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Leituras – Maio/2009

maio, 30 - 2009

A Austrália Interior – Ian Moffitt

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Esse livro da coleção As Regiões Selvagens do Mundo, da Time-Life, foi um presente da amiga Giseli Ramos (valeu, Gi!), que conhece meu lado australianófilo.

Recheado de fotos de paisagens inóspitas do outback australiano, o livro é uma viagem através de imensos desertos e descreve de maneira bem instigante como o continente mais seco do mundo abriga alguns dos ecossistemas mais ricos. O isolamento territorial da Austrália permitiu que a evolução seguisse um rumo todo particular e à parte do restante do mundo; ali e em mais nenhum outro lugar os marsupiais dominam e os monotremados resistem como autênticos fósseis vivos. O que vejo de mais bonito é o modo como o deserto revela a face espartana da natureza; a capacidade de permanência da vida no limiar mais hostil, florescendo a cada chuva, ajeitando-se para sobreviver aos longos meses de seca.

O livro também conta a história dos primeiros desbravadores do outback, homens que quiseram atravessar o continente por dentro numa época em que não havia rádio, GPS, nem sequer um mapa no qual se pudesse confiar. Ainda no século XIX perdurava o mito de um mar interior e muitos homens se lançaram deserto adentro no objetivo de encontrá-lo. Muitos foram vencidos pelo deserto, quando não pelos aborígenes que o habitam. Algumas expedições se perderam e seus rastros jamais foram encontrados.

Sinto uma atração inexplicável pelo inóspito, o que me leva a buscar lugares como o deserto de Atacama ou os Andes peruanos e ali ter a sensação de que eu poderia passar uns bons tempos a pensar, sem precisar de mais nada. O outback australiano está no meus futuros planos, já que pretendo ir para a Austrália no ano que vem (embora quem me conhece sabe que já faz 10 anos que vou para a Austrália no ano que vem), praticamente já estourei o prazo de ver o reveillón de 2010 na baía de Sydney, mas o de 2011 não escapa!

O Tempo das Catedrais – Georges Duby

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Um tratado sobre a arte (gótica) e a sociedade na Europa da baixa Idade Média.  É daqueles livros que eu adoro pela alta concentração de informação relevante, ótima referência de pesquisa (indicação da Ana Cristina Rodriguesmerci, Ana!). Georges Duby foi um grande historiador e escritor, desde que comecei a me interessar por história medieval o nome dele se tornou uma constante, e minha biblioteca já conta com uma meia dúzia de livros escritos ou organizados por ele. A edição portuguesa de O Tempo das Catedrais doeu um pouco no bolso, mas foi uma boa aquisição, me rendeu um caderno lotado de anotações.

Detalhe: traduzido por José Saramago! Não preciso dizer mais nada.

As Memórias do Livro – Geraldine Brooks

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O título original – The People of the Book (As Pessoas do Livro) – é apropriadíssimo, pena que soaria tão estranho se publicado assim em português. As Memórias do Livro conta a história de uma conservadora de livros, a australiana Hanna Heath, convocada para trabalhar durante a guerra da Bósnia sobre uma Hagadá (um livro de histórias tradicionais do judaísmo) de mais de cinco séculos encontrada em Sarajevo. Esse livro existe de verdade, e sobre ele Geraldine desenvolveu uma inusitada ficção detetivesca, na qual Hanna analisa cada pequeno fragmento encontrado em suas páginas – um pedaço de asa de borboleta, uma mancha de vinho, um pêlo de pincel… – cada qual revela um período histórico inteiro, preenchendo as lacunas dos 5 séculos atravessados por esse livro nas mãos de pessoas que se arriscaram para salvá-lo de inúmeras guerras e inquisições. As Memórias do Livro é praticamente um tratado sobre o judaísmo na Europa, e mais do que isso, um tratado sobre a convivência de judeus, cristãos e mouriscos desde o século XIV até os dias atuais.

