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Retrospectiva Literária 2013

dezembro, 29 - 2013

2013 foi o melhor ano que dava para ter feito no improviso. Comecei projetos novos – a faculdade de editoração na USP, o melhor deles. 30 anos, já formada, mestrada, e aí deu a louca de assumir a mudança de carreira e fazer uma segunda faculdade, que, pra mim, é pura diversão: só livros, livros e livros… Além da faculdade, comecei também o curso de tradução literária da Casa Guilherme de Almeida, e o resultado é que os estudos têm consumido a maior parte da minha rotina. Muito do que li este ano está relacionado aos cursos e também aos serviços editoriais que tenho oferecido. Não li nem um quinto do que gostaria, praticamente não atualizei o blog (senão numa circunstância triste, meses atrás), não produzi nem sequer um conto, mas estou com a sensação de que foi um ano incomparavelmente produtivo.

A esta altura de dezembro também estou com uma baita preguiça de fazer resenhas, mas vou inserir algumas, mais especificamente de obras pouco conhecidas e que valem a pena. Três estrelinhas*** para os 5 livros que mais curti no meu critério subjetivíssimo de gosto literário. Uma estrelinha* para aqueles que me surpreenderam positivamente e que recomendo. E o troféu “abðbrinha radiðativa” vai para Ramsés do Christian Jacq.

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Ficção de língua portuguesa

Rubem Fonseca – O Caso Morel

José Saramago – Memorial do Convento

Marconi Leal – Tumbu*

Fábio Barreto – Os Filhos do Fim do Mundo

Raul Pompeia – As Joias da Coroa

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Ficção de língua estrangeira

Christian Jacq – Ramsés – O Filho da Luz

Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano

Milan Kundera – A Brincadeira

Philip K. Dick – Ubik***

Liev Tolstoi – A Morte de Ivan Ilitch***

Fiódor Dostoiévski – Memórias do Subsolo

Puchkin – O Conto Maravilhoso do Tsar Saltan

Jeff Vandermeer – A Situação

Cory Doctorow – Pequeno Irmão*

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Biografia

Piers Paul Read – Os Sobreviventes: A Tragédia nos Andes*

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Pablo Vierci – A Sociedade da Neve***

Entre 2012 e 2013 resolvi ler todo o material que podia encontrar sobre aquela que me parece uma das histórias mais fantásticas de sobrevivência: a queda do avião 571 da Força Aérea Uruguaia na Cordilheira dos Andes, em 1972, e os 15 rapazes que foram resgatados após passarem 72 dias isolados no alto das montanhas em condições extremas, com nada para comer senão os cadáveres. É mais uma dessas histórias que fazem crer que a realidade consegue ser mais dramática e inverossímil do que a ficção.

A Sociedade da Neve é um “livro comemorativo” por assim dizer, o mais recente, lançado em 2012, e em relação às outras obras já escritas sobre essa história tem o diferencial de trazer os relatos subjetivos dos 15 sobreviventes – todos vivos 40 anos após o resgate! – e as impressões particulares de cada um deles após quatro décadas de digestão dos fatos. Na minha opinião essa é, por isso mesmo, a obra mais completa, mais fiel e mais interessante.

Para quem não conhece a fundo essa história, vale a pena. É incrível.

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Teatro

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Aristófanes – Lisístrata ou a Greve do Sexo*As AvesPluto ou um Deus Chamado Dinheiro

Aristófanes foi o maior autor de comédias da Grécia antiga, escreveu mais de 40 peças, das quais 11 chegaram até nós. A editora 34 publicou três delas com uma adaptação excelente para a linguagem atual, o que tornou a leitura bastante agradável, tanto que depois de ler a primeira eu não parei até conferir as três disponíveis.

Em Lisístrata, as mulheres gregas organizam uma greve do sexo para convencer seus maridos a parar com as guerras que devastam suas cidades. Em Pluto ou Deus Chamado Dinheiro, um cidadão e seu escravo resolvem devolver a visão a Pluto, o deus do dinheiro, para que ele passe a distribuir a riqueza de forma justa entre os homens. Em As Aves, dois atenienses resolvem se juntar aos pássaros e fundar uma cidade só deles, nas nuvens, para viverem livres da corrupção que grassa em Atenas.

O que me pareceu mais fascinante é que as peças de Aristófanes são atualíssimas para o contexto da democracia do século XXI; tratam de corrupção, desigualdade, desonestidade, desejo por paz e liberdade. São obras de crítica social e política e, por isso mesmo, subversivas e revolucionárias.

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Quadrinhos

Estevão Ribeiro – Os Passarinhos*

Robert Crumb – Gênesis

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Não Ficção

Mara Hvistendahl – Unnatural Selection: Choosing boys over girls and the consequences of a world full of men*

Marilena Chauí – O Que é Ideologia* [coleção primeiros passos]

Edgar Malagodi – O Que é Materialismo Dialético [coleção primeiros passos]

Stuart Sim & Boris Van Loon – Entendendo a Teoria Crítica

Laurentino Gomes – 1889*

Ivan Teixeira – Raul Pompeia [série essencial ABL]

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Steven Pinker – The Better Angels of Our Nature: Why violence has declined***

Em The Better Angels of Our Nature Steven Pinker propõe que a história humana pode também ser recontada como a história da contenção da violência e delimitou seis períodos de transição: processo de pacificação (da anarquia tribal às primeiras civilizações), processo civilizatório (da Idade Média até a Moderna, quando houve grande declínio em homicídios), revolução humanitária (Idade da Razão, com a abolição da escravatura), longa paz (durante a Guerra Fria, momento de poucos conflitos diretos), nova paz (pós-Guerra Fria, redução das guerras civis e genocídios) e revolução dos direitos (dos anos 1950 até a atualidade, com as conquistas dos direitos das minorias e uma crescente repulsa coletiva aos preconceitos e à discriminação). O argumento do Pinker é que o declínio da violência é resultado de mudanças biológicas e cognitivas que levaram à sofisticação do nosso senso moral, e que, apesar de não termos garantias que essa paz será definitiva, vivemos o período mais pacífico da história da humanidade.

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Hannah Arendt – As Origens do Totalitarismo: Antissemitismo, Imperialismo, Totalitarismo***

Resolvi atravessar as Origens do Totalitarismo só em razão de chegar nos últimos capítulos, que tratam do clímax do nazismo, quando acontece esse fenômeno que me faz sacar a caneta a todo momento no meio do metrô para sublinhar partes.
O que vejo de mais surpreendente é que a análise da Hannah escancara o poder que as realidades totalitárias têm de atropelar a ficção. Não apenas isso, ela disserta como as ideologias dos sistemas totalitários criam, fundamentam-se e sobrevivem a partir de uma ficção de Estado persistente e permanentemente instável, tão absurda que beira o inverossímil.

A própria ficção esbarra nesse limite: a verossimilhança. Uma história inventada, para ser convincente, não pode se inclinar tantos graus na direção do absurdo.

Não aprendi tanto lendo 1984, Animal Farm, Admirável Mundo Novo, The Handmaid’s Tale, Farenheit 451 ou nenhuma das distopias que adoro. Não vou dizer que essa constatação mata um pouco da autora dentro de mim, mas esse livro da Hannah Arendt é mais uma das coisas que me levam a perguntar “como escrever ficção com esta realidade?”

