Posts Tagged ‘livros’

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Entrevista quentinha

março, 5 - 2011

Acaba ser publicada a entrevista que concedi ao Muller Gomes para um blogue de literatura, entretenimento e variedades.

Falamos sobre literatura de FC e Fantasia, carreira de escritor, como publicar livros e sobre os meus projetos em andamento. Fazia tempo que não dava uma entrevista, agradeço ao Muller pela oportunidade!

Leia o papo na íntegra no blogue da Taberna do Viking!

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A Batalha do Apocalipse

janeiro, 31 - 2011

Eu costumava dizer por aí que meu lamento sobre a literatura fantástica brasileira era que eu ainda não tinha encontrado um livro que me despertasse o mesmo sense of wonder que senti com grandes autores como Arthur Clarke, Ursula Le Guin, Marion Zimmer Bradley… Ou seja, ainda não tinha lido uma obra brasileira arrebatadora.

Posso dizer que essa queixa, sim, ficou no passado!  O livro A Batalha do Apocalipse, do Eduardo Spohr, é merecedor do ISO9001 de excelência literária, e mais: virou um incontestável best seller digno de calar a boca de quem desacreditou do potencial da fantasia brasileira!

Um pouco por preconceito, um tanto por pós-conceito, nunca achei clara a associação entre best seller e qualidade literária, até porque acredito que para se tornar best seller o autor, por mais hábil que seja, precisa fazer certas concessões para agradar a um público numeroso. Nesse pensamento, alguns clichês são previsíveis (quiçá inevitáveis?). Não vou dizer que A Batalha do Apocalipse é um livro isento de clichês, mas é com certeza um best seller de uma qualidade literária surpreendente.

O livro conta a saga do anjo Ablon e seu séquito de anjos guerreiros, todos renegados, vivendo na terra entre os mortais e atravessando os milênios desde a expulsão do paraíso até os tempos do Juízo Final. A diferença fundamental entre anjos e homens é que os anjos não têm alma, nem paixões humanas: são movidos por objetivos maiores, têm uma personalidade estoica e uma inexplicável atração pelo combate. Nesse perfil, Ablon é o típico guerreiro solitário: lutador incansável, puro, movido por um ideal e até mesmo celibatário – exatamente como eram os heróis das novelas de cavalaria. Acontece que o arcanjo Miguel e Lúcifer, o príncipe que governa o inferno com mão de ferro, querem erradicar os anjos renegados, razão pela qual o exército de anjos caídos de Ablon está sendo caçado. Na sua jornada milenar pelo mundo, Ablon tem como sua única companheira a feiticeira Shamira, que conquistou a imortalidade com o domínio das artes da necromancia. Ablon e Shamira levam vidas solitárias, marcadas por encontros e desencontros através dos séculos e em grandes momentos da história humana. É fascinante a habilidade com que o autor desenha a trajetória dos protagonistas tomando confortavelmente como pano de fundo todo o planeta e a história da humanidade! A trama se passa em momentos e regiões tão diferentes quanto a Babilônia, a China, Roma, Alexandria, a Bretanha medieval, o Império Romano do Oriente, o Rio de Janeiro e a Jerusalém contemporânea – e mesmo as cidades bíblicas de Enoque e Sodoma – amarrando todos esses lugares e períodos dentro de uma única aventura, que se saiu muito variada e instigante.

É bastante interessante a forma com que foi tratada a coexistência dos universos: o mundo dos anjos que se liga ao dos mortais pelo “tecido da realidade”, que por sua vez pode se relacionar a outras teogonias, como os contos de fadas celtas e a mitologia chinesa.

Há um cuidado especial com as ambientações históricas, geográficas, técnicas e até mesmo bíblicas! É muito bom ler um livro tão rico e que passe as informações corretas, nota-se um profundo respeito para com a história e, principalmente, para com o leitor! Dentro da proposta do épico, o livro é praticamente perfeito. É uma história ambiciosa, variada, e constituída por uma pesquisa riquíssima. O texto é bem redigido e tem o ritmo certo. Apesar de ser um livro longo, não enrola o leitor. O universo tem consistência interna, é coerente e verossímil. E é bonito! Repleto de cenas grandiosas, é cinematográfico!

Eu comentei que o livro não é isento de clichês. Como no épico, tudo é idealizado: os personagens, as lutas, as situações. Em algumas circunstâncias, a idealização torna certos detalhes da trama bastante previsíveis, o que não prejudica a beleza e a força do resultado final.

Por uma questão de gosto pessoal, eu sou uma leitora que cochila em cenas de ação e de luta – curto mais a viagem, os questionamentos – então os últimos trechos, que contam a Batalha do Apocalipse propriamente dita, me pareceram um pouco cansativos. Em contrapartida, pude me deleitar em maravilhosas viagens com Ablon, Shamira e Flor do Leste (uma personagem de carisma irresistível) através da antiguidade.

Provavelmente a razão (e o merecimento) de tamanho sucesso d’A Batalha do Apocalipse é esta: é uma saga variada, com potencial de agradar a gregos e troianos e encantar todo mundo!

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Leituras de 2010

dezembro, 28 - 2010

Quando se chega ao fim do ano e cai a ficha -“minha nossa! já passou?” – é muito provável que o ano foi bom. Embora eu tenha furado várias promessas que escrevera na minha agenda (sim, eu tenho essa mania), só posso concluir que meu 2010 foi incrível!  Realizei sonhos de longa data: conheci a Austrália e a Nova Zelândia, participei pela 1ª vez do World Science Fiction Convention; e embora ainda não tenha conseguido publicar o meu romance, escrevi meu primeiro roteiro de cinema e ganhei uma lindíssima 2ª edição do Fábulas do Tempo e da Eternidade!

2010 foi ano de networking, conheci gente pra caramba! Foi ano de experimentações: provei comida tailandesa, viajei sozinha, dei palestra em inglês, comi ostra, peguei canguru no colo, andei de camelo… Sem rotina, foi ano de pensar muito e fazer planos, começar trabalhos novos e tomar decisões que devem nortear a vida inteira.

