Posts Tagged ‘educação’

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E por falar no trágico…

abril, 8 - 2011

Hoje, que uma escola no Rio foi invadida e uma dúzia de estudantes foram assassinadas (digo no feminino porque merece que assim seja dito, os alvos preferenciais foram meninas), eu senti que não sou imune – ou emocionalmente imune aos fatos (ufa, sou humana!). E senti uma inquietação enorme pra dizer algo (eu, que sou tão calada), então resolvi escrever sobre algumas coisas que acredito.

Falando brevemente sobre o episódio, o que ocorreu naquela escola do Rio é, na minha visão, tanto um problema de criminalidade quanto de saúde pública. De criminalidade porque as armas usadas não deviam estar naquelas mãos. E de saúde pública porque o atirador era um doente mental, jamais diagnosticado ou tratado, o que fica evidente pelo conteúdo da carta que ele deixou. Aquele homem tinha muitos traços que faz pressupor que era esquizofrênico ou que tinha transtorno de personalidade esquizóide (e não um psicopata – ou alguém com transtorno de personalidade antissocial –, como muitos dizem), com um delírio muito particular que o levou a um ato de vingança contra a escola onde estudou, possivelmente por bullying, e ironicamente contra pessoas que não tinham nada a ver com isso.

Na carta, chamava a atenção o discurso fortemente religioso e cristão, com várias menções à ideia de pureza e também pedidos de oração. A mim parece óbvio que a religião só serviu de muleta para uma mente caduca, como é característico de todo fanatismo. Talvez esse fator tenha ainda orientado outra particularidade macabra da execução: a preferência por matar meninas.

E agora, a quem vamos culpar? Ao louco com seu delírio? Aos órgãos públicos, que falharam em prover segurança? À saúde pública, que é ineficaz em dar o devido diagnóstico e tratamento aos doentes mentais? À mídia, pela falta de informação e esclarecimento popular sobre doenças mentais? À religião, que forneceu o discurso usado na desastrosa justificativa do atirador? À escola, que não impediu que o ex-aluno sofresse bullying? Aos traficantes de armas, que colocaram revólver e munição em mãos tão perigosas? À internet, que disponibiliza a todos qualquer tipo de informação? A busca por culpados nos deixa irremediavelmente apontando o dedo uns para os outros, e quem escolher um alvo preferencial para expiar a culpa estará assinando um atestado de simplismo.

Infelizmente isso significa que crimes assim são muito difíceis de impedir, e pela enormidade de fatores que fogem ao controle, o caso se parece muito mais com uma fatalidade do que com uma chacina.

E eu tinha iniciado este artigo num rompante de revoltas e emoções atropeladas sobre religião, machismo, bullying, dentre outros espinhos que me justificam como pessoa – a ideologia íntima com a qual eu, como filha desta espécie viciada em ideologias, faço uso dos fatos para defender minhas posições. Mas resta a perplexidade ao perceber como qualquer ideologia é mesquinha se aplicada sobre acontecimentos da vida alheia. Mas aí que está: não somos alheios. Eu me senti vitimada, embora não saiba bem em qual parte. A tragédia é nossa, é de todos. Amanhã pode ser comigo, com você, ou com alguém que amamos; e nesse hiato paira o sentimento insuportável que é a impotência perante o destino (no qual eu não acredito e prefiro chamar de acaso). Eu queria conhecer uma solução, queria tirar uma boa conclusão, mas de repente fiquei pequena demais. Acho que vou ficar só com isso: sou humana, e minha dor também é a dor dos outros, que são também os meus.

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Vou gritar

outubro, 29 - 2009

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No Brasil, dá-se aula sobre a cultura africana e logo vem um pai ou mãe evangélico reclamar que estão ensinando macumba para as crianças, ou que lhes dão obras demoníacas para ler, afinal, o que é Harry Potter senão incentivo à bruxaria? E Marina Silva, agora forte candidata à presidência, vem me dizer que o evolucionismo de Darwin é só mais uma teoria, que pode ser ensinada junto com o criacionismo nas escolas públicas. E então percebo o quanto tenho medo dos nossos políticos, porque são também o espelho do povo.

Saio de casa e em qualquer caixa de supermercado, balcão de loja ou mesa de concessionária encontro os dignos trabalhadores do meu país, que não raras vezes mal sabem fazer uma operação básica de matemática. Pego textos de universitários que sequer conhecem que existe uma pontuação na língua portuguesa. Lembro-me do dia em que fui ser fiscal do ENEM em uma escola pública, onde, numa sala de mais de 50 estudantes, consegui recolher apenas duas redações.Vejo nas salas da universidades alunos perguntando aos professores questões da alçada do ginásio – pelo qual passaram sem aprender o básico do básico. Uma população de analfabetos funcionais, gente com atitude completamente passiva frente à informação, bem adestrados pelos anos de condicionamento vegetativo em frente à televisão. Uma multidão universitária que paga cursos para ter um diploma sem exigir a qualidade, pois o que se paga lhe será dado; e assim o Brasil vira o eldorado dos bacharéis pseudoalfabetizados.