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Editoração, crítica literária, comunicação, etc.

James Wood – Como Funciona a Ficção

Martyn Lyons – Livro: Uma História Viva*

Ciro Marcondes Filho – Para Entender a Comunicação

Emanuel Araújo – A Construção do Livro

Laurence Hallewell – O Livro no Brasil: sua história*

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Revisões, serviços prestados

Elizabeth Chandler – Eternamente – série Beijada por um Anjo vol.6 (revisão)

Debbie Macomber – O Amor Mora ao Lado (revisão)

Jeffrey Zaslow – O Momento Mágico (revisão)

Regina O’Melveny – O Livro da Loucura e das Curas (revisão)

Sarah Jio – As Violetas de Março (2ª ed, revisão)

Molly Hopkins – Aconteceu em Paris (2ª ed, revisão)

Mark Twain – O homem que corrompeu Hadleyburg (tradução)

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Retrospectiva Literária de 2012

dezembro, 29 - 2012

Este foi um ano de poucos posts e muitas leituras. Conheci muitos autores e tive ótimas surpresas.

Comecei 2012 selecionando contos para os volumes amarelo e verde d’A Fantástica Literatura Queer, e termino o ano recebendo contos para os próximos e últimos volumes, o azul e o roxo.

metanfetaedro annabel cira

Em literatura nacional, os jovens talentos da Alliah, Jim Anotsu e Walter Tierno me impressionaram a ponto de reconfigurar meu entendimento de literatura fantástica brasileira. Eu, que nunca gostei de literatura policial e noir, descobri que Rubem Fonseca é um autor que me diverte de morte e me deu vontade de conferir todos os seus livros. E finalmente li Jorge Amado, sendo Capitães da Areia a leitura mais prazerosa a que a Fuvest já me “obrigou”.

summerprince morel tan

Tive o prazer de fazer uma beta-leitura para The Summer Prince, uma utopia quilombola futurista pós-brasileira criada pela minha colega novaiorquina Alaya Johnson. Devorei sem parar os cinco livros da Canção de Gelo e Fogo do George RR Martin e a trilogia Jogos Vorazes da Suzanne Collins. A clássica Odisseia 2001 do Arthur C. Clarke deixou uma impressão tão boa que tenho medo de estragar se ler as continuções. E A Invenção de Morel do argentino Bioy Casares é uma belíssima ficção científica de língua espanhola, quisera ler mais obras assim. Uma aquisição muito bacana foi Contos de Lugares Distantes do Shaun Tan, autor que conheci em 2010, quando ele foi homenageado no Worldcon. O livro é muito criativo em vários aspectos, traz narrativas fantásticas conectadas com ilustrações maraviníficas. Outro livro que adorei é Tipping the Velvet (Toque de Veludo) da Sarah Waters, um dos romances lésbicos mais legais já escritos e que deu origem à mini-série da BBC.

tipping visões perigosas clarice

Curti demais o Visões Perigosas da Adriana Amaral, livro sobre as origens culturais do cyberpunk e suas modas, que me mostrou que eu também sou punk. Todas as biografias que li foram extraordinárias. Clarice, uma biografia do Benjamin Moser adquiri sem pretensões e foi um grande acerto. Eu, que sou tão fã de Clarice, não fazia ideia do quanto é “milagrosa” sua origem em meio à guerra na Ucrânia. E Milagre nos Andes, sobre a história dos sobreviventes do acidente com o avião da Força Aérea Uruguaia, que em 2012 faz 40 anos, me deixou com o coração em apertos e interessada em ler mais livros sobre esse acontecimento.

Fazer listas é viver, então aí vai minha lista de leituras:

Antologias

A Fantástica Literatura Queer – Volume Amarelo 

A Fantástica Literatura Queer – Volume Verde 

 

Ficção em língua portuguesa

Metanfetaedro – Alliah 

Annabel e Sarah – Jim Anotsu

O Homem que Calculava – Malba Tahan

Viagens na Minha Terra – Almeida Garret

A Cidade e As Serras – Eça de Queirós

Til – José de Alencar

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (releitura)

Memórias de Um Sargento de Milícias – Manuel Antonio de Almeida (releitura)

O Cortiço – Aluísio Azevedo (releitura)

Vidas Secas – Graciliano Ramos (releitura)

O Bom Crioulo – Adolfo Caminha

Agosto – Rubem Fonseca

O Seminarista – Rubem Fonseca

Capitães da Areia – Jorge Amado

Cira e o Velho – Walter Tierno

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Ficção em língua estrangeira

O Fogo do Céu – Mary Renault

La Invención de Morel – Adolfo Bioy Casares

The Pillars of The Earth – Ken Follett

2001: Odisseia Espacial – Arthur C. Clarke

The Summer Prince – Alaya Dawn Johnson

A Game of Thrones – George R.R. Martin

A Clash of Kings – George R.R. Martin

A Storm of Swords – George R.R. Martin

A Feast for Crows – George R.R. Martin

A Dance with Dragons – George R.R. Martin

Hunger Games – Suzanne Collins

Catching Fire – Suzanne Collins

Mockingjay – Suzanne Collins

Contos de Lugares Distantes – Shaun Tan

The Plot Against America – Philip Roth

O Menino do Pijama Listrado – John Boyne

Starters – Lissa Price

Tipping The Velvet – Sarah Waters

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Não Ficção

Visões Perigosas – Uma Arque-genealogia do Cyberpunk – Adriana Amaral

Best Seller – A História de um Gênero – Halime Musser Prado Henrique

De Bizâncio Para o Mundo – A Saga de um Império Milenar – Colin Wells

1808 – Laurentino Gomes (releitura)

1822 – Laurentino Gomes (releitura)

The End of Faith – Sam Harris

Borboletas da Alma – Escritos sobre Ciência e Saúde – Drauzio Varella

História da Morte no Ocidente – Philippe Ariès

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Biografias

O Médico Doente – Drauzio Varella

O Homem que Sabia Demais – Alan Turing e a Invenção do Computador – David Leavitt

Viagem Solitária – Memórias de um transexual 30 anos depois – João W. Nery

Clarice, uma biografia – Benjamin Moser

Milagre nos Andes – Nando Parrado & Vince Rause

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Para Escritores

Como Narrar uma História – Sílvia Adela Kohan

Como Escrever Diálogos – Sílvia Adela Kohan

Writing for Videogame Genres – Wendy Despain

Plot & Structure – James Scott Bell

Characters, Emotion & Viewpoint – Nancy Kress

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Poesia

Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade

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Leituras de 2011

dezembro, 31 - 2011

2011 foi um ano em que me dividi bastante entre leituras convencionais, revisões, leituras críticas e leituras beta. Desta vez troquei as tradicionais resenhas por um pouco de surf e bicicleta (já que eu também mereço férias!). Listo abaixo somente as leituras dos livros já publicados, meus favoritos ganharam uma estrelinha.