Meu 2011 vai começar repleto de projetos, e posso adiantar que vem muita novidade pela frente!

Com toda essa movimentação, não devo ter lido metade da montanha de livros que lera em 2009. Seguindo a tradição, vai a lista, e uma resenha para aqueles que tenho mais vontade de comentar:

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Ficção Brasileira

Dom Casmurro e Os Discos Voadores – Lúcio Manfredi

Desde o lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis (de Seth Grahame-Smith), o mundo literário tem sido sacudido por uma onda de mashups de clássicos da literatura com elementos fantásticos, na sequência vieram: Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, Android Karenina, Jane Slayre e outros títulos. O sucesso foi tão grande que Orgulho e Preconceito e Zumbis já está ganhando adaptação cinematográfica! A proposta dessa novíssima – se é que já dá pra chamar assim: – vanguarda é, segundo o próprio Grahame-Smith: “transformar o clássico da literatura em algo que você gostaria de ler!” O conceito do mashup é conservar parte do texto original e misturar com outros elementos, dando uma nova roupagem à história; por isso o mashup é classificado dentro da ficção alternativa (uma discussão mais aprofundada sobre mashup e ficção alternativa você encontra neste ótimo artigo da Ana Cristina Rodrigues). Como você pode ver, a onda veio pro Brasil e em 2010 a Editora Leya lançou o selo Lua de Papel de “Clássicos Fantásticos” escritos por brasileiros – entre eles, Dom Casmurro e Os Discos Voadores é, na minha opinião, a melhor obra da safra.

Lúcio Manfredi é roteirista de televisão e nos últimos anos trabalhou no roteiro de seriados e novelas da Globo, como Ciranda de Pedra e A Casa das Sete Mulheres. Não é preciso dizer que ele sabe escrever cenas memoráveis, Machado de Assis não poderia ter encontrado melhor co-autor. O romance não é literalmente um mashup, porque pouquíssimo do texto original foi mantido, Lúcio reescreveu a saga inteira de Dom Casmurro na sua própria linguagem, leve e graciosa. Exatamente como no clássico de Machado, em Dom Casmurro e Os Discos Voadores o jovem Bentinho está predestinado desde o útero a seguir a carreira de padre – uma promessa feita por sua mãe, D. Glória – sendo que o menino não está nem um pouco inclinado ao sacerdócio, seja por vontade ou vocação, e acrescente ainda que ele está enfeitiçado pelos “olhos de ressaca” de sua amiga de infância e protonamorada, Capitu. As diferenças do romance original começam com a caracterização dos personagens: José Dias, o agregado, é um homem muito preciso, com engrenagens e articulações mecânicas; Capitu tem defeitos de nascença e atitudes esquisitas; e o tio Cosme não sai da frente do telescópio e conta ver coisas estranhas no céu. Bentinho testemunha uma sequência de acontecimentos estranhos que o acompanham desde a infância na casa da Rua Matacavalos aos seus estudos no seminário; vê-se pivô de uma conspiração estranhíssima da qual participam todas as pessoas que o cercam, mas que ele não compreende e de início nem desconfia que a origem dos seus problemas, na verdade, vem de Sirius…

Respeitando a tradição das ironias machadianas, não poderia faltar uma boa dose de humor, o que torna a leitura deste livro simplesmente deliciosa. E para quem é bom em captar referências, ele ainda reserva uma homenagem implícita  ao autor preferido do Lúcio.

 

A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector (releitura)

Leio e releio sem cansar. Em matéria de ficção, A Paixão Segundo G.H. é um dos livros mais diferentes que o leitor pode experimentar. No nível superficial, a história é esdrúxula: uma mulher solitária faz a arrumação no seu apartamento, quando encontra uma barata no armário e a mata. E daí? E daí que nas entranhas dessa microscópica ação o universo inteiro palpita enquanto fala a voz interior dessa mulher. O assassinato da barata desencadeia uma saga subjetiva: uma imensa viagem interna por galáxias de sentimentos e ressignificações, tentativas de colocar em palavras aquilo que transcende à própria linguagem, uma busca de sentido, e no sentido, a liberdade de existir – o momento de epifania. Algumas pessoas acham este livro abstrato demais, outras se fascinam pelo alcance de tal abstração; para mim é uma das reflexões mais elevadas de toda a literatura (ao lado de De Profundis, do Oscar Wilde). Sempre que me sinto paralisada com ideias que não consigo formular, peço ajuda à G.H. e, especialmente, à Clarice, que são as melhores evidências de que não há nada que não possa ser colocado em palavras.


Cio (contos)– Marne Lúcio Guedes

Santa Clara Poltergeist – Fausto Fawcett

A Via Crúcis do Corpo (contos)– Clarice Lispector

A Bela e a Fera (contos) – Clarice Lispector

Game Over – Uma Ameaça Virtual – Rosana Rios

Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

O Ateneu – Raul Pompéia (releitura)

Noite na Taberna (poesia) – Álvares de Azevedo

Os Sete – André Vianco

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Ficção Estrangeira

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Este livro foi a grande surpresa de 2010. Peguei-o sem esperar muito e fui conquistada logo nas primeiras páginas. A história é narrada por Daniel, um menino que no seu aniversário de 11 anos, pouco tempo depois de ter ficado órfão de mãe, é levado pelo pai a um lugar misterioso: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde ele tem o direito de escolher entre as intermináveis prateleiras um livro raro que poderá guardar consigo. É assim que Daniel se apodera de um volume intitulado A Sombra do Vento, de autoria de um barcelonês chamado Julian Caráx. Ao longo dos anos, o garoto lê e relê o livro, e a curiosidade o leva a buscar outros títulos do mesmo autor, mas Daniel descobre que não há mais vestígio sequer da obra e de Julian Caráx. Intrigado, Daniel se põe a investigar a vida desse misterioso escritor, e as evidências que encontra lhe mostram a dimensão trágica da história que ele está prestes a descobrir.

