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Policromático e festamórfico

junho, 16 - 2009

 parada

É simplesmente prazeroso pensar que uma passeata que começou há pouco mais de 10 anos com 2 mil corajosos hoje arrasta pela cidade um público de milhões. Óbvio que nem metade das pessoas que vão à parada gay é gay de fato. A festa virou uma espécie de carnaval fora de época, vai gente de todas as idades e todas as tribos; casais, famílias, crianças, cachorros; e tem bandeirinhas, perucas, bexigas, muita fantasia e confete.  Dizem que no começo parecia um pouco mais com uma manifestação política, hoje parece muito mais com uma enorme festa – em teoria é um pouco das duas coisas. Tem gente que quer protestar, tem gente que só quer se divertir, tem gente que vai pra paquerar, tem gente que vai pra badernar… claro que uma mistura dessas só pode ferver, e dá-lhe policiamento. 

Pessoalmente, não sou muito fã da parada pelo mesmo motivo que não sou muito fã de carnaval. Não, não fui nesta última edição. Já tive paradas memoráveis e lindas, mas já faz alguns anos que não participo e tenho um pequeno número de razões que me desencorajam a ir (muitos furtos, muvuca, barulho, sujeira, preguiça e falta de companhia são alguns exemplos).

Tenho a impressão de que a metamorfose – ou festamorfose – da parada gay é aparentemente um fenômeno que só podia acontecer num país que tem esse estranho poder de transformar quase tudo em festa. Não é de admirar que a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo parece ser, não apenas a maior do mundo, mas também a mais plural e com a maior adesão popular. O que eu digo não é uma crítica, em absoluto. Se por um lado o clima de festa parece desvirtuar a seriedade de uma militância de décadas, por outro lado há uma gigantesca inclusão (de heterossexuais, veja só!), o que indiretamente significa apoio popular. Se o movimento LGBT reclamava de invisibilidade, uma maré de 3 milhões de pessoas tem o potencial de escancarar qualquer armário; e nas atuais circunstâncias de luta por direitos, ser visível e ter apoio visível é tudo o que interessa.

É uma apoteose. Um dia mágico que é concedido às pessoas manifestar tudo aquilo que vai nelas; as alegrias, as revoltas, os desejos… não é por acaso que parece uma gigantesca colcha de retalhos das mais variadas intenções. Parece que todos que estão ali (e não estou falando apenas do público LGBT) tomam-na como uma oportunidade única de expressão – de se existirem num estado diferente durante alguns momentos. Talvez num estado mais espontâneo.

Será que essas pessoas estão vestindo a fantasia ou se despindo dela?

Não é nova a ideia de que se todos os gays, lésbicas e bissexuais resolvessem sair do armário de uma hora pra outra, não haveria mais preconceito no mundo.  Algumas pesquisas têm indicado que o caminho é esse mesmo: as pessoas que convivem com alguém assumidamente gay e tem oportunidade de conversar abertamente sobre a sexualidade tendem a ter e a sentir menos preconceito. A atitude muda quando a ideia sai da caixinha dos estereótipos e toma a forma de uma pessoa querida.

Há quem arrisque estimativas populacionais: dizem que até 10% da população pode ser homossexual, de 30 a 50% deve ser bissexual; consequentemente, o restante deve ser hétero. Isso parece fazer tanto sentido quanto estimar quantos porcento gostam de sorvete de chocolate, quantos porcento gostam de sorvete de morango e quantos preferem o de creme, quando poderíamos deixar tudo isso de lado e comprar logo um pote de napolitano.

Os rótulos ajudam as pessoas a se identificar – verdade – mas a despeito disso, têm um peso terrível: o poder de enquadrar as pessoas dentro de categorias do tipo “tudo ou nada”. Assim começa o ciclo da rotulação: “se você se relacionou com alguém do mesmo sexo, então é homo ou pelo menos bissexual, e se você ficou com alguém do sexo oposto provavelmente só está reproduzindo os padrões da sociedade em que vive (logo, fazendo sua obrigação)… Por isso, tome muito cuidado com quem resolve sair e, principalmente, tome cuidado para a fofoca não vazar, porque isso vai decidir o rótulo que você vai levar colado na testa pelo resto da vida.”

