Posts Tagged ‘filosofia’

h1

Simples assim

outubro, 30 - 2011

Deveria ser simples, mas por que para tantos é tão difícil encarar a realidade nua e sem mistérios?

Esta poderia ser uma das inumeráveis reflexões “por que sou eu a ver as coisas de um jeito diferente?”

Não sei se me atrevo a responder (hoje estou com preguiça retórica). Apenas queria dizer que sou do tipo que prefere ficar suspensa no vácuo de uma pergunta a abraçar uma resposta fabricada.

Tenho direito a um mundo desassombrado. Quero minha vida sem anestesia. E no meu funeral, nada de velas. Não tenho medo do escuro, deixe que as luzes se apaguem quando anoitecer.

Anúncios
h1

Passou

setembro, 4 - 2009

Se há um consolo e uma angústia é que nada dura para sempre. Momentos bons. Momentos ruins…

Não, não cultivo clichês, é que o mosquito filosófico me mordeu hoje.

Lembro claramente de um momento da minha vida que aconteceu há dois anos e meio atrás. Estava pegando o vôo Santiago- São Paulo (minha última viagem aérea) e, sabe quando o avião está na pista, correndo para decolar, e você é pressionado contra a poltrona? Nesse momento vem o frio na barriga e a consciência de que você está se lançando ao acaso – está subindo e nada lhe impede de cair. Uma sensação de liberdade, mas também de entrega.

Eu era recém-formada, tinha acabado de fazer uma viagem de mochila de 40 dias pela América do Sul com algumas amigas. Pela primeira vez na vida eu havia me distanciado de casa e da minha família. Uma viagem de incríveis contrastes: praias e montanhas, baladas e desertos, amigos e solidão. Fui mudada profundamente. Agora estava voltando para casa, para minha vida, e pela primeira vez não fazia a menor ideia de que rumo daria a ela. Uma dúvida maravilhosa me surgiu ali, enquanto o avião levantava:

E agora?

Agora vem o resto da minha vida.

É mais ou menos assim que ando me sentindo. Mês retrasado vivi um pequeno inferno astral. Não era só a tese, eram outras coisas… essas que não são novidade nenhuma, mas pelas quais às vezes cismamos de nos cegar. Nosso perpétuo ciclo de altos e baixos.

Passou.

A tese, ainda não a entreguei. Está no finzinho, mas já volto a respirar. E pensar nos próximos planos, são tantos…

Outro dia ouvi falar na crise dos 25 e me identifiquei completamente: uma pessoa já formada, com alguma experiência de trabalho e também com frustrações, paralisada frente a uma encruzilhada de múltiplos planos e oportunidades, tão indecisa que não sabe onde vai enfiar o resto de sua vida.

Sou eu.

E o que vem agora?

O resto da minha vida.

Vou dançar, vou escrever, vou viajar… Vou por em dia as coisas que deixei de lado.

Peço desculpas a quem deixei esperando no processo. Agora sim, voltei.

h1

A vida, em tese

junho, 9 - 2009

Não estou conseguindo progressos com a minha tese. Organizo o roteiro, sento para escrever, mas não saio do lugar. É preciso um esforço sobre-humano para conseguir um pouco de concentração; o problema é que sou só humana, demasiadamente humana.
Quem já passou pela TPM (tensão pré-mestrado) diz que esse bloqueio é normal.

Eu não quero admitir que estou em crise (ou não quero admitir minha incapacidade de lidar com ela). Às vezes, nalguns momentos, uma parte de mim encara outra parte de mim e xinga: “sua indisciplinada!” Não é possível uma pessoa ser tão selvagem a ponto de não conseguir se domesticar.

Mas são outros fantasmas que me dominam: ansiedade. Muita ansiedade.

Quando comecei esse projeto de mestrado ele me parecia a coisa mais apetitosa do universo. Agora mal consigo olhar pra ele. Não sei explicar, cansa.
O que aconteceu? Por que esse desânimo agora, tão perto da linha de chegada?

Eu acho que tenho a resposta. Mas sinto que para conseguir renovar o fôlego e pegar no tranco vou ter que repassar algumas das razões pelas quais cheguei até aqui. Me acompanha?

