Posts Tagged ‘literatura’

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2001, uma odisseia, uma viagem

abril, 19 - 2014

Publico aqui uma breve monografia que fiz como trabalho para a disciplina de Design Editorial, do curso de editoração da ECA-USP. A proposta era discutir o conceito e a materialidade nas publicações. Escolhi um projeto gráfico que me chamou bastante atenção: a nova publicação que a editora Aleph fez de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que é também uma dos meus romances preferidos do Arthur C. Clarke. Creio que esse exercício pode ser encarado como uma resenha diferente, centrada no nível semântico e do design. Ou talvez só mais uma viagem minha mesmo.

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2001: Uma Odisseia no Espaço – A repaginação de um clássico

Em seu prefácio para a edição mais recente de A Mão Esquerda da Escuridão, Ursula K. Le Guin disserta: “o objetivo do experimento mental (…) não é prever o futuro – mas sim descrever a realidade, o mundo atual”, em outras palavras: escrever ficção científica é um exercício extrapolativo sobre o aqui e o agora, não é futurologia. Assim é que as datas terminais citadas nas opera magna dos escritores de ficção científica estão fadadas a serem atropeladas pela linha do tempo sem que a metáfora de seus universos se perca. Depreendemos que 1984 de George Orwell continua atual, apesar do ano de 1984 ter-se ido do calendário há três décadas, e, do mesmo modo, passamos pelo ano de 2001 sem termos vivido uma “odisseia no espaço” (aliás, continuamos muito defasados na tecnologia astronáutica para sonhar com as viagens narradas na obra de Clarke). O livro 1984 de George Orwell foi escrito no ano de 1948, sendo que o autor escolheu esse título por guardar relação de anagrama com seu próprio tempo, projetando o universo ficcional de 1984 para um não lugar – em grego, utopos, raiz etimológica de “utopia”, – que por não ser idealizado como a Utopia de Thomas More, tornou-se o não lugar problemático: uma distopia. A data futura de 1984 não guardava, portanto, relação com o futuro cronológico, mas construía a metáfora de uma realidade alternativa e plausível, um campo para experimentar e dissecar as mazelas presentes no zeitgeist do 1948 em que Orwell viveu.

O livro 2001: Uma Odisseia no Espaço de Arthur C. Clarke é sui generis nessa proposta. Enquanto obra literária foi precedida pelo filme de 1968 do diretor Stanley Kubrick, do qual Clarke foi o roteirista. Concebida primeiramente para o cinema, tinha o objetivo de contar uma história que retratasse um futuro plausível. Não era um exercício de adivinhação sobre como o ano de 2001 seria, mas um exercício extrapolativo sobre como a revolução tecnológica pode transformar o cotidiano da humanidade, e, nesses termos, ele projeta o olhar para um futuro cronológico em que os anseios por avanço técnico foram traduzidos em conquistas. O 2001 de Clarke é o não lugar (utopia) do maravilhamento científico, e no seu esforço havia um significado futurológico verdadeiro: de que nos anos vindouros estaríamos mais imersos nesse maravilhamento e mais mudados pela revolução técnica e científica. Talvez possamos afirmar que a metáfora de 2001 seja menos metafórica do que a de 1984.

Não obstante, de certo modo, podemos dizer que essas obras encerram um “futuro” que o passado pretendia, e chamar suas estéticas de paleofuturismo. Enquanto metáforas literárias, 1984 e 2001: Uma Odisseia no Espaço tornaram-se clássicos.

Faço esta longa introdução para dissertar sobre a missão editorial de manter, na forma, a atualidade de obras que, em conteúdo, serão sempre atuais. Fazendo um trocadilho com o título do livro de Janet H. Murray: nos novos tempos consumiremos Hamlet no holodeck. Como dar cara nova às obras eternas?

Elegi para objeto deste breve exame um desses dois clássicos da ficção científica, o livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, que ganhou nova edição no final do ano de 2013 por uma editora que se demonstra ciosa do conceito e da materialidade dos seus produtos, a editora Aleph.

