Posts Tagged ‘indignação’

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Mulher, chega de papo furado!

março, 9 - 2010

E se você veio me dizer “parabéns pelo dia internacional da mu…”

STOP!!

Cansei desse mesmo papo todo ano, cara. É sempre a mesma coisa: um estamos chegando lá que nunca chega, uma exaltação de quem encara a jornada dupla, trabalho, casa, crianças e ainda arruma tempo pra ir no cabelereiro, como se essa rotina enlouquecedora fosse linda e louvável!

Não quero elogios rasgados nem exaltações vazias! Quero trabalhar por um salário justo e receber cada centavo que investi em tempo de estudo. Eu, que não pretendo ter filhos, não quero ser discriminada na hora de procurar emprego, assombrada por uma licença maternidade espanta-patrão. Não quero ser reconhecida por enfrentar jornadas duplas e triplas, quero investir na carreira, ter um hobby, viajar, beber cerveja com as amigas e, se me der na telha, coçar nas horas vagas!

E quero andar na rua em segurança, sem ouvir gracinhas ao passar do caminhão. E não quero que governo, instituição religiosa ou a liga das senhoras católicas da pqp me digam o que fazer ou não com meu corpo, meu território!

Mas pra que isso não fique só na reclamação, proponho algumas soluções. E por que não pra já?

Quero ver no Brasil uma licença parental compartilhada, no qual pai e mãe têm o direito de decidir quem vai sair de licença remunerada para ficar com a criança após o período mínimo perinatal. Pois deixar uma mulher de licença maternidade durante 6 meses enquanto o pai tem direito a apenas 5 dias é descaradamente abandonar sobre ela toda a responsabilidade do cuidado dos filhos. Sem comentar o fato de que todas as mulheres terão de arcar com as desvantagens competitivas no trabalho consequentes desse “direito”.

Quero também uma lei que proíba a discriminação salarial das mulheres, exatamente como a Lilly Ledbetter Fair Pay, assinada por Barack Obama em 2009. Cansei de ver pesquisas daqui e dali dizendo que mulheres estudam mais, chefiam famílias, assumem jornada dupla e continuam ganhando menos, sempre menos. Caramba, DEMOROU para criar uma lei! Deputadas, senadoras, CADÊ VOCÊS?? ALÔ!!

E não venha me dizer que lindas as conquistas do século passado. Beleza, foi! Mas há muito, muito que fazer! Que tal se você também começar a dizer NÃO a essa lorota de mulher-maravilha que leva o mundo nas costas?

Ah, cansei! Chega de conversa, garota, tenho mais que trabalhar.

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Fé na humanidade?

janeiro, 30 - 2010

“É tarde demais para ser pessimista.”

HOME

Hoje, dia 30 de janeiro de 2010, declaro que perdi a fé na humanidade.

Não aconteceu nada extraordinário comigo ou com quem conheça, não testemunhei um assassinato, não assisti a nenhuma injustiça maior do que aquelas que acontecem todos os dias.

Foi só uma ficha, que, como é da natureza das fichas, às vezes resolve cair.

Tem caído um dilúvio na cidade onde moro. Os verões são chuvosos, mas não costumam ser o tempo inteiro. Adoro ver a lua nascer amarelada no horizonte, mas de anos pra cá ela às vezes surge vermelha. Estava me espreguiçando na praia onde passo as férias desde que nasci, quando me dei conta de que ainda em minha vida eu provavelmente a verei desaparecer. E como se não bastasse: talvez todas as praias desaparecerão. E algumas ilhas. E cidades. Alguns países.

Você não se preocupa até o momento em que vem a catástrofe e leva a sua casa. Somos péssimos para reagir a mudanças lentas e, infelizmente, muito adaptáveis. Digo infelizmente porque nossa adaptabilidade às vezes falha em nos impor freio, e continuamos seguindo com hábitos viciosos. Somos mais adaptáveis do que a grande maioria das espécies com as quais dividimos o mundo e esse não é um bom negócio.

Somos uma praga fora de controle, sem predador, sem barreiras geográficas. E o que acontece com as espécies que se reproduzem demais e esgotam os recursos do seu ambiente é algo que você pode conferir em qualquer livro escolar de ecologia. O problema é que se um dia a espécie humana provocar sua autoextinção é porque já terá feito o trabalho com todas as outras espécies com as quais coexistiu. Com exceção das baratas, talvez.

Mas não sou pessimista, nem catastrófica, muito menos teórica da conspiração. Não acho que a humanidade vá perecer por causa do aquecimento global. Vamos, sim, ter uma considerável redução populacional (o que acharia ótimo, não fosse pelas vias da catástrofe). Mas como ia dizendo, somos os diletos da evolução: amplamente adaptáveis. E em que mundo as próximas gerações terão que exercitar sua adaptabilidade, eu não faço ideia. Que espécie de planeta deserto, quente e estéril vai sobrar, não gosto de imaginar.

Dizem que temos uma década para fazer a revolução ambiental, dar a guinada para a sustentabilidade, alterar amplamente nossos modelos de extração, produção, distribuição e renovação, mudar radicalmente nossa economia energética. Isso nos dá a lista de tarefas mais longa da história, e nós, com os traseiros mais gordos de todos os séculos, teremos que fazer mágica para nos entendermos, negociarmos e revertermos nossa natureza depredatória num estalar de dedos (historicamente falando).

Por mais que se diga “é tarde demais para ser pessimista”, não sei por quê, tenho certeza de que essa utopia de mudanças não se realizará no curto prazo, e daqui 30, 50 anos estaremos assumidamente danados. Tenho 26 anos, mas parece que convivi tempo o suficiente com a espécie humana pra saber quão imbatível é nossa propensão à inércia e quão descuidados os nossos improvisos de última hora.

Acho que a besteira está feita. Pronto, falei.

Não sou,  nunca fui uma pessoa pessimista ou niilista. O pior é isso: não sou! Só que não acredito mais na humanidade. Não quero ter filhos, não pretendo levar isso adiante. Não vou ser hipócrita, não vou abdicar de confortos que o progresso me deu. Mas também estou me acostumando à ideia de não esperar mais nada.