Há também a história da própria personagem e seus dramas pessoais, que não me cabe julgar, mas ficou com uma cara bem “ficção bestseller”. Parte da trama se passa em Sydney, onde mora Geraldine Brooks, que é australiana (e aparentemente patriota). Nota-se que os australianos também anseiam por não ficar de fora desse fabuloso mundo ocidental polarizado por América do Norte + Europa. A sorte deles é que falam inglês. E Geraldine Brooks já chegou lá, afinal, ganhou um Pulitzer.

Sei que The People of the Book está com os direitos comprados para o cinema. Se for bem adaptado pode resultar num filme tão lindo quanto o livro.

Renascimento

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Livro da coleção “Quero Saber” da Editora Escala, bastante didático, rápido de ler e baratinho para o excelente padrão gráfico. Faz um resumo do renascimento artístico italiano, ilustrado com as principais obras dos principais artistas: Giotto, Sandro Botticelli, Leonardo DaVinci, Rafael Sanzio e Michelangelo; é LINDO DE MORRER!

Também é uma fonte bacaninha de pesquisa para quem se interessa. Nada muito aprofundado, bastante objetivo. 

Anacrônicas – Ana Cristina Rodrigues

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Uma graça de livrinho! Excelente seleção de contos curtos da autoria da Ana Cristina Rodrigues, que é historiadora, escritora, atual presidente do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e uma das pessoas mais atuantes da literatura fantástica brasileira.

Eu já tinha lido vários contos da Ana, muitos dos quais reencontrei nesta coletânea. E fiquei bem impressionada com o teor dos textos, curtos porém potentes, agudos como pontada de agulha.  Retratam mundos de fantasia com sua aura mágica, porém pincelados de uma certa melancolia e angústia existencial. Quando não a doce melancolia, toma a cena uma sátira filosófica escrachada; sarcasmo da melhor qualidade.

Conforme eu lia, tentava eleger: “esse é o melhor”, “ah, esse é o meu preferido”, “esse aqui nem se fala!”; mas aos poucos fui desistindo de eleger um favorito porque são muitos contos surpreendentes. Mas fazendo um esforcinho para escolher, os que eu mais curti foram O Último Soneto, Pelo Espaço de um Momento e o sen-sa-cio-nal Apocalypse NOW!

Também é digna de nota a qualidade gráfica do livro, que ficou um pacote bonitinho muito bem ilustrado pelo Estevão Ribeiro.

Macbeth – William Shakespeare

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Aparentemente, a mais obscura das tragédias de Shakespeare.

Certo dia três bruxas cruzam o caminho do general escocês Macbeth e vaticinam conquistas impensáveis – ele será rei, mas seu colega e também general Banquo, mais poderoso que ele, terá filhos reis. Macbeth fica envenenado com essa expectativa e, com a ajudinha de sua esposa, a ultramaquiavélica Lady Macbeth, dá início a um derramamento de sangue real com o objetivo de abrir caminho rumo ao trono da Escócia. Mas Macbeth não conta com o terrível esforço que lhe demandará manter-se seguro nessa posição, exigindo que ele extermine todos os seus potenciais sabotadores, o que obviamente dá origem a uma guerra e a um derramamento de sangue sem fim.

Harry Potter e a Pedra Filosofal / Harry Potter e a Câmara Secreta – J.K. Rowling

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Até que enfim vou descobrir qual o pacto que Mme. Rowling fez com Aquele-Que-Não-Pode-Ser-Mencionado! Adquiri os livros numa promoção do Submarino. Já senti o potencial viciante (aaah, eu não sou imune!!).

Prometo comentar devidamente assim que terminar de ler a série.

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Leituras de Março/2009

março, 29 - 2009

Hamlet – William Shakespeare

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Você já teve a impressão de que toda a literatura de língua inglesa, de um modo ou de outro, converge para o legado de Shakespeare? Pois não é sem razão. Descobri que ler suas peças é bem diferente de assistir às montagens teatrais, e muito diferente de somente ouvir falar nesse teatrólogo tão influente quanto mitificado.