É óbvio que as pessoas seriam mais livres sem os rótulos.

O que eu acho mais incômodo na homofobia não é a parte em que ela me agride, mas o fato de que atrapalha a vida de todo mundo, sem exceção. Atinge diretamente aos gays, lésbicas, travestis e transexuais; atinge aos heterossexuais que são estigmatizados por “parecerem” homossexuais; e atinge indiretamente a todas as pessoas, independentemente de sexo ou orientação sexual, que são forçadas dentro de protocolos de comportamento e desencorajadas a ter vínculos de amizade mais íntimos com alguém do mesmo sexo. Todos perdemos algo com isso.

Meu sonho sempre foi mais parecido com o sorvete napolitano ou a colcha de retalhos.  Não penso naquelas utopias horríveis em que as pessoas são dignas de respeito mútuo enquanto muito bem separadas por muralhas raciais/políticas/religiosas/whatever, como democracias hermeticamente fechadas, repúblicas de guetos. Guetos são claustrofóbicos. Seria bom se simplesmente todos pudessem se integrar à sociedade sem medo de serem quem são, e o serem a toda hora, em qualquer lugar; e então datas como o dia da “mulher”, o da “consciência negra” ou do “orgulho gay” se tornariam redundantes.

Eu reclamo do meu país por muitas razões, mas se tem algo no Brasil que me surpreende e me delicia é esse potencial formidável de misturar e conviver. Adoro viver num país cosmopolita, mestiço e sincrético! Sinal de que há espaço para mais mistura, confraternização e convivência. E esperança! Isso é melhor que qualquer utopia de paredes de papelão e teto de vidro, onde metade é democrata e metade é republicana, onde o presidente negro habita a Casa Branca e entoa o bordão: “yes, we can!”

Pois we can too. Perhaps much better!

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Pra não dizer que não pisei nas flores

abril, 13 - 2009

Outro dia me deparei com um artigo do Bráulio Tavares, que sintetiza muito bem algo que há tempos tem me dado muito que pensar:

Quais são os limites da liberdade?

Não sei se você já percebeu, mas não dá para existir paz e liberdade absolutas convivendo na mesma civilização.
Para usar a analogia que o próprio Bráulio colocou: tente imaginar um líquido que seja um solvente universal. Tente imaginar um frasco que seja perfeitamente incorrosível. Parece uma boa ideia tentar guardar o solvente universal no frasco incorrosível, até você perceber que essas duas coisas não podem existir no mesmo universo, pois são mutuamente excludentes (conceito popularmente conhecido como “o paradoxo das facas Ginsu e das meias Vivarina”).
O mesmo para a paz e a liberdade.
Viver em um mundo com total liberdade de pensamento implica que as pessoas serão livres para aderir às ideologias que preferirem: religião, partido político, time de futebol, filosofia de vida, etc.; e serão livres também para adotar ideologias excludentes e/ou agressivas: neonazistas, racistas, sexistas – coisa que torna impossível a manutenção de uma paz ideal.

Por outro lado, o esforço para manter uma paz perfeita passa necessariamente pelas vias da repressão. A liberdade passa a ter contornos muito claros e estreitos, e as transgressões são rigidamente penalizadas no intuito de manter a ordem. A ideia nos remete automaticamente aos regimes autoritários e concluimos que esse seria um estado de paz instituída, mais frágil do que no primeiro caso.

Os anos de ditadura nos ensinaram muito sobre paz e liberdade, dado que hoje temos a convicção de que viver a confusão de um país livre ainda é preferível a viver num estado de paz amordaçada.

Onde quero chegar com isso?

Como alguns de vocês devem saber, eu estudo a homofobia. Nesses três anos de pesquisa foi doloroso quando fui colocada diante de um paradoxo: para que os homossexuais possam  ter liberdade, há que se podar a liberdade no outro extremo: o do preconceito.  Parece impossível intervir na questão sem lançar mão de um favoritismo. E justo. Trata-se de proteger um grupo da violência. Mas até onde é possível proteger sem interferir na liberdade de pensamento (ou ter que usar aquele nome terrível que nos dá calafrios: CENSURA)?