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Em formato 16cm x 23cm, o livro é apresentado dentro de uma luva: uma caixa inteiramente preta, com um “2001” grafado em fonte branca ocupando toda a largura, o restante do título “Uma Odisseia no Espaço” em fonte bastonada e fina, muito discretamente inserido abaixo do “2001”. Os dois terços inferiores são ocupados por um círculo de diâmetro idêntico à largura do “2001”, criando um conjunto proporcional e estável. O círculo vermelho e laranja, destacado do fundo preto, guarda analogia com um sol no espaço. Ilustra, na verdade, o olho do computador HAL 9000, que apesar de ser “coisa”, é um personagem ativo do enredo de 2001. O filme de Stanley Kubrick projeta uma visão interessante desse personagem: HAL 9000 tem seu banco de dados e central de processamento armazenados em segurança em uma sala da nave em viagem pelo espaço interplanetário. HAL 9000 é o controle da nave, seus “tentáculos” invisíveis controlam todo o microcosmo onde vivem os astronautas humanos. Sem algo que se possa individualizar como um corpo, a figura de HAL 9000 foi esquematizada por um olho, mais especificamente, por uma lâmpada vermelha posicionada na parede, protegida por um pequeno domo de vidro sobre o qual se refletem imagens do espaço interno da nave. Esse olho converge atenções quando HAL 9000 se coloca – ele entra no foco da câmera quando sua voz masculina, suave e monótona fala. O círculo mais a luminosidade vermelha atuam como espontâneos atratores de atenção, e essa foi a imagem escolhida para a luva que apresenta a nova edição da obra. A despeito das cores quentes, há de se concordar que o olho inumano de HAL 9000 projeta um olhar frio, de cíclope maquínico, desprovido de uma expressão facial que transpareça emoções e intenções. A ilegibilidade da expressão de HAL 9000 encerra a sua incógnita, e o seu perigo.

Dentro da luva é guardado o livro propriamente dito, um único volume em brochura, com um detalhe marcante: inteiramente preto. Capa, contracapa, lombada e até o corte das folhas; inteiramente tingidos de preto. Em sua forma, esse objeto retangular mimetiza outro personagem não humano de 2001, o monolito. Não um personagem qualquer, o monolito é um objeto inteligente que surge na primeira cena do filme de Stanley Kubrick, aparecendo para os ancestrais dos homo sapiens em um remoto paleolítico. A intervenção do monolito se dá por um mecanismo além do entendimento, mas sabemos que de algum modo ele catalisa a evolução da espécie humana. Permanece como um observador misterioso a vigiar os passos da humanidade em sua saga exploratória pelo espaço sideral. A natureza do monolito não é revelada completamente no filme de Kubrick nem no romance de Clarke. Acreditam que seja uma sonda alienígena, embora isso diga pouco. Embora sua intervenção não seja maléfica, tampouco é compreensível; um artefato que (se supõe) venha de uma civilização tão avançada deve agir segundo uma moralidade própria e que nada tem a ver com a moral humana. De modo parecido ao que ocorre com HAL 9000, a ilegibilidade das intenções do monolito faz inspirar por ele um temor sagrado.

O monolito guarda a ideia de uma caixa-preta: algo que encerra um mistério. Quando o livro-monolito é retirado da luva, o leitor tem a sensação de um mistério prestes a se revelar. O encontro com o livro guarda a simbologia de conduzir o leitor – assim como o monolito conduz os australopitecos do filme de Kubrick – a um evento transformador: o encontro com o “passado” e o “futuro” da humanidade em um não lugar, o encontro de outros mundos. Dessa forma, o livro-monolito torna-se um mediador entre o leitor e as possibilidades cósmicas.

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Referências Bibliográficas
CLARKE, Arthur C.. 2001: Uma Odisseia no Espaço. São Paulo, Editora Aleph, 2013.
LE GUIN, Ursula K.. A Mão Esquerda da Escuridão. São Paulo, Editora Aleph, 2008.
ORWELL, George. 1984. New York, Penguin, 1977.

Referência Cinematográfica
2001: Uma Odisseia no Espaço. Direção: Stanley Kubrick [S.I.] Warner Home, 1968. 1 DVD (141 min).

 

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Eu tu nós

março, 10 - 2014

Minha singela homenagem a todas as pessoas que habitam uma única pessoa.


			Eu Tu Nós


Num espelho trincado, 
		entre mim 			e ti, 
				eu vejo nós. 

Nós atando duas realidades paralelas; 
	universos coexistentes, 
	em nenhum dos quais eu conseguiria viver 
						plenamente, 
		pois já não existo 
		em um 
		ou outro 
					totalmente
	por ter meia vida em cada 
					e pontas soltas em ambos. 