A Sombra do Vento é desses livros que se apoderam e prestam tributo a uma cidade – vive-se e respira-se Barcelona, cenário que não poderia ser mais perfeito à trama. Apesar das pinceladas góticas, não é um livro melancólico, é antes um romance leve, de cenas delicadas, tiradas bem humoradas, personagens encantadores, trama engenhosa, repleto de figuras de linguagem originais; um livro magistralmente escrito! Sou uma leitora bastante exigente e posso dizer que A Sombra do Vento é um dos poucos romances que conseguiram corresponder a todas as minhas expectativas.

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Chore Para o Céu (Cry To Heaven) – Anne Rice

Inicialmente famosa pelas Crônicas Vampirescas e pelas Bruxas Mayfair, Anne Rice alguns anos atrás passou pelo seu momento “encontrei Jesus” e escreveu livros sobre Cristo, recentemente entrou no momento “cansei dos cristãos” e voltou a escrever como escrevia antes, recentemente sintonizou a nova onda de anjos e acabou de publicar Tempo dos Anjos. Depois de ter lido Entrevista com o Vampiro anos atrás, quis ler algo novo de Rice e estabeleci como próximo alvo o Cry To Heaven (Chore Para o Céu), que eu não estava encontrando em lugar nenhum, até me deparar com uma edição em hardcover, com essa mesma capa que você vê acima, num sebo em Katoomba, na Austrália.

Apesar de não serem vampiros, nem bruxas, nem anjos, nem múmias, os personagens deste romance mainstream não deixam de ser criaturas “à parte” detentoras de um dom quase sobrenatural: Cry To Heaven é uma história sobre os castrati italianos do século XVIII. Numa época em que as mulheres eram proibidas de subir ao palco para cantar, meninos eram castrados para suprir a demanda de sopranos e contraltos para as óperas. Milhares de garotos eram castrados na esperança de um dia se tornarem estrelas da ópera, como foram Farinelli e Caffarelli, mas pouquíssimos eram os que, com muito talento e sorte, conseguiam fazer carreira como cantores. E para os milhares que não alcançavam esse objetivo, restava conviver com o estigma de se serem considerados sub-homens ao olhar de uma sociedade que os discriminava, sendo que a própria Igreja Católica não os ajudava, proibindo-os tanto de se casar como de seguir o sacerdócio.

No romance, Guido Maffeo é um talentoso castrato napolitano, que cantou na ópera durante a adolescência, mas tragicamente perdeu a voz num estirão da juventude (os castrati costumavam ficar muito altos, e podiam perder a qualidade da voz durante o crescimento); impedido de cantar, Guido estabeleceu como objetivo de vida encontrar uma voz perfeita e produzir uma nova estrela para a ópera; viaja pela Itália em busca de um prodígio. Em Veneza, o jovem Marc Antonio Treschi, o único herdeiro de uma dinastia de senhores venezianos, vive trancado em seu palácio junto à mãe, distraindo-se com música e canto. O seu velho pai, próximo à morte, revela a Tonio que ele tem um meio-irmão mais velho que fora exilado na Turquia como punição pela própria insolência. Assim que morre o senhor da casa, o irmão misterioso – Carlo – retorna e Tonio percebe que não é o único herdeiro, e que suas relações de sangue são mais profundas do que ele podia imaginar. Para reaver o seu direito sobre a Casa Treschi, Carlo sabota Tonio de uma maneira inusitada: manda castrá-lo e dá-lo para o caçador de talentos que veio a Veneza. Assim se cruzam os destinos de Guido e Tonio, começa uma aventura sensual pelas óperas italianas e, lentamente, a preparação de uma amarga vingança.

Cry To Heaven tem como pano de fundo as belíssimas paisagens de Veneza, Nápoles e Roma, e tem os mesmos temperos dos livros vampíricos de maior sucesso de Anne Rice: é recheado de erotismo, sensualidade andrógina, glamour e sangue – na minha opinião, mostra a fórmula da autora num estado mais puro. O livro ainda traz um adendo com referências da vasta pesquisa histórica que fundamenta a obra. Quem tiver curiosidade de entender melhor o mundo dos castrati, pode assistir ao filme Farinelli – Il Castrato (1994), ou ouvir a única gravação sonora existente da voz de um castrato: Alessandro Moreschi, o último, que morreu em 1922. Quem quiser ainda ter uma noção da complexidade das árias cantadas por eles, pode ouvi-las na voz da soprano Cecilia Bartoli, que lançou em 2009 o álbum Sacrificium, só com árias de castrati.

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Perdido Street Station – China Miéville

Perdido Street Station tem sido um livro muito comentado nos últimos anos. Por quê? 1- é o primeiro livro que se conforma totalmente à definição de new weird fiction (como canonizado por Jack e Ann VanderMeer), portanto, é o marco de um novo subgênero literário (sem nada pejorativo no prefixo “sub”); 2- é um mergulho num universo surreal, de criatividade sem limites, uma viagem – se não literal, literária – no ácido; e 3- é um livro que incomoda. Se você me disser que vai ler, devo acrescentar: você vai “se aventurar a”.

O new weird se baseia na mistura de elementos de ficção científica, fantasia e terror – e até mesmo RPG, noir, policial, mitologia; o que vier. É uma ficção não-realista, que exige a criação de um cenário novo – um cenário urbano – que será construído nas bases de uma estética própria – a estética estranha.

Mas vamos à história: ela se passa no mundo de Bas Lag, na cidade de New Crobuzon, mais especificamente no submundo dessa metrópole labiríntica, industrial, de arquitetura vertiginosa, meio steampunk, meio esquisitóide, sob o vulto da imensa estação da Rua Perdido. Seres humanos dividem o cenário com raças pseudo-humanas, há os khepri – criaturas com corpo de gente e cabeça de besouro, hábeis na arte de esculpir a partir do próprio cuspe; os garuda – uma espécie de águias humanóides com um código de conduta bem peculiar; os vodyanoy – uma raça aquática semelhante a rãs; e os cactacae – um povo cacto que habita um bairro isolado debaixo de uma redoma, como uma grande estufa.