* * *

HOME é um documentário de 1h 30 min sobre o aquecimento global que pode ser visto pelo Youtube. Tem imagens impressionantes, edição impecável e ótima didática. Infelizmente não encontrei nenhuma versão dublada ou legendada em português (se alguém achar, por gentileza poste nos comentários).

A pior maneira de ser cético é ser cético sobre um assunto absolutamente vital como este.

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Vou gritar

outubro, 29 - 2009

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No Brasil, dá-se aula sobre a cultura africana e logo vem um pai ou mãe evangélico reclamar que estão ensinando macumba para as crianças, ou que lhes dão obras demoníacas para ler, afinal, o que é Harry Potter senão incentivo à bruxaria? E Marina Silva, agora forte candidata à presidência, vem me dizer que o evolucionismo de Darwin é só mais uma teoria, que pode ser ensinada junto com o criacionismo nas escolas públicas. E então percebo o quanto tenho medo dos nossos políticos, porque são também o espelho do povo.

Saio de casa e em qualquer caixa de supermercado, balcão de loja ou mesa de concessionária encontro os dignos trabalhadores do meu país, que não raras vezes mal sabem fazer uma operação básica de matemática. Pego textos de universitários que sequer conhecem que existe uma pontuação na língua portuguesa. Lembro-me do dia em que fui ser fiscal do ENEM em uma escola pública, onde, numa sala de mais de 50 estudantes, consegui recolher apenas duas redações.Vejo nas salas da universidades alunos perguntando aos professores questões da alçada do ginásio – pelo qual passaram sem aprender o básico do básico. Uma população de analfabetos funcionais, gente com atitude completamente passiva frente à informação, bem adestrados pelos anos de condicionamento vegetativo em frente à televisão. Uma multidão universitária que paga cursos para ter um diploma sem exigir a qualidade, pois o que se paga lhe será dado; e assim o Brasil vira o eldorado dos bacharéis pseudoalfabetizados.

O que me assusta é que esses poderão ser os médicos que um dia irão me operar, ou os engenheiros que construirão castelos de carta e corredores de dominó, os professores que perpetuarão o ciclo de deseducação, e o pior: serão também os políticos!

Abro o jornal e as estatísticas estimam que os 10% melhores alunos das escolas brasileiras mal se podem comparar aos 10% piores das escolas finlandesas. De onde vem tanto descaso? Existirá uma cura para a ignorância institucionalizada? E agora, quem eu cobro? O que faço? Pra onde vou? Sento e choro?

Desculpa, mas é que a ignorância do meu povo me ofende! E se eu não gostasse do meu país, não estaria aqui engasgada, à beira dum grito. Hoje isso me subiu à cabeça e me mergulhou num inferno patriótico.

Vivemos numa Idade Média surreal, quando a ignorância coexiste com o estado-da-arte do conhecimento científico e tecnológico e nunca se teve tanto acesso à informação. Paradoxal? Pois penso que não é à toa que os pais daquelas crianças vêem demônios e bruxas nos livros dos filhos – eles não têm outra saída: vivem num mundo assombrado pelos demônios, onde a superstição ainda ampara mais do que a ciência ininteligível.

E como eu disse, isso me assusta, porque a realidade também me foge à compreensão. Tenho medo do que não entendo.

Desculpem, eu só estava precisando gritar.

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A estupidez e outras doenças incuráveis

setembro, 6 - 2009

A notícia correu a blogosfera ontem, e você pode conferir o resumo da tragédia no blog da Giulia Moon, da Martha Argel, do Bruno Cobbi, da Chris Sevla e em diversos sites de notícias como este e este.

Em síntese: Liz Marins e Kizzy Ysatis, dois colegas e artistas que admiro muito, foram espancados por seguranças na manhã de ontem na saída da balada A Loca. Liz ficou com hematomas. Kizzy teve que ser internado, ficou com o rosto desfigurado, perdeu dentes e teve traumatismo craniano – felizmente sem lesão cerebral.

Dizem que a briga começou por causa de uma comanda perdida, que Kizzy disse que pagou e o caixa insistiu que não.

Agora alguém me explique: como uma confusão por causa de comanda termina num espancamento brutal e uma pessoa gravemente ferida?

Como seguranças de uma balada, que deviam fazer a SEGURANÇA, terminam quase matando um cliente?

Kizzy já está bem, vai fazer exame de corpo de delito. Liz pretende processar A Loca.

Como eu disse, o Kizzy e a Liz são artistas admiráveis e pessoas do bem, não consigo sequer imaginá-los metidos em confusão. É inexplicável! Senão irônico, dois artistas da esfera do horror – um escritor e uma cineasta – assombrados por monstros reais, trogloditas noturnos incubidos da “segurança” das pessoas.

É de dar medo.

Manifesto aqui minha solidariedade à Liz e ao Kizzy e meu repúdio a esses animais que espancam primeiro e perguntam depois.

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Imortais de araque

setembro, 3 - 2009

 Já ouviu falar naquele livro: “Brasil, o país do oportunismo“?

 A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e 1 morto rotativo.

 Millôr Fernandes

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José Sarney

Ex-presidente da república (1985-1990), atual presidente do Senado Federal

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1980 (atualmente, o seu membro mais antigo). Também é membro da Academia Maranhense de Letras, da Academia Brasiliense de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa.