Indo muito diretamente ao ponto: no Brasil vigora uma liberdade de pensamento que não se estende à liberdade de agressão. Se há liberdade de pensamento, os preconceitos estão livres para morar na cabeça de quem os quiser. Preconceitos são lícitos, não importa a cara feia que façamos para eles. A polícia não pode prender alguém por pensar ou querer mal a um gay, a um negro ou a um corintiano simplesmente por serem aquilo que eles são. E do mesmo modo, não pode impedir ou constranger um casal gay namorando em público, ainda que as pessoas ao redor se sintam incomodadas. Não pode impedir o torcedor da fiel de ir ao estádio mesmo sabendo que ele pode criar confusão.
A conduta muda quando o pensamento se torna ação, quando descamba para a agressão, difamação, omissão onerosa, humilhação ou ofensa. Isso se chama discriminação e é passível de punição.

Preconceito e discriminação são coisas diferentes: o primeiro é pensamento, o segundo é ato. São co-dependentes: o preconceito dá origem à discriminação, e esta fortalece o preconceito. Fica nesse limiar pálido a separação entre o direito individual e o crime. É nessa transição nebulosa que a legislação tenta impor limites claros. 
Acontece que é ineficaz combater a discriminação sem intervir na sua origem: o preconceito. Significa que para resolver o problema é preciso meter o dedo na liberdade de pensamento individual e… opa, acabamos de falar em censura??

Pois é.
Mas isso não deve ser novidade. Quantas propagandas já não foram retiradas do ar por determinação judicial porque faziam piadas maldosas com grupos escolhidos a dedo? Não vamos ser hipócritas a ponto de achar que não existe censura no Brasil. Vou além e manifesto minha opinião pessoal: é preciso haver um rudimento de censura, sim.

Mas deveria haver censura a ponto de reprimir ideologias específicas, como o neonazismo? Com um pouco de dor no coração eu digo: sim, deveria. E vou citar um bom exemplo. Hoje a Alemanha é um dos países mais livres e bem colocados do mundo; não obstante, não há quem se atreva a usar uma suástica ou manifestar publicamente qualquer simpatia ao nazismo, simplesmente porque se fizer vai em cana. Os alemães, que têm alguma experiência na área, não pouparam medidas para abafar o que a história já ensinou que não compensa. Por outro lado, um país que afrouxou as rédeas a ponto de permitir a existência de uma Ku Klux Klan hoje investe pesado na segurança de um presidente negro que os fanáticos estão loucos para assassinar.
Nós, em nosso lugar, temos a experiência da ditadura e a convicção de que amamos a democracia, apesar dos políticos que ela nos dá. Não gostamos da censura, mas temos que reconhecer que em doses homeopáticas ela faz juz ao bom-senso.

Lembro quando o congresso tentou aprovar a lei que criminaliza a homofobia (PL122/2006) e foi assolado por uma avalancha evangélica enfurecida. Eles (os evangélicos) protestavam que a lei iria restringir a liberdade de culto, pois a bíblia fala claramente em punição para os homossexuais. Talvez ninguém tenha explicado a eles que a lei é contra a discriminação, o que não os impede de professar os ensinamentos homofóbicos da bíblia (que, aliás, também defende o estupro, o incesto, o assassinato e o genocídio, embora ninguém tenha cogitado esses detalhes), só os impede de colocá-los em prática, do mesmo modo como proíbe o apedrejamento de mulheres adúlteras ou a matança de idólatras.

Tanto quanto o Estado não consegue ser laico, sabemos que a lei não consegue ser imparcial. Ela tem que pesar para um lado, tem que agradar a um curral eleitoral, e no final acaba saindo ao gosto de quem faz, quem aprova e quem põe em prática.