Rebobinando a fita, voltemos ao x da questão:

Afinal, por que uma pessoa resolve se tornar cientista?
Alguns dirão: porque gosto de ciência, porque quero descobrir a cura do câncer, porque sonho em ganhar o prêmio Nobel, porque tenho uma quedinha por aventais brancos e tubos de ensaio… As razões são as mais diversas.

Minha resposta é que muito cedo percebi que só uma formação científica me daria recursos para saciar essa curiosidade infinita que não sei de onde vem. Entender como funciona o universo é pra mim uma necessidade básica. Formular perguntas e não se contentar com o silêncio: aventurar-se na busca pelas respostas. Ir ao encontro das evidências por seus próprios meios. Tecer conclusões através de uma análise lógica. Ter massa crítica para se libertar de pressupostos, preconceitos, superstições, opiniões alheias e distorções midiáticas.

As razões que as pessoas encontram para se tornarem cientistas são formidáveis! As teorias são as entidades mais elegantes do mundo conceitual. Em teoria, tudo é lindo. Teoricamente as utopias existem, as terapias funcionam, os erros são descartados e a profissão de cientista é puro glamour.

Agora, na prática…

Melhor nem falar da prática.

Pensando bem, vou falar sim. A prática não é nada elegante. É onde a biologia fede, a física dá choque e a química explode. É onde o cientista se descabela, ganha olheiras e fica com aquele visual que todo mundo acha super descolado.

Na prática o pesquisador rebola para conseguir incentivo financeiro para a pesquisa. Rebola para administrar um laboratório equipado com aparelhos caros e material importado, à deriva no câmbio nem sempre favorável de um país em desenvolvimento. Rebola para conseguir pessoal qualificado, alunos interessados e bolsa pesquisa para todos eles. Rebola para conduzir os experimentos reproduzindo os níveis de qualidade dos laboratórios internacionais. Reza para conseguir dados inéditos. Rebola para escrever artigos num inglês impecável, não sendo essa a sua língua nativa. Reza para uma boa revista aceitar publicar seu trabalho e para que nenhum editor torça o nariz ao olhar o endereço (pois eles sabem que os países latinoamericanos praticamente não investem em pesquisa, os laboratórios estão sucateados e por isso mesmo acham que os trabalhos que produzem não devem ser confiáveis – além de serem escritos nesse inglês xinfrim). E o pior de tudo: o pesquisador brasileiro rebola para conseguir se sustentar, não tem aposentadoria, acesso a seguridade social ou sequer plano de saúde. Pode ter sua bolsa pesquisa simplesmente não renovada pelas entidades de fomento. Pode ter seu trabalho simplesmente ignorado pelas boas revistas da área. Na prática, é uma profissão de muita fé, rebolado, e não tem nenhum glamour.
Não é à toa que a pesquisa e a docência estejam tão ligadas no Brasil. O pesquisador não tem outra opção senão virar professor nas universidades, e dar aulas ao mesmo tempo em que faz pesquisa e orienta alunos. È óbvio que às vezes ele não consegue fazer direito nenhuma dessas coisas.

Esse não é, decididamente, um futuro com o qual eu sonharia.

Depois de dois anos em que estive trabalhando sobre uma bancada, fazendo minha iniciação científica em biologia molecular, quase nada sobrou daquele ideal encantado de me aventurar pelos mecanismos do universo e buscar minhas próprias respostas. A vida ficou subitamente reduzida a três proteínas, uma hipótese e um protocolo experimental. E muito tédio também, me dedicando a um projeto que, do fundo do coração, nem era meu, nem tinha qualquer sentido especial para mim.

Conheci outros jovens pesquisadores nessa mesma condição: vítimas de um trabalho desejado que aos poucos vira um martírio. E muito me assustei quando descobri, nessa minha crise laboratorial-existencial, que Newton estava certo: a inércia é implacável!
Os alunos precisam fazer um estágio, então entram em um laboratório, conhecem a linha de pesquisa, aceitam um projeto que é só um anexo do projetão do orientador, ganham uma bolsa que às vezes não chega a um salário mínimo (no caso da iniciação científica) e passam um tempo trabalhando sobre aquele minúsculo assunto que dificilmente o levará a uma descoberta, que mais dificilmente ainda terá uma aplicação a curto-prazo. Aos poucos vão morrendo as ambições de infância, aquela paixão pela ciência que agora parece tão pueril. O universo infinito perde atenção para a proteína. O sonho vasto perde espaço para a nota de rodapé. O cientista morreu e no lugar ficou só a máquina de publicar artigos. Há pessoas que caem nessa teia e jamais conseguem se livrar. E é medonho quando você vira um autômato, pois nem se questiona quando seu grande sonho perdeu totalmente o sentido.