Livros publicados:

A Canção Inicial. Poesia. São Luís: Afluente, 1952.
Norte das Águas. Contos. São Paulo: Martins Editora, 1969. 2.ª ed. Com estudo de Josué Montello, Léo Gilson Ribeiro e Luci Teixeira. Rio de Janeiro: Artenova, 1980. 3.ª ed. Lisboa, Ed. Livros do Brasil, 1980. 4.ª ed. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1993. 5.ª ed. São Paulo: Ed. Siciliano, 2001. 6.ª ed. São Paulo: Ed. Siciliano, 2003.
Marimbondos de Fogo. Poesia. Rio de Janeiro: Artenova, 1978. 2.ª ed., Lisboa: Bertrand, 1986. 3.ª ed., Rio de Janeiro: Alhambra, 1987. 4.ª Ed. São Paulo: Siciliano, 2002.
10 Contos Escolhidos. Brasília: Editora Horizonte, 1985.
Brejal dos Guajas e Outras Histórias. Rio de Janeiro: Editora Alhambra, 1985.
O Dono do Mar. Romance. São Paulo: Siciliano, 1995. 2.ª a 11.ª edição. São Paulo: Ed. Siciliano, 1996 a 2005.
Sexta-feira, Folha. São Paulo: Siciliano, 1994.
A Onda Liberal na Hora da Verdade. São Paulo: Siciliano, 1999.
Saraminda. Romance. São Paulo: Siciliano, 2000. Edição fixada. São Paulo: Ed. Siciliano, 2005.
Saudades Mortas. Poesia. São Paulo: Editora ARX, 2002.
Canto de Página – Notas de um Brasileiro Atento.  São Paulo: Ed. ARX, 2002.
Crônicas do Brasil Contemporâneo. São Paulo: A Girafa, 2004. 2 vols.
Tempo de Pacotinha. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2004. (Coleção Austregésilo de Athayde, v.20)

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Marco Maciel

Vice-presidente da república no mandato de Fernando Henrique Cardoso (1994-1998)

Eleito em 1991 para a Academia Pernambucana de Letras e em 2003 para a Academia Brasileira de Letras (ocupando a cadeira que foi de Roberto Marinho).

Livros (?) publicados:

Vocação e Compromisso.
Importância da Educação para a Realização Democrática
. Brasília: s.n., 1983. (Ação Parlamentar)
Participação do Congresso na Política Externa. Brasília: s.n., 1983.
Importância do Mar e Presença na Antártica. Brasília: s.n., 1983. (Ação Parlamentar)
Subsídios para uma Política Cultural. Brasília; s.n., 1983. (Ação Parlamentar)
Grupos de Pressão e Lobby: Importância de Sua Regulamentação. Brasília: s.n., 1984. (Ação Parlamentar)
Democracia Racial e Lei Afonso Arinos. Brasília: s.n. 1984. (Ação Parlamentar)
Trabalho e Sindicalismo. Brasília: s.n., 1984. (Ação Parlamentar)
Movimento Estudantil e Reforma Universitária. Brasília: Ministério da Educação, 1985.
Educação e Constituinte. Brasília: Ministério da Educação, 1985.
Educação e Liberalismo. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987.
Liberalismo e Justiça Social. Brasília: Senado Federal, 1987.
Idéias Liberais e Realidade Brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989.
Missão da Universidade. Brasília: Senado Federal, 1990.
O Mar de 200 Milhas e o Desenvolvimento Nacional.
Nordeste: o Semi-Árido. Brasília: s.n. 1983. (Ação Parlamentar)
Um Conceito de Direito Internacional.
Letras & Política: posse na Academia Pernambucana de Letras. Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1992.
Presidencialismo: Por que Mudar? Brasília: Senado Federal, 1993.
Democracia e Brasilidade. Brasília: s.n., 1995.
Pacto pela Educação. Brasília: s.n., 1996.
O Poder Legislativo e os Partidos Políticos do Brasil.
Pobreza e Desigualdade. Brasília: s.n., [2000?]
Avanço Digital e Hiato Social.
A Integração Racial no Brasil.
O Brasil e o Desafio da Globalização.
Brasil: século XXI. Discurso de retorno ao Senado Federal, proferido em 26.03.2003. Brasília: Senado Federal, 2003.
Bicentenário da Independência. Brasília: Senado Federal, 2004.
Reformas e Governabilidade. Brasília: Senado Federal, 2004.
Escreve artigos para jornais e revistas nacionais, especialmente sobre questões institucionais e relativas às reformas políticas.

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Ivo Pitanguy

Cirurgião plástico

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1990.

Livros publicados: 

Mamaplastias. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1976.
Plastische Eingriffe and der Ohrmuschel. Stuttgart: Springer Thieme Verlag, 1976.
Aesthetic Surgery of the Head and Body. Heidelberg: Springer Thieme Verlag, 1981. Premiado como o melhor livro científico do ano, na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, 1981.
Plastic Operations of the Auricle. New York: Springer Thieme Verlag, 1982.
Les Chemins de la Beauté. Paris: Editions J.C. Lattés, 1983.
Paraty. São Paulo: Gráfica Editora Hamburg, 1983.
El Arte de la Belleza. Barcelona: Ediciones Grijalbo, 1984.
Le Vie della Belezza. Milão: Rizzoli Editore, 1984.
Direito à Beleza. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.
Angra dos Reis – Baía dos Reis Magos. São Paulo: Marprint Ind. Gráfica, 1986.
O Destino. Rio de Janeiro: Terceira Margem Editora, 1988.
Um Jeito de Ver o Rio. Texto de Ivo Pitanguy. Fotografias de Pedro Henrique. Projeto Gráfico de Ziraldo. Rio de Janeiro, 1991.
Atlas de Cirurgia Palpebral. Rio de Janeiro: Colina/Revinter, 1994.
Aprendendo com a Vida. São Paulo: Best Seller, 1993. Tradução italiana: Imparando con la vita. Milano, Mediamix, 1996.
Chirurgia Estetica – Estrategie Preoperatoria – Tecniche Chirurgiche. 2 vols. Torino: UTET, 1997.
Cirurgia Estetica – Estrategia Preoperatoria – Técnicas Quirurgicas – Cara y Cuerpo. Caracas: Actualidades Medico Odontológicas Latinoamerica, 1999.
Rhinoplasties. Em pareceria com Yves Saband e Frédéric Braccini. Nice, 2003.
Ivo Pitanguy. Organizado por Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Editora Rio, 2003. Coleção Gente.

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Fernando Collor de Mello

Ex-presidente da república (1990-1992), atual presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado Federal

Acaba de ser eleito para a Academia Alagoana de Letras

Livros publicados: nenhum.