Antologias

*A Fantástica Literatura Queer – Volume Vermelho – Cris Lasaitis & Rober Pinheiro (organizadores)

*A Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja – Cris Lasaitis & Rober Pinheiro (organizadores)

Imaginários 4 – Erick Sama (organizador)

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Ficção Brasileira

*A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

*O Centésimo em Roma – Max Mallmann

Sombras e Sonhos (contos) – Álvaro Domingues

Deixando de Existir – Goulart Gomes

Os Guardiões do Tempo – Nelson Magrini

*Reino das Névoas (contos) – Camila Fernandes

Tempos de Algória – Richard Diegues

A Criação do Mundo – Contos e Lendas Afro-Brasileiros – Reginaldo Prandi

As Meninas – Lygia Fagundes Telles


Ficção Estrangeira

A Casa Negra – Stephen King & Peter Straub

*Cassandra – Christa Wolf (releitura)

*Galileo’s Dream – Kim Stanley Robinson

Red Mars – Kim Stanley Robinson

O Senhor das Moscas – William Golding

*The Persian Boy – Mary Renault

Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom

*Diário Absolutamente Verdadeiro de um Índio de Meio Expediente – Sherman Alexie

Orgulho e Preconceito – Jane Austen

Orgulho e Preconceito e Zumbis – Jane Austen & Seth Grahame-Smith

*Maurice – E.M. Forster

*Os Homens que Não Amavam as Mulheres/ trilogia Millenium – Stieg Larsson

A Menina que Brincava com Fogo/ trilogia Millenium – Stieg Larsson

A Rainha do Castelo de Ar/ trilogia Millenium – Stieg Larsson

*O Segredo de Brokeback Mountain – Annie Proulx*

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Não Ficção

*1822 – Laurentino Gomes

1983: O Ano dos Videogames no Brasil – Marcus Vinicius Garret Chiado

O Redator da Arca Perdida – Marcus Vinicius Garret Chiado

Além de Darwin – Reinaldo José Lopes

A Versão Babilônica sobre o Dilúvio e a Epopeia de Gilgamesh – E.A. Wallis Budge

Incidente em Varginha – Vitório Pacaccini

O Caso Varginha – Ubirajara Rodrigues

UFOs – General, Pilots, and Government Officials Go On The Record – Leslie Kean

*Heróis e Exílios – Ícones Gays Através dos Tempos – Tom Ambrose

*O Outono da Idade Média – Johan Huizinga

*3096 Dias – Natascha Kampusch

*Saga Brasileira – A Longa Luta de um Povo por sua Moeda – Miriam Leitão

O Universo Elegante – Brian Greene

Steve Jobs – A Biografia – Walter Isaacson

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Poesia

As Coisas Desse Mundo – Nicole Rodrigues & Nathy Silva

Canções Sem Metro – Raul Pompéia

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Ensaios

Um Corpo Estranho – Ensaios sobre Sexualidade e Teoria Queer – Guacira Lopes Louro

Olho de Vidro – A Televisão e o Estado de Exceção da Imagem – Marcia Tiburi

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Para escritores

*Story – Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita de Roteiro – Robert McKee

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Infantil

A Princesinha Medrosa – Odilon Moraes

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Lançamentos da Tarja Editorial

julho, 28 - 2011

Quero recomendar dois livros que serão lançados pela Tarja Editorial no Fantasticon 2011. Não, nenhum deles é meu, mas tive o privilégio de pôr um dedinho em ambos e conferi-los em primeiríssima mão. São dois livros de fantasia brasileira de excelente cepa, produzidos por duas feras da literatura fantástica: a Camila Fernandes e o Richard Diegues.

O tão esperado livro solo da Camila – Reino das Névoas – é uma coletânea de contos de fadas. Mas não se iluda, estamos falando do contos de fadas para adultos!  Isso mesmo. E não quer dizer que se trata de literatura erótica, não. O Reino das Névoas traz contos de fadas inéditos que tratam de aprendizado, amadurecimento e desafios da vida adulta. As 7 histórias do livro são perfeitamente brutais e belas: trazem o melhor das narrativas clássicas de faz-de-conta, ao mesmo tempo em que rasgam de alto a baixo a inocência e ingenuidade associadas a esse universo. A obra é toda ilustrada pela autora – um verdadeiro colírio! Além do mais, esse livraço já nasceu premiado: ganhou nada menos do que a bolsa de incentivo ProAc, da secretaria de cultura do governo de São Paulo!

Leia, leia!! Você não vai se arrepender!

Apresentação do livro, por Richard Diegues:

Um livro. Sete contos de fadas para adultos. Novos contos de fadas, não releituras dos clássicos, brincando com seus elementos tradicionais: príncipes e princesas, feiticeiras (boas e más), maldições, bosques misteriosos, feras falantes. Mas com uma roupagem adulta, sem censura nem maniqueísmo. Nada de lutas do bem contra o mal: a dualidade está presente em todos e é dentro de cada um de nós que a grande batalha ocorre. Estas narrativas procuram resgatar a essência dos contos de fadas originais, contados ao pé do fogo numa época em que não havia divisão entre “histórias para adultos” e “histórias para crianças”.”Gosto de contos de fadas. Todos gostam. (…) Crescemos com eles em nossa memória. E, então, chegamos à vida adulta e aprendemos que nem tudo neles é factível na vida real. Enfim, começamos a nos perguntar: o que foi escondido pelos escritores que, ao longo dos tempos, foram adaptando, lapidando e moldando essas lendas para se tornarem palatáveis ao gosto popular? O que nossos pais esconderam sutilmente de nós enquanto liam à cabeceira de nossas camas?”Agora que somos adultos, precisamos de respostas. E aqui, neste livro, elas estão em cada linha, atrás de uma árvore na floresta escura, debaixo de uma ponte, atrás da passagem secreta do castelo ou no ninho do dragão. Cada uma delas esperando por uma nova leitura. Por uma nova descoberta. Bem-vindo ao mundo surreal.”