O que me assusta é que esses poderão ser os médicos que um dia irão me operar, ou os engenheiros que construirão castelos de carta e corredores de dominó, os professores que perpetuarão o ciclo de deseducação, e o pior: serão também os políticos!

Abro o jornal e as estatísticas estimam que os 10% melhores alunos das escolas brasileiras mal se podem comparar aos 10% piores das escolas finlandesas. De onde vem tanto descaso? Existirá uma cura para a ignorância institucionalizada? E agora, quem eu cobro? O que faço? Pra onde vou? Sento e choro?

Desculpa, mas é que a ignorância do meu povo me ofende! E se eu não gostasse do meu país, não estaria aqui engasgada, à beira dum grito. Hoje isso me subiu à cabeça e me mergulhou num inferno patriótico.

Vivemos numa Idade Média surreal, quando a ignorância coexiste com o estado-da-arte do conhecimento científico e tecnológico e nunca se teve tanto acesso à informação. Paradoxal? Pois penso que não é à toa que os pais daquelas crianças vêem demônios e bruxas nos livros dos filhos – eles não têm outra saída: vivem num mundo assombrado pelos demônios, onde a superstição ainda ampara mais do que a ciência ininteligível.

E como eu disse, isso me assusta, porque a realidade também me foge à compreensão. Tenho medo do que não entendo.

Desculpem, eu só estava precisando gritar.

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Retratos da Leitura no Brasil

fevereiro, 20 - 2009

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Saíram os resultados de uma pesquisa muito interessante feita pelo IBOPE para o Instituto Pró-Livro que teve por objetivo traçar o perfil dos leitores e não leitores brasileiros. O relatório da pesquisa traz uma grande quantidade de informações que acredito ser do maior interesse dos escritores, ou ao menos daqueles interessados em saber quem e quantos são os leitores do Brasil, o que eles lêem e porque lêem. Segue um resumo dos dados mais importantes:

Gêneros mais lidos pelos leitores:

Bíblia  45%
Livros didáticos  34%
Romance  32%
Literatura infantil  31%
Poesia  28%
História em quadrinhos  27%
Livros religiosos  27%
História, política e ciências sociais  23%
Contos  20%
Enciclopédias e dicionários  17%
Literatura Juvenil  15%
Biografias  14%
Auto-ajuda  13%
Cozinha/ artesanato/ assuntos práticos  12%
Livros técnicos  12%
Artes  10%
Ensaios, Ciências e Humanidades  7%
Esoterismo (ocultismo)  4%
Outros  3%
Nenhum destes  3%

Escritores brasileiros mais admirados pelos leitores:

1) Monteiro Lobato
2) Paulo Coelho
3) Jorge Amado
4) Machado de Assis
5) Vinícius de Moraes
6) Cecília Meireles
7) Carlos Drummond de Andrade
8) **Érico Veríssimo
9) José de Alencar
10) Maurício de Souza  
11) Mário Quintana
12) Ruth Rocha
13) Zibia Gasparetto
14) Manuel Bandeira
15) Ziraldo
16) Chico Xavier
17) Augusto Cury
18) Ariano Suassuna
19) Paulo Freire
20) Edir Macedo               *medo*
21) Castro Alves
22) Graciliano Ramos
23) Rachel de Queiroz
24) Luis Fernando Veríssimo
25) Clarice Lispector

**essa carinha foi sacanagem do wordpress

Os livros mais importantes na vida dos leitores:

1) Bíblia
2) O Sítio do Pica-pau Amarelo**
3) Chapeuzinho Vermelho
4) Harry Potter
5) Pequeno Príncipe
6) Os Três Porquinhos
7) Dom Casmurro
8) A Branca de Neve
9) Violetas na Janela
10) O Alquimista
11) Cinderela
12) Código Da Vinci
13) Iracema
14) Capitães de Areia
15) Ninguém é de Ninguém
16) O Menino Maluquinho
17) A Escrava Isaura
18) Romeu e Julieta
19) Poliana
20) Gabriela Cravo e Canela
21) Pinóquio
22) Bom Dia Espírito Santo
23) A Moreninha
24) Primo Basílio
25) Peter Pan
26) Vidas Secas
27) Carandiru
28) O Segredo
29) A Ilha Perdida
30) Meu Pé de Laranja Lima

**O número de citações da Bíblia é 10 vezes maior do que do 2º colocado.

O último livro que os leitores leram ou estavam lendo na data da pesquisa:

1) Bíblia
2) Código Da Vinci
3) O Segredo
4) Harry Potter
5) Cinderela
6) Chapeuzinho Vermelho
7) Violetas na Janela
8) A Branca de Neve
9) Os Três Porquinhos
10) O Sítio do Pica-pau Amarelo**
11) O Caçador de Pipas
12) Dom Casmurro
13) O Monge e o Executivo
14) A Moreninha
15) Senhora
16) A Bela e a Fera
17) Romeu e Julieta
18) Iracema
19) Peter Pan
20) Bom Dia Espírito Santo
21) A Pequena Sereia
22) O Cortiço
23) O Grande Conflito
24) Pinóquio
25) O Alquimista
26) Pequeno Príncipe
27) O Menino Maluquinho
28) Quem mexeu no Meu Queijo
29) Edir Macedo (Biografia)
30) Pais Brilhantes, Professores Fascinantes

Quem mais influenciou os leitores a ler:

Mãe (ou responsável mulher)  49%
Professora  33%
Pai (ou responsável homem)  30%
Outro parente  14%
Amigo  8%
Padre, pastor ou líder religioso  5%
Colega ou superior no trabalho  2%
Outros  3%
Ninguém  14%
Não sabe ou não informou  1%

Principais formas de acesso aos livros:

Emprestados por outras pessoas  45%
Comprados  45%
Emprestados por bibliotecas (inclusive escolares)  34%
Presenteados  24%
Distribuídos pelo governo e/ou escolas  20%
Baixados gratuitamente da internet  7%
Fotocopiados/ xerocados  7%
Não informou  4%

Canais do mercado para acesso aos livros:

Livrarias  35%
Bancas  19%
Sebos  9%
Feiras de livro  9%
Igrejas  6%
Supermercados  5%
Vendedores ambulantes  4%
Pela internet  4%
Na escola  4%
Lojas de departamentos  2%
Porta a porta  2%
Outros  1%

Motivação do consumidor para comprar um livro:

Prazer ou gosto pela leitura  28%
Entretenimento e lazer  21%
Porque a escola/faculdade exige  17%
Necessidade do trabalho  9%
Presentear  6%
Outro motivo  3%
Não compram livros  47%

Fatores que mais influenciam os leitores na escolha de um livro:

Tema  63%
Título do livro  46%
Dicas de outras pessoas  42%
Autor  33%
Capa  23%
Críticas/resenhas  13%
Publicidade/ Anúncio  12%
Editora  7%
Outro motivo  2%
Não costuma escolher livros  9%

Quanto aos não leitores, razões alegadas para não terem lido livros no último ano:

Por falta de tempo  29%
Não é alfabetizado  28%
Por desinteresse ou não gostar de ler  27%
Prefere outras atividades  16%
Não ter dinheiro  7%
Falta de bibliotecas por perto  4%
Não havia onde comprar  2%
Por problemas de visão ou doença  1%
Não costuma ler  15%
Não sabe ou não informou  3%

Indicadores:

Números de leitores autodeclarados:

95,6 milhões (55% da população estudada)*

*Leram pelo menos 1 livro nos 3 meses anteriores à pesquisa.
*Não inclui os 6 milhões que disseram ter lido em outros meses do ano.
*47,4 milhões (50%) leram livros indicados pelas escolas (incluindo didáticos) e 6,9 milhões estavam lendo a Bíblia.

Número de não leitores:

77,1 milhões (45% da população estudada)#

#Não leram nenhum livro nos 3 meses anteriores à pesquisa.
#Estão aqui os 6 milhões que disseram ter lido pelo menos 1 livro nos outros meses do ano.
#4,5 milhões (6%) dos não leitores lêem a Bíblia.

Número de livros comprados por ano:

1,2 livros por habitante/ano €

€ Entre compradores, a média foi de 5,4 livros adquiridos por ano.
€ 36,3 milhões (21% da população estudada) compraram pelo menos 1 livro no ano anterior.
€ Informações prestadas pelo entrevistado e não checadas no ponto de venda. Referem-se a livros em geral, inclusive os indicados pela escola.

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No país dos analfabetos funcionais

novembro, 15 - 2008

Raras são as edições que ultrapassam 3 mil exemplares, raros são os escritores que esgotam a 1ª edição. Estima-se que não há mais de 3 mil leitores de literatura brasileira contemporânea, três mil é a tiragem de um livro numa grande editora.

Esses números estão na matéria de Bob Fernandes para o Terra Magazine, descrevendo o status triste do mercado editorial e da literatura brasileira, inseridos num gigante país de analfabetos funcionais, onde os livros são superfaturados e acabam se tornando para a média da população objetos sagrados ou meramente ornamentais. Bob cita o testemunho de um escritor americano residente no Brasil, que compara os escritores brasileiros a uma gangue de loucos, pois vivem num mundo restrito sem perceber a pouca abrangência de seu trabalho.

Terminei de ler essa matéria com uma certa tristeza, concordando com cada linha. Há tempos estou inquieta perguntando: como vamos mudar isso? Se as escolas empurram para os alunos clássicos tão densos, de cuja leitura eles jamais conseguirão extrair qualquer prazer? Se por força do vestibular uma pilha de livros chatos são empurrados na marra para quem nunca teve o hábito de ler?

Vou lançar uma campanha: faça a sua parte, dê um livro legal para uma criança que você conhece!

É o que eu vou fazer.