Esses nós que nos entrelaçam 
anulam a diferença entre a primeira, 
				a segunda 
					e a terceira pessoas: 
	sou eu, sou tu e ainda tem eles. 

Sinto que sou gente demais para carregar. 
Aguento?

Algo me diz que não é alucinação. 
Ainda penso:
Logo existo. 

Mas se existo, quem sou? 
			E se és, de onde vens? 
						Para onde vamos?
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Anedotas Literárias

março, 4 - 2014

Escritor é aquele sujeito que só peida no elevador sob pseudônimo.

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Qual a diferença entre um editor e um ornitorrinco? O ornitorrinco, pelo menos, tem seu charme.

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Dizem que é impossível viver de literatura no Brasil. Mentira. Os cupins lá de casa só vivem de literatura!

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Outro dia encontrei uma livraria tão obcecada por organização que colocava o Kama Sutra na prateleira dos livros didáticos.

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Esses dias me perguntaram: “por que você não manda e-mail pro Edgar Allan Poe pedindo um autógrafo?” Aí eu olhei bem para aquela pessoa e disse: “Nunca mais!”.

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Uma amiga minha namorava um crítico literário. Depois do sexo ela perguntava: “foi bom pra você?”, e ele respondia com uma resenha.

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Era uma festa de escritores, e todos estavam felizes… Até que chegaram os editores, aí a festa acabou.

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Um amigo me contou que o gato dele usou meu livro como banheiro. Nunca recebi uma crítica tão contundente!

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Até onde pode ir o eu-lírico? O meu, por exemplo, tem CPF, RG e conta no banco, mas conheço alguns que já tiveram que fazer teste de DNA.

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Não, isso aqui não tem copyright, mas se você plagiar mando meu ghost writer puxar seu pé de noite!

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Sobre as cartas de recusa

fevereiro, 26 - 2014

Hoje recebi a primeira recusa de um conto traduzido que enviei para uma revista no exterior. A negativa em si não me abalou – me ocorreu que essa é a primeira carta de recusa de um texto que recebo na minha vida! Até que demorou.

Há alguns anos eu recebi outra carta em inglês, e quando olhei o remetente, quase tive um piripaque. Bem, eu não tive um piripaque, mas fiquei com as pernas bambas e as mãos trêmulas de verdade.

Era uma carta da Ursula K. Le Guin! Minha escritora do coração, que me instilou a vontade de também ser escritora.

Ela não caiu do céu, na verdade eu tinha escrito uma cartinha para a Ursula, meses antes, que pus nas mãos de uma amiga que ia aos EUA para que ela a postasse de lá com um envelope selado para o retorno ao Brasil. Mas eu não estava com muitas esperanças de ter resposta, por isso foi uma surpresa quando aquele envelope chegou. Qualquer dia postarei a carta aqui.

Mas eu queria dizer que a Ursula divulgou no site dela uma carta de recusa que deve servir para animar qualquer escritor que acaba de receber uma – meu caso. A íntegra (tradução minha):

Cara Srta. Kidd (agente literária)

Ursula K. Le Guin escreve extremamente bem, mas lamento ter que dizer que, com base apenas nessa alta e distinta qualidade, eu não posso fazer uma oferta pelo romance. O livro é tão infinitamente complicado por detalhes de referências e informações, as lendas dos interlúdios se tornam um aborrecimento apesar de sua relevância, que a própria ação da história parece desesperadamente atravancada e o livro, enfim, ilegível. O conjunto é tão seco e sufocante, tão carente de ritmo, que qualquer drama ou emoção que o romance pode ter tido foi inteiramente dissipado pelo que parece ser, na maior parte do tempo, um material estranho. Meus agradecimentos, no entanto, por ter pensado em nós. O manuscrito de A Mão Esquerda da Escuridão é devolvido em anexo.

Cordialmente,

O editor.

Pois é. A Mão Esquerda da Escuridão, esse livro que o editor considerou seco, sem ritmo, complicado, estranho e ilegível (!), é o mesmo que ganhou mais tarde os prêmios Hugo e Nebula, se tornou um clássico indiscutível, uma das obras mais memoráveis da ficção científica e, não por acaso, meu livro de cabeceira. O editor que escreveu essa carta não se deu conta do material que ele tinha em mãos. O que espanta, contudo, não é a recusa, mas a justificativa.