Afinal, o que Shakespeare tem? É um autor que domina com perfeição a profundidade do drama, consegue fazer rir na tragédia e chorar na comédia, constrói diálogos geniais, cenas clássicas e marcantes, é um crítico, é um filósofo, é um gozador excepcional da sociedade de seu tempo e de todos os tempos.

E quanto a Hamlet? Eu tinha a impressão de que ele fosse uma espécie de emo do século XV, um príncipe que ao ser confrontado com a perda se punha melancolicamente a filosofar sobre a vida e a morte com uma caveirinha na mão. Nada disso! Encontrei um personagem extremamente carismático e irônico. Jovem herdeiro do trono da Dinamarca e órfão recente de pai, Hamlet começa a se revoltar quando sua mãe e seu tio resolvem se casar nem dois meses depois do velho rei (o Hamlet pai) ter descido à sepultura, e termina de se revoltar completamente  quando o fantasma do antigo rei vem lhe contar que fora assassinado e exigir de seu filho uma vingança. Hamlet usa de toda a sua criatividade para investigar a culpa do tio (agora entronado rei), faz-se de louco, dispensa sua amada aos xingamentos, arma um espetáculo teatral na corte para esfregar na cara do assassino os pormenores do seu ato. E em descobrir o reino de vilanias e morte que o tem como príncipe, Hamlet vai tomando intimidade com a amargura e a desesperança, ou – como comenta o crítico literário Harold Bloom – torna-se o próprio anjo caído: sarcástico, amargurado e vingativo.

Apesar da transmutação, o carisma de Hamlet é tão grande e seu comportamento é de tal graça que o expectador (ou leitor) não deixa de se identificar e torcer por ele um único momento. Um personagem simplesmente arrebatador.

A edição que eu tenho é o pocket da L&PM, a capa é do Delacroix (isso, aquele pintor da revolução francesa) e tradução de ninguém menos que Millôr Fernandes.

Mulheres, Mitos e Deusas – o feminino através dos tempos – Martha Robles

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Achei bem interessante a proposta desta escritora mexicana que resolveu concentrar em um único livro 52 biografias de personagens femininas influentes na cultura universal (e mexicana): figuras mitológicas, personagens trágicas, donzelas de contos de fadas, rainhas, nobres, intelectuais, santas, escritoras, artistas, monjas… É o tipo de livro que gosto bastante pela alta densidade de informação aproveitável. Quando fechava o livro, precisava fechar muito bem pra não vazar conteúdo pelas lombadas.

Descobri várias curiosidades, por exemplo: na cultura grega antiga, de acordo com o que se pode concluir através dos mitos e narrativas heróicas, grandes demonstrações emocionais eram tidas como comportamento de homem; das mulheres esperava-se que ocultassem suas emoções, que fossem mais frias e estóicas. Descobri também que São Cirilo, o mais provável mandante do assassinato da filósofa e astrônoma Hipátia de Alexandria, foi canonizado pela Igreja, adivinha por quê por quê por quê? Porque defendeu a infalibilidade da religião católica. Digna de nota também é o capítulo dedicado à rainha Elizabeth I, que tem um dos mais invejáveis currículos a que um estadista pode aspirar. Outros destaques são Catarina de Médici, Cleópatra, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Cristina da Suécia…

O livro peca em alguns pontos. A começar pela linguagem floreado-diafanizada da autora que nas intermitências do texto penetra os escaninhos de uma prolixidade que, de momento a momento, não quer dizer porcaria nenhuma. Ela não percebeu que certos exercícios de síntese não funcionam, p. ex: não dá pra resumir a queda de Tróia em detalhes dentro de quatro páginas citando todos os heróis, vilões e os vinte filhos de Príamo e Hécuba. Também senti que em alguns momentos a autora trata versões apócrifas de mitos como se fossem as mais confiáveis, e às vezes parece tentar minimizar certos indícios históricos, como no caso da biografia de Safo, que era lésbica de nascimento (Ilha de Lesbos) e gostava de mulheres,  mas, segundo a autora, “não era bem assim”… A parte mais desmerecida é o capítulo chamado “Caminho de Deus”, em que se assiste a um desfile interminável de Nossas Senhoras mexicanas e santinhas milagreiras feitas de pasta de milho que só são do interesse dos católicos nativos. Para não compensar, há lacunas e omissões inexplicáveis: nem uma menção sequer a Julieta, Desdêmona, Hildegard von Bingen, Joana D’arc, Catarina Grande, Lucrécia Bórgia, as irmãs Brontë ou Mary Shelley. Não deu pé nem para Frida Kahlo, pintora mexicana que na visão de Martha Robles é menos merecedora de uma biografia que sua conterrânea e colega de arte María Izquierdo (alguém já ouviu falar dela?).

