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Mulheres, mulheres, mulheres…

março, 8 - 2014

Vou falar de mulher para mulheres (os rapazes não se sintam excluídos, falo também para a mulher dentro de cada um de vocês).

Outro dia uma amiga me presenteou uma palavra que eu desconhecia: sororidade. Segundo minha amiga, sororidade é o sentimento e a atitude de fraternidade feminina, ou seja, o sentimento de irmãs. Se você fizer uma pesquisa no vocabulário (VOLP) verá que é uma palavra que não existe oficialmente na língua portuguesa. Procurei no dicionário e encontrei “sororicídio” (assassinato de uma irmã), mas nem sinal da sororidade, pobre desconhecida. É uma palavra que faz muita falta, portanto a incorporei no meu vocabulário pessoal e pretendo mimetizá-la por aí, incluí-la nos livros que escrever. Aliás, a amiga que me deu essa palavra de presente eu considero uma irmã. Sou filha única, então tenho que adotar.

Sororidade é necessário porque o mundo estranho em que vivo sempre repetiu para mim que mulheres são criaturas não apenas fracas, mas desunidas.

Uma vida de filmes hollywoodianos, telenovelas, e inúmeras formas de convívio social cotidiano me plantaram (ou enfiaram goela abaixo, para ser mais técnica) a ideia de que mulheres competem entre si, de que se invejam e se esnobam mutuamente, de que amizades femininas são falsas ou frívolas, de que não são capazes de lealdade umas para com as outras, de que não se unem por lutas ou ideais comuns, de que não dão o devido reconhecimento às suas colegas, de que não arriscam a pele por uma companheira…

Essa ideia de desunião inata, não apenas é uma falácia, é extremamente desmoralizante.

No entanto, a propaganda funcionou em uma grande parte dos casos. Quantas mulheres com as quais convivo, algumas até bastante próximas, não julgam outras por ir e vir, por saírem com quem quiserem, por serem livres com seus corpos e cabeças? Quantas conheço não poupam desconfiança, e viciam os dados para sempre tecerem uma avaliação negativa da outra?

Minha resposta pessoal é a recusa total em agir, pensar desse modo, ou mesmo tolerar esse discurso.

Alguém há de argumentar que no meu caso é mais fácil, pois eu gosto de mulheres de todas as formas possíveis. Na verdade, eu me vejo corriqueiramente no complicado jogo da ausência de reciprocidade – gostar mais do que ser gostada, respeitar mais do que ser respeitada -, mas isso não importa realmente. Sinto que devo ser solidária mesmo para com mulheres que são elas mesmas machistas – preciso não ser machista por elas, sei que não há nada mais triste do que viver com um preconceito internalizado.

Em um mundo onde mulheres ainda vivem em clara desvantagem – são a maior parte das vítimas de estupro e de violência doméstica, são bombardeadas por padrões impossíveis de beleza, são objetificadas, têm sua sexualidade vigiada, não são completamente donas de seus corpos, nem sempre são estimuladas a desenvolver suas habilidades, não têm representação política proporcional, são minoria em muitas áreas de atuação etc. – uma das piores, a cereja do bolo, é a ideologia da autossabotagem recíproca.

Portanto, moças, meus pedidos mais sinceros é que sejam solidárias umas com as outras.

Sejam cordiais.

Reconheçam as capacidades e méritos de suas colegas.

Não estimulem a mentalidade de divisão, nem de competição onde ela não existe.

Não aceitem ser julgadas por serem mulheres, nem julguem às outras.

Estimulem as habilidades de meninas e meninos sem importar onde foram colar os rótulos azuis e os cor-de-rosa.

Ajudem outras mulheres a conquistarem seus próprios territórios, construírem suas próprias obras, escreverem suas próprias histórias.

Ponham a mão no fogo por suas amigas.

Ajudem outras mulheres a serem livres!

E mesmo se vocês não lembrarem mais dessa palavra rara, sororidade, levem consigo o significado.

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Leituras de 2010

dezembro, 28 - 2010

Quando se chega ao fim do ano e cai a ficha -“minha nossa! já passou?” – é muito provável que o ano foi bom. Embora eu tenha furado várias promessas que escrevera na minha agenda (sim, eu tenho essa mania), só posso concluir que meu 2010 foi incrível!  Realizei sonhos de longa data: conheci a Austrália e a Nova Zelândia, participei pela 1ª vez do World Science Fiction Convention; e embora ainda não tenha conseguido publicar o meu romance, escrevi meu primeiro roteiro de cinema e ganhei uma lindíssima 2ª edição do Fábulas do Tempo e da Eternidade!

2010 foi ano de networking, conheci gente pra caramba! Foi ano de experimentações: provei comida tailandesa, viajei sozinha, dei palestra em inglês, comi ostra, peguei canguru no colo, andei de camelo… Sem rotina, foi ano de pensar muito e fazer planos, começar trabalhos novos e tomar decisões que devem nortear a vida inteira.

Meu 2011 vai começar repleto de projetos, e posso adiantar que vem muita novidade pela frente!

Com toda essa movimentação, não devo ter lido metade da montanha de livros que lera em 2009. Seguindo a tradição, vai a lista, e uma resenha para aqueles que tenho mais vontade de comentar:

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Ficção Brasileira

Dom Casmurro e Os Discos Voadores – Lúcio Manfredi

Desde o lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis (de Seth Grahame-Smith), o mundo literário tem sido sacudido por uma onda de mashups de clássicos da literatura com elementos fantásticos, na sequência vieram: Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, Android Karenina, Jane Slayre e outros títulos. O sucesso foi tão grande que Orgulho e Preconceito e Zumbis já está ganhando adaptação cinematográfica! A proposta dessa novíssima – se é que já dá pra chamar assim: – vanguarda é, segundo o próprio Grahame-Smith: “transformar o clássico da literatura em algo que você gostaria de ler!” O conceito do mashup é conservar parte do texto original e misturar com outros elementos, dando uma nova roupagem à história; por isso o mashup é classificado dentro da ficção alternativa (uma discussão mais aprofundada sobre mashup e ficção alternativa você encontra neste ótimo artigo da Ana Cristina Rodrigues). Como você pode ver, a onda veio pro Brasil e em 2010 a Editora Leya lançou o selo Lua de Papel de “Clássicos Fantásticos” escritos por brasileiros – entre eles, Dom Casmurro e Os Discos Voadores é, na minha opinião, a melhor obra da safra.

