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Minha dissertação sobre homofobia

setembro, 29 - 2014

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Disponibilizo a quem interessar minha dissertação sobre a pesquisa que fiz no meu mestrado em psicobiologia, “Aspectos afetivos e cognitivos da homofobia no contexto brasileiro – Um estudo psicofisiológico”.
A pesquisa foi concluída em 2009 mas o assunto continua mais atual do que nunca. De uns tempos pra cá tenho refletido sobre a necessidade de transformar essa dissertação em um livro de divulgação científica, coisa que pretendo fazer.

Você pode baixar o pdf clicando no link:

Aspectos afetivos e cognitivos da homofobia no contexto brasileiro – Um estudo psicofisiológico, Cristina Lasaitis, 2009.

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2001, uma odisseia, uma viagem

abril, 19 - 2014

Publico aqui uma breve monografia que fiz como trabalho para a disciplina de Design Editorial, do curso de editoração da ECA-USP. A proposta era discutir o conceito e a materialidade nas publicações. Escolhi um projeto gráfico que me chamou bastante atenção: a nova publicação que a editora Aleph fez de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que é também uma dos meus romances preferidos do Arthur C. Clarke. Creio que esse exercício pode ser encarado como uma resenha diferente, centrada no nível semântico e do design. Ou talvez só mais uma viagem minha mesmo.

* * *

2001: Uma Odisseia no Espaço – A repaginação de um clássico

Em seu prefácio para a edição mais recente de A Mão Esquerda da Escuridão, Ursula K. Le Guin disserta: “o objetivo do experimento mental (…) não é prever o futuro – mas sim descrever a realidade, o mundo atual”, em outras palavras: escrever ficção científica é um exercício extrapolativo sobre o aqui e o agora, não é futurologia. Assim é que as datas terminais citadas nas opera magna dos escritores de ficção científica estão fadadas a serem atropeladas pela linha do tempo sem que a metáfora de seus universos se perca. Depreendemos que 1984 de George Orwell continua atual, apesar do ano de 1984 ter-se ido do calendário há três décadas, e, do mesmo modo, passamos pelo ano de 2001 sem termos vivido uma “odisseia no espaço” (aliás, continuamos muito defasados na tecnologia astronáutica para sonhar com as viagens narradas na obra de Clarke). O livro 1984 de George Orwell foi escrito no ano de 1948, sendo que o autor escolheu esse título por guardar relação de anagrama com seu próprio tempo, projetando o universo ficcional de 1984 para um não lugar – em grego, utopos, raiz etimológica de “utopia”, – que por não ser idealizado como a Utopia de Thomas More, tornou-se o não lugar problemático: uma distopia. A data futura de 1984 não guardava, portanto, relação com o futuro cronológico, mas construía a metáfora de uma realidade alternativa e plausível, um campo para experimentar e dissecar as mazelas presentes no zeitgeist do 1948 em que Orwell viveu.

O livro 2001: Uma Odisseia no Espaço de Arthur C. Clarke é sui generis nessa proposta. Enquanto obra literária foi precedida pelo filme de 1968 do diretor Stanley Kubrick, do qual Clarke foi o roteirista. Concebida primeiramente para o cinema, tinha o objetivo de contar uma história que retratasse um futuro plausível. Não era um exercício de adivinhação sobre como o ano de 2001 seria, mas um exercício extrapolativo sobre como a revolução tecnológica pode transformar o cotidiano da humanidade, e, nesses termos, ele projeta o olhar para um futuro cronológico em que os anseios por avanço técnico foram traduzidos em conquistas. O 2001 de Clarke é o não lugar (utopia) do maravilhamento científico, e no seu esforço havia um significado futurológico verdadeiro: de que nos anos vindouros estaríamos mais imersos nesse maravilhamento e mais mudados pela revolução técnica e científica. Talvez possamos afirmar que a metáfora de 2001 seja menos metafórica do que a de 1984.

Não obstante, de certo modo, podemos dizer que essas obras encerram um “futuro” que o passado pretendia, e chamar suas estéticas de paleofuturismo. Enquanto metáforas literárias, 1984 e 2001: Uma Odisseia no Espaço tornaram-se clássicos.

