Posts Tagged ‘cyberpunk’

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E você, já leu?

outubro, 5 - 2009

fabulas

Fábulas do Tempo e da Eternidade

Opinião dos leitores:

“Resumidamente: não é só um livro, é uma experiência”.

André Vianco, escritor

 

“Até monstros sagrados de reputação global, como Philip K. Dick e Ray Bradbury – ou monstras, como Ursula K. Le Guin e Marion Zimmer Bradley –, teriam orgulho de poder contar com um ou outro destes contos entre suas primeiras obras”.

Antonio Luiz M.C. Costa, para a revista Carta Capital

 

“O tempo virtual, o tempo universal, o tempo humano do amor e da tragédia, da miséria e da esperança, todos tratados com uma sutileza e contundência como apenas nas grandes histórias de Ficção Científica”.

Renato Azevedo, para o site Aumanack

 

“O melhor adjetivo que descreveria a impressão que tive depois da leitura seria sensacional“.

Chanceller Martok para o site SciFi Tupiniquim

 

“Mais que uma coletânea de contos, Fábulas do Tempo e da Eternidade é um exemplo de que o Brasil tem potencial para publicar escritores de ficção em um nível superior ao de muitos países”.

Cezar Berger Junior, para o site Falando de Fantasia

 

“Se posso dar uma dica de um livro de Ficção para este final de ano, este é o livro. Para os apaixonados pelo poema de ficção. Desprentencioso e apaixonante”.

Alan, para o blog Xeque-Mate

 

“Uma obra ímpar, com histórias que podem ser lidas e relidas uma dezena de vezes e ainda causar o mesmo espanto e maravilhamento da primeira vez”.

Bruno Schlatter, para o blog Rodapé do Horizonte

 

Um ano já se passou, e o Fábulas do Tempo e da Eternidade desfolhou o calendário conquistando os leitores.

Como este é o mês do meu aniversário, vou dar de presente uma promoção:

Livro autografado + postagem para todo o Brasil (carta normal) apenas R$20,00.

Para pedir o seu, e-mail-me: christie36@uol.com.br .

Só no mês de outubro, tá? 🙂

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Tempo Fechado, de Bruce Sterling

novembro, 28 - 2008

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O ano é 2031. A catástrofe climática anunciada em nossos dias abatera-se como uma realidade contundente nessa Terra futura, ambientalmente devastada, superpovoada e varrida por epidemias. Internado em uma clínica ilegal no México, o jovem Alex Unger estava só tentando tratar uma misteriosa doença pulmonar crônica que o torturava desde a infância e que sabia que iria levá-lo à morte em menos de um ano. Sem aviso, ele é arrancado da clínica enquanto inconsciente por sua irmã aventureira Janey, e levado para o interior desértico dos Estados Unidos para conhecer uma turma que mudaria definitivamente o modo com que ele gostaria passar os seus últimos tempos de vida – a Trupe Intempestiva. Um grupo de quinze caçadores de tornados que cruzava as terras inóspitas do sudoeste americano em busca do monstro dos monstros: um tornado F-6 de proporções monumentais, como jamais havia sido registrado antes, mas que as simulações computacionais de Jerry Mulcahey (a grande paixão da vida de Janey) mostravam estar cada vez mais próximo de se formar. E quando o F-6 surgisse, a Trupe Intempestiva estaria lá para registrar o fenômeno climático mais destruidor de todos os tempos, provavelmente à custa das vidas de alguns dos seus integrantes. Mas enquanto o grande tornado não vem, o caquético e doente Alex começa a tomar gosto pelo estilo de vida livre porém duríssimo do grupo. Higiene é uma das coisas mais esquecíveis quando se está num deserto em que não há água sequer para beber. As pessoas vestem roupas de papel reciclado, comem rações distribuídas pelo governo. Gangues circulam pelas estradas, vilarejos sobrevivem a duras penas pelo deserto. As reviravoltas climáticas são rotina: ondas de calor, secas prolongadas, tempestades de areia, furacões, tornados – tempo fechado. Nessa atmosfera revolta, Alex vai se tornando cada vez mais íntimo do grupo até que acaba abraçando ele mesmo o objetivo de perseguir o F-6 como a última coisa mais emocionante que poderia fazer na vida e pelo qual valeria a pena morrer.