Lúcio Manfredi é roteirista de televisão e nos últimos anos trabalhou no roteiro de seriados e novelas da Globo, como Ciranda de Pedra e A Casa das Sete Mulheres. Não é preciso dizer que ele sabe escrever cenas memoráveis, Machado de Assis não poderia ter encontrado melhor co-autor. O romance não é literalmente um mashup, porque pouquíssimo do texto original foi mantido, Lúcio reescreveu a saga inteira de Dom Casmurro na sua própria linguagem, leve e graciosa. Exatamente como no clássico de Machado, em Dom Casmurro e Os Discos Voadores o jovem Bentinho está predestinado desde o útero a seguir a carreira de padre – uma promessa feita por sua mãe, D. Glória – sendo que o menino não está nem um pouco inclinado ao sacerdócio, seja por vontade ou vocação, e acrescente ainda que ele está enfeitiçado pelos “olhos de ressaca” de sua amiga de infância e protonamorada, Capitu. As diferenças do romance original começam com a caracterização dos personagens: José Dias, o agregado, é um homem muito preciso, com engrenagens e articulações mecânicas; Capitu tem defeitos de nascença e atitudes esquisitas; e o tio Cosme não sai da frente do telescópio e conta ver coisas estranhas no céu. Bentinho testemunha uma sequência de acontecimentos estranhos que o acompanham desde a infância na casa da Rua Matacavalos aos seus estudos no seminário; vê-se pivô de uma conspiração estranhíssima da qual participam todas as pessoas que o cercam, mas que ele não compreende e de início nem desconfia que a origem dos seus problemas, na verdade, vem de Sirius…

Respeitando a tradição das ironias machadianas, não poderia faltar uma boa dose de humor, o que torna a leitura deste livro simplesmente deliciosa. E para quem é bom em captar referências, ele ainda reserva uma homenagem implícita  ao autor preferido do Lúcio.

 

A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector (releitura)

Leio e releio sem cansar. Em matéria de ficção, A Paixão Segundo G.H. é um dos livros mais diferentes que o leitor pode experimentar. No nível superficial, a história é esdrúxula: uma mulher solitária faz a arrumação no seu apartamento, quando encontra uma barata no armário e a mata. E daí? E daí que nas entranhas dessa microscópica ação o universo inteiro palpita enquanto fala a voz interior dessa mulher. O assassinato da barata desencadeia uma saga subjetiva: uma imensa viagem interna por galáxias de sentimentos e ressignificações, tentativas de colocar em palavras aquilo que transcende à própria linguagem, uma busca de sentido, e no sentido, a liberdade de existir – o momento de epifania. Algumas pessoas acham este livro abstrato demais, outras se fascinam pelo alcance de tal abstração; para mim é uma das reflexões mais elevadas de toda a literatura (ao lado de De Profundis, do Oscar Wilde). Sempre que me sinto paralisada com ideias que não consigo formular, peço ajuda à G.H. e, especialmente, à Clarice, que são as melhores evidências de que não há nada que não possa ser colocado em palavras.


Cio (contos)– Marne Lúcio Guedes

Santa Clara Poltergeist – Fausto Fawcett

A Via Crúcis do Corpo (contos)– Clarice Lispector

A Bela e a Fera (contos) – Clarice Lispector

Game Over – Uma Ameaça Virtual – Rosana Rios

Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

O Ateneu – Raul Pompéia (releitura)

Noite na Taberna (poesia) – Álvares de Azevedo

Os Sete – André Vianco

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Ficção Estrangeira

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Este livro foi a grande surpresa de 2010. Peguei-o sem esperar muito e fui conquistada logo nas primeiras páginas. A história é narrada por Daniel, um menino que no seu aniversário de 11 anos, pouco tempo depois de ter ficado órfão de mãe, é levado pelo pai a um lugar misterioso: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde ele tem o direito de escolher entre as intermináveis prateleiras um livro raro que poderá guardar consigo. É assim que Daniel se apodera de um volume intitulado A Sombra do Vento, de autoria de um barcelonês chamado Julian Caráx. Ao longo dos anos, o garoto lê e relê o livro, e a curiosidade o leva a buscar outros títulos do mesmo autor, mas Daniel descobre que não há mais vestígio sequer da obra e de Julian Caráx. Intrigado, Daniel se põe a investigar a vida desse misterioso escritor, e as evidências que encontra lhe mostram a dimensão trágica da história que ele está prestes a descobrir.

A Sombra do Vento é desses livros que se apoderam e prestam tributo a uma cidade – vive-se e respira-se Barcelona, cenário que não poderia ser mais perfeito à trama. Apesar das pinceladas góticas, não é um livro melancólico, é antes um romance leve, de cenas delicadas, tiradas bem humoradas, personagens encantadores, trama engenhosa, repleto de figuras de linguagem originais; um livro magistralmente escrito! Sou uma leitora bastante exigente e posso dizer que A Sombra do Vento é um dos poucos romances que conseguiram corresponder a todas as minhas expectativas.