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Autoria: Camila Fernandes
ISBN: 978-85-61541-38-5
Páginas: 168
Formato: 14x21cm
Ano: 2011
Edição: 1ª
Preço promocional: R$24,00
Onde encomendar? Tarja Livros
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Book Trailer:
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Já o Tempos de AlgóriA, do Richard, é uma boa pedida de literatura juvenil para todas as idades. Narrado também na toada do faz-de-conta, o livro inicia uma saga de fantasia encenada nas paragens oníricas; uma aventura repleta de ação e de humor. Mais do que isso, Tempos de AlgóriA  introduz um multiverso ficcional que vem sendo preparado há alguns anos no caldeirão da Tarja Editorial, e do qual podemos esperar muitas outras novidades. Tive a honra de escrever a apresentação do livro e me diverti pacas como leitora, revisora e prefaciadora desta pequena maravilha. Pois é claro que eu vou recomendar: não deixe de ler!
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Apresentação da obra, por Cristina Lasaitis:
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Venha, entre logo, antes que os ventos levem você embora. Não ligue para os móveis revirados. Saiba que eu seria uma melhor anfitriã se ao menos pudesse servir o chá com elegância em meio a um terremoto. Ao ver você chegar, estendi a toalha e coloquei água para ferver, mas os céus se rasgaram, o chão começou a tremer, o vento estourou as vidraças, o lustre caiu e toda a porcelana ficou em pedaços. O clima tem sido assim desde que este livro nasceu na mente do seu autor.
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Saiba que temos aqui vários universos; inúmeros, como as portas que não se contam até o último corredor deste castelo. Todos interligados, separados por infinitas distâncias e, ao mesmo tempo, mais próximos entre si do que os gomos de uma laranja. Se meu chão treme, posso adivinhar que o teto de alguém está desmoronando. Se meu coração acelera, sei que o de outrem foi arrancado do peito.
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Havia harmonia antes, quando tudo era fácil de entender: as fadas ainda tinham asas, as serpentes eram sagradas e os dragões, ameaças distantes. Lembro que minha avó dizia: “Nunca se meta nos assuntos dos dragões, porque você, além de intrometida, é crocante e rica em vitaminas.” Ela não podia ter me dado um conselho mais sábio. Sugiro que você o guarde também. Vai precisar.
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Se tiver coragem para perambular por aí, guiarei você até uma saída – uma das infinitas deste labirinto: o Universo de Todos os Olhos. Não direi que é um lugar seguro, mas a paisagem é bonita se você tiver olhos para ver. É um reino de bravos reis e cavaleiros, de donzelas esquecidas e rainhas intrépidas – e também de dinossauros, duendes, monges, toupeiras de várias cores e monstros que você não gostaria de ver nem como bichos de pelúcia. Se sentir uma estranha familiaridade, não será por acaso: você certamente já visitou o lugar enquanto dormia. Não negue, você é um sonhador!
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E não é fácil ser um sonhador. A estrada para os sonhos passa por uma região de inconsciência profunda, onde tudo é escuro e incerto e, ao chegar ao Reino dos Sonhos, você nem sequer lembra por quais paragens teve de transitar. Não é de estranhar que tantas vezes, sem saber, tenha tomado o caminho errado e ido parar no reino vizinho: o dos Pesadelos. Tão próximo e tão diferente, com seus habitantes sibilantes e corredeiras de medo.
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Uma vez, o escritor Terry Pratchett descreveu a literatura de fantasia como uma bicicleta ergométrica para o cérebro. Na prática, ela não nos leva a lugar nenhum, mas tem a propriedade de exercitar os músculos que irão nos conduzir a todos os lugares. Não será exagero, portanto, dizer que os leitores de fantasia costumam ter cérebros sarados e sabem enfrentar a realidade sem se apoiar em muletas invisíveis. Todas as formas de literatura têm algo a nos ensinar. O bom livro de fantasia é muito parecido com um objeto fantástico propriamente dito: um portal entre mundos. Como este pelo qual você acaba de passar.
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Mas discorrer sobre os porquês da fantasia é o mesmo que tentar justificar um delicioso peru assado com batatinhas sauté – ou aquele chá com biscoitos que infelizmente não posso lhe oferecer, pois o pote se espatifou e as rosquinhas saíram rolando escada acima. O fato é que há momentos em que uma bela história nos é mais necessária do que um prato de comida, não é mesmo? Fantasiamos porque temos fome de fantasia. Precisamos comer um pouco de arroz com ficção todo dia, beber um antídoto contra a rotina, usar um emplastro Brás Cubas contra o tédio; isso, até que venham as noites de gala, quando encontramos um livro muito especial ou assistimos a um grande filme – e assim nos é oferecido um verdadeiro banquete de imaginação, convite para o maravilhamento. Só para atiçar a sua gula, adianto que sua estadia aqui corresponde bem a este caso: um bem-vindo sequestro para o mundo da fantasia.
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Garanto que uma grande aventura espera por você nas próximas páginas deste desfiladeiro de letras. Torço para que encontre uma resposta para o grande mistério que chacoalha os mundos de AlgóriA. Vamos, coragem! Desculpe a pressa, mas, para dizer a verdade, nem sei se ainda haverá um castelo aqui quando você voltar. Quem sabe não nos encontraremos de novo outro dia, em outro universo?
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Que a Grande Luz ilumine o seu percurso, que a noite devore os seus medos. A passagem está livre. Avante! Começam aqui os Tempos de AlgóriA.
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Autoria: Richard Diegues
ISBN: 978-85-61541-00-2
Páginas: 220
Formato: 14x21cm
Ano: 2011
Edição: 1ª
Preço promocional: R$25,00
Onde encomendar? Tarja Livros
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A Batalha do Apocalipse

janeiro, 31 - 2011

Eu costumava dizer por aí que meu lamento sobre a literatura fantástica brasileira era que eu ainda não tinha encontrado um livro que me despertasse o mesmo sense of wonder que senti com grandes autores como Arthur Clarke, Ursula Le Guin, Marion Zimmer Bradley… Ou seja, ainda não tinha lido uma obra brasileira arrebatadora.

Posso dizer que essa queixa, sim, ficou no passado!  O livro A Batalha do Apocalipse, do Eduardo Spohr, é merecedor do ISO9001 de excelência literária, e mais: virou um incontestável best seller digno de calar a boca de quem desacreditou do potencial da fantasia brasileira!

Um pouco por preconceito, um tanto por pós-conceito, nunca achei clara a associação entre best seller e qualidade literária, até porque acredito que para se tornar best seller o autor, por mais hábil que seja, precisa fazer certas concessões para agradar a um público numeroso. Nesse pensamento, alguns clichês são previsíveis (quiçá inevitáveis?). Não vou dizer que A Batalha do Apocalipse é um livro isento de clichês, mas é com certeza um best seller de uma qualidade literária surpreendente.

O livro conta a saga do anjo Ablon e seu séquito de anjos guerreiros, todos renegados, vivendo na terra entre os mortais e atravessando os milênios desde a expulsão do paraíso até os tempos do Juízo Final. A diferença fundamental entre anjos e homens é que os anjos não têm alma, nem paixões humanas: são movidos por objetivos maiores, têm uma personalidade estoica e uma inexplicável atração pelo combate. Nesse perfil, Ablon é o típico guerreiro solitário: lutador incansável, puro, movido por um ideal e até mesmo celibatário – exatamente como eram os heróis das novelas de cavalaria. Acontece que o arcanjo Miguel e Lúcifer, o príncipe que governa o inferno com mão de ferro, querem erradicar os anjos renegados, razão pela qual o exército de anjos caídos de Ablon está sendo caçado. Na sua jornada milenar pelo mundo, Ablon tem como sua única companheira a feiticeira Shamira, que conquistou a imortalidade com o domínio das artes da necromancia. Ablon e Shamira levam vidas solitárias, marcadas por encontros e desencontros através dos séculos e em grandes momentos da história humana. É fascinante a habilidade com que o autor desenha a trajetória dos protagonistas tomando confortavelmente como pano de fundo todo o planeta e a história da humanidade! A trama se passa em momentos e regiões tão diferentes quanto a Babilônia, a China, Roma, Alexandria, a Bretanha medieval, o Império Romano do Oriente, o Rio de Janeiro e a Jerusalém contemporânea – e mesmo as cidades bíblicas de Enoque e Sodoma – amarrando todos esses lugares e períodos dentro de uma única aventura, que se saiu muito variada e instigante.

É bastante interessante a forma com que foi tratada a coexistência dos universos: o mundo dos anjos que se liga ao dos mortais pelo “tecido da realidade”, que por sua vez pode se relacionar a outras teogonias, como os contos de fadas celtas e a mitologia chinesa.