O Paradoxo da Igualdade
Por falar em igualdade, é curioso notar como os esforços para alcançá-la geram assimetria. Um negro é livre para ostentar com orgulho uma camiseta escrita “100% negro”, enquanto um branco não faria mesmo (usar uma camisa “100% branco”) sem comprar uma briga no metrô, ou no mínimo ser olhado com muita desconfiança. Do mesmo modo, se um dia resolverem instituir uma “Parada do Orgulho Heterossexual” tenho certeza de que algumas pessoas se sentirão seriamente ofendidas.
O esforço pela igualdade gera um protocolo que permite a uma minoria (ou “grupo oprimido”) manifestar seu orgulho e levantar bandeiras, mas impossibilita que uma maioria (ou “grupo opressor”) faça o mesmo sem que isso seja interpretado como provocação. A igualdade nesse caso se torna um paradoxo, até que… até que eu me sinta à vontade para desfilar uma camiseta escrita “100% branca”, acho eu.

O delicado equilíbrio das ofensas
Lembro que uma vez estava eu numa livraria com minha ex-então-namorada, sentamos em uma poltrona para folhear livros e perdemos noção da hora, ficamos ali até a loja esvaziar. Eu sou muito distraída, mas minha namorada percebeu que o atendente começou a entrar numa crise de hesitação, pois ele tinha que pedir que nós nos retirássemos pois a livraria tinha que fechar, mas, tendo reparado que éramos um casal, estava receoso de que nós o interpretássemos mal o pedido. No final, muito delicadamente e todo gentileza, ele veio explicar que tinham que fechar. Nós saímos e ela comentou que tinha reparado na insegurança do rapaz, e isso nos deu o que pensar.
O que me intriga é que o receio dele fazia sentido. Ele sabia que qualquer mal entendido poderia ser interpretado como preconceito, como de fato costuma acontecer. Muitos gays e lésbicas desenvolvem uma espécie de hipersensibilidade: perdem a a capacidade de distinguir uma simples negativa de um preconceito. É algo que em geral se desenvolve depois de algumas más experiências.

É o mesmo caso de quem tem uma cisma ou um complexo qualquer. Imagine alguém que tem (ou acha que tem) um nariz grande que lhe incomoda, não é de se estranhar que o mundo vai girar ao redor daquele nariz: todos os comentários, os dedos levantados, os risos, as gracinhas em surdina; tudo convergirá para ele. Eu mesma vivenciei isso de uma maneira muito vívida (e traumática) entre meus 12-15 anos, quando era obrigada a usar um sutiã número 48.
Mas quem sou eu pra dizer que não tenho meus pontos frágeis? Quantas vezes me deparei com coisas para mim desconcertantes que costumam passar completamente imperceptíveis aos olhos da maioria das pessoas?

O universo numa cabeça de alfinete
É muito raro eu sair para baladas gays com amigos gays apenas, coisa que fazia bastante, anos atrás. Mas de vez em quando eu saio, nem que seja para lembrar a razão de ter desanimado.

Outro dia acompanhei uma amiga minha num passeio noturno com um grupo de garotas, todas elas lésbicas. Passamos a noite entre baladas e conversa de bar. Por mais que eu aprecie a vida noturna, houve algo a respeito daquelas pessoas que me deu coceira, incomodou – e vem me incomodando há muito tempo: a mentalidade de gueto.
O único fator de união daquela multidão na virada da madrugada é a orientação sexual, e ao redor dela orbita praticamente toda a conversa, as piadas, as reclamações e, claro, a paquera. Um universo hermético, asfixiante, alienado.
Não há dúvidas que o gueto conseguiu se impor. Ninguém nega que a população homossexual tem hoje um lugar no mundo. Tornou-se um país virtual, sem território definido, mas com bandeira, hino e um senso de pertencimento pra torcida organizada nenhuma botar defeito. Qual é o erro? O erro é que esse país fica no armário da humanidade. Foi uma forma de se criar um ambiente seguro quando lá fora impera um clima hostil. Mas perde-se muito, porque é um lugar minúsculo de se viver. É algo que eu me recuso veementemente a adotar.
Preferia que esse país semirreal não existisse e que sua população estivesse dissolvida no todo, convivendo, levando a vida cada um ao seu modo, na paz e na tolerância.
Mas aí volto àquela primeira pergunta: há esperança de vivermos em paz e com total liberdade?