Vou dormir tranquila hoje, a literatura brasileira está em boas mãos.

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A Globo e o Cidadão Kane

maio, 10 - 2009

Acabei de assistir pelo Google Videos a um documentário da BBC proibido no Brasil em 1993 sobre a hegemonia da Rede Globo na vida política, na cultura e no cotidiano dos brasileiros.

O documentário é um pouco datado (do começo da década de 90), mas curiosamente continua atualíssimo. Conta como uma das redes televisivas mais poderosas do mundo se formou e se instituiu através de uma escravização midiática com potencial de esculpir o consumo e o comportamento de uma nação. Apresenta em pormenores a longa relação das organizações Roberto Marinho com a ditadura militar, e também com os grandes senhores feudais da política brasileira – Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e Fernando Collor – e como ela ajudou a entroná-los através de uma abertura política nem tão democrática assim.

Participam desse documentário Chico Buarque, o publicitário Washington Olivetto, o antigo líder sindical e nosso atual presidente Lula e alguns ex-diretores e executivos da Globo demitidos ou aposentados do cargo.

Em conclusão, esse documentário me fez sentir um imenso alívio por viver nos tempos da internet, que nos trouxe a democracia da informação e a maravilhosa oportunidade de podermos simplesmente  ignorar o pão e circo diário das redes de televisão.

Embora o legado continue, o marajá das organizações Globo se foi de velho, bem como alguns de seus aliados políticos. Outros, no entanto, estão vivíssimos, um ocupando a presidência do senado (e uma cadeira de imortal na ABL!), outro – quem diria –  superou seu passado político e hoje ocupa a presidência da comissão de infra-estrutura do senado.

Que o cidadão Kane puxe seus pés de noite.

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Demita um político você também!

maio, 3 - 2009

Sei que estou aqui ralando loucamente para conseguir bancar minha passagem para a Austrália enquanto pago 40% de impostos sobre quase tudo para que meus representantes no congresso nacional viagem com a família de graça para Paris, Buenos Aires, Nova Iorque…

Tô com vontade de mandá-los todos para o Putaquiparistão, me ajuda?

espalhe

Vamos nos fazer o favor de não reeleger ninguém. Não sei se vai resolver, mas tenho certeza que tentar é mais barato do que repetir o erro.

Espalhe por aí!

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Já tomou sua pílula de consciência hoje?

março, 30 - 2009

Tire 21 minutos do seu dia para assistir a este vídeo:

(para a versão legendada, clique aqui)

Vi esse documentário, The Story of Stuff, no blog da Camila Fernandes e, sim, me abalou. Não é nada que nós não saibamos, mas estava faltando uma explicação mais didática, incisiva e abrangente para que fosse um tapa na cara de efeito.

Esse é o modelo de capitalismo que importamos dos doutores no assunto, portanto essa bronca também se aplica a nós. A crítica não é ao capitalismo como modelo político, mas sim ao motor do consumismo atrelado a ele. Hoje somos reféns (e também agentes) de um modelo econômico que está cozinhando o mundo em que habitamos. A questão nem é propriamente política ou econômica, mas de vergonha na cara, porque sabemos por intuição que as atitudes cabíveis só serão tomadas em regime de emergência, quando a coisa estiver feia, quente, suja e talvez irrecuperável.

Diante da crise econômica que marcou a virada de 2008/2009 qual é a medida desesperada que os governos estão tomando para fortalecer a economia? Estimular o consumo. Há até governo que tenha distribuído cheques à população para fazer compras e aquecer as vendas. A marca da saúde financeira do Brasil qual é? É a inclusão das classes D e E no mercado consumidor. A nossa força como nação hoje se reflete principalmente no nosso potencial de produzir, vender e comprar – a língua que o capitalismo internacional fala.

É muito difícil mudar o jeito como o mundo funciona, e uma certeza que temos é que mudá-lo é a única saída. Se você sentiu indignação, se os ombros pesaram com a sensação de impotência, saiba que não está sozinho. Se serve de consolo, talvez um milhão de indignados unidos consigam reciclar mais lixo e reduzir uma fração do dano.

Eu espero que esses fatos doam em você também. E que consigam nos arrancar da inércia.

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O Auto das Normas Divinas

março, 13 - 2009

 (e das coisas que não se deve questionar em vão)

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Muitas histórias contam aqueles que o conhecem. Dizem que quando os passos dele soam no corredor, é como se ecoassem através das catacumbas, o chão até estremece. Ao ouvi-lo se aproximar, as baratas se esgueiram por buracos estreitos, as aranhas se recolhem cautelosas para o vértice das teias, as lagartixas ficam tão pálidas que podem ser confundidas com a pintura das paredes e as formigas, coitadas, debandam num salve-se-quem-puder desesperado. Como um titã, ele vem. Um halo de pesar anuncia a sua chegada e perdura após a partida. O véu negro de sua autoridade se projeta contra as paredes brancas ao mesmo tempo em que um pesadume recai no cerne de todas as coisas: suam as testas dos santinhos de barro, agonizam as chamas das velas. As traças não ousam roer os mantos da sua batina (dizem que certa vez uma tentou e como resultado caiu morta em cinco minutos, vítima de convulsões terríveis!).
Ele passa e atrás dele vem a sombra. Atrás da sombra vem o silêncio.
A sensação que dá é que bem ali, no final do corredor, a qualquer momento irão se abrir os portais do limbo e entrar os cavaleiros do apocalipse, pois os passos de D. José Sardoso Cobrinho já prepararam o terreno para a sua chegada.
Você está tentando encará-lo nos olhos? Pois eu aviso: não o faça! Os olhos dele irradiam labaredas, mas dizem ser tão frios que por onde ele olha neva e nem o calor infernal de Olinda é capaz de aplacar os arrepios.
Falam dos mistérios que cercam a sua clausura. Ninguém nunca ousou entrar lá para conferir, mas dizem que a entrada é guardada por cinco bestas invisíveis – íncubos e súcubos aprisionados, adestrados e castrados. Veja, lá estão eles. Ao ouvir passos começam a ladrar e rosnar como loucos, fazem um escarcéu dos infernos que não é ouvido por ninguém, mas cujos ecos fazem os corações mortais se espremerem até caber em um dedal. A soleira da porta é o limite, dali ninguém ousa ultrapassar.
Ante as flamas nas órbitas de D. Sardoso, os íncubos grunhem e se espantam com os rabinhos entre as patas. Duas gárgulas de Notre Dame do Piratininga vigiam a cabeceira de sua cama. Uma costuma ser muito falante e boba, a outra é calada e esperta. Neste instante estão adormecidas, mas percebendo-o chegar, se endireitam e arrotam golfadas de fogo. Dom Sardoso entra. Em sua mão traz uma carta com a insígnia de Roma. Senta-se na cama sob o olhar curioso das gárgulas e com muita cerimônia abre o envelope do remetente papal.
É uma mensagem de apoio, assinada por ninguém mais que dom Ratzinger. Seus olhos brilham de emoção…