Os personagens são cidadãos comuns de New Crobuzon; cientistas, artistas, inventores; amostras ao acaso da salada mista que é tal sociedade. Conhecemos a princípio Isaac, um cientista humano que vive um relacionamento amoroso uma fêmea khepri (ou mulher-besouro): Lin, artista e criadora de grandes monumentos de cuspe. Yagharek é um garuda que cometeu um crime grave dentro do seu grupo e foi punido com a amputação de suas asas e o ostracismo, ele vai a New Crobuzon procurar Isaac e pedir que o cientista o ajude a voar novamente. A trama segue com a descoberta de uma espécie de néctar dos deuses – a dreamshit (que vou adorar saber como irão traduzir!) – uma secreção produzida por uma espécie misteriosa e que, ao ser identificada, constata-se que é também uma espécie mortal e que poderá colocar os protagonistas, a sociedade e o frágil equilíbrio de New Crobuzon em colapso.

A saga é uma colagem de ideias estupidamente criativa, extremamente complexa e anticlichê. Se há terror e cenas chocantes (e olhe ainda tenho pesadelos com o bairro da luz vermelha de New Crobuzon!), há também espaço para a poesia e o encanto nos anseios e sonhos dos seus personagens. Mièville utilizou referências mitológicas, folclóricas, políticas e históricas para fazer essa colagem. Por que é uma leitura difícil? Porque a linguagem é barroca, o texto é denso, pesado e extenso; mas nem por isso o livro deixa de ser deslumbrante.

 

A Cidade dos Hereges – Federico Andahazi

A Máquina do Tempo – H.G. Wells

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel – J.R.R. Tolkien

A História do Olho – Georges Bataille

Snuff – Chuck Palahniuk

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Brazyl – Ian McDonald

 

Não Ficção

Infiel (Infidel) – Ayaan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali, hoje uma cidadã holandesa de 41 anos radicada nos EUA, tem o que se pode chamar de uma história de vida de arrepiar.

Nascida na Somália, aos 5 ela sofreu a mutilação genital, como acontece a praticamente todas as meninas na cultura somali. Esse procedimento é feito por cortadeiras que, como as tradicionais parteiras, são mulheres do povo convocadas pelas famílias, e o trabalho é feito sem anestesia, sem instrumentos apropriados, sem ambiente esterilizado e em geral, em situações precárias. A menina precisa ser segurada enquanto o clitóris e os pequenos lábios da vagina são extirpados, os grandes lábios são seccionados e suturados com espinho de acácia, deixando um buraquinho minúsculo para o escoamento da urina e da menstruação – no período de cicatrização esse buraco é mantido aberto por um palito de fósforo, e as pernas precisam ficar amarradas durante semanas. A vulva desaparece e no seu lugar fica uma cicatriz rígida e, por vezes, apertada e dolorida. Quando a mulher se casa, na noite de núpcias a cicatriz é aberta a faca pelo marido. Quando vai dar à luz o primeiro filho, é necessário aumentar o corte. E algumas vezes, após cada parto, a  mulher é novamente suturada. As meninas que não são cortadas são estigmatizadas na sociedade somali, então praticamente todas o são (não sei se o costume perdura até hoje). Muitas morrem de infecção após a mutilação genital, muitas outras morrem de complicações decorrentes do procedimento: e todas sofrem com o trauma e as dores resultantes.

Essa experiência é só o ponto de partida da biografia de Ayaan. Em Infiel, ela faz um retrato da sociedade somali: seus clãs, sua cultura, a religiosidade… Nascida e criada dentro da religião muçulmana, e tendo morado inclusive na cidade de Meca, Ayaan narra a sua vida e a das mulheres com quem conviveu sob a opressão e a brutalidade do Islã. Ela chegou a ser espancada pelo imã que lhe lecionava o corão e quase foi morta de pancada pela própria mãe. Ayaan chegou a  conhecer o fundamentalismo e combater o ocidente. A virada na sua vida se deu quando, contra a sua vontade, o pai arranjou-lhe casamento com um somaliano que morava no Canadá. No momento em que Ayaan pegou o avião para ir viver com o marido, aproveitou-se de uma escala na Europa para fugir e pedir refúgio na Holanda. Na Europa ela teve o seu primeiro choque com os valores do ocidente: via as mulheres livres, impressionava-se com as pessoas que lhe ajudavam e eram simpáticas sem querer nada em troca. Como refugiada na Holanda Ayaan recomeçou sua vida: trabalhou e conseguiu a cidadania, aprendeu a língua holandesa e conseguiu se matricular em ciência política na Universidade de Leiden. Estudando o trabalho dos filósofos, especialmente após a leitura do Manifesto Ateísta, Ayaan passou por um enorme cisma com suas crenças, sofreu o abalo de considerar que toda a estrutura ideológica do mundo em que vivera, pautado na retórica do Corão, era ficção, e nem o inferno que ela tanto temia e nem Alá existiam. Como resultado, em 2002 Ayaan afirmou-se ateísta – e o rompimento com a religião foi inevitavelmente um rompimento com a sua família. Depois de formada entrou para a política na Holanda, onde foi deputada de 2003 a 2006. Escreveu a sua biografia, virou crítica do Islã e ativista para a liberação das mulheres muçulmanas, como resultado, recebeu inúmeras ameaças de morte. Em 2004, em parceria com o cineasta Theo van Gogh, idealizou o curta-metragem Submission, sobre a realidade da mulher no Islã. As ameaças contra a vida de Ayaan explodiram, e ela contou com a proteção da polícia holandesa, mas Theo van Gogh foi assassinado na rua a facadas, e sobre o corpo dele foi deixada uma carta dizendo que a próxima vítima seria Ayaan. Atualmente ela mora nos EUA e continua com o seu ativismo, vivendo cercada de seguranças.

É difícil resenhar um livro tão profundo em tão poucas linhas e conseguir comunicar a dimensão dessa história. Há uma certa semelhança entre a biografia de Ayaan e a de Waris Dirie, a Flor do Deserto – com o detalhe de que a história da “infiel” tem menos glamour, mais violência e o fator “sorte” deu lugar a uma força de vontade invejável.