Por isso cartas de recusa não significam que a obra é um fracasso total. Tampouco querem dizer que os editores são todos criaturas míopes e insensíveis como o exemplo supracitado. Uma carta de recusa simplesmente quer dizer que a obra não vai ser publicada naquela oportunidade, sejam quais forem os motivos alegados.

Receber cartas de recusa é um bom sinal – sinal de que estou tentando, de que estou buscando algo mais ambicioso. Pensando bem,  talvez esteja começando uma coleção delas!

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Literacast: feminismo e literatura

fevereiro, 26 - 2014

Participei de um papo bacaníssimo sobre feminismo e representatividade das mulheres na literatura, junto com os editores do site Cabine Literária, Danilo Leonardi e Gabriel Utiyama, e os escritores Cesar Sinicio, Renata Ventura e a blogueira Emannuele Najjar.

A conversa rendeu, adorei o resultado!

Você ouve aqui:

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O formato das histórias segundo Kurt Vonnegut

fevereiro, 19 - 2014

Você já leu Kurt Vonnegut?

Se não leu, é uma das experiências literárias que valem a pena na vida. Procure Matadouro 5, Café da Manhã dos Campeões, ou qualquer outra obra dele e você descobrirá o que é um autor que sabe trabalhar com sarcasmo a ponto de fazer você se deliciar de rir na cara da tragédia. Eu adoro.

Vonnegut propôs uma tese em antropologia segundo a qual se você plotar em um gráfico os altos e baixos da trajetória de um personagem, obterá o formato de uma história, ou seja, um perfil visual do arco da trama. Isso é útil para entender e analisar as histórias, compará-las, estudá-las. E eu diria que, para um escritor, entender esse perfil é utilíssimo.

Como funciona?

Imagine um plano cartesiano. Há um eixo vertical, que chamaremos de “medidor de felicidade” onde situamos dois extremos: Ventura no polo positivo (+) e Danação no polo negativo (-). Do meio desse eixo parte uma reta perpendicular que vamos chamar de CF, ou  Começo -> Fim (mas poderia ser Farofa, o nome não importa).

Partindo do eixo Medidor de Felicidade, vamos traçar a trajetória do protagonista de uma história, de acordo com os altos e baixos de sua jornada. Na média dos filmes sessão-da-tarde, o protagonista começa sua história um pouquinho acima do zero, digamos, levemente feliz. Então, em algum momento, ele se depara com um problema – perdeu o emprego, a falta de dinheiro o faz dar calote no aluguel, então ele precisa deixar a casa e ir morar de favor nos fundos de um armazém insalubre, é obrigado a fazer bicos horríveis para sobreviver… – veja a linha de felicidade do protagonista seguir uma curva descendente, cruzar do eixo positivo para o negativo.

As coisas podem ficar pior? Claro que podem! – A mãe dele está gravemente doente e precisando de uma cirurgia que a família não tem dinheiro para pagar, ele precisa esconder da família sua situação miserável e ao mesmo tempo ajudar a pagar as despesas do hospital. Quando ele acha que tem o montante de dinheiro suficiente para resolver sua situação, é assaltado no caminho do banco, sem testemunhas. Quando vai reclamar com os policiais, os tiras não acreditam que aquele cara desmazelado tinha dinheiro, acham que está tentando dar um golpe e resolvem dar nele um chá de canseira na cadeira da delegacia. Mas eis que uma mulher desconhecida começa a gritar no corredor apontando em sua direção: “foi ele! eu reconheço, foi ele!”. E assim, identificado como o autor de um crime que ele não sabe que cometeu, nosso protagonista acaba o dia atrás das grades. – Você consegue ver a linha de felicidade despencar até o fundo do poço? Dali em diante nosso protagonista terá de se virar, contar com a sorte ou a cooperação de amigos para fazer seu inferno astral se reverter e sua linha de felicidade escalar rumo a uma vida melhor – e nada disso é garantia de que ele não sofrerá outras turbulências em sua trajetória até um final feliz, em algum lugar do polo positivo, ou danar-se de vez, terminar como um indigente ou morto, no polo negativo (se bem que nesse caso não seria roteiro de um filme sessão-da-tarde).