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Dia internacional das mulheres e dos homens

março, 8 - 2009

Meu desejo é que sexo e gênero não fossem detalhes tão relevantes na vida das pessoas. Ser mulher não deveria ser fardo nem privilégio. Não quero ser paparicada, protegida nem favorecida por ser mulher; acho estranho quando me dão parabéns por algo que não dependeu exatamente do meu esforço.

Compreendo a razão funcional de ter um dia na agenda para dizer ao mundo que as coisas estão mudando e que ainda resta uma muralha a pôr abaixo. Entendo. E por entender, me descontento, pois sei que vou gostar mais do dia internacional da mulher quando ele se tornar desnecessário.

E por cogitar na igualdade de direitos, gostaria de expressar também o quanto me agradaria viver em um mundo com igualdade de deveres, pois acredito firmemente que direitos e deveres são recíprocos. Sem lorota paternalista.

Não entendo por que neste país as mulheres têm o direito de se aposentar 5 anos mais cedo que os homens considerando que vivem mais.

Não entendo como a elas é dada uma licença maternidade de 6 meses e a eles uma licença paternidade de 5 dias, e ainda se acredita por ideal que pai e mãe devem dividir equitativamente a responsabilidade sobre os filhos e que os empregadores não devem discriminar as mulheres em idade reprodutiva.

Sou contra o serviço militar obrigatório e não simpatizo nem um pouco com as forças armadas, mas se ele existe, por que não para todos?

Não sonho com uma igualdade forçada, quero antes uma igualdade honesta. Muitos vão me dizer que é utopia. Estou pronta para ouvir e cansada de saber.

Falar é importante, alivia a tensão. Trabalhar é difícil, exige muito suor, jogo de cintura, coragem, atitude. E o que eu queria dizer a vocês, meninas, é:

Trabalhem! Não para os exploradores, não sem causa, não por qualquer salário. Mas trabalhem. Trabalhem por vocês, por suas famílias, por aquilo que amam e que acreditam. A maior parte das coisas que se pode querer honestamente – sejam elas materiais ou não – só são possíveis pelo trabalho. O resto são detalhes.

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A Dança das Tribos

novembro, 20 - 2008

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Na pré-história, o caçador que saísse para caçar e voltasse para uma tribo que não fosse a sua, corria um sério risco de se tornar a janta. Muito cedo havia que se aprender uma regra muito básica de sobrevivência: os outros são o perigo, os nossos são o abrigo. Saber diferenciar entre os mesmos e os outros era definitivamente uma questão de vida e morte.
“Não fale com estranhos”. “Não vá muito longe de casa”. “Não aceite nada que um desconhecido lhe oferecer”. – Quantos desses conselhos ouvimos de nossos pais durante a infância? Eles nos alertam sobre o perigo que são os outros.
Hoje os tempos mudaram, mas o ser humano continua sendo o predador – e tecnicamente o único – de outro ser humano.
A evolução nos legou um sistema de reconhecimento que nos alerta contra os potenciais predadores de nossa própria espécie. Um alarme soa quando a criatura que está à nossa frente é diferente daquelas com as quais costumamos conviver: ela é de outra cor, ou se veste de um modo diferente, ou tem trejeitos estranhos, ou fala com sotaque… Por regra, facilmente você identifica um outro no meio de vários mesmos, ainda que as diferenças sejam sutis. O outro incomoda. O cérebro demora a tolerar sua presença e continua sinalizando: atenção, perigo!
A verdade é que você nunca sabe o que o outro pode lhe fazer. E por mais que esteja consciente de que não há nenhum risco, perdura uma sensação visceral, involuntária, talvez até insconsciente de que aquele é um outro.
Mas aí o tempo passa, o outro se torna o seu vizinho, vocês convivem no dia-a-dia, se conhecem, se acostumam… e o alarme se atenua ou simplesmente deixa de tocar. Depois de um tempo de convívio, o outro se torna um mesmo, alguém perfeitamente familiar.