Agora me responda: quanto tempo da sua vida você está disposto a vender por algo que não lhe dá sentido?

Eu me fiz essa pergunta quando me formei, depois de ter passado dois anos muito estressantes num laboratório. Tirei um tempo pra repensar meus planos. Foi quando fiz minha viagem pela América do Sul, que foi também uma viagem de “autoconversa”. Fui andar no meio das ruínas para perceber que neste mundo eu também estou só de passagem. Viajar é uma experiência muito enriquecedora, sobretudo quando você aproveita para viajar também internamente. Parece que consegui trazer, junto com os souvenires, um fôlego novo, novas resoluções para pôr em prática na vida.
Não por coincidência, foi nesse ano em que a literatura começou “a funcionar” para mim, e eu comecei a levá-la mais a sério.

Quando resolvi que estava na hora de fazer um mestrado, desenterrei do baú aquele antigo ideal: quero buscar respostas para as coisas que me assombram!
Decidi que só valeria a pena se me lançasse numa pesquisa que me dava ganas, que me desafiasse! Um assunto nada impessoal. Uma aventura toda minha.

Fui para um departamento que não tinha nada que ver com o que fazia antes – o de Psicobiologia. Fui adotada por professores maravilhosos, que me deram liberdade para exercitar esse meu modus operandi autodidata (e caótico).
Minha escolha foi estudar a dimensão emocional da homofobia. Eu queria isso. A homofobia é dessas coisas que me deixam angustiada perguntando por que as pessoas tornam o mundo tão complicado umas às outras. Queria trabalhar em algo que pudesse ser retribuído à sociedade em curto-prazo. Mas muito mais do que isso; foi também um modo de me habituar a lidar com um tema espinhoso com naturalidade. Com os rótulos de “tabu” e “polêmica”, a homossexualidade e seus assuntos relacionados raramente são abordados pelos pesquisadores das ciências básicas (ou com o jeito de fazer pesquisa dos cientistas básicos). Considerando que se eu não o fizesse, em meu lugar ninguém faria.
Desta vez, não poderia me queixar de tédio. Escrevi meu projeto em frenesi, devorei os artigos científicos da área. Consegui uma bolsa. Ao longo de dois anos conduzi a pesquisa com as dificuldades e tropeços inerentes ao meu pára-quedismo autodidata.

E a covardia vem me pegar justamente agora, quando olho aquela montanha de dados implorando para serem organizados em tese. Eu tento pensar num modo de organizar tudo num raciocínio lógico e minha entropia mental vai ao máximo. Também aconteceu, mais de uma vez, de estar escrevendo a introdução da tese e começar a entrar num transe de indignação e revolta (o lado pessoal reagindo) que me faz suspender o trabalho por mais um tempo.

Mas que outra razão nos atiça senão um belo desafio? Decifrar esfinges. Enfrentar fantasmas…

Sei de uma coisa: dá bastante trabalho procurar as respostas para as perguntas que você fez.

Vale a pena?  Imensamente.

Mas a gente precisa se convencer disso e lembrar, de tempos em tempos, a que veio.

Agora sim, acho que consigo voltar para a minha tese.

h1

Uma questão de sorte?

abril, 17 - 2009

infinity

“a grande maioria das pessoas que poderiam ser criadas pela loteria combinatória do DNA na realidade jamais nascerá. Para nós, sortudos, que estamos aqui, descrevi a brevidade relativa da vida imaginando uma luzinha de laser avançando ao longo de uma enorme linha do tempo. Tudo o que há antes ou depois da luzinha está mergulhado na escuridão do passado morto ou na escuridão do futuro desconhecido. Somos incrivelmente sortudos de estar sob a luz. Por mais curto que seja nosso tempo sob o sol, se desperdiçarmos um segundo dele, ou reclamarmos que é tedioso ou estéril ou chato (como uma criança), isso não poderá ser visto como um insulto insensível para os trilhões de não-nascidos que jamais terão a chance de receber a vida?”