Esse caminho de montanha-russa pode ser traçado para estudarmos o perfil de várias histórias. Se você fizer o exercício, verá que é possível identificar perfis típicos de cada gênero de obras: comédias românticas, filmes de terror, sessão-da-tarde, tragédias gregas, novela mexicana, contos de fadas antigos, contos de fadas modernos etc. etc. Há histórias que têm muitos altos e baixos (gênero telenovela, por exemplo, pela própria extensão do roteiro), há histórias que vão do mal ao pior, há histórias sem-saída nas quais todos os esforços do personagem redundam em fracasso… São muitos exemplos:

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Você pode acessar a íntegra do infográfico neste site: http://visual.ly/kurt-vonnegut-shapes-stories-0?utm_source=visually_embed

Podemos dizer, no entanto, que de certo modo todas as histórias que fazem sucesso na nossa cultura têm uma passagem pelo polo negativo: convencionamos que o tipo de história em que o personagem está sempre feliz e não encontra problemas não é uma história no estrito senso. Porque para as histórias só-felizes falta um combustível essencial para a nossa emoção: o conflito.

A partir da ideia do Vonnegut, extrapolo que é o conflito que esculpe o formato de uma história. E saber administrar o conflito é essencial para se conseguir escrever uma história emocionante. Você entende de música? Já ouviu falar em tensão e resolução? Eu não entendo porcaria nenhuma de música, mas gosto da comparação. A música trabalha com nossas emoções, conduzindo-nos em direção a um acúmulo das tensões que desembocam em resolução, e esse movimento nos dá uma sensação de gozo musical. O mesmo serve para o conjunto de situações que mobilizam nossa emoção durante a fruição de uma história. Não digo que a metáfora musical é perfeita, pois no caso da literatura nem toda complicação precisa ter solução, nem todo conflito se resolve. Mas o conflito está ali, gerando tensão, recrutando nossas angústias, prazeres e revoltas em um movimento harmônico de tensões emocionais que o escritor precisa saber orquestrar.

Um dos problemas mais comuns que encontro nas histórias dos clientes que contratam meu serviço de leitura crítica é o potencial inexplorado do conflito ou da tensão emocional.

Emoção é chocolate, é orgasmo, é catnip, é cocaína – não importa qual sua droga preferida – é essencial para uma história viciante. O ingrediente chave é tensão emocional: talhar picos de tensão e resoluções, complicações e relaxamentos, viradas, surpresas. Cabe ao autor examinar atentamente cada uma de suas cenas – estudá-las – e descobrir de que modo pode extrair o máximo de emoção, ou injetar emoções novas e inesperadas. Quando não faz isso, a história fica aquele café-com-leite, não chove nem molha, não cativa nem dá repulsa, nem-nem.

Repare que conflito não é sinônimo de briga ou ação externa. Conflitos podem ser dramas internos e sutis, podem ser dilemas e emoções desencontradas revolvendo o íntimo de um personagem que se mantém estoico enquanto finge que nada está lhe acontecendo. Tensão emocional é o poder do conflito gerar emoção no leitor.

Além dos picos e resoluções, tem esse elemento diferente que eu citei: surpresa. O que faz uma história surpreendente?

Esse é outro problema que aponto em um grande número de leituras críticas que faço: o enredo que não quebra com expectativas, que não surpreende.

A vida cotidiana é uma imersão na cultura do clichê. Clichês são ideias batidas que reverberam um estado de coisas presente, sem ameaçar o status quo, sem chocar ou simplesmente sem quebrar as expectativas. As telenovelas brasileiras, os filmes sessão-da-tarde, a maior parte das comédias românticas e dos filmes de aventura são sustentados por clichês. Você sabe que o herói vai vencer no final, que o casal de mocinhos vai ficar junto, que o vilão vai ter que se ferrar de algum modo. Na novela, você sabe que a protagonista não pode morrer (e se morrer ela vai deixar uma filha que é a cara dela para dar continuidade à sua trajetória), você sabe que o viciado em drogas vai ter que se reabilitar para deixar uma mensagem educativa… Você sabe exatamente quem vai ser punido, quem vai ser premiado e quem vai ficar bem depois de passar por um purgatório. Porque quebrar essas expectativas vai resultar num enorme bafafá que irá estremecer as revistas de fofoca e as conversas na fila do supermercado, e alimentar uma onda de ressentimentos contra o autor da novela, pobre criatura.

A presença ou não de clichês diz muito sobre o tipo de obra que o autor produz: se é uma que vai alimentar uma cultura de rotina e ser passageira, ou se será uma obra realmente original, de vanguarda, que surpreende expectativas, faz pensar, projeta um novo ponto de vista sobre a vida, o universo e tudo mais.

