Posts Tagged ‘poesia’

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Eu tu nós

março, 10 - 2014

Minha singela homenagem a todas as pessoas que habitam uma única pessoa.


			Eu Tu Nós


Num espelho trincado, 
		entre mim 			e ti, 
				eu vejo nós. 

Nós atando duas realidades paralelas; 
	universos coexistentes, 
	em nenhum dos quais eu conseguiria viver 
						plenamente, 
		pois já não existo 
		em um 
		ou outro 
					totalmente
	por ter meia vida em cada 
					e pontas soltas em ambos. 

Esses nós que nos entrelaçam 
anulam a diferença entre a primeira, 
				a segunda 
					e a terceira pessoas: 
	sou eu, sou tu e ainda tem eles. 

Sinto que sou gente demais para carregar. 
Aguento?

Algo me diz que não é alucinação. 
Ainda penso:
Logo existo. 

Mas se existo, quem sou? 
			E se és, de onde vens? 
						Para onde vamos?
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A Uma Vírgula

março, 11 - 2011

No começo, quando decidi escrever histórias, eu tinha um problema sério com vírgulas. Não sabia como usá-las, vivia procurando um manual de instruções. Ponto-e-vírgula, então, danou-se! Quem sabe exatamente como usar um ponto-e-vírgula? Graças às vírgulas e aos pontos, todos os anos eu faço um retiro gramatical. Sério mesmo. Me fecho durante uma semana dentro do escritório, pego os livros de português e estudo toda a gramática, toda a estilística, toda a sintaxe e a pontuação de novo (só espero que a nova ortografia seja boazinha comigo).

Mas o que eu queria dizer com esse título? É que estava aqui remexendo meus textos antigos, penteando as traças, passando perfume nos fungos, quando topei com um exemplar de soneto que não lembrava ter escrito e que data exatamente do auge da minha crise com as vírgulas! Inspirada pela virgulite cometi essa pérola que reproduzo abaixo, espero que gostem (ou não).

A Uma Vírgula

Discreta insígnia de falciforme pujança,
Talhe recurvado, exatidão cartesiana,
Signo sinuoso que nas entrelinhas dança
E reclama às musas perfeição parnasiana!

Ofereço a minha composição litúrgica
Em louvor a ti, quimera silente e errante,
Que cinde palavras com precisão cirúrgica
Brandindo o fio dessa tua lâmina cortante!

És tal como o arqueado indócil sabre mouro
Que me escapa à sutil destreza dos dedos.
Sendo imprevisível como os chifres do touro,

És toda a razão dos meus literários medos!
Pois te aviso, meu breve silêncio de ouro,
Que ainda desvendarei os teus segredos!

O tratamento surtiu efeito e hoje me sinto praticamente curada. Se você já passou por problema de vírgula saiba que tem a minha solidariedade. E a você que chegou até o final deste post deixo a minha vírgula rosa ,

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Por onde vou

fevereiro, 9 - 2011

Dedico um post a esse poeta que me tirou as palavras da boca, que colocou em versos aquilo que me é tão difícil de articular: José Régio, um filósofo, um grande escritor – por que não dizer gênio? – português.

Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
– Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
– Sei que não vou por aí.

José Régio

 

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Efeito Placebo

abril, 9 - 2010

Nem somente pela voz elétrica de Brian Molko, ou pelo charme estranho, o ritmo desembalado, ou talvez a melancolia poética dissolvida num oceano de despretenciosidade feito letras onde cabem poucos ou nenhum cliché. Nem pela performance ao vivo, que não é imperdível. Nem pela rebeldia, que não é novidade. Não é por idolatria, pois já passei da fase. E também não é por paixão.
Então o quê?
Talvez o momento. Pois para certos momentos uma música ou modo de dizer caem como uma luva. E de uma coleção de momentos se faz uma fase, que – como toda fase – é assumidamente passageira. E como toda transição, melhor se bem vivida. Vivida para ser melhor passada.
Sintonizei esse momento, e a empatia tem gosto de despretensão e timing de fase. Aqui dentro há uma sensação infinita de lado B, um saber ser parte do que está à parte. E ser consciente das limitações, hesitante na bifurcação de todos os rumos que uma vida pode tomar, observando às costas uma juventude que aos poucos bate em retirada, embora você não tenha certeza do quanto isso lhe importa.
Não é nada, e com efeito. Eu poderia citar esta, esta, esta, esta e esta razões, mas o melhor motivo que tenho para ir nesse show é o fato de que tenho me sentido muito Placebo ultimamente.