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Chore Para o Céu (Cry To Heaven) – Anne Rice

Inicialmente famosa pelas Crônicas Vampirescas e pelas Bruxas Mayfair, Anne Rice alguns anos atrás passou pelo seu momento “encontrei Jesus” e escreveu livros sobre Cristo, recentemente entrou no momento “cansei dos cristãos” e voltou a escrever como escrevia antes, recentemente sintonizou a nova onda de anjos e acabou de publicar Tempo dos Anjos. Depois de ter lido Entrevista com o Vampiro anos atrás, quis ler algo novo de Rice e estabeleci como próximo alvo o Cry To Heaven (Chore Para o Céu), que eu não estava encontrando em lugar nenhum, até me deparar com uma edição em hardcover, com essa mesma capa que você vê acima, num sebo em Katoomba, na Austrália.

Apesar de não serem vampiros, nem bruxas, nem anjos, nem múmias, os personagens deste romance mainstream não deixam de ser criaturas “à parte” detentoras de um dom quase sobrenatural: Cry To Heaven é uma história sobre os castrati italianos do século XVIII. Numa época em que as mulheres eram proibidas de subir ao palco para cantar, meninos eram castrados para suprir a demanda de sopranos e contraltos para as óperas. Milhares de garotos eram castrados na esperança de um dia se tornarem estrelas da ópera, como foram Farinelli e Caffarelli, mas pouquíssimos eram os que, com muito talento e sorte, conseguiam fazer carreira como cantores. E para os milhares que não alcançavam esse objetivo, restava conviver com o estigma de se serem considerados sub-homens ao olhar de uma sociedade que os discriminava, sendo que a própria Igreja Católica não os ajudava, proibindo-os tanto de se casar como de seguir o sacerdócio.

No romance, Guido Maffeo é um talentoso castrato napolitano, que cantou na ópera durante a adolescência, mas tragicamente perdeu a voz num estirão da juventude (os castrati costumavam ficar muito altos, e podiam perder a qualidade da voz durante o crescimento); impedido de cantar, Guido estabeleceu como objetivo de vida encontrar uma voz perfeita e produzir uma nova estrela para a ópera; viaja pela Itália em busca de um prodígio. Em Veneza, o jovem Marc Antonio Treschi, o único herdeiro de uma dinastia de senhores venezianos, vive trancado em seu palácio junto à mãe, distraindo-se com música e canto. O seu velho pai, próximo à morte, revela a Tonio que ele tem um meio-irmão mais velho que fora exilado na Turquia como punição pela própria insolência. Assim que morre o senhor da casa, o irmão misterioso – Carlo – retorna e Tonio percebe que não é o único herdeiro, e que suas relações de sangue são mais profundas do que ele podia imaginar. Para reaver o seu direito sobre a Casa Treschi, Carlo sabota Tonio de uma maneira inusitada: manda castrá-lo e dá-lo para o caçador de talentos que veio a Veneza. Assim se cruzam os destinos de Guido e Tonio, começa uma aventura sensual pelas óperas italianas e, lentamente, a preparação de uma amarga vingança.

Cry To Heaven tem como pano de fundo as belíssimas paisagens de Veneza, Nápoles e Roma, e tem os mesmos temperos dos livros vampíricos de maior sucesso de Anne Rice: é recheado de erotismo, sensualidade andrógina, glamour e sangue – na minha opinião, mostra a fórmula da autora num estado mais puro. O livro ainda traz um adendo com referências da vasta pesquisa histórica que fundamenta a obra. Quem tiver curiosidade de entender melhor o mundo dos castrati, pode assistir ao filme Farinelli – Il Castrato (1994), ou ouvir a única gravação sonora existente da voz de um castrato: Alessandro Moreschi, o último, que morreu em 1922. Quem quiser ainda ter uma noção da complexidade das árias cantadas por eles, pode ouvi-las na voz da soprano Cecilia Bartoli, que lançou em 2009 o álbum Sacrificium, só com árias de castrati.

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Perdido Street Station – China Miéville

Perdido Street Station tem sido um livro muito comentado nos últimos anos. Por quê? 1- é o primeiro livro que se conforma totalmente à definição de new weird fiction (como canonizado por Jack e Ann VanderMeer), portanto, é o marco de um novo subgênero literário (sem nada pejorativo no prefixo “sub”); 2- é um mergulho num universo surreal, de criatividade sem limites, uma viagem – se não literal, literária – no ácido; e 3- é um livro que incomoda. Se você me disser que vai ler, devo acrescentar: você vai “se aventurar a”.

O new weird se baseia na mistura de elementos de ficção científica, fantasia e terror – e até mesmo RPG, noir, policial, mitologia; o que vier. É uma ficção não-realista, que exige a criação de um cenário novo – um cenário urbano – que será construído nas bases de uma estética própria – a estética estranha.

Mas vamos à história: ela se passa no mundo de Bas Lag, na cidade de New Crobuzon, mais especificamente no submundo dessa metrópole labiríntica, industrial, de arquitetura vertiginosa, meio steampunk, meio esquisitóide, sob o vulto da imensa estação da Rua Perdido. Seres humanos dividem o cenário com raças pseudo-humanas, há os khepri – criaturas com corpo de gente e cabeça de besouro, hábeis na arte de esculpir a partir do próprio cuspe; os garuda – uma espécie de águias humanóides com um código de conduta bem peculiar; os vodyanoy – uma raça aquática semelhante a rãs; e os cactacae – um povo cacto que habita um bairro isolado debaixo de uma redoma, como uma grande estufa.

Os personagens são cidadãos comuns de New Crobuzon; cientistas, artistas, inventores; amostras ao acaso da salada mista que é tal sociedade. Conhecemos a princípio Isaac, um cientista humano que vive um relacionamento amoroso uma fêmea khepri (ou mulher-besouro): Lin, artista e criadora de grandes monumentos de cuspe. Yagharek é um garuda que cometeu um crime grave dentro do seu grupo e foi punido com a amputação de suas asas e o ostracismo, ele vai a New Crobuzon procurar Isaac e pedir que o cientista o ajude a voar novamente. A trama segue com a descoberta de uma espécie de néctar dos deuses – a dreamshit (que vou adorar saber como irão traduzir!) – uma secreção produzida por uma espécie misteriosa e que, ao ser identificada, constata-se que é também uma espécie mortal e que poderá colocar os protagonistas, a sociedade e o frágil equilíbrio de New Crobuzon em colapso.