                                                     Richard Dawkins, Deus – Um Delírio

h1

Pra não dizer que não pisei nas flores

abril, 13 - 2009

Outro dia me deparei com um artigo do Bráulio Tavares, que sintetiza muito bem algo que há tempos tem me dado muito que pensar:

Quais são os limites da liberdade?

Não sei se você já percebeu, mas não dá para existir paz e liberdade absolutas convivendo na mesma civilização.
Para usar a analogia que o próprio Bráulio colocou: tente imaginar um líquido que seja um solvente universal. Tente imaginar um frasco que seja perfeitamente incorrosível. Parece uma boa ideia tentar guardar o solvente universal no frasco incorrosível, até você perceber que essas duas coisas não podem existir no mesmo universo, pois são mutuamente excludentes (conceito popularmente conhecido como “o paradoxo das facas Ginsu e das meias Vivarina”).
O mesmo para a paz e a liberdade.
Viver em um mundo com total liberdade de pensamento implica que as pessoas serão livres para aderir às ideologias que preferirem: religião, partido político, time de futebol, filosofia de vida, etc.; e serão livres também para adotar ideologias excludentes e/ou agressivas: neonazistas, racistas, sexistas – coisa que torna impossível a manutenção de uma paz ideal.

Por outro lado, o esforço para manter uma paz perfeita passa necessariamente pelas vias da repressão. A liberdade passa a ter contornos muito claros e estreitos, e as transgressões são rigidamente penalizadas no intuito de manter a ordem. A ideia nos remete automaticamente aos regimes autoritários e concluimos que esse seria um estado de paz instituída, mais frágil do que no primeiro caso.

Os anos de ditadura nos ensinaram muito sobre paz e liberdade, dado que hoje temos a convicção de que viver a confusão de um país livre ainda é preferível a viver num estado de paz amordaçada.

Onde quero chegar com isso?

Como alguns de vocês devem saber, eu estudo a homofobia. Nesses três anos de pesquisa foi doloroso quando fui colocada diante de um paradoxo: para que os homossexuais possam  ter liberdade, há que se podar a liberdade no outro extremo: o do preconceito.  Parece impossível intervir na questão sem lançar mão de um favoritismo. E justo. Trata-se de proteger um grupo da violência. Mas até onde é possível proteger sem interferir na liberdade de pensamento (ou ter que usar aquele nome terrível que nos dá calafrios: CENSURA)?

Indo muito diretamente ao ponto: no Brasil vigora uma liberdade de pensamento que não se estende à liberdade de agressão. Se há liberdade de pensamento, os preconceitos estão livres para morar na cabeça de quem os quiser. Preconceitos são lícitos, não importa a cara feia que façamos para eles. A polícia não pode prender alguém por pensar ou querer mal a um gay, a um negro ou a um corintiano simplesmente por serem aquilo que eles são. E do mesmo modo, não pode impedir ou constranger um casal gay namorando em público, ainda que as pessoas ao redor se sintam incomodadas. Não pode impedir o torcedor da fiel de ir ao estádio mesmo sabendo que ele pode criar confusão.
A conduta muda quando o pensamento se torna ação, quando descamba para a agressão, difamação, omissão onerosa, humilhação ou ofensa. Isso se chama discriminação e é passível de punição.

Preconceito e discriminação são coisas diferentes: o primeiro é pensamento, o segundo é ato. São co-dependentes: o preconceito dá origem à discriminação, e esta fortalece o preconceito. Fica nesse limiar pálido a separação entre o direito individual e o crime. É nessa transição nebulosa que a legislação tenta impor limites claros. 
Acontece que é ineficaz combater a discriminação sem intervir na sua origem: o preconceito. Significa que para resolver o problema é preciso meter o dedo na liberdade de pensamento individual e… opa, acabamos de falar em censura??