Há um cuidado especial com as ambientações históricas, geográficas, técnicas e até mesmo bíblicas! É muito bom ler um livro tão rico e que passe as informações corretas, nota-se um profundo respeito para com a história e, principalmente, para com o leitor! Dentro da proposta do épico, o livro é praticamente perfeito. É uma história ambiciosa, variada, e constituída por uma pesquisa riquíssima. O texto é bem redigido e tem o ritmo certo. Apesar de ser um livro longo, não enrola o leitor. O universo tem consistência interna, é coerente e verossímil. E é bonito! Repleto de cenas grandiosas, é cinematográfico!

Eu comentei que o livro não é isento de clichês. Como no épico, tudo é idealizado: os personagens, as lutas, as situações. Em algumas circunstâncias, a idealização torna certos detalhes da trama bastante previsíveis, o que não prejudica a beleza e a força do resultado final.

Por uma questão de gosto pessoal, eu sou uma leitora que cochila em cenas de ação e de luta – curto mais a viagem, os questionamentos – então os últimos trechos, que contam a Batalha do Apocalipse propriamente dita, me pareceram um pouco cansativos. Em contrapartida, pude me deleitar em maravilhosas viagens com Ablon, Shamira e Flor do Leste (uma personagem de carisma irresistível) através da antiguidade.

Provavelmente a razão (e o merecimento) de tamanho sucesso d’A Batalha do Apocalipse é esta: é uma saga variada, com potencial de agradar a gregos e troianos e encantar todo mundo!

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Leituras de 2010

dezembro, 28 - 2010

Quando se chega ao fim do ano e cai a ficha -“minha nossa! já passou?” – é muito provável que o ano foi bom. Embora eu tenha furado várias promessas que escrevera na minha agenda (sim, eu tenho essa mania), só posso concluir que meu 2010 foi incrível!  Realizei sonhos de longa data: conheci a Austrália e a Nova Zelândia, participei pela 1ª vez do World Science Fiction Convention; e embora ainda não tenha conseguido publicar o meu romance, escrevi meu primeiro roteiro de cinema e ganhei uma lindíssima 2ª edição do Fábulas do Tempo e da Eternidade!

2010 foi ano de networking, conheci gente pra caramba! Foi ano de experimentações: provei comida tailandesa, viajei sozinha, dei palestra em inglês, comi ostra, peguei canguru no colo, andei de camelo… Sem rotina, foi ano de pensar muito e fazer planos, começar trabalhos novos e tomar decisões que devem nortear a vida inteira.

Meu 2011 vai começar repleto de projetos, e posso adiantar que vem muita novidade pela frente!

Com toda essa movimentação, não devo ter lido metade da montanha de livros que lera em 2009. Seguindo a tradição, vai a lista, e uma resenha para aqueles que tenho mais vontade de comentar:

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Ficção Brasileira

Dom Casmurro e Os Discos Voadores – Lúcio Manfredi

Desde o lançamento de Orgulho e Preconceito e Zumbis (de Seth Grahame-Smith), o mundo literário tem sido sacudido por uma onda de mashups de clássicos da literatura com elementos fantásticos, na sequência vieram: Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, Android Karenina, Jane Slayre e outros títulos. O sucesso foi tão grande que Orgulho e Preconceito e Zumbis já está ganhando adaptação cinematográfica! A proposta dessa novíssima – se é que já dá pra chamar assim: – vanguarda é, segundo o próprio Grahame-Smith: “transformar o clássico da literatura em algo que você gostaria de ler!” O conceito do mashup é conservar parte do texto original e misturar com outros elementos, dando uma nova roupagem à história; por isso o mashup é classificado dentro da ficção alternativa (uma discussão mais aprofundada sobre mashup e ficção alternativa você encontra neste ótimo artigo da Ana Cristina Rodrigues). Como você pode ver, a onda veio pro Brasil e em 2010 a Editora Leya lançou o selo Lua de Papel de “Clássicos Fantásticos” escritos por brasileiros – entre eles, Dom Casmurro e Os Discos Voadores é, na minha opinião, a melhor obra da safra.

Lúcio Manfredi é roteirista de televisão e nos últimos anos trabalhou no roteiro de seriados e novelas da Globo, como Ciranda de Pedra e A Casa das Sete Mulheres. Não é preciso dizer que ele sabe escrever cenas memoráveis, Machado de Assis não poderia ter encontrado melhor co-autor. O romance não é literalmente um mashup, porque pouquíssimo do texto original foi mantido, Lúcio reescreveu a saga inteira de Dom Casmurro na sua própria linguagem, leve e graciosa. Exatamente como no clássico de Machado, em Dom Casmurro e Os Discos Voadores o jovem Bentinho está predestinado desde o útero a seguir a carreira de padre – uma promessa feita por sua mãe, D. Glória – sendo que o menino não está nem um pouco inclinado ao sacerdócio, seja por vontade ou vocação, e acrescente ainda que ele está enfeitiçado pelos “olhos de ressaca” de sua amiga de infância e protonamorada, Capitu. As diferenças do romance original começam com a caracterização dos personagens: José Dias, o agregado, é um homem muito preciso, com engrenagens e articulações mecânicas; Capitu tem defeitos de nascença e atitudes esquisitas; e o tio Cosme não sai da frente do telescópio e conta ver coisas estranhas no céu. Bentinho testemunha uma sequência de acontecimentos estranhos que o acompanham desde a infância na casa da Rua Matacavalos aos seus estudos no seminário; vê-se pivô de uma conspiração estranhíssima da qual participam todas as pessoas que o cercam, mas que ele não compreende e de início nem desconfia que a origem dos seus problemas, na verdade, vem de Sirius…

Respeitando a tradição das ironias machadianas, não poderia faltar uma boa dose de humor, o que torna a leitura deste livro simplesmente deliciosa. E para quem é bom em captar referências, ele ainda reserva uma homenagem implícita  ao autor preferido do Lúcio.

 

A Paixão Segundo G.H. – Clarice Lispector (releitura)

Leio e releio sem cansar. Em matéria de ficção, A Paixão Segundo G.H. é um dos livros mais diferentes que o leitor pode experimentar. No nível superficial, a história é esdrúxula: uma mulher solitária faz a arrumação no seu apartamento, quando encontra uma barata no armário e a mata. E daí? E daí que nas entranhas dessa microscópica ação o universo inteiro palpita enquanto fala a voz interior dessa mulher. O assassinato da barata desencadeia uma saga subjetiva: uma imensa viagem interna por galáxias de sentimentos e ressignificações, tentativas de colocar em palavras aquilo que transcende à própria linguagem, uma busca de sentido, e no sentido, a liberdade de existir – o momento de epifania. Algumas pessoas acham este livro abstrato demais, outras se fascinam pelo alcance de tal abstração; para mim é uma das reflexões mais elevadas de toda a literatura (ao lado de De Profundis, do Oscar Wilde). Sempre que me sinto paralisada com ideias que não consigo formular, peço ajuda à G.H. e, especialmente, à Clarice, que são as melhores evidências de que não há nada que não possa ser colocado em palavras.