A trajetória de Ayaan Hirsi Ali é impressionante; uma mulher que escapou por uma porta inacreditável e teve coragem de vir a público enfrentar a truculência terrorista pedindo pelo fim de uma era de barbárie.

Infiel é um livro que recomendo a todos, sobretudo às mulheres. E o filme Submission, que levou ao assassinato de Theo van Gogh é este que você pode assistir abaixo:


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Um Antropólogo em Marte – Oliver Sacks

A Mulher/Os Rapazes da História da Sexualidade – Michel Foucault

Alquimia e Misticismo – Alexander Roob

A Dança do Universo – Marcelo Gleiser

As Vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior (releitura)

Voar Também é Com os Homens – O Pensamento de Mário Schenberg – José Luiz Goldfarb

1808 – Laurentino Gomes

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Infanto-Juvenis

Matilda – Roald Dahl

George’s Marvelous Medicine – Roald Dahl

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

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Antologia

Anno Domini – Helena Gomes (organização)

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Bazar Literário 2010

dezembro, 7 - 2010

Estarei lá!

A Tarja promove o Bazar Fantástico, no dia 10 de dezembro, onde os fãs da boa literatura fantástica encontrarão os melhores livros, os melhores descontos e a presença de vários autores. Quem for de São Paulo não pode perder. Garanta os presentes de Natal para todos e faça parte da Campanha “Dê Livros de Natal”. Sem deixar de aproveitar a chance de levar seus livros para casa autografados.

Sobre o Evento

Data: 10 de dezembro de 2010 (Sexta-feira)
Horário: 18h às 22h
Local: Bardo Batata – Gastronomia e Cultura
Endereço: Rua Bela Cintra, 1.333 – Jardins – São Paulo – SP

Site da Tarja Editorial:
www.tarjaeditorial.com.br

Twitter da Tarja Editorial:
@tarjaeditorial

Site Oficial do Bardo Batata:
www.bardobatata.com.br

Twitter do Bardo Batata:
@Bardo_Batata

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Worldcon 2010/ Aussiecon 4 – o relato

outubro, 14 - 2010

A desvantagem de atravessar um país continente é que cada viagem é uma baita viagem. Na Austrália, para ir de uma cidade a outra, não costumava levar menos que 12 horas de ônibus. Depois de rodar a estrada noutra madrugada, voltei a Melbourne – o ponto de partida da minha viagem – para minha última e corrida semana na Austrália. Voltei para a mesma rua, o mesmo hostel, para acompanhar o Worldcon, que aconteceria no mesmíssimo lugar onde eu havia participado do congresso de psicologia, 2 meses antes. Nesses dias a câmera fotográfica ficou praticamente esquecida, eu estava mais preocupada em curtir do que em registrar. Cheguei em Melbourne dois dias antes do Worldcon e fui logo revisitar os pontos turísticos que mais havia gostado. Fiz minha última visita ao Queen Victoria Market, que é uma espécie de 25 de Março com Mercado Municipal, onde comprei souvenires e frutas e me deliciei com as comidas análogas ao nosso pastel de feira.

 

Melbourne Convention and Exhibition Centre

Essa foi minha última folga, porque dali em diante, entre os dias 02 e 06 de setembro, estaria mergulhada de cabeça na maratona do 68th World Science Fiction Convention – Aussiecon 4! E foi que na quinta feira, dia 2, cedinho, me arrumei e fui para o Melbourne Convention and Exhibition Centre buscar meu crachá, minha bolsa e minha inscrição como panelista, com o coração saltando e o espírito dividido entre a alegria de fã e a responsabilidade de representante.

 

A abertura do evento foi curta e simples: este era o quarto Worldcon a acontecer na Austrália e em homenagem fizeram um clipe com uma colagem de filmes de SF & F misturado com clássicos do cinema aussie, como o Crocodilo Dundee e as drag queens de Priscilla, a rainha do deserto. Não sei quantas pessoas estavam presentes no evento, mas sei que era um número de quatro dígitos: o evento era enorme, e me disseram que os Worldcons dos EUA costumam ser ainda maiores.Logo depois da abertura eu estava escalada para participar do meu primeiro panel: “Queer representations in speculative fiction” ao lado de Erika Lacey e Andrew M. Butler. E veja só, logo nos meus primeiros minutos do meu primeiro Worldcon, eu estava sentada atrás de uma mesa para falar de improviso em inglês a um público nativo em língua inglesa. Claro que logo de cara bateu uma insegurança, mas respirei fundo e fui em frente. Andrew e Erika citaram obras que trabalham com sexualidade, personagens gays e lésbicas. Falamos do quanto os autores clássicos não contribuíram para a questão, e como era difícil para os mesmos ousar quando se propunham a tal. Citando as obras da Ursula Le Guin (especialmente A Mão Esquerda da Escuridão, Os Despossuídos e The Telling), destaquei a diferença que há entre produzir uma obra que discuta sobre sexualidade ou simplesmente escrever uma obra que inclua personagens gays e lésbicas, inserindo a orientação sexual como uma mera característica – coisa que só passou a acontecer com mais naturalidade no território da ficção especulativa nas últimas décadas. Pra terminar, ainda mandei uma pergunta para os outros panelistas e o público sobre como trabalhar a empatia de um personagem gay ou lésbica para o público geral. Terminado o panel, houve quem viesse comentar que querer emplacar personagens gays e lésbicas para o público geral era utopia minha.

Sem tempo para respirar, saí do primeiro panel e já fui para a sala seguinte para a primeira das minhas apresentações acadêmicas. Esclarecendo: no Worldcon há uma programação acadêmica que ocorre em esquema de simpósio, e eu estava representando o grupo do Prof. Luís Paulo Piassi da USP, que estuda obras de FC. Fui escalada para apresentar o trabalho do Emerson Gomes e da Sônia Montone: “An historiographic view about HG Wells’ The Time Machine” em um bloco de pesquisas sobre a obra do Wells. A sala estava lotada e o feedback do público na apresentação foi excelente. Ao final algumas pessoas vieram cumprimentar os autores do trabalho e dar dicas de referências bibliográficas, outras vieram curiosas me perguntar do Brasil, e acabei até conversando em português com um tasmaniano que morou um ano no Mato Grosso do Sul.