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Blind

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Lady of the Flowers

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Protège Moi

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Running Up That Hill

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Taste In Men

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Um lugar para escrever

março, 3 - 2010

Retiro para escritores

É uma dessas iniciativas que nunca se viu no Brasil, mas que nos países anglófonos prospera. A princípio, a ideia funciona nas bases de uma organização de escritores/artistas/whatever sem fins lucrativos que mantêm uma casa num lugarejo tranquilo, onde escritores selecionados ganham hospedagem gratuita durante algumas semanas ou meses enquanto trabalham em suas obras. Um lugar silencioso, sem vizinhos barulhentos, sem telefone tocando ou familiares que não entendem porque você fica nervoso cada vez que é interrompido. Um lugar perfeito se você é do tipo ermitão ou tem fantasias de isolamento. Ainda assim, um lugar onde você não morrerá de tédio, onde poderá passear e terá a companhia de outros escritores, que estarão ali pelas mesmas razões que você e com quem poderá trocar ideias e leituras críticas.

Nos EUA existem alguns retiros gratuitos que atingem esse ideal. O escritor candidato submete para avaliação um projeto literário ou um pedaço do livro em andamento. As análises geralmente são feitas por um comitê de profissionais do ramo literário e levam em conta o mérito do autor e a relevância da obra. Caso selecionado, o candidato tem direito a uma estada gratuita, que pode durar de poucas semanas a alguns meses. Alguns retiros admitem apenas dois escritores por vez. Em geral, os hóspedes têm transporte próprio (carro) e se encarregam das próprias refeições e da limpeza do local. Soapstone e Hedgebrook são dois retiros que funcionam nesse sistema, com o porém que são exclusivos para escritoras. A parte boa é que alguns retiros gratuitos admitem também estrangeiros. Conheci uma escritora paulistana que passou uma temporada em uma fazendinha nos EUA bancada por uma organização de escritores. Para isso ela precisou apenas mandar o projeto do livro em inglês e sua única despesa foi com a passagem de avião.

Segundo a lógica capitalista: mercado gera mercado. Como existe uma verdadeira indústria literária nos países de língua inglesa, com um considerável número de escritores que vivem de sua produção, também surgiu um novo ramo na indústria do turismo: o de serviços especializados para escritores. Hoje em dia existem retiros pagos com as tabelas de preços mais variadas: é possível encontrar desde a singela cabana no meio do mato aos palácios cinco estrelas em santuários naturais. O tipo de serviço também varia: há os retiros onde o autor simplesmente leva seu notebook e trabalha por conta própria, e também aqueles que oferecem cursos de imersão ministrados por escritores laureados, com direito a consultoria com editores e agentes literários. Há programas de retiro que são oferecidas por agências turísticas e há pousadas que simplesmente se especializaram em hospedar escritores. A variedade é impressionante. Com uma simples busca no google, pode-se encontrar retiros em quase todos os países da Europa, da América do Norte e da Oceania.

Por que não no Brasil?

Porque seguindo a mesma lógica capitalista: onde não tem mercado, não tem indústria. Nossa falta de tradição literária e a pobreza de nossos escritores pode ser uma parte da justificativa, a falta de incentivo ou de iniciativa, a outra parte. Um retiro de escritores pode ser facilmente organizado, e eventualmente pode ser uma opção mais barata (e bem mais democrática) do que as bolsas literárias hoje concedidas pelo Ministério da Cultura. Por exemplo: pode-se incluir na Lei Rouanet a compra de imóveis (como chácaras e casas de campo) para fins de produção cultural – ou seja, para serem usados como retiros de escritores e artistas – esses imóveis seriam administrados por uma ONG ou pela empresa privada à qual pertencem, e seriam destinados à hospedagem gratuita ou de baixo custo a escritores com projetos avaliados por mérito. Essa seria uma das formas viáveis de se inaugurar um retiro de escritores no Brasil. Mas existem outras opções, que podem partir da iniciativa dos próprios interessados, por exemplo: um clube de autores contrata uma agência de turismo, que contrata uma pousada, onde será organizado um retiro de poucos dias, com oficinas de escrita e outros eventos literários. O pacote incluiria hospedagem, pensão completa e ônibus fretado a um preço mais acessível.