Por muito tempo ele esperou uma oportunidade tão oportunamente boa para provar ao mundo como é implacável a lei de Deus e infinita a sua bondade.
Todas as noites antes de dormir dom José Sardoso rezava três pai-nossos, três ave-marias, um salve rainha e um credo, pedia a proteção divina e já com as roupas de dormir livrava seus íncubos e súcubos da coleira para que saíssem pela noite a amedrontar as criancinhas que ainda estavam fora da cama e se apossar das mãos direitas daqueles que praticavam a luxúria na solidão de seus leitos. Quem sabe um destes pecadores não enlouqueceria o bastante para fazer algo muito, mas muito feio? Um pecado mortal desses que açulam a ira da opinião pública. Quanto pior o mal, mais brilha o bem; um criminoso convertido vale por dez virtuosos. Que propaganda maravilhosa o mal não faz para a diocese?
Pois num belo dia ensolarado, desses que não são nenhuma novidade no Recife, o jornal chega à mesinha de sua clausura com uma notícia bombástica:
– Um aborto! E de gêmeos!
Uma das gárgulas, ouvindo distraidamente os pensamentos do arcebispo, se engasga com o próprio enxofre: cof cof…
– Duma menina de 9 anos!… Violada pelo padrasto.
As flamas brilham nos olhos de dom Sardoso:
– Já sei! Vou excomungar todos os envolvidos – ele pega uma caneta e começa a anotar os nomes –, os médicos, vejam só, são católicos! Malandros! Hereges… Quem mais?
Animada com a novidade, a gárgula opina:
– As enfermeiras?
– Não, não sua anta!
– Err… a diretoria do hospital?
– Não. A mãe! A mãe da menina que autorizou esse pecado descomunal! – ruge o arcebispo.
– Ah.
Esboçando nos lábios o sorriso que Caim tinha para Abel no momento supremo, dom Sardoso anota mais um nome em sua listinha negra. A gárgula se intromete de novo:
– E o pai?
– O pai? Ah, o pai eu vejo depois.
– Não, quer dizer, o padrasto. O estuprador.
Nesse instante os íncubos e súcubos começam a latir freneticamente:
– Au au! Woof woof! (É isso aí – eles querem dizer – manda excomungar ele também!)
O arcebispo olha de soslaio para os demoniozinhos, durante um tempo muito curto, mas o suficiente para que chorem de arrependimento:
– Caim caim caim…
Depois de uma respiração com toda a profundidade da sua sabedoria, o arcebispo decide:
– Não. A lei canônica é clara: o aborto é um pecado gravíssimo e passível de excomunhão. O estupro é um pecado grave, mas nem se compara ao aborto!
A gárgula se entristece, seus olhos vermelhos em fenda ficam melancólicos:
– Mas, mas…
– Sem “mas”!
– Mas e a menina, excelência?
Emanando a lucidez que é marca registrada dos defensores da lei canônica, o arcebispo diz:
– Para dar uma amostra da infinita bondade de Deus e da nossa profundissíssima compaixão, a menina será poupada da excomunhão. O mesmo para o estuprador, para mostrar à essa corja de infiéis que a misericórdia de Deus é capaz de perdoar todas as faltas. – E depois de cinco segundos de um silêncio descontente ele arremata: – Menos o aborto, é claro. Essa é uma penalidade latae setentiae!**
“Oxe, fica tão chique dizer isso!”, ele pensou. (**Agora tente imaginá-lo falando latim com sotaque pernambucano).
A gárgula sorri comovida:
– Como o senhor é bom, excelência! Arretada essa sua decisão!