Pois é.
Mas isso não deve ser novidade. Quantas propagandas já não foram retiradas do ar por determinação judicial porque faziam piadas maldosas com grupos escolhidos a dedo? Não vamos ser hipócritas a ponto de achar que não existe censura no Brasil. Vou além e manifesto minha opinião pessoal: é preciso haver um rudimento de censura, sim.

Mas deveria haver censura a ponto de reprimir ideologias específicas, como o neonazismo? Com um pouco de dor no coração eu digo: sim, deveria. E vou citar um bom exemplo. Hoje a Alemanha é um dos países mais livres e bem colocados do mundo; não obstante, não há quem se atreva a usar uma suástica ou manifestar publicamente qualquer simpatia ao nazismo, simplesmente porque se fizer vai em cana. Os alemães, que têm alguma experiência na área, não pouparam medidas para abafar o que a história já ensinou que não compensa. Por outro lado, um país que afrouxou as rédeas a ponto de permitir a existência de uma Ku Klux Klan hoje investe pesado na segurança de um presidente negro que os fanáticos estão loucos para assassinar.
Nós, em nosso lugar, temos a experiência da ditadura e a convicção de que amamos a democracia, apesar dos políticos que ela nos dá. Não gostamos da censura, mas temos que reconhecer que em doses homeopáticas ela faz juz ao bom-senso.

Lembro quando o congresso tentou aprovar a lei que criminaliza a homofobia (PL122/2006) e foi assolado por uma avalancha evangélica enfurecida. Eles (os evangélicos) protestavam que a lei iria restringir a liberdade de culto, pois a bíblia fala claramente em punição para os homossexuais. Talvez ninguém tenha explicado a eles que a lei é contra a discriminação, o que não os impede de professar os ensinamentos homofóbicos da bíblia (que, aliás, também defende o estupro, o incesto, o assassinato e o genocídio, embora ninguém tenha cogitado esses detalhes), só os impede de colocá-los em prática, do mesmo modo como proíbe o apedrejamento de mulheres adúlteras ou a matança de idólatras.

Tanto quanto o Estado não consegue ser laico, sabemos que a lei não consegue ser imparcial. Ela tem que pesar para um lado, tem que agradar a um curral eleitoral, e no final acaba saindo ao gosto de quem faz, quem aprova e quem põe em prática.

O Paradoxo da Igualdade
Por falar em igualdade, é curioso notar como os esforços para alcançá-la geram assimetria. Um negro é livre para ostentar com orgulho uma camiseta escrita “100% negro”, enquanto um branco não faria mesmo (usar uma camisa “100% branco”) sem comprar uma briga no metrô, ou no mínimo ser olhado com muita desconfiança. Do mesmo modo, se um dia resolverem instituir uma “Parada do Orgulho Heterossexual” tenho certeza de que algumas pessoas se sentirão seriamente ofendidas.
O esforço pela igualdade gera um protocolo que permite a uma minoria (ou “grupo oprimido”) manifestar seu orgulho e levantar bandeiras, mas impossibilita que uma maioria (ou “grupo opressor”) faça o mesmo sem que isso seja interpretado como provocação. A igualdade nesse caso se torna um paradoxo, até que… até que eu me sinta à vontade para desfilar uma camiseta escrita “100% branca”, acho eu.

O delicado equilíbrio das ofensas
Lembro que uma vez estava eu numa livraria com minha ex-então-namorada, sentamos em uma poltrona para folhear livros e perdemos noção da hora, ficamos ali até a loja esvaziar. Eu sou muito distraída, mas minha namorada percebeu que o atendente começou a entrar numa crise de hesitação, pois ele tinha que pedir que nós nos retirássemos pois a livraria tinha que fechar, mas, tendo reparado que éramos um casal, estava receoso de que nós o interpretássemos mal o pedido. No final, muito delicadamente e todo gentileza, ele veio explicar que tinham que fechar. Nós saímos e ela comentou que tinha reparado na insegurança do rapaz, e isso nos deu o que pensar.
O que me intriga é que o receio dele fazia sentido. Ele sabia que qualquer mal entendido poderia ser interpretado como preconceito, como de fato costuma acontecer. Muitos gays e lésbicas desenvolvem uma espécie de hipersensibilidade: perdem a a capacidade de distinguir uma simples negativa de um preconceito. É algo que em geral se desenvolve depois de algumas más experiências.