Faço esta longa introdução para dissertar sobre a missão editorial de manter, na forma, a atualidade de obras que, em conteúdo, serão sempre atuais. Fazendo um trocadilho com o título do livro de Janet H. Murray: nos novos tempos consumiremos Hamlet no holodeck. Como dar cara nova às obras eternas?

Elegi para objeto deste breve exame um desses dois clássicos da ficção científica, o livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, que ganhou nova edição no final do ano de 2013 por uma editora que se demonstra ciosa do conceito e da materialidade dos seus produtos, a editora Aleph.

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Em formato 16cm x 23cm, o livro é apresentado dentro de uma luva: uma caixa inteiramente preta, com um “2001” grafado em fonte branca ocupando toda a largura, o restante do título “Uma Odisseia no Espaço” em fonte bastonada e fina, muito discretamente inserido abaixo do “2001”. Os dois terços inferiores são ocupados por um círculo de diâmetro idêntico à largura do “2001”, criando um conjunto proporcional e estável. O círculo vermelho e laranja, destacado do fundo preto, guarda analogia com um sol no espaço. Ilustra, na verdade, o olho do computador HAL 9000, que apesar de ser “coisa”, é um personagem ativo do enredo de 2001. O filme de Stanley Kubrick projeta uma visão interessante desse personagem: HAL 9000 tem seu banco de dados e central de processamento armazenados em segurança em uma sala da nave em viagem pelo espaço interplanetário. HAL 9000 é o controle da nave, seus “tentáculos” invisíveis controlam todo o microcosmo onde vivem os astronautas humanos. Sem algo que se possa individualizar como um corpo, a figura de HAL 9000 foi esquematizada por um olho, mais especificamente, por uma lâmpada vermelha posicionada na parede, protegida por um pequeno domo de vidro sobre o qual se refletem imagens do espaço interno da nave. Esse olho converge atenções quando HAL 9000 se coloca – ele entra no foco da câmera quando sua voz masculina, suave e monótona fala. O círculo mais a luminosidade vermelha atuam como espontâneos atratores de atenção, e essa foi a imagem escolhida para a luva que apresenta a nova edição da obra. A despeito das cores quentes, há de se concordar que o olho inumano de HAL 9000 projeta um olhar frio, de cíclope maquínico, desprovido de uma expressão facial que transpareça emoções e intenções. A ilegibilidade da expressão de HAL 9000 encerra a sua incógnita, e o seu perigo.

Dentro da luva é guardado o livro propriamente dito, um único volume em brochura, com um detalhe marcante: inteiramente preto. Capa, contracapa, lombada e até o corte das folhas; inteiramente tingidos de preto. Em sua forma, esse objeto retangular mimetiza outro personagem não humano de 2001, o monolito. Não um personagem qualquer, o monolito é um objeto inteligente que surge na primeira cena do filme de Stanley Kubrick, aparecendo para os ancestrais dos homo sapiens em um remoto paleolítico. A intervenção do monolito se dá por um mecanismo além do entendimento, mas sabemos que de algum modo ele catalisa a evolução da espécie humana. Permanece como um observador misterioso a vigiar os passos da humanidade em sua saga exploratória pelo espaço sideral. A natureza do monolito não é revelada completamente no filme de Kubrick nem no romance de Clarke. Acreditam que seja uma sonda alienígena, embora isso diga pouco. Embora sua intervenção não seja maléfica, tampouco é compreensível; um artefato que (se supõe) venha de uma civilização tão avançada deve agir segundo uma moralidade própria e que nada tem a ver com a moral humana. De modo parecido ao que ocorre com HAL 9000, a ilegibilidade das intenções do monolito faz inspirar por ele um temor sagrado.

O monolito guarda a ideia de uma caixa-preta: algo que encerra um mistério. Quando o livro-monolito é retirado da luva, o leitor tem a sensação de um mistério prestes a se revelar. O encontro com o livro guarda a simbologia de conduzir o leitor – assim como o monolito conduz os australopitecos do filme de Kubrick – a um evento transformador: o encontro com o “passado” e o “futuro” da humanidade em um não lugar, o encontro de outros mundos. Dessa forma, o livro-monolito torna-se um mediador entre o leitor e as possibilidades cósmicas.