Dá pra dizer que em alguns pontos o romance de Sterling lembra muito o filme Twister (roteirizado por Michael Crichton). Ambas histórias se passam em Oklahoma, a zona dos tornados nos EUA, e de maneira muito semelhante os grupos se lançam a uma caçada arriscada ao super-tornado num impulso aventureiro travestido de curiosidade científica. Mas as semelhanças terminam aí, e em comparação ao filme, o livro traz uma aventura mais ambiciosa e inteligente e um cenário distópico muito instigante. Bruce Sterling também tem o mérito da primazia, pois Tempo Fechado (no original, Heavy Weather) foi publicado em 1994, dois anos antes da passagem de Twister pelos cinemas.

A primeira edição de Tempo Fechado, com tradução de Carlos Ângelo, chega este mês às livrarias brasileiras pelo selo de ficção científica Pulsar, da editora Devir. Num primeiro momento eu me perguntei por que a editora escolheu justamente este livro, que não é tão conhecido em comparação a muitas outras obras que esperam para ser publicadas no Brasil. Acho que já sei a resposta.

Em Tempo Fechado, Bruce Sterling colocou o aquecimento global em pauta praticamente uma década antes que o alarme do bom-mocismo político começasse a soar chamando a atenção do mundo para o problema. As questões que o romance levanta estão mais próximas de nós hoje do que em qualquer outro momento histórico; é praticamente um tapa na cara. Sterling faz a contabilidade da nossa dívida para com o meio-ambiente, que a cada dia se torna um pouco mais impagável, e tece a projeção assustadora de um futuro próximo e nada ameno em que nossos filhos terão que administrar o legado desmerecido da nossa irresponsabilidade.

Vale como crítica. Vale como aventura.

O autor:

sterling

Bruce Sterling é um dos idealizadores do movimento cyberpunk na década de 80, é também responsável pela reinvenção steampunk da década de 90, tendo publicado The Difference Engine em parceria com William Gibson. Sterling é um guru tecnológico da atualidade e tem projetos na área de design, mídia e ecologia.

Evento:

Dia 03/12/2008 haverá o evento de lançamento de Tempo Fechado na livraria FNAC Pinheiros (São Paulo) com o debate: “Mudanças Climáticas, Ficção e Realidade no Futuro da Humanidade”, participantes: Dra. Rita Yuri Ynoue, meteorologista; Dra. Leila Vespoli de Carvalho, climatologista; e Dr. Fábio Fernandes, comunicólogo, escritor e tradutor.

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Fábulas no Zine Overclock #4

novembro, 8 - 2008

Em setembro, durante o evento Invisibilidades, que reuniu em São Paulo um verdadeiro clã de estudiosos e admiradores da FC no Brasil,  chegou em minhas mãos o fanzine de cybercultura Overclock, editado por Rodolfo Londero e pelo Wandeclayt M., quem tive o prazer de conhecer nesse mesmo evento. Para minha surpresa, encontrei em suas páginas uma excelente resenha do Fábulas do Tempo e da Eternidade, comentado sob o ponto de vista de um fã e estudioso da ficção cyberpunk.

Deixo meu muito obrigada ao Rodolfo. Segue a resenha na Overclock #4:

overclockzine

“O futuro serve somente aos condores, que são frios de coração. Está sentenciado desde o início dos tempos: aquele que toma o destino ao alcance dos olhos inevitavelmente abdica de ser parte dele.”

Estas palavras encerram um dos contos do livro de estréia da jovem Cristina Lasaitis e, de alguma forma, remetem ao duro ofício de escrever ficção científica: o futuro imaginado pelos escritores cyberpunks, por exemplo, não mais pertence a eles, porque envelheceu, tornou-se presente. Mas isto não impede que outros escritores apresentem releituras interessantes dos futuros que já passaram: Fábulas do Tempo e da Eternidade (2008) traz duas pequenas preciosidades para os amantes da ficção cyberpunk.