No dia seguinte, sexta feira, panel acadêmico: “These are not the people you are looking for: race in SF/F”, com Sheldon Gill (malaio naturalizado australiano), Ika Nurain (malaia, escritora em língua inglesa), Alaya Johnson (americana, escritora de fantasia), Anita Harris Satkunananthan (indo-australiana estudiosa de literatura), China Miéville (escritor britânico muitíssimo bem cotado no momento) e eu, que era a única latinoamericana presente na convenção. Sala bastante cheia, começamos a mesa nos apresentando. Alaya Johnson, que é uma mulata novaiorquina lindíssima, denunciou o racismo no mercado literário e nas editoras norte-americanas, e no quanto foi difícil convencê-las a colocar mulheres não brancas/caucasianas na capa dos seus livros. Já Anita falou de algumas obras de ficção científica e fantasia que estudou, analisando a questão de gênero e etnia, e até se emocionou falando das desigualdades implícitas dentro das mesmas. Na minha vez, falei sobre a representação dos brasileiros e outros latinos na literatura de ficção científica, citando como exemplo o livro Brazyl, do Ian McDonald (que concorreu ao prêmio Hugo em 2009). Comentei, aludindo em partes a um artigo publicado pelo Fábio Fernandes, que poucos foram os brasileiros que leram a obra, porque Brazyl não foi publicado no Brasil, mas entre quem leu existe a opinião de que Ian McDonald fez um trabalho tão bom que um brasileiro poderia tê-lo escrito, acrescentando um porém: se um brasileiro o tivesse feito, dificilmente teria o livro traduzido e publicado em língua inglesa. Falei sobre a barreira que a língua é para nós escritores não anglófonos. Comentei que o fato de nós, brasileiros, sermos cada vez mais visíveis no plano internacional não nos dá uma voz própria: continuamos sendo descritos a partir de um ponto de vista externo, e com muitas dificuldades de representarmos a nós mesmos nesse mercado literário dominante, que é o da língua inglesa. Já o China Miéville, que é, entre outras coisas, PhD em relações internacionais, fez uma ótima análise sobre a hipocrisia dentro do meio editorial, mas que eu não conseguiria parafrasear aqui com palavras tão afiadas. Foi uma mesa excelente e saí de lá dando uma entrevista para uma rádio de Melbourne.

No sábado, dia 4, um panel de muito, muito peso: “Fred Hoyle: Scientists and Science Fiction”, ao lado de dinossauros da FC como Gregory Benford, Jeff Harris e Alastair Reynolds. Sala lotada e 3 escritores-cientistas com muito mais experiência do que eu nas costas. Gregory Benford foi amigo de Fred Hoyle durante muitos anos e, por isso mesmo, acabou falando quase o tempo todo sobre a vida e obra de Fred Hoyle. A mim coube fazer algumas perguntas no final sobre as ideias polêmicas de Hoyle, que recusava a teoria do big-bang em favor do design inteligente (mesmo quando a teoria foi considerada provada pela medição da radiação cósmica de fundo), negava a origem espontânea da vida em favor da panspermia, e negava a origem fóssil do petróleo.

Já no domingo, enfrentei uma maratona de 3 panels. Comecei com uma apresentação acadêmica do grupo da USP, dessa vez a autora era a Rhamyra Toledo e o trabalho era: “The relations between science and social representations in Orson Scott Card’s Speaker for the Dead”. Na sequência, entrei em outro panel: Make Room! Make Room! , ao lado de Gord Sellar, Sam Scheiner (que acabou de publicar um livro de ecologia no Brasil) e Jonathan Cowie. Baseados em “Make Room! Make Room!”, a obra do Harri Harrison que inspirou o filme Soylent Green, falamos sobre o impacto da superpopulação na Terra. A discussão girou em torno de teorias neomalthusianas, aquecimento global e devastação ambiental. Falei sobre o desmatamento da Amazônia (equivalente a um estado do Rio de Janeiro por ano), sobre nossa recente euforia econômica com a entrada do Brasil no BRIC, e como é injusto para as nações em desenvolvimento terem que desacelerar o crescimento em virtude dos acordos sobre as emissões de carbono. Me senti muito a vontade e  foi o panel que mais curti em toda a convenção. Por último, eu e Erika Lacey dividimos a mesa no panel “The future of gender and sexuality”. Erika é uma leitora voraz, e citou dezenas de obras que tratam da questão gênero e sexualidade em ficção especulativa. Eu falei sobre pós-generismo e sobre a evolução das técnicas de reprodução assistida. O público era pequeno, e logo abrimos para perguntas e comentários da platéia. Discutiu-se longamente sobre homofobia, sexismo e política.

Finalmente, na segunda feira me dei ao direito de me fantasiar de fã e caçar autógrafos. Dos panels que assisti, achei particularmente interessantes um sobre as consequências da imortalidade, um workshop sobre como escrever cenas de luta, e as palestras do escritor e convidado de honra Kim Stanley Robinson, todas ótimas!

 

Robert Silverberg e Kim Stanley Robinson

 

Autografei livros com o George R.R. Martin (que acabou de publicar “Guerra dos Tronos” no Brasil pela Leya), com o China Miéville (que vai ser publicado no Brasil pela Tarja Editorial), com o Kim Stanley Robinson (que ainda não tem livro publicado por aqui, alô editoras!) e com a Alaya Johnson (que já veio ao Brasil e com quem deixei um exemplar do meu livro Fábulas).

 

Eu e George R.R. Martin

 

Mas eu tenho que falar do Green Room! Os participantes dos panels têm o direito de usar o Green Room, que é uma salinha preparada para matar a fome, a sede, as dúvidas e onde os panelistas podem se reunir, conversar e preparar os panels. O Green Room tinha uma cafeteira de ficção científica, um buffet delicioso de frutas, queijos e doces, refrigerantes, chocolates, e até coalinhas de brinde para pendurar na lapela, tudo de graça e à vontade. Tinha dias que eu trocava o café da manhã no hostel pelo café da manhã no Green Room, que além de ter a vista belíssima do panorama de Melbourne, estava quase sempre povoada de escritores nos mais variados níveis de fama e reconhecimento, incluindo Robert Silverberg, Charles Stross, John Scalzi, George R.R. Martin, Kim Stanley Robinson… Quando eu descobri o Green Room, não queria mais sair do Green Room!