Cio (contos)– Marne Lúcio Guedes

Santa Clara Poltergeist – Fausto Fawcett

A Via Crúcis do Corpo (contos)– Clarice Lispector

A Bela e a Fera (contos) – Clarice Lispector

Game Over – Uma Ameaça Virtual – Rosana Rios

Memórias Desmortas de Brás Cubas – Pedro Vieira

O Ateneu – Raul Pompéia (releitura)

Noite na Taberna (poesia) – Álvares de Azevedo

Os Sete – André Vianco

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Ficção Estrangeira

A Sombra do Vento – Carlos Ruiz Zafón

Este livro foi a grande surpresa de 2010. Peguei-o sem esperar muito e fui conquistada logo nas primeiras páginas. A história é narrada por Daniel, um menino que no seu aniversário de 11 anos, pouco tempo depois de ter ficado órfão de mãe, é levado pelo pai a um lugar misterioso: o Cemitério dos Livros Esquecidos, onde ele tem o direito de escolher entre as intermináveis prateleiras um livro raro que poderá guardar consigo. É assim que Daniel se apodera de um volume intitulado A Sombra do Vento, de autoria de um barcelonês chamado Julian Caráx. Ao longo dos anos, o garoto lê e relê o livro, e a curiosidade o leva a buscar outros títulos do mesmo autor, mas Daniel descobre que não há mais vestígio sequer da obra e de Julian Caráx. Intrigado, Daniel se põe a investigar a vida desse misterioso escritor, e as evidências que encontra lhe mostram a dimensão trágica da história que ele está prestes a descobrir.

A Sombra do Vento é desses livros que se apoderam e prestam tributo a uma cidade – vive-se e respira-se Barcelona, cenário que não poderia ser mais perfeito à trama. Apesar das pinceladas góticas, não é um livro melancólico, é antes um romance leve, de cenas delicadas, tiradas bem humoradas, personagens encantadores, trama engenhosa, repleto de figuras de linguagem originais; um livro magistralmente escrito! Sou uma leitora bastante exigente e posso dizer que A Sombra do Vento é um dos poucos romances que conseguiram corresponder a todas as minhas expectativas.

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Chore Para o Céu (Cry To Heaven) – Anne Rice

Inicialmente famosa pelas Crônicas Vampirescas e pelas Bruxas Mayfair, Anne Rice alguns anos atrás passou pelo seu momento “encontrei Jesus” e escreveu livros sobre Cristo, recentemente entrou no momento “cansei dos cristãos” e voltou a escrever como escrevia antes, recentemente sintonizou a nova onda de anjos e acabou de publicar Tempo dos Anjos. Depois de ter lido Entrevista com o Vampiro anos atrás, quis ler algo novo de Rice e estabeleci como próximo alvo o Cry To Heaven (Chore Para o Céu), que eu não estava encontrando em lugar nenhum, até me deparar com uma edição em hardcover, com essa mesma capa que você vê acima, num sebo em Katoomba, na Austrália.

Apesar de não serem vampiros, nem bruxas, nem anjos, nem múmias, os personagens deste romance mainstream não deixam de ser criaturas “à parte” detentoras de um dom quase sobrenatural: Cry To Heaven é uma história sobre os castrati italianos do século XVIII. Numa época em que as mulheres eram proibidas de subir ao palco para cantar, meninos eram castrados para suprir a demanda de sopranos e contraltos para as óperas. Milhares de garotos eram castrados na esperança de um dia se tornarem estrelas da ópera, como foram Farinelli e Caffarelli, mas pouquíssimos eram os que, com muito talento e sorte, conseguiam fazer carreira como cantores. E para os milhares que não alcançavam esse objetivo, restava conviver com o estigma de se serem considerados sub-homens ao olhar de uma sociedade que os discriminava, sendo que a própria Igreja Católica não os ajudava, proibindo-os tanto de se casar como de seguir o sacerdócio.

No romance, Guido Maffeo é um talentoso castrato napolitano, que cantou na ópera durante a adolescência, mas tragicamente perdeu a voz num estirão da juventude (os castrati costumavam ficar muito altos, e podiam perder a qualidade da voz durante o crescimento); impedido de cantar, Guido estabeleceu como objetivo de vida encontrar uma voz perfeita e produzir uma nova estrela para a ópera; viaja pela Itália em busca de um prodígio. Em Veneza, o jovem Marc Antonio Treschi, o único herdeiro de uma dinastia de senhores venezianos, vive trancado em seu palácio junto à mãe, distraindo-se com música e canto. O seu velho pai, próximo à morte, revela a Tonio que ele tem um meio-irmão mais velho que fora exilado na Turquia como punição pela própria insolência. Assim que morre o senhor da casa, o irmão misterioso – Carlo – retorna e Tonio percebe que não é o único herdeiro, e que suas relações de sangue são mais profundas do que ele podia imaginar. Para reaver o seu direito sobre a Casa Treschi, Carlo sabota Tonio de uma maneira inusitada: manda castrá-lo e dá-lo para o caçador de talentos que veio a Veneza. Assim se cruzam os destinos de Guido e Tonio, começa uma aventura sensual pelas óperas italianas e, lentamente, a preparação de uma amarga vingança.

Cry To Heaven tem como pano de fundo as belíssimas paisagens de Veneza, Nápoles e Roma, e tem os mesmos temperos dos livros vampíricos de maior sucesso de Anne Rice: é recheado de erotismo, sensualidade andrógina, glamour e sangue – na minha opinião, mostra a fórmula da autora num estado mais puro. O livro ainda traz um adendo com referências da vasta pesquisa histórica que fundamenta a obra. Quem tiver curiosidade de entender melhor o mundo dos castrati, pode assistir ao filme Farinelli – Il Castrato (1994), ou ouvir a única gravação sonora existente da voz de um castrato: Alessandro Moreschi, o último, que morreu em 1922. Quem quiser ainda ter uma noção da complexidade das árias cantadas por eles, pode ouvi-las na voz da soprano Cecilia Bartoli, que lançou em 2009 o álbum Sacrificium, só com árias de castrati.

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Perdido Street Station – China Miéville

Perdido Street Station tem sido um livro muito comentado nos últimos anos. Por quê? 1- é o primeiro livro que se conforma totalmente à definição de new weird fiction (como canonizado por Jack e Ann VanderMeer), portanto, é o marco de um novo subgênero literário (sem nada pejorativo no prefixo “sub”); 2- é um mergulho num universo surreal, de criatividade sem limites, uma viagem – se não literal, literária – no ácido; e 3- é um livro que incomoda. Se você me disser que vai ler, devo acrescentar: você vai “se aventurar a”.

O new weird se baseia na mistura de elementos de ficção científica, fantasia e terror – e até mesmo RPG, noir, policial, mitologia; o que vier. É uma ficção não-realista, que exige a criação de um cenário novo – um cenário urbano – que será construído nas bases de uma estética própria – a estética estranha.

Mas vamos à história: ela se passa no mundo de Bas Lag, na cidade de New Crobuzon, mais especificamente no submundo dessa metrópole labiríntica, industrial, de arquitetura vertiginosa, meio steampunk, meio esquisitóide, sob o vulto da imensa estação da Rua Perdido. Seres humanos dividem o cenário com raças pseudo-humanas, há os khepri – criaturas com corpo de gente e cabeça de besouro, hábeis na arte de esculpir a partir do próprio cuspe; os garuda – uma espécie de águias humanóides com um código de conduta bem peculiar; os vodyanoy – uma raça aquática semelhante a rãs; e os cactacae – um povo cacto que habita um bairro isolado debaixo de uma redoma, como uma grande estufa.