Só na última década os cientistas conseguiram olhar para dentro de um cérebro humano em funcionamento e entender o que faz com que os outros sejam “outros” e os mesmos sejam “mesmos”. Os pivôs são duas pequenas estruturas em forma de amêndoa que se localizam na base do cérebro – as amígdalas. São elas que produzem a sensação de medo e funcionam a qualquer sinal de perigo, inclusive aos que não percebemos conscientemente. Viu-se que as amígdalas se ativam mais intensamente quando uma pessoa observa o rosto de um grupo étnico diferente do seu, e isso não tem nada a ver com o seu posicionamento – se ela é racista ou não – é uma reação automática que acontece a despeito do esforço consciente para inibi-la.
Isso quer dizer que a natureza nos torna automaticamente racistas?
Não exatamente. O racismo parece ser um artefato comportamental de um sistema muito antigo de avaliação social – que deve ter tido uma importância evolutiva no passado, mas que causa problemas hoje em dia. Pensando assim, as mesmas ideologias que deram origem a monstros como o holocausto nazista e o apartheid nasceram de um instinto natural pela preservação da tribo, só que exacerbado de forma patológica e num momento histórico totalmente inadequado. Daí concluímos que o ser humano civilizado é mais vítima de seus instintos do que pode imaginar, responde a eles inconscientemente e muitas vezes usa toda a sua razão e inteligência para tentar justificá-los.

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As amígdalas estão representadas como essas coisinhas vermelhas na base do cérebro

Observando a amígdala por ressonância magnética funcional, Elizabeth Phelps e sua equipe descobriu que norte-americanos brancos eram mais responsivos a faces de negros do que negros a faces de brancos. Isso provavelmente acontece porque os negros norte-americanos estão inseridos dentro de uma sociedade e uma cultura majoritariamente comandada por brancos, de modo que estão muito mais familiarizados com os brancos do que os mesmos brancos para com eles.

É interessante notar como a dinâmica das raças no Brasil se desenvolveu e como isso levou o racismo tupiniquim a se diferenciar do norte-americano. A história dos EUA construiu uma verdadeira barreira entre as raças que perdura até os dias de hoje, apesar da relativa igualdade de direitos conquistada. Esse modelo do “não se misture com eles” tem se mostrado o mais eficiente modo de reforçar o preconceito e a discriminação em qualquer cultura do mundo. Já no Brasil, desde os tempos coloniais os negros estavam inseridos dentro da vida dos brancos – eram os criados da casa senhorial, eram as negrinhas da senzala com quem os senhores se deitavam e os filhos bastardos que tinham com elas, eram praticamente toda a força de trabalho braçal das fazendas. Apesar do Brasil ter abolido a escravidão tardiamente e de todas as injustiças que se perpetuaram desde então, aqui negros e brancos partilharam uma relação de proximidade muito grande. Por esse motivo, no Brasil a barreira da pobreza se tornou muito mais sólida do que a das raças – aqui não temos guetos raciais, e sim favelas que nivelam a todos pela miséria.

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Importar modelos de compensação de países segregacionistas é um dos maiores erros que o Brasil pode cometer para tentar retificar a história, justamente porque daria importância a uma característica que aprendemos a ignorar (ao menos, melhor do que muitos outros países): a cor da pele.
Há certas coisas que os olhos podem ver mas o coração não deveria sentir.

De acordo com o que a psicologia social já sabe, a única forma em tornar os outros nossos mesmos é o convívio próximo: dar uma oportunidade para que você próprio se familiarize com um estranho, e deixá-lo familiarizar-se com você. A única saída é a convivência. Que negros, brancos, amarelos e vermelhos compartilhem o mesmo espaço, que homens e mulheres tenham os mesmos salários, que homossexuais namorem em público, que portadores de deficiência sejam atendidos em sua cidadania, que direitos e deveres sejam partilhados em comum, sem sufocar aquilo que temos de mais belo: nossa variedade, pois essa é a única maneira de ensinarmos tolerância a nós mesmos e deixarmos de nos encarar como estranhos, mas sim como membros de uma gigantesca tribo.

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Aos biomédicos desejo um feliz dia do biomédico. A todos, um dia da Consciência Negra cheio de reflexões.