Na minha opinião pessoal, os clichês são úteis como placa de advertência do que não fazer. Ou, pelo contrário, algo para abraçar e brincar e se fazer uma bonita paródia.

Há formas sutis de trabalhar com as expectativas do leitor no enredo: criar uma circunstância (nosso protagonista está fugindo do matador, entra num túnel correndo, ofegando, arrastando uma perna e… ei! há uma luz no fim do túnel…) que gera expectativa por uma solução x (ele alcança a luz no fim do túnel e sai), mas que o autor pode trabalhar para se resolver de formas mais inesperadas – pode ser também uma solução y (ele para no meio do túnel, procura e descobre ali uma porta escondida que leva a outra saída: o esgoto!), pode ser a saída “criativa fácil” (de repente ele acorda e descobre que era tudo um sonho) ou uma saída tipo chute astronômico (correndo pelo túnel, ele tropeça num artefato desconhecido que é, na verdade, uma sonda alienígena que o projeta imediatamente para um planeta na galáxia de Andrômeda). Não é necessário dizer que um escritor que tende a empregar soluções do tipo x não está exercendo um trabalho que possamos chamar de criativo.

E o que seria abraçar o clichê para produzir uma paródia?

Vou citar um dos melhores exemplos que me ocorrem. No filme A Dama na Água (assista!) existe um personagem secundário muito intrigante: um crítico de cinema. O próprio protagonista chega a consultá-lo em algumas ocasiões para entender melhor o desenrolar da história. Em determinado momento, lá para o meio do filme, no clímax de um suspense, o crítico de cinema se vê num corredor escuro e ele compartilha com o espectador a sua cadeia de raciocínio: – “sou um personagem secundário em uma cena de perigo, droga, estou ferrado!” – e nesse momento um monstro surge e o devora.

No fundo, todo mundo espera que os personagens secundários sejam sacrificados pelo progresso de um enredo de aventura, suspense ou terror, até porque se nenhum personagem morrer será difícil acreditar que o risco apresentado é verdadeiro. O cinema convencionou que personagens secundários foram feitos para morrer! No exemplo que eu citei, a norma não foi quebrada, os papéis não foram subvertidos e o personagem secundário foi sacrificado pela trama. A graça é que isso foi feito de forma escancarada, analítica, o personagem obrigou o espectador a pensar sobre o destino triste dos personagens secundários. Existiu uma crítica na adoção do clichê: paródia.

Se vale um resumo de tudo isso para o escritor interessado: repare no formato das histórias, explore os conflitos no seu enredo, estude a tensão emocional das cenas, desenhe a narrativa de modo a evitar clichês ou então encontre um modo de usá-los de maneira inteligente.

Acabo de perceber que me alonguei demais naquilo que pretendia ser uma simples postagem (já sinto que começa aqui uma segunda edição do Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante).

Que mais posso dizer?

Se você tiver interesse em estudar mais a fundo (e digo realmente a fundo)  a construção de cenas e enredos emocionantes, uma dica boa é o livro do Robert Mckee – STORY: Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro. É um livro que trabalha sobre roteiros de cinema, mas cujas lições podem facilmente ser extrapoladas para a literatura. Não é uma leitura rápida, é um livro exigente e bastante aprofundado, mas maravilhoso para quem se interessa pelo assunto.

E tem o vídeo do Kurt Vonnegut explicando sua tese sobre o formato das histórias, que você pode youtubizar aqui. Vejam! É divertido.

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A rotina de 13 grandes escritores

fevereiro, 18 - 2014

Mais uma postagem comentando outra postagem em dias seguidos (pra não dizer que o esforço de ressuscitar meu blog não é legítimo): Junior Silva do blog Papo de Homem fez o grande favor de traduzir um dos posts mais bacanas feitos no BrainPickings, sobre a rotina e a produtividade de grandes escritores – Ray Bradbury, Susan Sontag, Simone de Beauvoir, William Gibson, Kurt Vonnegut, Ernest Hemingway, Anaïs Nin, entre outras feras.

Em primeiro lugar, vou convidar você para clicar neste link e ler, porque esse texto é bacana e estou com preguiça de pedir permissão para colá-lo integralmente aqui.

Cada escritor dá sua própria resposta a essa questão super capciosa: COMO CRIAR UMA ROTINA DE ESCRITA?