É claro que qualquer chácara da tia ou casa de praia pode virar um bom retiro de escrita. Conheço gente que escreve tranquilamente em mesa de bar ou banco de parque. Mas seria interessante haver um lugar onde as pessoas vão para escrever, onde escritores vão para passar um tempo em companhia de outros escritores, onde possam trabalhar longe da confusão do dia-a-dia, mantendo foco na produção e de preferência sem ter que pagar o preço de um hotel. Eu bem que gostaria de passar uns tempos longe da civilização e voltar com um romance pronto. Não custa espalhar essa ideia!

Listo abaixo alguns dos vários “retiros de escritores” existentes no exterior.

Soapstone (Oregon, EUA) – Retiro para mulheres escritoras. 35 candidatas são escolhidas anualmente para permanecer gratuitamente de 1 a 4 semanas (apenas 2 hóspedes de cada vez). Inscrições vão de julho a agosto, análise por mérito.

Hedgebrook (Washington, EUA) – Retiro para mulheres escritoras cuja filosofia é trazer profissionais do mundo inteiro. 40 candidatas são escolhidas todos os anos para permanecer gratuitamente de 2 a 6 semanas (apenas 2 hóspedes por vez). Inscrições vão de junho a setembro, análise por mérito.

A Room of Her Own (Novo Mexico, EUA) – Retiro para mulheres escritoras, tem como filosofia a troca de experiências entre mulheres do mundo inteiro, de variados segmentos sociais e profissionais. Sedia eventos e workshops. Oferece programa de bolsas com análise por mérito.

The Writer’s Retreat – Uma rede de 7 retiros localizados nos EUA, Canadá, Espanha e Costa Rica. O período mínimo de permanência é variável. Lugares e preços: Castellón, Espanha – €2240/mês (min. 2 meses); South Carolina, EUA – US$725/semana; Pennsylvania, EUA – US$450/semana; Georgia, EUA – US$600/semana; Vermont, EUA – US$560/semana; Ojochal, Costa Rica – a partir de US$560/semana; Quebec, Canadá – US$495/semana.

Olvar Wood (Queensland, Australia) – Retiro mantido por uma organização de escritores, promove cursos e workshops. A partir de AU$550 o final de semana ou AU$1250 uma semana em quarto para 1 ou 2 pessoas.

Varuna (New South Wales, Australia) – Oferece hospedagem através de programas seletivos e não seletivos, alguns programas cobram apenas a taxa de inscrição. Análise por mérito. O mínimo de permanência é de 3 semanas.

Trek Larapinta (Northern Territory, Australia) – É uma compania sediada em Alice Springs e especializada em turismo de aventura pelo outback australiano. Oferece também um programa de retiro para escritores no deserto a AU$1490 por uma semana.

The Porches (Virginia, EUA) – Retiro de escritores em uma bela casa de fazenda, o aluguel semanal de um quarto sai por US$350.

St. Andrews (New Brunswick, Canadá) – Oferece um programa interessante no qual escritores profissionais convidados se hospedam de graça para orientar escritores iniciantes, que pagam um aluguel salgado de US$1000 por semana.

Anam Cara (West Cork, Irlanda) – Retiro para escritores e artistas em um paraíso perdido da Irlanda. Sedia eventos e workshops. A hostess é escritora e editora experiente e acompanha a agenda de produção dos hóspedes. Estadia mínima de uma semana. Preço sob consulta.

La Muse (França) – O retiro fica em uma charmosa vila medieval no sul da França. Trabalha tanto com hospedagens pagas quanto programas por mérito. O aluguel do quarto sai a partir de €700 por um período mínimo de 3 semanas.

