálculos do qui-quadrado. Mas, se ainda há uma chance e se você insiste em publicar o seu artigo (do qual dependem sua bolsa, sua reputação, sua carreira e o olhar de inveja do pesquisador da bancada ao lado), você tem a opção de atender a todas as exigências do revisor ou atender a todas as exigências do revisor. Sem questionar.

Pois a ciência é algo democrático.

No final das contas, não era no meu primeiro artigo – e no primeiro embate com um revisor – que eu iria desanimar!

Não!!

Peguei as minhas anotações e empreendi uma jornada pelos famigerados manuais de estatística que encontrei no fundo da prateleira inferior no canto obscuro de uma biblioteca acadêmica (um único empréstimo nos últimos 18 anos, constava no registro!). Depois de passar o olho em algumas fórmulas, como:

 

Resolvi devolver os livros aos ácaros e me regozijar com o advento da tecnologia – viva o século XXI! Resgatei meus dados desenganados, rodei o software estatístico e voilá! Depois de duas semanas amaciando meus dados nos mais aprumados geradores de improbabilidade infinita para tentar descobrir sozinha, numa conjunção cósmico-matemática, numa aplicação aleatória de combinações numéricas, a verdade por trás da misteriosa análise estatística – que todos os manuais diziam ser muito prática e eficiente, mas ninguém numa universidade inteira sabia explicar – eu cheguei ao resultado:

 

Sei que é o resultado certo, pois prova o que eu estava querendo dizer no artigo de um modo simplificado (anti-acadêmico?) e o revisor quer que eu diga numa análise estrambólica with lasers: que o grupo 1 é parecido com o grupo 4, como o 2 é parecido com o 5 e o 3 é parecido com o 6.

 

A distância Euclideana entre o grupo 1 e o 4, e entre o 2 e o 5 é de 1,3; entre o 3 e o 6 é de 1,5; e entre os grupos 4 e 6, de 41,7.

 

E o que isso significa?

 

Eu não sei.