A saga é uma colagem de ideias estupidamente criativa, extremamente complexa e anticlichê. Se há terror e cenas chocantes (e olhe ainda tenho pesadelos com o bairro da luz vermelha de New Crobuzon!), há também espaço para a poesia e o encanto nos anseios e sonhos dos seus personagens. Mièville utilizou referências mitológicas, folclóricas, políticas e históricas para fazer essa colagem. Por que é uma leitura difícil? Porque a linguagem é barroca, o texto é denso, pesado e extenso; mas nem por isso o livro deixa de ser deslumbrante.

 

A Cidade dos Hereges – Federico Andahazi

A Máquina do Tempo – H.G. Wells

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel – J.R.R. Tolkien

A História do Olho – Georges Bataille

Snuff – Chuck Palahniuk

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Brazyl – Ian McDonald

 

Não Ficção

Infiel (Infidel) – Ayaan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali, hoje uma cidadã holandesa de 41 anos radicada nos EUA, tem o que se pode chamar de uma história de vida de arrepiar.

Nascida na Somália, aos 5 ela sofreu a mutilação genital, como acontece a praticamente todas as meninas na cultura somali. Esse procedimento é feito por cortadeiras que, como as tradicionais parteiras, são mulheres do povo convocadas pelas famílias, e o trabalho é feito sem anestesia, sem instrumentos apropriados, sem ambiente esterilizado e em geral, em situações precárias. A menina precisa ser segurada enquanto o clitóris e os pequenos lábios da vagina são extirpados, os grandes lábios são seccionados e suturados com espinho de acácia, deixando um buraquinho minúsculo para o escoamento da urina e da menstruação – no período de cicatrização esse buraco é mantido aberto por um palito de fósforo, e as pernas precisam ficar amarradas durante semanas. A vulva desaparece e no seu lugar fica uma cicatriz rígida e, por vezes, apertada e dolorida. Quando a mulher se casa, na noite de núpcias a cicatriz é aberta a faca pelo marido. Quando vai dar à luz o primeiro filho, é necessário aumentar o corte. E algumas vezes, após cada parto, a  mulher é novamente suturada. As meninas que não são cortadas são estigmatizadas na sociedade somali, então praticamente todas o são (não sei se o costume perdura até hoje). Muitas morrem de infecção após a mutilação genital, muitas outras morrem de complicações decorrentes do procedimento: e todas sofrem com o trauma e as dores resultantes.

Essa experiência é só o ponto de partida da biografia de Ayaan. Em Infiel, ela faz um retrato da sociedade somali: seus clãs, sua cultura, a religiosidade… Nascida e criada dentro da religião muçulmana, e tendo morado inclusive na cidade de Meca, Ayaan narra a sua vida e a das mulheres com quem conviveu sob a opressão e a brutalidade do Islã. Ela chegou a ser espancada pelo imã que lhe lecionava o corão e quase foi morta de pancada pela própria mãe. Ayaan chegou a  conhecer o fundamentalismo e combater o ocidente. A virada na sua vida se deu quando, contra a sua vontade, o pai arranjou-lhe casamento com um somaliano que morava no Canadá. No momento em que Ayaan pegou o avião para ir viver com o marido, aproveitou-se de uma escala na Europa para fugir e pedir refúgio na Holanda. Na Europa ela teve o seu primeiro choque com os valores do ocidente: via as mulheres livres, impressionava-se com as pessoas que lhe ajudavam e eram simpáticas sem querer nada em troca. Como refugiada na Holanda Ayaan recomeçou sua vida: trabalhou e conseguiu a cidadania, aprendeu a língua holandesa e conseguiu se matricular em ciência política na Universidade de Leiden. Estudando o trabalho dos filósofos, especialmente após a leitura do Manifesto Ateísta, Ayaan passou por um enorme cisma com suas crenças, sofreu o abalo de considerar que toda a estrutura ideológica do mundo em que vivera, pautado na retórica do Corão, era ficção, e nem o inferno que ela tanto temia e nem Alá existiam. Como resultado, em 2002 Ayaan afirmou-se ateísta – e o rompimento com a religião foi inevitavelmente um rompimento com a sua família. Depois de formada entrou para a política na Holanda, onde foi deputada de 2003 a 2006. Escreveu a sua biografia, virou crítica do Islã e ativista para a liberação das mulheres muçulmanas, como resultado, recebeu inúmeras ameaças de morte. Em 2004, em parceria com o cineasta Theo van Gogh, idealizou o curta-metragem Submission, sobre a realidade da mulher no Islã. As ameaças contra a vida de Ayaan explodiram, e ela contou com a proteção da polícia holandesa, mas Theo van Gogh foi assassinado na rua a facadas, e sobre o corpo dele foi deixada uma carta dizendo que a próxima vítima seria Ayaan. Atualmente ela mora nos EUA e continua com o seu ativismo, vivendo cercada de seguranças.

É difícil resenhar um livro tão profundo em tão poucas linhas e conseguir comunicar a dimensão dessa história. Há uma certa semelhança entre a biografia de Ayaan e a de Waris Dirie, a Flor do Deserto – com o detalhe de que a história da “infiel” tem menos glamour, mais violência e o fator “sorte” deu lugar a uma força de vontade invejável.

A trajetória de Ayaan Hirsi Ali é impressionante; uma mulher que escapou por uma porta inacreditável e teve coragem de vir a público enfrentar a truculência terrorista pedindo pelo fim de uma era de barbárie.