Logo de cara, a proposta de Além do Invisível é instigante: uma bela história de amor… cyberpunk! Talvez alguns leitores interpretem como tragédia, mas deixemos apenas uma pergunta para não revelar o final: quem realmente são os protagonistas do conto? Também não queremos revelar nada, mas certamente Donna Haraway perguntaria satisfeita após ler este conto: qual é o sexo das inteligências artificiais? Ma enfim, apesar de sua relação de amor e ódio com o estilo pós-modernista de William Gibson (como afirmou numa entrevista recente), Lasaitis consegue, tal qual o autor de Neuromancer, criar metáforas valiosas a partir de novas tecnologias: logar na conta de outra pessoa é acessar o âmago dela, dividir a mesma conta é “partilhar uma sociedade tão íntima…”

Mas se Além do Invisível é uma inusitada história de amor, Meia-Noite é uma extrapolação social nos moldes da melhor crítica cyberpunk. Nesta continuação de Além do Invisível, mas que também tangencia Revés Alquímico, formando uma trama de relações que outros contos do livro também apresentam, Lasaitis reflete sobre as tenebrosas implicações sociais e políticas advindas do crescimento desse fascinante monstro chamado rede mundial de computadores (que Frederic Jameson já o indicou como uma “figuração distorcida” do capitalismo tardio):

“Desde a integração, a movimentação financeira da conta de Syl ia se somar à movimentação de bilhões de contas para gerar uma projeção das marés capitalistas na tela ocular dos especuladores internacionais, seu biochip de comunicação eletroencefálica era detectável por satélite e passível de monitoramento, o marca-passo no peito de seu avô estava conectado ao sistema da clínica de cardiologia e à boa vontade de um médico mercenário. Tudo era de todos e todos tinham um cordão umbilical plugado na Dexatron“.

Lasaitis também oferece uma solução – a desconexão total da rede -, mas podemos e devemos pensar em outras…

Mas é uma injustiça não mencionar a qualidade das outras fábulas do livro, muitas dotadas daquela especulação hard que também arrebata admiradores da ficção cyberpunk. Pensamos principalmente em Viagem Além do Absoluto, na verdade, tal qual Quarantine de Greg Egan, classificado como “cyberpunk em flocos” por Andrew Butler e “quantum-punk” por Carlos Pavón, este conto dobra em poesia as concepções científicas de um Hawking. Quem conhece o cyberpunk sabe que sua estética é muito mais que couro negro e implantes cibernéticos… É hard sf poética, como são os melhores contos de Fábulas do Tempo e da Eternidade.

Rodolfo Londero

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Ficção científica, o universo e tudo mais…

outubro, 5 - 2008

Normalmente, quando as pessoas que convivem comigo descobrem que sou escritora de ficção científica, a reação costuma ser de estranhamento. Não sei bem a razão, talvez porque nunca foi comprovada a existência de vida nerd loira, ou – o que é mais plausível – porque não entendem nada sobre ficção científica.

“Ficção científica? Historinhas de naves alienígenas? Que coisa mais infantil! Mais cafona, fora de moda…!”

Pois eu digo a você que ficção científica é tudo de bom. E é uma pena que as pessoas não conheçam, e por não conhecer, confundam-na com um produto adolescente, irreal, que só agrada a nerds e gente estranha. Isso faz com que a FC permanece intocada como uma ilha de desconhecimento cercada de ignorância por todos os lados. O preconceito contra o gênero foi construído em dois níveis bastante diferentes: o daquelas pessoas que não sabem nada sobre tudo – a população analfabeta funcional – e o daquelas outras que pensam que sabem demais – os acadêmicos e literatos –, detentoras da ignorância culta, míope e com armações de tartaruga.

Pode parecer idiota que alguém dê importância a essas pequenas querelas literárias, mas é em razão do preconceito que muitas editoras simplesmente excluíram o gênero de suas linhas de publicação e muitos escritores fogem do rótulo na tentativa de serem “levados a sério” pelas academias.

E por falar em academias… Atualmente, Doris Lessing é a única autora de FC (entre outros gêneros) a ser laureada com o prêmio Nobel de literatura. Não obstante, a série Shikasta – de ficção científica – é das menos citadas de sua produção literária. Como é praxe, os livros de um recém-ganhador do Nobel costumam ressuscitar nas prateleiras das livrarias. Foi isso que aconteceu com as obras de Lessing, que foram reeditadas e hoje podem ser encontradas com folga nas principais redes livreiras. Você só não vai encontrar Shikasta…

 

E o que é ficção científica, afinal?