Coloquei em caixa-alta porque essa é uma pergunta muito grande, principalmente para mim. A maior dificuldade no exercício da escrita é conseguir criar o hábito de escrever todos os dias. Analisando as respostas dos 13 escritores, posso resumir que, para Ray Bradbury e Ernest Hemingway, a PAIXÃO pela narrativa é a chave para o hábito. Já o Haruki Murakami parece ser o mais radical na manutenção de uma rotina de repetição, como um teste de resistência. Para Susan Sontag e William Gibson, escrever tem mais a ver com um “estado alterado de consciência” (acho que estou com eles) que os vai “sugando” conforme o livro se aproxima da conclusão. Curiosamente, a maioria dos escritores citados são matutinos, escrevem ou editam suas melhores partes durante as manhãs. Além disso, uma parte deles escreve ou escrevia diários – que sinal mais contundente de uma escrita de rotina?

Eu estou tentando criar uma rotina de escrita… digo isso há anos. É engraçado que no Guia de Primeiros Socorros Para o Escritor Iniciante eu saiba entoar tão bem um conselho que eu mesma não consigo seguir. Pois é!

Voltar a movimentar este blog é uma pálida tentativa de me forçar a escrever com maior regularidade – o blog é a versão contemporânea do diário, então parece bem válido. As pessoas fazem confissões para si mesmas nos diários, e hoje as pessoas fazem confissões para si mesmas e toda a rede nos blogs – eles são, por isso mesmo, uma forma muito eficiente de guardar segredos entre milhões de usuários.

Na minha aventura para tentar criar um hábito de escrita tenho percebido algumas coisas que funcionam e outras nem tanto, por exemplo:

– Tenho déficit de atenção (e já fugi de um médico que queria medicá-lo) e talvez isso explique a dificuldade de me concentrar na presença de distratores, especialmente vozes e coisas que brilham: televisão, rádio, gente conversando. Silêncio, solidão e tranquilidade são compulsórios para conseguir encadear os pensamentos. Felizmente estou conseguindo me isolar o bastante (acho que algumas pessoas entrariam em pânico com essa afirmação).

– Tenho hiperfoco e uma dificuldade incrível de dividir tarefas. Quando preciso pausar o processo de escrita para fazer outro trabalho, a retomada é quase sempre sofrida, perco muito tempo relendo e editando, e acabo recomeçando tudo de novo. É extremamente contraproducente e ainda não encontrei uma solução para isso.

– Não dá simplesmente para sentar e escrever, é preciso organizar as ideias primeiro, entrar no clima da narrativa… Difícil encaixar as preliminares quando só se dispõe de uma hora por dia. Nesses casos faço anotações, edito, mas sei que não vai ser produtivo tentar escrever com pouco tempo disponível.

– Prazos funcionam! Alguns dos textos mais complicados que produzi saíram a fórceps por conta de deadlines impostos por editores, organizadores, concursos… Reconheço que um editor-capataz estalando o chicote poderia aumentar muito minha produtividade. Apesar disso, não gosto muito de trabalhar com prazos. Nem de chicotes.

– Luminosidade: não há nada que me deprima mais do que ver o sol alto na minha janela, mas a noite é perfeita, serena, silenciosa, dá uma sensação confortável de tempo ampliado, e há aquele ligeiro cansaço que torna a cadeira mais confortável de sentar. Escrever demanda muito do cérebro, obviamente, mas pouca gente considera que exige muito da bunda também.

– Praticar exercícios (corrida ou natação) horas antes de escrever ajuda bastante a manter corpo e mente relaxados, mas se exagerar eu fico cansada e com sono. E o pior de tudo: continuo com o físico de escritora.

– Criatividade tem a ver com tesão. Não sei explicar – ou até sei, mas não me pergunte – sinto que o exercício de criar está bastante vinculado à libido. Tá bom, tá bom, eu explico… É mais gostoso mergulhar numa narrativa quando você se apaixona pelo personagem. Fácil de entender.

A verdade é que sou bastante indisciplinada enquanto escritora, e vou ter que dar um jeito de me encontrar dentro do meu próprio caos se quiser produzir. Acho que vou conseguir em algum momento, e gente me cobrando não falta… Para quem está na aventura de tentar criar um hábito de escrita, minha solidariedade. E apesar de toda a autoindulgência, pelo menos considere o conselho do E.B. White:

O escritor que espera por condições ideais para trabalhar vai morrer sem colocar uma palavra no papel.