Infiel é um livro que recomendo a todos, sobretudo às mulheres. E o filme Submission, que levou ao assassinato de Theo van Gogh é este que você pode assistir abaixo:


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Um Antropólogo em Marte – Oliver Sacks

A Mulher/Os Rapazes da História da Sexualidade – Michel Foucault

Alquimia e Misticismo – Alexander Roob

A Dança do Universo – Marcelo Gleiser

As Vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior (releitura)

Voar Também é Com os Homens – O Pensamento de Mário Schenberg – José Luiz Goldfarb

1808 – Laurentino Gomes

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Infanto-Juvenis

Matilda – Roald Dahl

George’s Marvelous Medicine – Roald Dahl

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

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Antologia

Anno Domini – Helena Gomes (organização)

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Toma que o aborto é teu

junho, 6 - 2010

Segundo essa reportagem publicada no Estadão, uma em cada sete mulheres brasileiras entre 18 e 39 anos já abortou. A pesquisa ainda diz que 80% delas têm religião, 64% são casadas e 81% são mães, sinal de que essas “criminosas” (considerando que no Brasil o aborto é crime) não estão nada distantes do perfil da maioria das mulheres que você e eu conhecemos. Indiretamente, isso também significa que a cada sete mulheres com quem você e eu convivemos, uma já deve ter praticado o aborto. Elas estão nas nossas famílias, são nossas amigas, colegas de trabalho e de faculdade… Não são “as outras”.

O que acho intrigante é que as pessoas agem como se o problema do aborto existisse por si mesmo. Quando a discussão surge, me vem essa pergunta inquietante: por que o pessoal do “a favor” e do “contra” não resolve fazer algo verdadeiramente efetivo contra o aborto, como combater o seu problema original: a gravidez indesejada?

Suponhamos que exista o acesso universal a métodos contraceptivos e que as pessoas estejam devidamente informadas. Suponhamos que haja uma grande conscientização sobre o problema da gravidez indesejada. Suponhamos que cada mulher e cada homem que não deseja ter filhos faça a parte que lhe cabe para evitá-los.

Suponhamos que métodos de esterilização definitiva sejam disponibilizados sem restrições nos hospitais públicos para todas as pessoas que queiram optar por eles de espontânea vontade.

Suponhamos que não existam mulheres abandonadas pelos homens que as engravidaram.

Suponhamos que as crianças e adolescentes sejam devidamente orientados, acompanhados e não reprimidos (e jamais abusados).

Suponhamos que não haja estupros. Suponhamos que ninguém seja coagido a fazer sexo sem proteção.

Suponhamos que todas as mulheres sejam donas da sua sexualidade e não sejam oprimidas. Suponhamos que elas não tenham medo de perder o emprego por estarem grávidas.

Suponhamos que as pílulas contraceptivas não falham e que as camisinhas não furam.

Nessa suposta realidade, o problema do aborto foi minimizado ao extremo, e só se aplica em casos de exceção, de fetos malformados ou quando a gravidez é de risco para a mãe. O fim da gravidez indesejada tecnicamente colocaria um fim sobre o “problema do aborto”.

Mas se você concorda comigo que esse quadro está muito distante da nossa realidade, e que:

– Algumas pessoas são sexualmente irresponsáveis.

– Seres humanos cedem a impulsos independentemente da disponibilidade da camisinha.

– Mulheres são oprimidas.

– Mulheres são estupradas.

– Mulheres são abandonadas pelo pai da criança que levam no ventre.

– Mulheres perdem o emprego quando ficam grávidas.

– Homens acham que esse problema não é com eles.

– Métodos contraceptivos são combatidos por instituições religiosas, o acesso não é universal e as pessoas não estão devidamente informadas.

– Adolescentes sofrem pressão de grupo para transar, nem sempre têm acesso a métodos anticoncepcionais, nem sempre são orientados ou simplesmente acham que são imunes às consequencias do sexo sem proteção.

– Cirurgias de vasectomia e ligadura de trompas estão disponíveis nos hospitais públicos apenas para homens e mulheres maiores de 25 anos e com dois ou mais filhos vivos.

– Pílulas falham, camisinhas também.

– As leis nem sempre se cumprem neste país.

E por mais que se faça para combater a gravidez indesejada, ela continuará acontecendo por razões que fogem a toda tentativa de controle.

Pode-se adivinhar que enquanto houver gravidez indesejada, haverá aborto. E enquanto o aborto for ilegal, haverá abortos clandestinos. E enquanto houver abortos clandestinos, haverá mulheres com complicações, mortes e custos arcados pelo Estado no atendimento a essa população. A conclusão é que nada resolve o “problema do aborto”, ele no máximo pode ser minimizado, ou autorizado como método de redução de danos.

Agora, vou levantar uma outra questão, interessantíssima:

Quantas das pessoas que gostam de debater sobre o aborto estão realmente preocupadas em resolver o problema da gravidez indesejada?

Porque algo me diz que a febre do debate é uma dessas coisas que existem por si mesmas, uma forma de instinto bélico, onde a graça é a argumentação, defender seu grupo e seu ponto de vista como quem defende um território e demarca limites claros entre “bem” e “mal”, “certo” e “errado”. Existe o desejo de confrontar, de submeter e de controlar os outros. Sem um debate bem quente muitos ficam órfãos de causa.

Quem veio aqui na esperança de me ver tomar parte em algum dos lados do discurso vai ficar decepcionado. Eu vim dizer que a culpa do aborto é minha, é sua, é do padre, do presidente e da sua avó. Implicitamente, isso nos obriga a tomar, não uma posição, mas uma ação. Eu vim lhe inquirir e convidar você a se tornar também um chato inquiridor.

Pergunte às pessoas que gostam de debater sobre o aborto o que elas tem feito:

– Para aumentar a conscientização sobre a gravidez indesejada?