 

Green Room

 

Também não poderia deixar de falar da cerimônia do Hugo Awards! Para quem não conhece, o prêmio Hugo é o prêmio máximo da literatura de ficção científica e fantasia, atendendo diversas modalidades em diferentes mídias: literatura, fanzines, revistas especializadas, quadrinhos, artistas gráficos, filmes e seriados. Quem apóia ou participa do Worldcon tem o direito de votar para o Hugo Awards, e esta foi a primeira vez que eu votei.

O Hugo Awards é um evento de gala, o mais glamoroso do tipo. O mestre de cerimônias deste ano foi o escritor de ficção científica Garth Nix, que segundo ele mesmo, estava usando as botas de caubói do Isaac Asimov, a gravata do Robert Heinlein, os óculos do Cory Doctorow, só não teve dinheiro para comprar as cuecas do Neil Gaiman. Logo no início houve uma retrospectiva do ano de 2009 com os candidatos ao prêmio Hugo – é exatamente este vídeo que você pode assistir clicando abaixo.

Depois foi apresentado o troféu Hugo de 2010. O troféu Hugo é um foguete, e só a base é mudada de ano a ano. A base deste ano, de inspiração australiana, foi criação de Nick Stathopoulos. E então passou-se às premiações.

Melhores momentos:

Uma das partes mais interessantes foi quando Robert Silverberg foi receber o prêmio de best fan writer que saiu para o escritor Frederick Pohl (que tem 90 anos e já ganhou outros Hugos).  Sobre essa premiação inusitada, Silverberg simplesmente comentou: “that’s weird!”

O escritor Robert Silverberg daria um ótimo comediante stand up. Quando subiu ao palco para apresentar o prêmio de melhor editor, Silverberg fez a platéia cair na gargalhada analisando a dificuldade de ser engraçado apresentando um prêmio tão sem charme e sem graça como o de “melhor editor”.

Quando o prêmio de best semiprozine saiu para Clarkesworld, Cheryl Morgan veio ao palco muito concentrada no iPhone, tropeçou nos degraus e quase se esborrachou na escada. Veio ao microfone e pediu desculpas: estava fazendo live-blogging.

Enquanto todos os seus colegas estavam na estica e engravatados, um embasbacado Peter Watts subiu ao palco de calça jeans e camiseta confessando que não contava receber o prêmio de best novelette e nem tinha preparado discurso. Logo depois, Charles Stross subiu ao palco para receber o prêmio de best novela no mesmo embasbacamento, dizendo: “estava tão certo de que não iria ganhar que nem preparei discurso. Obrigado!”

Finalmente, o momento que todos esperavam. Kim Stanley Robinson veio apresentar o  vencedor de best novel, melhor romance, o prêmio mais esperado, concorrido e almejado. Abriu o envelope e então começou a divagar longamente sobre a natureza das estatísticas: coisas muito improváveis acontecem, somos todos improváveis, e aconteceu uma coisa improvável: um empate no primeiro lugar! Havia dois vencedores: The City & The City, do China Miéville e Windup Girl do Paolo Bacigalupi. China estava presente e subiu ao palco para agradecer. Disse que era véspera do seu aniversário de 38 anos e que este havia sido o melhor presente que poderia ganhar. Paolo não estava presente. Não entendo bem como são calculados os votos para o prêmio Hugo, mas levando em conta que deu empate na votação, é legal pensar que dei um Hugo Award de aniversário para o China Miéville.

Segue a lista de premiados do Hugo de 2010:

Best Novel: TIE: The City & The City, China Miéville (Del Rey; Macmillan UK); The Windup Girl, Paolo Bacigalupi (Night Shade)

Best Novella: “Palimpsest”, Charles Stross (Wireless; Ace, Orbit)

Best Novelette: “The Island”, Peter Watts (The New Space Opera 2; Eos)

Best Short Story: “Bridesicle”, Will McIntosh (Asimov’s 1/09)

Best Related Work: This is Me, Jack Vance! (Or, More Properly, This is “I”), Jack Vance (Subterranean)

Best Graphic Story: Girl Genius, Volume 9: Agatha Heterodyne and the Heirs of the Storm Written by Kaja and Phil Foglio; Art by Phil Foglio; Colours by Cheyenne Wright (Airship Entertainment)

Best Dramatic Presentation, Long Form: Moon Screenplay by Nathan Parker; Story by Duncan Jones; Directed by Duncan Jones (Liberty Films)

Best Dramatic Presentation, Short Form: Doctor Who: “The Waters of Mars” Written by Russell T Davies & Phil Ford; Directed by Graeme Harper (BBC Wales)

Best Editor Long Form: Patrick Nielsen Hayden

Best Editor Short Form: Ellen Datlow

Best Professional Artist: Shaun Tan

Best Semiprozine: Clarkesworld edited by Neil Clarke, Sean Wallace, & Cheryl Morgan

Best Fan Writer: Frederik PohlBest Fanzine: StarShipSofa edited by Tony C. Smith

Best Fan Artist: Brad W. Foster

Como comentei, o Worldcon é enorme, e aparentemente metade dos hóspedes do meu hostel estavam participando do evento. Nos corredores do hostel, a toda hora esbarrava com minha colega de panel Anita Satkunananthan, com quem conversei bastante. Na rua encontrava outros colegas panelistas, vivia esbarrando com o Sheldon Gill, encontrava a Ika Nurain na pizzaria… Conheci também um casal de steamers (fãs e cosplayers de steampunk) australianos que moram na Nova Zelândia, que elogiaram a organização do Conselho Steampunk brasileiro, um dos mais atuantes do mundo. Infelizmente eu perdi a maior parte das festas e baladas do Worldcon porque tinha que voltar cedo para o hostel para preparar os panels do dia seguinte. Na segunda feira, dia 6 de setembro, eu estava tendo meu dia de fã, feliz mas num danado clima de despedida. Lembro de estar no Green Room tomando meu último café, com a Alaya Johnson perguntando se ainda me veria depois da cerimônia de encerramento – bem que eu gostaria… Mas foi tudo tão rápido! Naquela tarde o Worldcon terminou, eu fui direto para o hostel para lavar as roupas e arrumar a bagagem, e logo depois, durante a madrugada, estaria puxando minha mala pelas ruas de uma Melbourne vazia, chuvosa, adormecida. Peguei um ônibus e segui para o aeroporto sozinha, vendo a cidade sumir na garoa e na escuridão. Antes do sol nascer, meu avião decolou, e eu dei adeus à Austrália.