E assim foi feito. Dom José Sardoso Cobrinho excomungou os médicos que fizeram o aborto na menina e também a mãe. Não satisfeito, ele mandou informar devidamente os donos das almas perdidas e deu um jeitinho para que o fato chegasse aos ouvidos bisbilhoteiros dos jornalistas.
Foi um estouro! Virou manchete no país inteiro. Dom Sardoso até passou perfume para dar entrevista na tevê. E como um homem muito sério no cumprimento do dever ele explicou aos jornalistas a lei implacável de Deus:
– Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente.
Talvez tivesse se esquecido de que a menina também fosse inocente e que sua jovem vida corria risco de ser igualmente abortada. Mas os bebês assassinados, esses com certeza eram mais inocentes do que a menina.
Mas peraí, isso importa? Não, realmente.
Talvez passasse bem de leve na imaginação do arcebispo que a mãe da garota, a mulher excomungada, no instante em que foi atingida pelo raio dos fatos teria desejado cavar um buraco no chão e se enfiar ali para sempre. Talvez, durante fugazes momentos, inda passasse pela cabeça dele a imagem de uma menininha de 9 anos sustentando com seus 30 e poucos quilos uma gravidez de gêmeos adiantada, sem posição nem ânimo para brincar, a barriga avantajada raiada de estrias vermelhas e profundas, a pele sofrendo com a dor das distensões e com o peso; e a garota vergada, atrapalhada para se equilibrar levando consigo o resultado final de três anos de abusos do padrasto agüentados em silêncio para que ele não cumprisse com a ameaça de matar a sua mamãe, suportando os chutes e pontapés daquelas coisinhas inocentes que poderiam matá-la no final… Poderiam? Mas e se ela já estivesse morta por dentro?
Que nada. Besteira! Depois dos bebês nascerem ela nem se lembraria mais do estuprador. O amor maternal supera tudo, quer apostar quanto? É sempre assim, a Igreja está cheia de casos virtuosos para mostrar.
As mulheres fazem aquelas caras de sofredoras, mas nunca provaram ter vida inteligente. Alguma vez você ouviu uma mulher dizer coisa com coisa? A única mulher que dom Sardoso se lembrava de ter dito algo sensato foi a Virgem Maria, na anunciação: “eis aqui vossa serva, que seja feita a vossa vontade!”
Isso sim que era mulher!
As feministas iriam ficar enfurecidas com a decisão, o que é mais um belo motivo para comemorar, o arcebispo precisava até se segurar para não dar pulinhos de triunfo. Já pensava até no bordão: “estupra, mas não aborta!”
Não teria pena da menina, não. Quando ele era pequeno não tinha essa coisa de ficar passando a mão na cabeça do pirralho. Se fizesse algo errado, levava uma chinelada; se fizesse certo, levava duas. Quando foi para o seminário não havia moleza, não! Ao menor deslize os padres faziam estalar a vara de marmelo nos fundilhos dos noviços. Graças a Deus e à ortodoxia das varadas hoje dom José Sardoso é um arcebispo cabra-macho. Pra ele não existe essa frescura de meias palavras, de “força da necessidade”; de “interpretação da palavra divina”. Se tá escrito, tá escrito, pombas!

Mas na finalmência dos finalmentes, a mais verdadeira verdade é que dom Sardoso não estava preocupado com os bebês abortados, a menina ou as críticas. Ele estava mesmo adorando dar entrevistas! A todo momento choviam ligações, cartas, mensagens de apoio do país inteiro e também do estrangeiro; e ele nunca tinha recebido tanta atenção na vida, nem antes nem depois dos votos. Sentia uma massagem tão grande no ego quando lhe diziam que ele tinha razão! Dava até arrepio…
Ficar famoso não tem preço. Todas as outras coisas a fé pode comprar.
Pois não é fácil essa vida de representante das repartições celestiais na Terra, sabe? A menos que você seja um padre galã e carismático como aquele Marcelo Rossi, geralmente é uma vida bastante anônima e solitária, tão franciscana e tediosa… Mas agora ele lavou a honra da Igreja, é o vingador de Deus e das criancinhas não nascidas. Pois se os homens são o sal da terra, as crianças são o mel. “Deixai vir a mim os pequeninos”, e se eles não vierem, nós iremos até eles. Os homens de Deus têm o dever supremo de defender todas as crianças; as perfeitas, as anencéfalas, as retardadas… Crianças são luz, crianças são calor, crianças relaxam a gente.
Dom José Sardoso nunca esteve com a consciência tão limpa. Seguira metodicamente cada regra da cartilha, suspeitava até que seria canonizado. Um dia vai acabar surgindo um papa que reconhecerá a grandiosidade de seu caráter. Mas esse é um sonho secreto que o arcebispo guarda a sete chaves, afinal, ele é um homem infinitamente humilde. Tão humilde que quando morrer irá diretamente ao encontro de São Pedro nos portais do paraíso. E se por acaso o guardião quiser discutir a sua entrada, ele dirá: “por obséquio, Seu Pedro, vá lá na minha escrivaninha, veja os meus despachos, as minhas obras de caridade, a minha vigilância irretocável pela sagrada lei de Deus. Veja que não faltou uma refeição sem que eu rezasse o padre-nosso, todas as minhas missas estão em dia, todas as minhas confissões (os meus poucos pecados perdoados), todos os sacramentos que ministrei e que me foram ministrados, todos os perigos que afastei e os fiéis que acolhi…” E depois de mostrar a São Pedro o seu virtuoso bolo de papéis, o santo não teria outra alternativa senão carimbar o seu passaporte de entrada no paraíso com validade para todo o sempre.

Mas antes que termine de se elevar em hosanas nas alturas, dom José Sardoso Cobrinho desperta e atina novamente na carta vinda do Vaticano manifestando apoio irrestrito à sua decisão.
O apoio do papa!
O papa é infalível. Se Vossa Santidade o apóia, isso quer dizer que ele não está errado.
– Mas e se vossa excelência, por acaso, por uma ligeira possibilidade, tiver sido cruel com a menininha? – a gárgula tagarela, que ouviu todos os seus pensamentos secretos, pergunta.
O arcebispo cruza olhares com a gárgula estraga-prazeres e de imediato ela esbugalha as órbitas vermelhas como se uma força interna estivesse prestes a explodi-la. Comeaça a tremer incontrolavelmente e, em dois segundos, se espatifa em um milhão de caquinhos de mármore imaginário que se espalham pelo chão de toda a clausura beijando os pés de dom José Sardoso.
– Ainda que eu pudesse estar errado, Deus a tudo perdoa, não é mesmo? – responde docemente com aquele mesmo sorriso fraterno de Caim. – Perdoa tudo, menos o aborto.
O arcebispo está nas nuvens. Ele adora ter razão, ter razão é cristalino e puro! Mostra a assinatura do papa para a gárgula que restou (a esperta, a que fica quieta). Ela se espanta e abaixa os chifres em respeito. Os íncubos e súcubos de estimação abaixam as cabeças e lambem as patinhas, até as bestas medievais mais tapadas reconhecem o valor da autoridade. E com a glória fluindo nas veias, dom José Sardoso vai até a janela espiar as ladeiras da cidade velha, sentindo uma vaga nostalgia dos tempos em que ali crepitavam as fogueiras, o calor da justiça, a chama da ordem… Quando os homens vão aprender que não devem questionar a autoridade do único Ser inquestionável? Chegou a pensar que nascera nos tempos errados, agora sabe que não. Sua missão se revelou: será o redentor dos séculos. E de braços abertos, crucificado na luz do sol causticante frente o parapeito da janela ele sonha com os dias em que a utopia católica se tornará realidade e o mundo será um imenso rebanho de ovelhas dóceis, penitentes, na rígida observância da lei canônica; e nesse mundo – ele sabe – não haverá abortos nem revoltas, não existirá células tronco nem querelas heréticas. Tudo será comunhão, serão olhos aos céus e oferendas ao altar, serão joelhos no chão, mentes imaculadas, consciências limpas e cabeças vazias livres de todo o mal, amém.