– Para informar a população sobre o assunto?

– Para contribuir com as políticas de planejamento familiar?

– Para garantir o acesso popular aos métodos contraceptivos nas redes de saúde públicas?

– Para orientar crianças e adolescentes sobre sexo seguro?

– Para desconstruir a cultura machista no Brasil?

– Para garantir os direitos da mulher?

– Para assegurar a punição dos estupradores e dos pais que fogem à paternidade?

– Para cobrar mais ações dos políticos?

– Para cobrar que sejam cumpridas as leis?

É muito gostoso apontar o dedo e inflamar o discurso, agora quero ver arregaçar as mangas e mostrar o que sabem fazer.

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Homenagem às genitoras

maio, 10 - 2010

Neste dia das mães eu desejo a todas as mulheres do Brasil felizes 50 anos da pílula anticoncepcional. E que a maternidade seja, cada vez mais, uma escolha muito consciente.

“Luke, I am your mother!”

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Sangria

abril, 5 - 2010

Uma homenagem ao dia internacional da TPM.

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Sangria

É assim: começa com uma sensação incômoda, os seios enrijecem, ficam sensíveis e doloridos. O corpo acumula líquido, incha, a calça jeans parece ter encolhido de repente. A ansiedade e a irritação vão tomando forma e você mal percebe até o momento em que se pega arrancando os cabelos. Cansada, não dorme direito à noite. A tensão se acumula, a sensação é de que a corda vai arrebentar a qualquer instante.

A corda é você.

Ela estica estica estica… e arrebenta! E como todo ato violento, envolve um banho de sangue.

Ali no ventre um pedaço seu começa a gritar: é aquele órgão kamikaze, automutilante, ele se contorce, se esfrega, esfacela-se todo por dentro. Você não tem como se livrar, então carregue a cruz, agüente! Vai arder como ferro em brasa, vai pesar, sufocar… No clímax, há de se irradiar para todo o corpo, travando músculos, arrancando gemidos, a coluna vergada por uma força terrível:

Dor!

Não há alívio rápido possível. A dor agride, cobra uma reação. Você não pode se vingar dela, então se vinga do mundo: xinga, morde, imagina coisas inconfessáveis; pensa no vestido mais caro que pode rasgar, no homem mais gato que pode torturar, naquele vaso lindo de cristal que está doida para experimentar contra a parede. Tudo isso em pensamentos, claro, porque a dor lhe faz a criatura mais covarde da casa. Você se encolhe na cama e agüenta tudo de boca fechada, como uma ovelhinha, com a resignação que a vida lhe ensinou.

Como sempre, você suporta. E geme. Não é apenas sangue: você se desfaz em coágulos, dissolve-se numa sopa vermelha de minúsculos nacos. Dizem que o primeiro dia é um inferno, no segundo já se consegue respirar, o terceiro e o quarto são trégua e paz. A brasa esfria, as dores se calam, o sangramento perde força e ganha consistência. No final resta uma descamação escura. E estanca.

Quer uma boa notícia? Isso não vai acontecer somente uma vez, será tão freqüente e corriqueiro que vai acabar se acostumando, logo será mestre em lidar com essa bizarrice da natureza. Sendo ao mesmo tempo protagonista e palco desse espetáculo grotesco, será até capaz de representá-lo com bastante elegância! Pois ao criar a mulher, o sádico Deus falou: “enquanto a pele ainda for macia, enquanto os seios forem redondos, enquanto a sensualidade habitar teu corpo serás torturada uma vez ao mês. Esse será o custo de poder carregar os filhos no ventre”.

Deus só pode ser homem.

“Ser mulher é uma condição mística” – minha ginecologista me disse.

É sim, ou você acha que tem cabimento um bicho sangrar todo mês e não morrer? Não é exagero dizer que muitas mulheres não têm medo do parto porque treinaram para isso a vida inteira. A cada mês, um óvulo abortado, uns mililitros de sangue perdidos e uma alma não nascida para sempre.

É muito fácil chamá-las de bruxas; mas é o que elas são e eu as invejo. A natureza não é estúpida, tortura mas não mata.

Falando desse jeito parece que é sangria desatada. No meu caso, é desatada mesmo: sou hemofílica.

Você certamente não fica pensando com freqüência no ar em que respira ou no sangue que corre pelas suas veias. Eu, sim, penso nisso todos os dias. Odeio sangue. Amo sangue. Sangue é o oceano que contorna minha existência por todos os lados. Minha maldição, minha salvação, meu permanente alerta vermelho.

Olha lá a menina vampira tomando sangue pelas veias! Entrou meio pálida, agora está corada, já pode até se acidentar. Vide o rótulo: “frágil”, mantenha sempre embrulhada em espuma e plástico-bolha. Não deixe que ela corra, não deixe que faça balé nem educação física; objetos cortantes ou pontiagudos sempre fora de alcance; é melhor nem deixá-la muito perto das outras crianças; dê livros para compensar,  mas cuidado para ela não se cortar com as folhas; lembre-a de sempre prestar atenção por onde anda…

Pois é, minha cara, a vida é assim. Não tenha dúvidas que eu preferia menstruar uma vez por mês.

Porque uma vez só já foi o bastante. Eu tinha dez anos e ninguém podia adivinhar que seria tão cedo, tão intenso, dessas hemorragias que mudam a cor dos lençóis na virada da noite. Lembro como se fosse hoje, quando fui me deitar sentindo uma dor incômoda na barriga, os lençóis eram rosas. Quando acordei do coma, uma semana depois, eles eram verdes! Ainda bem que não vi as cores intermediárias, acho que teria morrido de susto.

Tenho um problema sério com o vermelho, ele não me deixa em paz. São as maçãs, os morangos, os tomates, os batons, os vestidos de gala, a cruz da ambulância; eles me perseguem, me põem neste nervosismo, não dá para pensar.