Os personagens são cidadãos comuns de New Crobuzon; cientistas, artistas, inventores; amostras ao acaso da salada mista que é tal sociedade. Conhecemos a princípio Isaac, um cientista humano que vive um relacionamento amoroso uma fêmea khepri (ou mulher-besouro): Lin, artista e criadora de grandes monumentos de cuspe. Yagharek é um garuda que cometeu um crime grave dentro do seu grupo e foi punido com a amputação de suas asas e o ostracismo, ele vai a New Crobuzon procurar Isaac e pedir que o cientista o ajude a voar novamente. A trama segue com a descoberta de uma espécie de néctar dos deuses – a dreamshit (que vou adorar saber como irão traduzir!) – uma secreção produzida por uma espécie misteriosa e que, ao ser identificada, constata-se que é também uma espécie mortal e que poderá colocar os protagonistas, a sociedade e o frágil equilíbrio de New Crobuzon em colapso.

A saga é uma colagem de ideias estupidamente criativa, extremamente complexa e anticlichê. Se há terror e cenas chocantes (e olhe ainda tenho pesadelos com o bairro da luz vermelha de New Crobuzon!), há também espaço para a poesia e o encanto nos anseios e sonhos dos seus personagens. Mièville utilizou referências mitológicas, folclóricas, políticas e históricas para fazer essa colagem. Por que é uma leitura difícil? Porque a linguagem é barroca, o texto é denso, pesado e extenso; mas nem por isso o livro deixa de ser deslumbrante.

 

A Cidade dos Hereges – Federico Andahazi

A Máquina do Tempo – H.G. Wells

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel – J.R.R. Tolkien

A História do Olho – Georges Bataille

Snuff – Chuck Palahniuk

Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Brazyl – Ian McDonald

 

Não Ficção

Infiel (Infidel) – Ayaan Hirsi Ali

Ayaan Hirsi Ali, hoje uma cidadã holandesa de 41 anos radicada nos EUA, tem o que se pode chamar de uma história de vida de arrepiar.

Nascida na Somália, aos 5 ela sofreu a mutilação genital, como acontece a praticamente todas as meninas na cultura somali. Esse procedimento é feito por cortadeiras que, como as tradicionais parteiras, são mulheres do povo convocadas pelas famílias, e o trabalho é feito sem anestesia, sem instrumentos apropriados, sem ambiente esterilizado e em geral, em situações precárias. A menina precisa ser segurada enquanto o clitóris e os pequenos lábios da vagina são extirpados, os grandes lábios são seccionados e suturados com espinho de acácia, deixando um buraquinho minúsculo para o escoamento da urina e da menstruação – no período de cicatrização esse buraco é mantido aberto por um palito de fósforo, e as pernas precisam ficar amarradas durante semanas. A vulva desaparece e no seu lugar fica uma cicatriz rígida e, por vezes, apertada e dolorida. Quando a mulher se casa, na noite de núpcias a cicatriz é aberta a faca pelo marido. Quando vai dar à luz o primeiro filho, é necessário aumentar o corte. E algumas vezes, após cada parto, a  mulher é novamente suturada. As meninas que não são cortadas são estigmatizadas na sociedade somali, então praticamente todas o são (não sei se o costume perdura até hoje). Muitas morrem de infecção após a mutilação genital, muitas outras morrem de complicações decorrentes do procedimento: e todas sofrem com o trauma e as dores resultantes.

Essa experiência é só o ponto de partida da biografia de Ayaan. Em Infiel, ela faz um retrato da sociedade somali: seus clãs, sua cultura, a religiosidade… Nascida e criada dentro da religião muçulmana, e tendo morado inclusive na cidade de Meca, Ayaan narra a sua vida e a das mulheres com quem conviveu sob a opressão e a brutalidade do Islã. Ela chegou a ser espancada pelo imã que lhe lecionava o corão e quase foi morta de pancada pela própria mãe. Ayaan chegou a  conhecer o fundamentalismo e combater o ocidente. A virada na sua vida se deu quando, contra a sua vontade, o pai arranjou-lhe casamento com um somaliano que morava no Canadá. No momento em que Ayaan pegou o avião para ir viver com o marido, aproveitou-se de uma escala na Europa para fugir e pedir refúgio na Holanda. Na Europa ela teve o seu primeiro choque com os valores do ocidente: via as mulheres livres, impressionava-se com as pessoas que lhe ajudavam e eram simpáticas sem querer nada em troca. Como refugiada na Holanda Ayaan recomeçou sua vida: trabalhou e conseguiu a cidadania, aprendeu a língua holandesa e conseguiu se matricular em ciência política na Universidade de Leiden. Estudando o trabalho dos filósofos, especialmente após a leitura do Manifesto Ateísta, Ayaan passou por um enorme cisma com suas crenças, sofreu o abalo de considerar que toda a estrutura ideológica do mundo em que vivera, pautado na retórica do Corão, era ficção, e nem o inferno que ela tanto temia e nem Alá existiam. Como resultado, em 2002 Ayaan afirmou-se ateísta – e o rompimento com a religião foi inevitavelmente um rompimento com a sua família. Depois de formada entrou para a política na Holanda, onde foi deputada de 2003 a 2006. Escreveu a sua biografia, virou crítica do Islã e ativista para a liberação das mulheres muçulmanas, como resultado, recebeu inúmeras ameaças de morte. Em 2004, em parceria com o cineasta Theo van Gogh, idealizou o curta-metragem Submission, sobre a realidade da mulher no Islã. As ameaças contra a vida de Ayaan explodiram, e ela contou com a proteção da polícia holandesa, mas Theo van Gogh foi assassinado na rua a facadas, e sobre o corpo dele foi deixada uma carta dizendo que a próxima vítima seria Ayaan. Atualmente ela mora nos EUA e continua com o seu ativismo, vivendo cercada de seguranças.

É difícil resenhar um livro tão profundo em tão poucas linhas e conseguir comunicar a dimensão dessa história. Há uma certa semelhança entre a biografia de Ayaan e a de Waris Dirie, a Flor do Deserto – com o detalhe de que a história da “infiel” tem menos glamour, mais violência e o fator “sorte” deu lugar a uma força de vontade invejável.

A trajetória de Ayaan Hirsi Ali é impressionante; uma mulher que escapou por uma porta inacreditável e teve coragem de vir a público enfrentar a truculência terrorista pedindo pelo fim de uma era de barbárie.