* * *

Se liga, pastel, este é um texto de ficção. Antes de querer acusar alguém por difamação, saiba que há certos tipos de vilão que só existem nos contos de fadas e que há certos monstros invejosos dos primeiros que rastejam pelo mundo real fantasiados de gente e que de vez em quando merecem levar um tapa na cara. Toda e qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência, como você está cansado de saber.

* * *

Sobre a autora:
Cristina Lasaitis não tem medo da excomunhão. Como toda mulher emancipada, tem máquina de lavar roupas em casa, aspirador de pó e forno microondas. Não toma anticoncepcional e não planeja fazer nenhum aborto (é lésbica, se isso explica). De vez em quando sofre delírios de lucidez e finge ter um esboço primitivo de inteligência. Fica injuriada com coisas sem sentido, tem surtos emocionais às escondidas e rompantes maternais por crianças injustiçadas. É um caso perdido.

* * *

Quer chorar? Leia essa matéria da Miriam Leitão (ela mesma) sobre o caso que deu o que falar. Economistas também têm coração.
E também o lindo texto da Luciana Muniz.

* * *

Agora chega. Tô passada. Esgotada. Arrasada. Acabei de ler Hamlet e chorei um rio de pitangas. Preciso de oblívio. Vou virar a página e voltar para a minha tese, quero algo bem científico, frio e impessoal, de preferência com muitos números e fórmulas estatísticas. Juro que não dou mais um piu sobre o assunto.
Tchau, fui.

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Excomunhão delivery

março, 12 - 2009

E o sucesso de dom José Cardodo e seus inquisidores amestrados não parou por aí! O portal de direitos humanos Em Dia Com a Cidadania iniciou a campanha Então Me Excomungue, que está recolhendo assinaturas de católicos (praticantes ou não) revoltados com a conduta do arcebispo no caso da menina estuprada e que em solidariedade aos excomungados estão pedindo sua própria excomunhão sem nenhuma dor na consciência. Para participar do abaixo-assinado é só mandar uma mensagem com nome e e-mail para: entaomeexcomungue@gmail.com , o documento será enviado à CNBB.

 Eu não vou assinar porque no meu santo caso nem faz sentido. Só sei que quando terminar essa confusão toda eu vou muito escrever uma comediazinha gilvicentina!

Agora dá licença, vou até ali comprar uma lavarroupas.
(quem não entendeu essa, clique aqui).
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Boicote ao Santo Ofício

março, 7 - 2009

Todos aqui estão sabendo da notícia, não pretendo me alongar demais.

O caso é que uma menina de 9 anos vinha há três aturando em silêncio os abusos do padrasto. Uma gravidez de gêmeos coroou a desgraça dessa garota ao mesmo tempo em que trouxe à tona o fato e permitiu a prisão do estuprador. Como a lei assegura o direito de aborto em casos de estupro e em que há risco para a vida da mãe, a família teve o amparo legal para proceder com a interrupção da gravidez, tentando salvar não apenas a vida da menina, mas resguardá-la da continuidade de um grande sofrimento psicológico.

E aí entra em cena dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de qualquer coisa, anunciando a excomunhão dos médicos que realizaram o aborto, da vítima e de sua mãe. “Pois o aborto é um pecado capital de acordo com a lei canônica, passível de excomunhão” – explicou dom José Cardoso – “já o estupro é um pecado gravíssimo, mas não é merecedor da mesma punição, pois muito pior que o estupro é o aborto“.

Em nota, o Vaticano apoiou o devido proceder do arcebispo de acordo com a “lei de Deus”.

Nesses últimos dias em que tem feito mais calor em São Paulo do que no Tártaro acompanhei junto com o Brasil inteiro essas notícias, ora lamentando, ora achando graça nessa história digníssima de um auto de Gil Vicente (será que tem ar condicionado na Barca do Inferno?), literalmente rindo pra não chorar.

Mas passado o sarcasmo, percebo que o caso da menina me abalou mais do que eu esperava. Transtorno, revolta, indignação… a gente sempre procura uma compensação para aquilo que nos ofende. E no caso de uma criança – uma menina – o poder de personalização é fortíssimo, o que nos comove mais do que um choro de criança? Mesmo para aquelas pessoas que não são loucas por crianças, como é o meu caso. Eu sei como é foda ter uma menarca precoce, já foi trauma o bastante para minha infância. Não deixo de me colocar na pele dela: e se fosse eu aquela menina de nove anos?

Esse poder de abstração, de empatia, de se colocar na pele de outra pessoa para tomar uma medida direta do seu sofrimento – aquilo que a psicologia chama de teoria da mente – é certamente um dom que faltou ao dom José Cardoso. Ele provavelmente não se deu ao trabalho de se incorporar numa menininha de 9 anos violentada pelo padrasto e pela justiça às avessas do catolicismo, esse homem se mostra mais incapaz de se comover do que um chimpanzé.

Não sei onde o arcebispo foi encontrar a lei que prevê a excomunhão de todas as pessoas envolvidas no caso (menos do estuprador, claro), suspeito que foi no Malleus Maleficarum. Ainda bem que não estamos mais na época das fogueiras, ou sinto que haveria churrascada em praça pública lá no Recife.