É o mesmo caso de quem tem uma cisma ou um complexo qualquer. Imagine alguém que tem (ou acha que tem) um nariz grande que lhe incomoda, não é de se estranhar que o mundo vai girar ao redor daquele nariz: todos os comentários, os dedos levantados, os risos, as gracinhas em surdina; tudo convergirá para ele. Eu mesma vivenciei isso de uma maneira muito vívida (e traumática) entre meus 12-15 anos, quando era obrigada a usar um sutiã número 48.
Mas quem sou eu pra dizer que não tenho meus pontos frágeis? Quantas vezes me deparei com coisas para mim desconcertantes que costumam passar completamente imperceptíveis aos olhos da maioria das pessoas?

O universo numa cabeça de alfinete
É muito raro eu sair para baladas gays com amigos gays apenas, coisa que fazia bastante, anos atrás. Mas de vez em quando eu saio, nem que seja para lembrar a razão de ter desanimado.

Outro dia acompanhei uma amiga minha num passeio noturno com um grupo de garotas, todas elas lésbicas. Passamos a noite entre baladas e conversa de bar. Por mais que eu aprecie a vida noturna, houve algo a respeito daquelas pessoas que me deu coceira, incomodou – e vem me incomodando há muito tempo: a mentalidade de gueto.
O único fator de união daquela multidão na virada da madrugada é a orientação sexual, e ao redor dela orbita praticamente toda a conversa, as piadas, as reclamações e, claro, a paquera. Um universo hermético, asfixiante, alienado.
Não há dúvidas que o gueto conseguiu se impor. Ninguém nega que a população homossexual tem hoje um lugar no mundo. Tornou-se um país virtual, sem território definido, mas com bandeira, hino e um senso de pertencimento pra torcida organizada nenhuma botar defeito. Qual é o erro? O erro é que esse país fica no armário da humanidade. Foi uma forma de se criar um ambiente seguro quando lá fora impera um clima hostil. Mas perde-se muito, porque é um lugar minúsculo de se viver. É algo que eu me recuso veementemente a adotar.
Preferia que esse país semirreal não existisse e que sua população estivesse dissolvida no todo, convivendo, levando a vida cada um ao seu modo, na paz e na tolerância.
Mas aí volto àquela primeira pergunta: há esperança de vivermos em paz e com total liberdade?

h1

Dia internacional das mulheres e dos homens

março, 8 - 2009

Meu desejo é que sexo e gênero não fossem detalhes tão relevantes na vida das pessoas. Ser mulher não deveria ser fardo nem privilégio. Não quero ser paparicada, protegida nem favorecida por ser mulher; acho estranho quando me dão parabéns por algo que não dependeu exatamente do meu esforço.

Compreendo a razão funcional de ter um dia na agenda para dizer ao mundo que as coisas estão mudando e que ainda resta uma muralha a pôr abaixo. Entendo. E por entender, me descontento, pois sei que vou gostar mais do dia internacional da mulher quando ele se tornar desnecessário.

E por cogitar na igualdade de direitos, gostaria de expressar também o quanto me agradaria viver em um mundo com igualdade de deveres, pois acredito firmemente que direitos e deveres são recíprocos. Sem lorota paternalista.

Não entendo por que neste país as mulheres têm o direito de se aposentar 5 anos mais cedo que os homens considerando que vivem mais.

Não entendo como a elas é dada uma licença maternidade de 6 meses e a eles uma licença paternidade de 5 dias, e ainda se acredita por ideal que pai e mãe devem dividir equitativamente a responsabilidade sobre os filhos e que os empregadores não devem discriminar as mulheres em idade reprodutiva.

Sou contra o serviço militar obrigatório e não simpatizo nem um pouco com as forças armadas, mas se ele existe, por que não para todos?

Não sonho com uma igualdade forçada, quero antes uma igualdade honesta. Muitos vão me dizer que é utopia. Estou pronta para ouvir e cansada de saber.