É um gênero muito rico, que engloba vários subgêneros, comportando obras tão diferentes entre si que muita gente nem suspeita se tratar de FC. Costumam designa-la também como ficção especulativa, porque sua função é especular sobre realidades diferentes e explorar novos universos de possibilidades. É a ficção do: “como seria se…?”, e sobre essa pergunta, os autores constroem universos inteiros dentro de uma complexidade própria, abordando aspectos científicos, políticos, tecnológicos e culturais; partindo de premissas que nos conduzem a reflexões por horizontes além dos limites do convencional. E é aí que reside o grande valor da ficção científica: ela exercita a criatividade, a imaginação, o raciocínio, o poder de abstração e a flexibilidade de pensamento. São habilidades exploradas pela literatura como um todo, mas que florescem de forma especial quando a ficção extrapola as fronteiras do cotidiano.

A ficção científica pode ser fatiada em vários subgêneros, que não são absolutos. Muitas obras não podem ser classificadas dentro de uma vertente ou outra, por reunirem características de vários subgêneros. Farei um resumo das principais vanguardas da FC, mas entenda que as fronteiras que separam uma e outra são tênues, algumas fizeram sentido em momentos específicos da literatura, outras são divisões tão virtuais quanto as dos times de futebol.

 

Hard Science Fiction

Cena de 2001 – Uma Odisséia no Espaço

É um dos gêneros mais clássicos da FC, cujo principal representante é o escritor Arthur C. Clarke e sua famosa Odisséia 2001. O grande barato da FC hard é dar embasamento científico para as maravilhas tecnológicas inventadas pelo autor, valorizando a acurácia, a viabilidade técnica, os detalhes, a verossimilhança. Imagine uma nave em órbita, a milhares de quilômetros da Terra, e pense numa forma de fazer com que nela exista gravidade. Esse é um problema clássico para os diretores de Hollywood (tendo em vista que a gravidade zero pode gerar um buraco-negro no orçamento de um filme). No filme Armageddon, a solução foi instalar um “botão de gravidade” na parede da nave; já na Odisséia 2001, a solução de Arthur Clarke foi dar à estação orbital um eixo de rotação mantido por inércia, para que a força centrípeta sirva como gravidade simulada. Nesse quesito, a ficção hard passa muito perto da ciência aplicada, e, como próprio nome diz, é hard – dura, difícil – porque exige que o escritor tenha um bom conhecimento científico.

Além da série Odisséia, outras obras interessantes são Encontro com Rama, A Cidade e as Estrelas e O Fim da Infância; todas essas do vovô Clarke.

 

Soft Science Fiction

Arte de capa de Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert Heinlein

Contrapondo à ficção hard, que tem foco nas ciências exatas e tecnologia, a ficção soft é centrada no ser humano e na sociedade. Refere-se, de modo geral, às obras de ficção científica com um pé nas ciências humanas, cujo intuito é, através de comparações, tecer críticas sobre os modelos sócio-culturais e político-hierárquicos de nossa realidade. A soft sci-fi floresceu nos anos 60/70, num momento histórico de grandes transformações sociais; época em que o movimento feminista estava nas ruas, nascia o movimento gay, triunfava a luta pela igualdade racial com a derrubada das leis racistas nos EUA, a América Latina sofria com o cabresto das ditaduras militares e o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria.

Os autores que mais se destacaram nesse gênero foram Robert Heinlein (com Um Estranho Numa Terra Estranha) e Ursula K. Le Guin (com A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos).

Em A Mão Esquerda da Escuridão, Le Guin apresenta um planeta onde vive uma espécie humana muito singular pela característica de ser totalmente hermafrodita e andrógina. Não existem sexos nem papéis sexuais pré-estabelecidos, toda e qualquer pessoa pode ser pai e ser mãe. Na viagem através desse mundo, o leitor experimenta a vivência de uma realidade onde a dicotomia mais básica da nossa psique – o masculino/feminino – é rompida. Uma experiência literária e tanto!