 Em geral é um livro muito bom, a leitora aqui que é meio cricri.

Paradigmas 1 – Vários autores

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Não é porque o filho também é meu, mas essa é uma das coletâneas melhor organizadas da cena literária atual. São 13 contos de 13 autores bastante diversificados em temáticas e estilos, todos eles se encaixam de algum modo nas designações da literatura fantástica, mas aqui não existem fronteiras claras de gênero e vanguarda, a proposta é justamente gerar uma quebradeira de rótulos. Creio que a maioria dos contos conseguiu cumprir com a missão.

Reparei que muitos autores investiram na quebra dos paradigmas por meio da reinvenção mitológica e, em alguns casos, com o tempero do erotismo.

+ Jacques Barcia em O Vento, Seu Fôlego. O Mundo, Seu Coração operou a tranfiguração da mitologia indiana em uma vertiginosa epopéia onírica.

+ Roberta Nunes em Una deu vidas passadas e ares de ficção científica à saga de Lilith. Belíssimo!

+ Já Fogo de Artifício, do Eric Novello, é um inusitado conto policial onde os bandidos são personagens de contos de fadas e a loura Alice com seu coelho inseparável não é mais uma menininha…

+ Em Aqui Há Monstros, Camila Fernandes praticamente inventa um novo mito grego, um jovem náufrago vai parar em uma ilha desconhecida onde é salvo por uma misteriosa mulher cuja beleza ele jamais pode olhar.

+ E quem disse que dragões não tem nada a ver com favela e tráfico de drogas? Essa conexão inusitadíssima é mérito do Bruno Cobbi, com O Mendigo e o Dragão.

+ Um Forte Desejo, de MD Amado, conta as aventuras sexuais de uma mulher independente com uma bizarra criatura.

+ Tem ainda uma escritora chamada Cris Lasaitis com sua alegoria moderna sobre um maestro narcisista e uma melodia mágica (Sinfonia Para Narciso).

+ Leonardo Pezzella com A Lenda do Homem de Palha praticamente inventou uma lenda popular tão pictórica quanto as que povoam o imaginário da cultura brasileira.

+ O conto da Ana Cristina Rodrigues, O Templo do Amor, traz um interessante duelo entre as duas maiores forças que norteiam a nossa existência: o amor e a morte.

+ A Teoria na Prática (excelente título) é uma grande sacada do Romeu Martins ao dar sentido e quintas intenções à cultura da pasmaceira que chamamos de teoria da conspiração. Ou você não percebeu que tem alguém interessado em fazer você acreditar que camisinha dá câncer?

+ O conto do Richard Diegues, MAI-NI Expressas é uma viagem alucinante num mundo ciber-futurista-distópico onde motoboys rompem fronteiras a mil e seiscentos quilômetros por hora para entregar o seu pacote antes que a guerra comece.

+ O Combate de Maria Helena Bandeira é um altar de sacríficios ao deus Xanam, o deus do acaso e também das roletas russas.

+ E Madalena, de Osíris Reis, é um conto de terror situado entre o grotesco e o escatológico, onde não há fronteira entre os pesadelos e a realidade para uma menina de nove anos aterrorizada e violada pelos seus monstros pessoais e pela religião. Lembra um pouco um caso que aconteceu no Pernambuco outro dia…

Acho que não deixei faltar ninguém. É isso aí, criançada, parabéns! E que venha o volume 2!