Writing Away Retreats (Colorado, EUA e Australia) – Um dos serviços mais caros e sofisticados. Oferece acomodações luxuosas e pensão completa (com open bar!). O programa dura 5 dias e 5 noites, oferece consultoria em tempo integral com autores, editores e agentes literários, sai a partir de US$2200, mais US$500 só para reservar a vaga.

Casa de La Pace (Úmbria, Itália) – Retiro de duas semanas na cidade de Assis, com aulas em inglês de escrita criativa, ioga e pilates. Sai pela bagatela de €1320.

Tuscan Writer’s Retreat (Toscana, Itália) – Oficina de imersão altamente especializada para escritores de ficção e não-ficção, com romancistas, roteiristas de cinema e um ou outro prêmio Pulitzer. Tudo isso numa belíssima vila medieval “sob o sol da Toscana”,  com preços que variam de US$1850 a US$2000 por uma semana.

Lemuria Writing Sanctuary – A primeira vez que entrei neste site, pensei se tratar de um resort paradisíaco situado em algum lugar muito misterioso. Revirei feito louca os links até descobrir que essa terra maravilhosa fica em lugar nenhum, é na verdade um paraíso virtual compartilhado por escritores, poetas e artistas, engendrado pelo pessoal do Soul Food Café. Fica a título de curiosidade, já que a própria internet pode se tornar um refúgio de escrita.

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Dos versos mais bonitos que vi

fevereiro, 3 - 2010

“Here is the deepest secret nobody knows.
Here is the root of the root and the bud of the bud
And the sky of the sky of a tree called life;
Which grows higher than soul can hope or mind can hide.
And this is the wonder that’s keeping the stars apart.
I carry your heart.
I carry it in my heart.”

EE Cummings

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Meu Analista

abril, 6 - 2009

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No consultório tinha um divã,
Tinha um divã no meio do consultório.

O psicanalista logo avisou:
– Duzentos reais por sessão.
Puxa, doutor, não é muito não?
Anda muito caro esse negócio
Que o Seu Freud inventou…

Mas assim foi, eu me deitei.
Por meia hora eu falei,
Lembrei, contei, chorei…
Acabei-me naquele divã.
E quando mal me toquei:
– Próxima sexta, dez da manhã.

Na semana seguinte eu voltei
Um pouco menos deprimido,
Um tanto mais precavido,
O doutor estava bem otimista:
– Duzentos reais, à vista!

Ah doutor, assim é covardia!
Duzentos mais duzentos
E lá se vai um ano de terapia
Torrando minhas economias
Pra sustentar um analista avarento!

– Você tem um quadro depressivo,
Distúrbio evidente de histeria,
Transtorno obsessivo compulsivo
E alguns traços de esquizofrenia.
Vai mesmo abandonar a terapia?

Oh!

E dá-lhe gardenal e diazepam,
Horas intermináveis no divã,
Winnicot, Vigotsky e Lacan,
Desfiando meus aborrecimentos
Dramas, traumas e tormentos…

Mas o pilantra era esperto demais,
Tornou-me analista-dependente!
E eu, um pobre de um demente,
Financiei meu complexo de Édipo
Em várias parcelas mensais,

Que em um ano me levaram à falência!
E não curaram minha demência,
Ao contrário, que Freud me perdoe,
Mas fiquei pior a cada consulta
Com o picareta filho da psicanálise…

Ah-há!

Mas um dia acabou-se o meu dilema!
Compareci à minha última consulta,
Encontrei meu analista meio biruta…
– Bom dia, doutor, algum problema?
Está pálido, o que foi que aconteceu?

Ele pulou, gritou, se debateu:
– Por favor, não f-faça… NÃO!!
Caiu, gemeu, suspirou… morreu.
Acho que foi o coração,
Ou talvez a bala no peito.

Que Freud me perdoe…

Bem feito!

                                                        Cristina Lasaitis (2006)

                                                                                          

Essa é uma homenagem do fundo do meu subconsciente a todos os psicanalistas do Brasil!