 

Distopia

Grandiosidade é a marca registrada dos regimes autoritários

Um gênero inteiro dedicado a tratar de utopias que saíram pela culatra. Ficção ou nem tão ficção assim, as distopias exploram meios de opressão institucionalizada, cujos padrões se repetem interminavelmente na história da humanidade. É provável que estejam entre as obras mais conhecidas da ficção científica (raramente assumidas como FC): Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), 1984 (George Orwell), Farenheit 451 (Ray Bradbury), Laranja Mecânica (Anthony Burgess), O Caçador de Andróides (ou Blade Runner, Philip K. Dick) e The Handmaid’s Tale (Margaret Atwood). No cinema, bons exemplos são os filmes Gattaca, Filhos da Esperança, Aeon Flux, além das adaptações das obras já citadas. A receita da boa distopia é angustiar o leitor situando-o numa atmosfera opressiva, de regras intrincadas, leis injustas, estreita vigilância, desesperança e desilusão. Um dos meus livros preferidos nessa vertente é The Handmaid’s Tale, que remonta a um Estados Unidos alternativo dominado por uma ordem religiosa fundamentalista que instituiu uma estrutura social rígida baseada nos preceitos do Velho Testamento. Para tal, todas as mulheres perdem o status de cidadãs e são apropriadas pelo Estado, grande parte delas se tornam aias, na verdade, ventres-de-aluguel, e são mandadas para as casas dos coronéis do sistema para lhes dar filhos. O detalhe é que após uma guerra química os homens ficaram estéreis, e caso as aias não consigam conceber a curto-prazo, são enviadas para campos de extermínio. Injustamente, The Handmaid’s Tale é uma obra pouco conhecida no Brasil, (onde foi publicada como O Conto da Aia, em 2006, pela Rocco). Na minha opinião, é uma distopia tão potente quanto 1984.

 

Space Opera

Duna, de Frank Herbert, já está na sua terceira adaptação cinematográfica

A faceta mais pulp da FC. Aqui estão as guerras de naves que fazem barulho no espaço, as pistolas de raios-laser, os caçadores de recompensa e salvadores de mocinhas indefesas raptadas por monstros do espaço sideral. O space opera traz a marca das aventuras melodramáticas e românticas, do maniqueísmo – bem versus mal (sendo que o bem sempre vence no final) – gerador de heróis galantes invencíveis e vilões terríveis e feios. São exageros e clichês inumeráveis, mas que fizeram história no cinema e nos folhetins estilo Amazing Stories. Algumas obras que flertam (muito) com o space opera são Star Wars, Battlestar Galactica e Duna (de Frank Herbert). Em Duna, por exemplo, há uma atmosfera messiânica cercando a figura do herói, Paul Atreides, que move uma guerra contra seu arqui-inimigo, o maquiavélico Barão Harkonnen, para vingar a morte de seu pai e reconquistar o poder sobre seu feudo – o planeta Arrakis-Duna. Nada aqui é tão simples ou tão bobo como os clichês do space opera fazem parecer. Herbert teve o mérito de construir um cenário magnífico, com tramas políticas complexas e uma saga muito envolvente e bem narrada, que tornaram Duna o mais venerado épico da ficção científica.

 

Cyberpunk

 

A inconfundível estética cyberpunk

Vida desgraçada com alta tecnologia – essa é a premissa e a promessa do estilo cyberpunk. Tudo começou em 1984 com a publicação de Neuromancer, de William Gibson, um romance tão diferente de tudo que existia até então, que provocou um impacto imediato e profundo na ficção científica. Aqui, o hacker é o herói, o ciberespaço é o campo de batalha, o submundo das ruas é o cenário, o capitalismo selvagem é o pano de fundo, os implantes ciborgues, computadores e aparatos eletrônicos são o tempero.