Agora sem ironias nem sarcasmo, faço deste um desabafo do fundo da alma: a Igreja Católica nunca me ajudou a ter fé em Deus, ao contrário, cada vez mais me faz perder a fé na humanidade. E isso não tem nada a ver com Deus, aquele ser supremo tão distante e distorcido pela visão dos homens, isso tem a ver com o templo da hipocrisia que nos legou a idade das trevas, que usurpou o conhecimento e atrasou o desenvolvimento das ciências, que incitou tantos holocaustos quanto aqueles que imputa a outras ditaduras históricas, e que continua com o seu trabalho de distorcer o conceito de amor, de sabotar a felicidade daqueles que não se enquadram na sua cartilha moral, e que prossegue rígida e incólume pelos séculos, cristalizada em uma hierarquia excludente, burocrática e tremendamente mesquinha.

Igreja, pra mim, nem pintada de ouro. Os católicos me perdoem, eu acredito que esta instituição política (sim, pois é isto que ela é) é um desrespeito a todos aqueles que mantêm uma fé sincera e que são adeptos do amor ao próximo e do bom senso.

O Brasil continua sendo um país católico, não sei até quando.

Para mim, basta.

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Notícias do país das bananas

fevereiro, 14 - 2009

Verba para ciência sofre redução de 18% em 2009

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, classificou como irresponsável o corte de 18% no orçamento da sua pasta, aprovado pelo Congresso Nacional para 2009, e admitiu que, se a situação não se reverter, “bolsistas terão de ser mandados embora”.

A peça orçamentária foi feita pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS). “O relator demonstrou falta de responsabilidade, de compromisso, com o futuro do Brasil”, afirmou Rezende à Folha ontem.

Rezende diz que o corte no orçamento é irresponsável; caso a situação não seja revertida, bolsistas terão de ser mandados embora.

O corte de R$ 1,1 bilhão representa um valor 10% maior do que toda a receita de 2008 da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a agência estadual de fomento à pesquisa mais rica do país, que sustenta quase toda a ciência paulista.

Apesar de dizer que existem “incertezas” sobre o futuro, o ministro afirma que tentará resolver a questão das bolsas dentro do Executivo. “Acharemos uma saída e isso [a perda do benefício] não vai ocorrer.”

O corte no orçamento recebeu críticas duras da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e da ABC (Academia Brasileira de Ciências). Os presidentes das duas instituições consideram a situação “extremamente grave” e dizem que, se os recursos forem realmente cortados, a política científica nacional ficará “desanimadora”.

Para Jacob Palis Jr, da ABC, esse corte seria como “dar um tiro no pé”. Ele demonstrou seu ponto de vista com o exemplo dos Estados Unidos: “No meio da maior crise que o país já teve, o presidente [Barack Obama] convocou grandes líderes científicos para participarem do governo e se comprometeu com o aumento dos investimentos no setor”, disse. “[Fazer cortes em ciência] é uma política de suicídio. A maneira de sair da crise é ser competitivo”, disse Palis.

Marco Antonio Raupp, da SBPC, concorda que investir em ciência e tecnologia é uma saída para a crise financeira e manifesta preocupação com a redução de recursos. Ele conta que “o Orçamento saiu do Executivo muito bem”. “Mas, no Congresso, de uma forma que a gente não entendeu direito, teve cortes significativos. Tudo isso nos pareceu arbitrário, uma aberração”, disse.

O ministério também foi pego de surpresa. “Tomamos conhecimento da proposta do relator na véspera da votação [em dezembro]”, disse Rezende.

“O governo, e o presidente Lula reafirmou isso, tinha a ideia de chegar ao fim de 2010 com 1,5% do PIB em investimentos de Ciência e Tecnologia. Atualmente, investimos na casa de 1%. Então, o aumento deveria ser de 50%. Esses cortes vão na contramão, evidentemente”, afirmou Palis.

Segundo ele, o prejuízo às bolsas de estudo é “um crime”. Em 2007, o país chegou a produzir 10 mil doutores. E a previsão para 2009 era de produzir 11,5 mil doutores. “Talvez isso não aconteça se esses cortes prevalecerem.”

Além das bolsas, os presidentes temem que os cortes afetem os recém-criados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia –fato que Rezende rebate– e que eles travem o sistema de inovação no País. Esse programa, que cria centros de excelência em pesquisa no país, foi anunciado com pompa e circunstância pelo ministério no fim do ano passado.

Para os dirigentes científicos, o novo orçamento também pode prejudicar a tentativa de manter bons pesquisadores na Amazônia e atrair novos cientistas para a região.

* * *

Engraçado, eu não lembro de ter visto algum corte nos impostos que pago. Alguém aí sentiu que está pagando menos?

Sei que no Brasil a profissão de pesquisador é uma das mais ingratas. A “profissão” não tem regulamentação, a grande maioria dos pesquisadores trabalha sem carteira assinada ou vínculo empregatício, como meros professores visitantes ou adjuntos nas universidades públicas do país. Não há benefícios, 13º, licença maternidade ou aposentadoria. Não raro, a verba sequer é suficiente para manter os gastos de manutenção do laboratório, o “salário” dura enquanto durar a bolsa pesquisa, e a cada ciclo de aproximadamente quatro anos o profissional fica na dependência de uma renovação do auxílio junto às instituições de fomento, que têm poder total para decidir sobre a continuidade do projeto de pesquisa.

Tem dúvida de qual é o sentimento das pessoas que trabalham hoje com pesquisa científica no Brasil? O tamanho da desilusão de profissionais recém-formados que ainda têm expectativas quanto a um mestrado ou doutorado?

Mais do que nunca vê-se a opção de ir trabalhar no exterior como a única saída. O pior é que eu sei que na próxima eleição os candidatos à presidência (alô, Dilma?)  ainda vão fazer discurso denunciando a vergonha da fuga dos cérebros.

Cortar investimento em ciência é vergonhoso para um país emergente que diz ter sérias pretensões de ser alguma coisa na nova ordem mundial. O que há em comum entre as novas potências (inclusive China e Coréia do Sul) é a produção de ciência e tecnologia que depois venderão aos pobres burros que não têm condições de investir e por isso pagam muito mais caro para importar.

Meu sentimento no momento é: excelentíssimo senador Delcídio Amaral, uma banana trangênica pra você!!