Verdes? Pensando melhor, acho que os lençóis eram brancos. Lençóis, aventais, paredes e a mosquinha branca aqui: uma em 25 milhões. Todos os dias vinham médicos, residentes, enfermeiros, entravam no quarto em excursões de três, quatro, cinco, e eu demorei a perceber que era a mais nova atração turística da medicina.

– Seu pai é hemofílico? – um moço de branco me perguntou.

Não sei, não o conheci, mas a genética diz que sim (era minha matéria preferida na escola, adivinha só porquê). Bem que mamãe podia ter selecionado melhor o vigarista que a engravidou…

Olha só, que ingratidão! Se não fosse por uma mãe descuidada e um pai mal escolhido eu não estaria aqui para contar esta história. E sem a medicina do século XX, muito menos. Todos os dias tomo uma pílula em homenagem ao homem que evitou que muita gente nascesse por acidente, ele poderia ter me condenado, mas me salvou: é essa pilulazinha irônica que impede meu corpo de apertar o botão de autodestruição. Por efeito colateral, eu sobrevivo.

Vivo para fazer o hemocentro funcionar. Gosto dos hospitais tanto quanto eles gostam de mim. Tem gente que vai ao teatro, tem gente que prefere cinema, eu sempre fui muito ao hospital e penso que gosto não se discute. Já experimentei sangue de todos os tipos, sou receptora universal. O A+ costuma ser o meu preferido, se bem que acho o O- bastante docinho (talvez porque seja sangue de luxo), enquanto o AB+ é sangue vira-lata, faz bem o meu tipo. Todo mês recebo salário, cesta básica, pílulas e fatores sanguíneos. E é claro, tenho medo que dia desses me venha de brinde um HIV, uma hepatite C, uma doença de Chagas. Dizem que a cavalo dado não se olha os dentes, sei que em alguns lugares não olham mesmo e isso me deixa em pânico!

Sobrevivi a períodos de estiagem nos bancos de sangue. Coleciono esses dentes encavalados que nunca pude arrancar. Não posso menstruar nem ter filhos. Subir em uma árvore foi a maior façanha da minha infância! A vida me roubou muitos prazeres e me privou de coisas demais, mas o pior não lhe contei ainda: durante a adolescência minha mãe me atormentou com conselhos que nunca gostei de ouvir e dos quais ela não era nenhum exemplo. A questão é que os rapazes eram contra-indicados para a minha condição de garota hemofílica. Quem disse que sexo não é pecado mortal? Eu trazia comigo um hímen de sete cabeças, que cuspia fogo e podia rebentar num rio de lava fervente que me cozinharia na cama com o meu namorado. Essa pequena maldição que ninguém merece eu precisei cauterizar às escondidas no consultório ginecológico. Já disse que a ginecologista é minha melhor amiga? Graças a ela eu não morri de sexo, por melhor que a possibilidade possa parecer.

Mas todas as outras estatísticas estão do meu lado. Veja bem, nasce um menino hemofílico a cada 7.500 ou uma menina a cada 25 milhões. É 43 vezes mais provável ser acertada por um raio. É mais ou menos a mesma chance de ganhar sozinha na mega-sena! Sou ou não sou um pára-raios da improbabilidade? Não paro de pensar nas combinações funestas da minha sorte. Dizem que a tragédia é a combinação de dois fatores aleatórios, porém explosivos quando unidos por acidente (ou como disse um filósofo famoso chamado Murphy, “merda” é um fenômeno físico sempre prestes a acontecer), por exemplo: escada + tropeço, criança + fogão, distração + carro na contramão… As combinações podem ser infinitas. Tudo são números. Probabilidades!

Eu tenho o meu próprio fator de risco, bem alto por sinal. Sei que a qualquer momento virá combinação fatal, muito provavelmente algo do tipo: “transfusão + infecção” ou “hemofilia + acidente sangrento”. Um tiro não me daria nenhuma chance, tampouco uma cirurgia inevitável, talvez até um tombo, um corte, um dente quebrado… Nas muitas horas vagas que passei na fila do hospital cheguei a imaginar mil finais para a minha história, mas o acaso tem o talento de surpreender a gente.

Eu que sou perita em estatísticas, alguns dias atrás resolvi entrar para os índices da violência urbana. Os rapazes me abordaram no semáforo, exigiram minha bolsa e, não contentes, me levaram junto com o carro. Os dois cavalheiros me conduziram até uma favela esquisita, onde me fizeram descer e gentilmente me transferiram para o porta-malas. Ali eu passei não sei quantas horas rezando para Deus, Buda, Shiva, Jeová e todos os deuses dos quais podia me lembrar. Tenho que agradecer pelo fato de não terem me machucado – e precisavam?  Debaixo do cano de um revólver sou uma pessoa bastante cooperativa. Perguntei quanto queriam de resgate, dei os telefones, pedi para falar com a família; aquela coisa toda aprendida por osmose em um milhão de noticiários policiais. Não sei o que eles querem de mim. Acho que querem tempo para a notícia aparecer, minha mãe enlouquecer, meu namorado se desesperar, deve ser isso.

Acho que preferia o tiro, é mais digno.

O que me assusta é que estou perdendo a noção do tempo. Eles só aparecem uma vez por dia para me dar água e comida, devem ser seqüestradores muito ocupados, acho que trabalham fora. Eles vêm e eu imploro pelamordedeus me dá as minhas pílulas! Existem sete bilhões de vidas lá fora e esta aqui calhou de ser minha, é tudo o que tenho, por favor, não vai embora!

Há uma mulher entre eles e sei que ela é a minha desgraça. Deve ser instruída, reconheceu a cartela, sabe que ninguém precisa de anticoncepcionais para sobreviver mas não tem certeza se com eles dá para se matar. Não, dona seqüestradora, eu não iria pôr tantas transfusões de sangue a perder, tanto remédio e tempo perdido em fila de hospital! Mas ela não quer acreditar.