O cyberpunk é dotado de um apelo estético poderosíssimo, reconhecível a quilômetros de distância. São comuns os cenários noturnos das megalópoles industriais, as roupas escuras de tecidos sintéticos, aparelhagem tecnológica, muitos implantes, sexo, drogas e rock’n’roll, o estilo de vida desconexo e anfetaminado, o palavreado de sarjeta, espiões, mercenários, samurais pós-modernos, figurões da máfia, inteligências artificiais, megacorporações, a coisificação generalizada, o desencantamento da realidade e o sempre presente mundo virtual. Foi com Neuromancer que nasceu a idéia do ciberespaço, uma profecia que se realizou anos mais tarde com o surgimento da internet. Já outro clássico cyber, Snowcrash (Nevasca), de Neal Stephenson, originou a idéia de realidade virtual compartilhada, o que hoje temos com o Second Life.

Se você está pensando em Matrix, acertou. A rede matrix, propriamente dita, surgiu em Neuromancer, que foi o ponto de partida para a trilogia cinematográfica Matrix, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions.

O cyberpunk nasceu como a profecia de um “futuro terrível, porém provável”, ao menos, era o futuro para o qual o mundo parecia estar caminhando nos anos 80. Mas hoje em dia o futuro não é mais como era antigamente. A onda cyber nos atingiu, legou-nos a internet, os celulares e as noites delirantes em companhia dos computadores; e passou… tantas coisas mudaram, tantas ficaram como sempre são. É nesse instante que o filósofo olha para o hacker e pergunta: “e agora? o que vem depois?”, e o hacker responde: “Não vem. O cyber morreu. Viva o pós-cyber!”

 

Steampunk

Amostra de um futuro que jamais houve

Um dia William Gibson (o mesmo autor de Neuromancer) acordou com um bug nas idéias, se reuniu com Bruce Sterling e juntos eles decidiram desenterrar o projeto da máquina diferencial de Charles Babbage (que se tivesse funcionado teria se tornado o primeiro computador da história, isso em… 1822!), puseram-na para funcionar sob forças fictícias e criaram um desvio na história, situando a revolução da informática um século antes que ela realmente acontecesse. O resultado foi The Difference Engine, outro romance que chegou para abalar a FC com estilo.

Imagine você que maravilha o mundo computadorizado batendo cartões em máquinas a vapor, os céus tomados por zeppelins movidos por piloto automático e a Rainha Vitória atravessando os oceanos com os submarinos da Nautilus Rapinante Ltda. Sim, isso mais parece Júlio Verne recauchutado, com engrenagens de ouro e rococós barrocos. O steampunk – punk a vapor – é a tendência que veio explorar o progresso científico que o passado poderia ter vivido e que jamais aconteceu. A premissa sempre é fundamentada em um ponto crítico da história, gerando um desvio para uma revolução tecnológica bem-sucedida.

Nos quadrinhos, o gênero foi muito bem explorado por Alan Moore em A Liga Extraordinária (cuja adaptação cinematográfica deixa a desejar). E mais recentemente, o filme A Bússola de Ouro traz uma linda amostra dos devaneios estéticos do steampunk.

Na verdade, o punk a vapor é um gênero pouco ou nada funcional, mas com um apelo estético fortíssimo, retro-futurista e quase parnasiano. Em outras palavras: “essa engenhoca do vovô não serve pra nada, mas é tão bonitinha, tão legal, tão bacana…!!”

 

História Alternativa

 

 E se…?

E se os nazistas tivessem ganho a segunda guerra mundial? E se Napoleão vencesse a batalha contra a Rússia? Como seria se a colonização holandesa tivesse vingado no Brasil?

Perguntas desse tipo deram origem a um gênero inteiro dentro da ficção especulativa que se dedica a recontar a história, criando realidades alternativas que divergiram da nossa em um ponto crucial do passado.

A obra mais conhecida é O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que responde exatamente à questão: e se o Eixo tivesse vencido a segunda guerra? O romance de Dick apresenta um mundo dominado por duas potências: Alemanha e Japão. Os personagens são pessoas comuns oprimidas pela estrutura social fundamentada nas ideologias racistas que se tornaram parte do zeitgeist dessa nova ordem mundial, onde os negros são escravos e os poucos judeus que ainda existem vivem na iminência do extermínio.