Infiel é um livro que recomendo a todos, sobretudo às mulheres. E o filme Submission, que levou ao assassinato de Theo van Gogh é este que você pode assistir abaixo:


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Um Antropólogo em Marte – Oliver Sacks

A Mulher/Os Rapazes da História da Sexualidade – Michel Foucault

Alquimia e Misticismo – Alexander Roob

A Dança do Universo – Marcelo Gleiser

As Vidas de Chico Xavier – Marcel Souto Maior (releitura)

Voar Também é Com os Homens – O Pensamento de Mário Schenberg – José Luiz Goldfarb

1808 – Laurentino Gomes

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Infanto-Juvenis

Matilda – Roald Dahl

George’s Marvelous Medicine – Roald Dahl

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

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Antologia

Anno Domini – Helena Gomes (organização)

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9 Filmes Renascentistas

novembro, 14 - 2010

Espartilhos, leques, perucas, cachinhos, brocados, babados, rendas, veludos, rococós, borlas, filigranas, carruagens, castiçais, duques, condes, princesas, cortesãos, reis, ópera, pó de arroz, clavicórdios, violinos…

Para você que também é fascinado pela estética renascentista, ou simplesmente gosta de história, ou simplesmente sonha com a Madonna cantando Vogue de Maria Antonieta, ou pra você que gosta de desfrutar das mordomias audiovisuais da modernidade, elaborei esta lista top 9 de filmes da renascença:

Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988)

Direção: Stephen Frears

Baseado na obra Les Liaisons Dangereuses, de Pierre Choderlos, a versão cinematográfica com atuação brilhante de John Malkovich e Glenn Close traz uma bonita reconstrução da vida ociosa e frívola da nobreza francesa. Apresenta um duelo de sabotagem e sedução entre a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, que não medem esforços em suas vinganças e conquistas. Um filme visualmente atraente, uma trama engenhosa e repleta de sutilezas.

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Orlando, A Mulher Imortal (Orlando, 1992)

Direção: Sally Potter

Ótima adaptação da biografia fantástica Orlando, de Virginia Woolf. Este também foi o filme que projetou Tilda Swinton, na minha humilde opinião. Retrata a vida de Orlando, um personagem que atravessa os séculos – o tempo, o espaço, e até a fronteira entre os sexos – num coming of age eterno, experimentando a condição humana em direferentes fases (e com diferentes sexos) numa viagem pelos espíritos de época do século XV até o XX. É uma das minhas obras favoritas (tanto o filme, quanto o livro) pela alegoria a um só tempo potente, criativa e muito bonita.

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Farinelli, Il Castrato (1994)

Direção: Gérard Corbiau

Biografia de Carlo Maria Broschi, o Farinelli, que foi o castrato mais famoso (ao lado de Caffarelli) e bem pago da história, praticamente um popstar do século XVIII. O filme apresenta não somente curiosidades sobre os cantores castrati (que eram castrados ainda na infância, devotavam-se à música e eram proibidos de se casar), mas tem enfoque especial sobre a relação do cantor com seu irmão mais velho, e que o castrara contra a vontade, o compositor Riccardo Broschi, com quem dividia tudo, até as amantes. O filme é uma viagem sensual pelas pomposas óperas do século XVIII.

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Carlota Joaquina, A Princesa do Brazil (1995)

Direção: Carla Camurati

Sim, por que não? Apesar de caricato, o filme de Carla Camurati manteve um nível razoável de fidelidade aos fatos históricos, aguçando as características mais estapafúrdias dos personagens reais para compor essa adaptação burlesca (quem quiser conferir, consulte o livro 1808, do Laurentino Gomes). Chama a atenção o início do filme, que mostra a vida da infanta Carlota na corte espanhola, rodeada de artistas e festanças, e, do casamento com D. João VI, a súbita entrada na estranhíssima corte portuguesa, carola, desanimada, sem festas, comandada por uma rainha louca e um príncipe covarde. E depois, o transporte atrapalhado dessa pompa e realeza ao Brasil tropical. Dispensando as piadas, o episódio da fuga da coroa portuguesa para o Brasil é exótico por si mesmo, e único na história das monarquias europeias. Os próprios brasileiros costumam ignorar que essa foi a grande guinada da história do Brasil (e também de Portugal), sem a qual não haveria hoje essa unidade territorial e política ou mesmo o nosso não-de-todo-ruim desenvolvimento estrutural e econômico.

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O Rei Dança (Le Roi Danse, 2000)

Direção: Gérard Corbiau

Do mesmo diretor de Farinelli, Le Roi Danse faz um retrato artístico da corte de Luís XIV, o rei sol, aficionado por música e balé, abordando sua relação de proteção e mecenato com Jean-Baptiste Lully, compositor tão talentoso quanto louco; e também a relação ambígua de amizade e rivalidade entre Lully e o dramaturgo da corte, Molière. Enfoca também a disputa entre a devassidão apaixonada dos artistas e o moralismo cristão, personificado na figura da rainha mãe, Ana de Áustria. Filme impecável pelos figurinos e fotografia.

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Casanova (2005)

Direção: Lasse Hallström

Casanova é, talvez injustamente, um dos filmes menos citados de Heath Ledger. Na adaptação cinematográfica desse peculiar personagem da Veneza do século XVIII – o maior sedutor da Idade Moderna – a opção foi pela comédia romântica. A inquisição veneziana está tentando endireitar o bon vivant, impondo-lhe uma sentença terrível: “casa-te ou vai pra forca”, e a Casanova resta a tarefa de arrumar uma esposa em tempo recorde. Nisso, ele se apaixona por Francesca Bruni, que é – vejam só – a maior feminista e detratora de Casanova nessa carnavalesca Veneza. Um filme leve, gracioso e visualmente interessante.

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Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006)

Direção: Sofia Coppola

Uma história de muitas joias, rendas, sedas e frufrus na luxuosa corte de Versalhes. Maria Antonieta, princesa austríaca, tornou-se rainha da França ao casar-se com Luís XVI. A história lhe deu um rodapé memorável com a frase “se os pobres não têm pão, que comam brioches” e um final terrível com a decapitação na guilhotina. O filme, fiel ao cenário da época, projeta um ponto de vista contemporâneo sobre a vida de Maria Antonieta, retratada como uma patricinha do século XVIII, que adora fazer compras e sair de balada, gastando sua beleza com os problemas do seu casamento, completamente alienada da realidade miserável que corria por fora dos portões de Versalhes. De certo modo, o filme lhe faz justiça: se Maria Antonieta entrou para a história como uma rainha que não se importava com o povo, que conste o fato de que ninguém lhe disse que ela deveria se importar.

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Os Fantasmas de Goya (Los Fantasmas de Goya, 2006)

Direção: Miloš Forman

Nem festas, nem banquetes, nem óperas. Diferente de outros países da Europa em fins do século XVIII, a Espanha retratada em Os Fantasmas de Goya é um reino sombrio, melhor definido pelos monstros que povoam as ilustrações de Goya, e onde o artista sofre censuras e tem que se curvar à vaidade dos reis e ao rigor da terrível e famosa – e famosa por tão terrível – Inquisição Espanhola. A história acompanha Goya e seu círculo de relacionamentos do palácio de Carlos IV aos calabouços da inquisição, até a carnificina das guerras napoleônicas.

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Elizabeth, The Golden Age (2007)

Direção: Shekhar Kapur

Megaprodução do cinema épico (e sequencia do filme Elizabeth, de 1998) com lindíssimos cenários e figurinos, e ótima atuação de Cate Blanchett (cuja beleza é uma enorme licença poética emprestada à personagem histórica), remonta a trajetória de Elizabeth I, a primeira grande mulher estadista da Idade Moderna e uma das maiores que já houve. Tendo herdado o trono após o desastroso reinado de sua irmã Bloody Mary (Maria I), Elizabeth conduz a Inglaterra a um período de prosperidade ao custo da quase total anulação da sua vida pessoal, e que dirá amorosa (razão pela qual foi eternizada sob a alcunha de Rainha Virgem).