Falar é importante, alivia a tensão. Trabalhar é difícil, exige muito suor, jogo de cintura, coragem, atitude. E o que eu queria dizer a vocês, meninas, é:

Trabalhem! Não para os exploradores, não sem causa, não por qualquer salário. Mas trabalhem. Trabalhem por vocês, por suas famílias, por aquilo que amam e que acreditam. A maior parte das coisas que se pode querer honestamente – sejam elas materiais ou não – só são possíveis pelo trabalho. O resto são detalhes.

h1

Do the evolution, baby!

fevereiro, 13 - 2009

“I’m ahead, I’m a man
Im the first mammal to wear pants,
I’m at peace with my lust
I can kill cause in God I trust,
It’s evolution, baby!”

                                                 (Pearl Jam)

darwin

Lembro daquele dia, quando eu tinha 6 anos, em que peguei um peixinho no lago e saí correndo feliz da vida para mostrar às pessoas. Disseram que não era bem um peixe, era um girino, filho de algum sapo desnaturado. Mas como? Como assim? Fiquei abismada em saber que uma coisinha tão bonitinha e nadante estava destinada a se tornar um bicho feio melequento. Queria tirar a prova e ninguém me demoveu da ideia: levei o girino pra casa, iria observar o seu desenvolvimento. Coloquei-o num baldinho de água de água limpa e devidamente clorada da torneira, acho que devo ter colocado umas plantinhas arrancadas do jardim para ele se esconder. Tentei alimentá-lo com pedacinhos de pão, sucrilhos, bife… mas ele recusava e eu não sabia direito o que os girinos comiam. Ao fim de dois dias, com muito pesar, tive que comunicar meus pais que ele havia falecido.  Mas a metamorfose, depois vim a saber,  não era de mentira. Que coisa incrível, uma criatura virando outra completamente diferente!

Um dia vieram os lagartos, imensos, de cem toneladas e rugido ensurdecedor. Invadiram os cinemas, as bancas de jornais, as lojas de brinquedos… Vieram em forma de epidemia, não me pouparam: contraí dinomania severa. Desenvolvi um estranho frenesi por qualquer espécie de material relacionado a paleontologia, cheguei a ser mais íntima dos paquicefalossauros do que dos camelos do simba safári. Acreditar em dinossauros era diferente de acreditar em fadas, em papai-noel, em mula-sem-cabeça. Eles existiram! E evidentemente não existiam mais. Quando virava as páginas finais do período cretáceo surgia um sentimento muito parecido com indignação. Uma sensação de perda. Houve aqui criaturas extraordinárias que ninguém jamais saberá como foram na realidade, que cores tinham, como se movimentavam, como se comportavam? Sangue quente ou sangue frio? E os ambientes em que viveram, como se pareciam?

Calculando a perda definitiva de todos esses detalhes que nem um milhão de ossadas poderão reconstituir, comecei a compreender o quanto é dinâmico o ciclo da vida na Terra.  Talvez por essa razão eu tenha abraçado a teoria da evolução sem titubear: ela foi mais um brinquedo no meu berço. Muito lógica, muito óbvia: podia ser doloroso pensar em algumas das suas implicações, mas a ideia geral fazia com que eu me sentisse em casa.

Sei que foi estranho crescer e perceber que algumas pessoas não eram capazes de absorvê-la tão facilmente. Mais estranho ainda perceber que havia gente muito mais crescida metida em guerras ideológicas por causa da mesma. Tive que considerar que há pessoas que mamam na religião como eu mamei na ciência – coisa que veio do berço, da criação, da teimosia, whatever

Nunca me incomodou muito, para dizer a verdade. Uma vez dentro de uma universidade científica, cursando uma faculdade voltada à pesquisa em biológicas, o criacionismo ficou reduzido a uma curiosidade muito, muito distante, trancada do lado de fora da nossa rotina cheia de relatórios. O conceito de evolução não era um simples tijolo, mas uma viga de aço fundamentando toda a biologia que aprendemos.  Lembro de ter assistido a seminários maravilhosos com pesquisadores em busca das origens bioquímicas da primeira célula. Lembro de ter ficado chocada quando meu professor de neurofisiologia, Luís Eugênio Mello, comentou que nos Estados Unidos ainda existem pesquisadores que vão a congressos científicos defendendo o criacionismo.