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Modernização da Lei de Direitos Autorais

junho, 15 - 2010

A lei de direitos autorais brasileira está sendo revista e o Minc acabou de liberar a consulta pública para a modernização da lei de direito autoral – Isso quer dizer que eu e você podemos (e devemos) contribuir.

Veja alguns dos principais pontos discutidos:

Regulação do direito de cópia: atualmente é proibido tirar fotocópias de livros para fins educacionais, usar um trecho de música para remix ou copiar um cd de músicas para uso pessoal. A nova proposta visa facilitar o acesso aos bens culturais e deverá liberar o acesso às obras nesses casos.

Proteção aos direitos do autor: a proposta quer proteger aquele que mais contribui para a cultura: o autor, defendendo que 50% do valor da obra sejam pagos a ele.

Cessão de direitos autorais: normalmente os autores cedem os direitos autorais por tempo indeterminado, e algumas vezes se vêem na situação absurda de serem privados dos direitos sobre suas obras porque mudaram de editora ou de gravadora. Segundo a nova proposta um prazo de cessão de direitos deverá ser explicitado em contrato.

Prazo de proteção das obras: Continua como é hoje: a obra cai em domínio público 70 anos após a morte do autor.

Sebos e bibliotecas legalizados: acredite se quiser, a lei atual reza que o autor deve autorizar a distribuição da obra para fins de empréstimo, revenda, venda e aluguel, o que significa que os sebos e bibliotecas estão na ilegalidade. A nova proposta estabelece que esse direito de distribuição termina com a primeira venda.

Punição para quem paga jabá: uma prática comum das gravadoras é pagar para as rádios tocarem suas músicas. Pela nova proposta, esses casos serão punidos como infração à ordem econômica e ao direito de acesso à diversidade cultural.

A cartilha com o texto integral dessa discussão pode ser baixada aqui. Para participar, acesse o site do Ministério da Cultura, cadastre-se e opine.

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FC do B Panorama 2006/2007 – e-book

maio, 21 - 2010

A coletânea FC do B – Panorama 2006/2007, que foi publicada pela Editora Corifeu, agora está disponível na internet.

Foi a primeira edição de um concurso nacional de contos de ficção científica que se saiu um bom trabalho, rendendo uma boa coletânea de contos (e um prêmio bem legal aos que publicaram, mas não vou contar), e que tem jeito de que vai virar um concurso clássico e anual, talvez bienal.

Participei com o Assassinando o Tempo, que – não sei porque cargas d’água – é o conto que meus leitores mais citam.

Dá pra ler tudo aqui.

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Retratos da Leitura no Brasil – e-book

maio, 21 - 2010

Um link de utilidade pública, especialmente para escritores e profissionais do livro.

Um dos posts mais visitados deste blog tem sido o meu resumo do “Retratos da Leitura no Brasil“, pesquisa realizada em 2008. Acabei de saber que o relatório virou livro e está disponível em e-book para ser baixado no site do Instituto Pró-Livro. O e-book traz a análise de especialistas sobre os resultados obtidos na pesquisa, além dos gráficos bonitinhos.

Agora estou na expectativa de ver um retrato recente da leitura no Brasil.

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Noite de Autógrafos – Fábulas 2ª Ed.

maio, 14 - 2010

E tem noite de autógrafos!

Sábado, dia 22 de maio, a partir das 19 h, eu e o Fábio Fernandes estaremos participando de um bate-papo e autografando nossos livros no Bardo Batata.

O Fábulas do Tempo e da Eternidade – 2ª edição e Os Dias da Peste estarão sendo vendidos com 20% de desconto.

Onde?

Bardo Batata – Rua Bela Cintra, 1333 – Jardins – São Paulo (perto da estação Consolação do metrô).

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Virada Cultural Steampunk

maio, 14 - 2010

A Tarja Editorial e o Conselho Steampunk estarão na Virada Cultural de SP, e eu estarei lá também, curtindo o evento e autografando o Fábulas do Tempo e da Eternidade 2ª Ed. pra quem quiser!

Quando?

Domingo, dia 16 de maio de 2010. O evento acontece partir das 09:00 hs da manhã  no Stand 18, DIMENSÃO NERD, na Praça Roosevelt.

Haverá: no PALCO, das 10:00 as 11:00 hs – palestra sobre Historia Alternativa e Steampunk

E das 11:30 as 14:00 hs – sessão de venda e autógrafos com os autores presentes.

Vide programação da Virada Cultural.

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Literatura erótica

maio, 12 - 2010

É difícil de escrever, é difícil de ler e é difícil de assumir. Mas é um universo inteiro, e, por não me aventurar muito nele, sinto fascínio. Fico olhando de longe: um dia vou me despir desses pudores… um dia chego lá.

Publico aqui a reportagem do programa Entrelinhas sobre literatura erótica com a participação da minha amiga Alessandra, que escreve maravilhosamente bem.

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Sorteio – Fábulas do Tempo e da Eternidade

maio, 5 - 2010

No Twitter!

Dia 07/05, sorteio do livro#FabulasDoTempoEdaEternidade

(http://bit.ly/a4ARea ),@crislasaitis. Siga @tarjaeditorial, dê RT e concorra!