E enquanto isso, estou aqui gritando como uma maluca para que alguma alma me ouça, falando com fantasmas para não enlouquecer, então vê se não vai embora, não me deixe aqui sozinha! Agora sei que liberdade é como esse ar que se respira sem pensar – estou sufocando! De vez em quando durmo nesse chão duro e meu cativeiro termina por alguns instantes. Sonho que não há mais paredes, estou livre, as pessoas me esperam do outro lado, entre nós há apenas um tapete vermelho estendido pelo infinito!… É um pesadelo, um sonho, um pesadelo. Eu acordo. Medito. Rezo. Espero.

Acho que estou indo bem, obrigada por perguntar. Quer saber como me sinto? Eu vou dizer.

É assim: começa com uma sensação incômoda…

Cris Lasaitis

Conto originalmente publicado na Revista Scarium 25, especial Mulheres & Horror

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Mulher, chega de papo furado!

março, 9 - 2010

E se você veio me dizer “parabéns pelo dia internacional da mu…”

STOP!!

Cansei desse mesmo papo todo ano, cara. É sempre a mesma coisa: um estamos chegando lá que nunca chega, uma exaltação de quem encara a jornada dupla, trabalho, casa, crianças e ainda arruma tempo pra ir no cabelereiro, como se essa rotina enlouquecedora fosse linda e louvável!

Não quero elogios rasgados nem exaltações vazias! Quero trabalhar por um salário justo e receber cada centavo que investi em tempo de estudo. Eu, que não pretendo ter filhos, não quero ser discriminada na hora de procurar emprego, assombrada por uma licença maternidade espanta-patrão. Não quero ser reconhecida por enfrentar jornadas duplas e triplas, quero investir na carreira, ter um hobby, viajar, beber cerveja com as amigas e, se me der na telha, coçar nas horas vagas!

E quero andar na rua em segurança, sem ouvir gracinhas ao passar do caminhão. E não quero que governo, instituição religiosa ou a liga das senhoras católicas da pqp me digam o que fazer ou não com meu corpo, meu território!

Mas pra que isso não fique só na reclamação, proponho algumas soluções. E por que não pra já?

Quero ver no Brasil uma licença parental compartilhada, no qual pai e mãe têm o direito de decidir quem vai sair de licença remunerada para ficar com a criança após o período mínimo perinatal. Pois deixar uma mulher de licença maternidade durante 6 meses enquanto o pai tem direito a apenas 5 dias é descaradamente abandonar sobre ela toda a responsabilidade do cuidado dos filhos. Sem comentar o fato de que todas as mulheres terão de arcar com as desvantagens competitivas no trabalho consequentes desse “direito”.

Quero também uma lei que proíba a discriminação salarial das mulheres, exatamente como a Lilly Ledbetter Fair Pay, assinada por Barack Obama em 2009. Cansei de ver pesquisas daqui e dali dizendo que mulheres estudam mais, chefiam famílias, assumem jornada dupla e continuam ganhando menos, sempre menos. Caramba, DEMOROU para criar uma lei! Deputadas, senadoras, CADÊ VOCÊS?? ALÔ!!

E não venha me dizer que lindas as conquistas do século passado. Beleza, foi! Mas há muito, muito que fazer! Que tal se você também começar a dizer NÃO a essa lorota de mulher-maravilha que leva o mundo nas costas?

Ah, cansei! Chega de conversa, garota, tenho mais que trabalhar.

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Caramelo (Sukkar Banat)

junho, 24 - 2009

Não costumo fazer resenha de filmes, mas… Quando se trata do melhor filme a que você assistiu no ano, de boca aberta, sem piscar; não custa contar pros seus amigos, certo?

Acabei de ver Caramelo e estou deliciada.

caramel

No original, Sukkar Banat, é uma produção franco-libanesa, foi escrita, dirigida e estrelada por Nadine Labaki.

Sabe aqueles filmes do tipo “a vida como ela é”? Caramelo é uma parábola do universo feminino libanês, conta a vida de cinco mulheres unidas por um salão de beleza. Há a moça que se apaixonou pelo homem casado e vive uma eterna espera pela próxima ligação. Há a boa muçulmana que está noiva, tentando corrigir o problema de uma virgindade já perdida. Há a lésbica contida e a cliente encantada por ela. Há a atriz de comerciais inconformada com a chegada da menopausa. E há a senhora idosa que jamais se casou para cuidar da irmã mais velha deficiente mental.

Não vou entrar nos pormenores da trama, você vai encontrar resenhas muito melhores que a minha aqui e aqui. Queria apenas reforçar que o filme é bastante delicado, tem uma poesia sutil, uma fotografia bonita e um roteiro que é fantástico pela simplicidade com que retrata suas personagens e seus dilemas (nada simples). Sem clichês nem desfechos óbvios.

sukkar banat

Para os brasileiros é uma experiência de cinema bem diferente – pelo choque cultural, eu diria. Beirute, a cidade em que se passa Caramelo, é um dos lugares mais liberais do oriente médio. As moças não usam véu nos cabelos e têm por hábito cultivar um visual bastante sexy, ao mesmo tempo em que surpreendem pelo recato, tão desconhecido de nós brasileiros. Pra ter uma ideia, é um filme sem cena de beijo na boca (sexo, muito menos) e não paradoxalmente transborda sensualidade!

Só queria mesmo dizer: ASSISTA!!

nadine

Ah, e destaque para a jovem cineasta Nadine Labaki, que escreveu o roteiro, dirigiu muito bem, atuou como protagonista, é linda, charmosa, morena e dona de belos olhos escuros muito abertos esfumaçados de sombra. Nadine, quer casar comigo?