Pois há um fenômeno pitoresco que acomete os americanos – ele disse. Nos EUA existe um grande número de universidades de fundação religiosa, sobretudo protestante, e contrárias à teoria da evolução. Desse modo, os EUA foram durante muito tempo um solo acadêmico não exatamente estéril, mas difícil para germinar pesquisas evolucionistas. Não é de estranhar que alguns dos principais estudiosos da área sejam da terra natal de Darwin, só para citar Richard Dawkins.

Uma crítica ao modelo evolucionista é que ele tem falhas, há quem diga que Darwin não conseguiu explicar o mundo natural com perfeição. É claro que não. Na época de Darwin a biologia não passava de um rascunho de ciência, não se conhecia praticamente nada sobre os processos estruturais, bioquímicos e biofísicos que constituem a vida. A própria teoria celular surgiu nesse tempo, e ainda nem se sonhava com a genética (só para ter uma ideia, as descobertas de Mendel sobre a hereditariedade só foram publicadas 7 anos depois da Origem das Espécies de Darwin e ficaram no anonimato até que fossem redescobertas em 1900). Isso apenas torna mais meritória a teoria de Darwin: ele não tinha conhecimentos que sustentassem suas ideias, não dispunha de tradição científica nenhuma para se basear, não havia gigantes ofertando-lhe os ombros para que ele enxergasse longe; todas as observações ele fez sozinho enquanto viajava o mundo a bordo do Beagle, e a gestação da teoria não levaria menos que 20 anos.

Imagino qual seria a reação de Darwin perante os projetos genoma que estão desenhando nossa árvore genética rumo à ancestralidade comum; e quando soubesse do mecanismo das mutações, que atuam “turbinando” a seleção natural; ou das descobertas arqueológicas do último século, que tem nos aproximado cada vez mais do elo perdido entre o homem e seu parente mais próximo. Essas são notícias que eu adoraria dar. Se hoje pudesse tapear um século e meio, visitaria Charles Darwin com minha maleta repleta de novidades. Falaria dos mecanismos que ele mesmo ignorava, levaria recortes de jornal para mostrar como sua encrenca se perpetua através dos séculos, como sua teoria virou bandeira de militância ateísta, e sobretudo: evidências como o mundo foi forçado a mudar e se curvar à sua descoberta.

Acredito que o embate da evolução com a religião não esteja fundamentado nas origens da vida, mas no seu significado presente, neste antropocentrismo vicioso: NÓS, A HUMANIDADE, os diletos de Deus, a razão do universo, o centro de todas as coisas, de repente sabotados pela nossa própria inteligência a nos provar que a Terra não é plana, também não é o centro do universo, nem sequer do sistema solar;  que as nossas fontes de riqueza são finitas; que somos primos do macaco e aparentados de todos os seres vivos por um ancestral comum; que talvez não estejamos sozinhos no universo, porém continuaremos isolados; que nossa vida pode surgir dentro de uma proveta… e o que virá depois? Uma prova de que não existe Deus? De que não existe vida depois da morte? De que não há paraíso? De que a humanidade é vulnerável no caos? De que daqui milhões de anos as criaturas que habitarão o mundo serão totalmente diferentes do que somos e todo nosso delírio de grandeza estará enterrado sob mil camadas sedimentares virando petróleo?

Mas e se essa for a verdade, por quanto tempo vamos varrê-la para baixo do tapete até admitir que não há outra escolha senão pôr um fim à nossa longa infância?

Se Darwin não tivesse nos legado a teoria da evolução – que viria à tona, mais cedo ou mais tarde – hoje o mundo seria muito diferente (e nada interessante, creio eu). O terremoto, a polêmica, o cisma – dos quais ainda hoje sentimos os ecos – foram libertadores simplesmente porque puseram abaixo o absolutismo dos dogmas. Negar as sagradas escrituras seria negar a divindade dos homens que a escreveram, recusar a nossa natureza divina para abraçar o parentesco com o macaco . É muito compreensível que algumas pessoas resistam à essa ideia.

A boa notícia é que se a humanidade sobreviver, virá a se tornar uma outra coisa um dia. E quem sabe essa pós-humanidade não esteja um pouco mais próxima desse ideal de perfeição tão humano que ousamos chamar de divino?