Também é digno de nota o livro Outros Brasis, de Gérson Lódi-Ribeiro, que traz insights de realidades alternativas brasileiras. Por exemplo, se o Quilombo dos Palmares tivesse resistido, teriam os quilombolas criado seu próprio Brasil Palmarino? E ainda, se o Paraguai tivesse ganho a Guerra do Paraguai, teria se tornado a potência sulamericana que de fato prometera ser? E não seria o Brasil somente um paisinho agrícola sob sua esfera de influência? Questões intrigantes, possibilidades infinitas.

 

New Weird

 

Concepção artística de Perdido Street Station

Novo estranho. Novo, muito novo mesmo, tem sido considerado por algumas pessoas o gênero da vez. E como toda avant-garde que se preze tem um manifesto de origem, cito o manifesto new weird, na definição de Jeff VanderMeer:

“New weird é um tipo de ficção urbana de segundo mundo, que subverte as idéias romantizadas de ‘lugar’ encontradas na fantasia tradicional, principalmente pela escolha de modelos complexos e realistas de mundo como ponto de partida para cenários que podem combinar elementos tanto de ficção científica como de fantasia.”

 

Em outras palavras, é uma ficção que acontece em um lugar que pode ser qualquer lugar, e faz uma miscelânea de influências mil, colocando no mesmo balaio elementos que não têm aparentemente nenhuma relação entre si. É um estilo que apela para o bizarro e o estranho, e também tem uma estética própria – muuuuiiito psicodélica! O gênero é tão novo que existe apenas um autor que é rotulado new weird por unanimidade: China Miéville, e sua obra considerada a última bolacha do pacote: Perdido Street Station.

Quem fez uma incursão no gênero foi Alan Moore, com a série de quadrinhos Promethea. Promethea é um arquétipo de heroína que se manifesta sob inspiração em algumas mulheres – e homens também – abrindo os portais de um universo semiótico de faz-de-conta, onde vivem os arquétipos. É uma história se passa em um lugar que poderia ser qualquer lugar no mundo, e bate no liquidificador elementos de ficção científica, policial, noir, fantasia, mitologia e o que mais a imaginação puder comportar…

 

Conclusão

Após um longo período de estiagem, as editoras brasileiras voltaram a se interessar pela ficção científica. Há iniciativas tímidas de reedição de clássicos e algumas publicações inéditas isoladas. É certo que nestes últimos dois anos se publicou mais FC no Brasil do que nas duas últimas décadas. Se você se interessar em conhecer mais, aqui vai uma dica: não procure a prateleira de “ficção científica” nas livrarias, pois as melhores obras do gênero não estão rotuladas como tal. Antes disso, procure pelo nome dos autores indicados, e considere eventualmente procurar livros em sebos.

Tenha em mente que muitas paixões despertaram quando o livro certo caiu nas mãos certas.

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A Integração dos Mundos Virtuais

agosto, 1 - 2008

Começou. A palavra é interoperabilidade. A idéia é criar plataformas de teleporte entre mundos virtuais diferentes. A primeira ferramenta do gênero é o Open Grid Public beta, da Linden Lab, que possibilita a interatividade de outros ambientes virtuais com o Second Life. Isso permite ao usuário criar um avatar em um determinado jogo (p. ex. The Sims) e teleportá-lo para outro mundo virtual (Second Life).
Não, nunca usei o Second Life, mas essa notícia me causou uma sensação diferente, é interessante notar algo que você explorou na ficção aos poucos ganhar terreno na realidade. Dois contos publicados no meu livro Fábulas tratam de avatares errantes em mundos virtuais. Uma dessas histórias apresenta o planeta Terra dominado por uma rede integrada, que emerge com a diluição das fronteiras entre as redes, os códigos e os ambientes virtuais. A interoperabilidade e os roteadores de sinal tornam algumas entidades do universo cyber praticamente onipotentes e onipresentes, capazes de intervir nas movimentações financeiras, na programação de robôs, de satélites em órbita, do piloto automático dos veículos, ou até mesmo de controlar o marca-passo no peito de alguém.
Vou me lembrar dessa notícia: a interoperabilidade começou. Talvez signifique que dentro de algumas décadas teremos avatares soltos por aí, vagando livres por mundos virtuais sem fronteiras e horizontes muito além dos habituais códigos de programação.

Interface do Open Grid