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Referências Bibliográficas
CLARKE, Arthur C.. 2001: Uma Odisseia no Espaço. São Paulo, Editora Aleph, 2013.
LE GUIN, Ursula K.. A Mão Esquerda da Escuridão. São Paulo, Editora Aleph, 2008.
ORWELL, George. 1984. New York, Penguin, 1977.

Referência Cinematográfica
2001: Uma Odisseia no Espaço. Direção: Stanley Kubrick [S.I.] Warner Home, 1968. 1 DVD (141 min).

 

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1964

março, 31 - 2014

O 31 de março que foi, na verdade, um duradouro primeiro de abril, hoje faz 50 anos do golpe de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil. Esse é um tempo que eu não vivi – *ainda bem* – mas que determina algo em minha vida. Posso dizer que sou filha da ditadura: meus pais viveram a adolescência, a juventude e a vida adulta ao longo de 21 absurdos anos do regime militar. Sinto que esse período esculpiu em partes a personalidade e o modo de pensar deles – nem autoritários, nem politizados, nem rancorosos, pelo contrário, senti que meus familiares atravessaram a ditadura como quem atravessa um longo sono, sem se dar muita conta do que acontece lá fora. Emergiram desse sono estranhos à ideia de status quo e liberdade de expressão.

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Eu nasci nesse período: em 1983 já havia sido promulgada a lei da anistia, mas ainda era ditadura. A democracia estava longe. Vivi uma lasquinha da ditadura que sequer foi registrada na minha memória. O primeiro presidente de que me lembro se chama Sarney (uso o tempo presente, por razões óbvias). Quando era criança, testemunhei a primeira eleição presidencial sem fazer ideia de que era a primeira em muitos anos. E venceu logo o Collor! Ainda lembro do dia, quando tinha 6 anos, em que meu pai foi me buscar após a saída da escola e, entrando no carro, ele me contou muito seriamente: “o presidente roubou nosso dinheiro”. Isso é triste e desmerecido: depois de um jejum tão prolongado de democracia e eleições diretas, colocar no poder um presidente desastroso!

*
1964 foi o início do nosso 1984, bem ao modo do pesadelo distópico de George Orwell; se fizer um exercício comparativo, verá que os paralelos são fascinantes. Ironicamente, a ditadura termina ao passar do ano de 1984. Na minha cabeça, pelo menos, 1984 e 1964 se solapam e entrelaçam sinapticamente, como ficções-realidades arquivadas nos mesmos neurônios.

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Faz 24 anos que vivo na democracia – uma democracia pluripartidária em que pouquíssimos partidos “de verdade” (isto é, que fazem política para a sociedade) restaram. Uma democracia em crise de representação, frágil, meio bamba e zarolha, mas a parte boa é essa: uma democracia para se abraçar e tentar esculpir segundo a forma ideal.

*
Quero viver para ver os cem anos do golpe militar. Espero despertar no dia 31 de março de 2064 e me lembrar do dia 31 de março de 2014 quando escrevi este texto. Espero fazer um exercício comparativo e verificar se os tempos não me decepcionaram, se cem anos depois, a ditadura que meu país viveu não se parecerá mais com o fóssil de um absurdo distante das eras pré-civilizadas. Talvez as crianças de 2064 olhem para esta velha e sintam o que senti perante os velhos da minha infância remota, que conheceram e conviveram com os ex-escravos do Brasil – “lamento por você ter vivido em tempos tão primitivos”.

*
Esses são meus sentimentos. Geração que viveu na ditadura, lamento muito, ninguém merecia passar por isso. Honremos a memória, para que fique sempre assim, em forma de memória. Para que a realidade não nos sabote outra vez.

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Eu tu nós

março, 10 - 2014

Minha singela homenagem a todas as pessoas que habitam uma única pessoa.


			Eu Tu Nós


Num espelho trincado, 
		entre mim 			e ti, 
				eu vejo nós. 

Nós atando duas realidades paralelas; 
	universos coexistentes, 
	em nenhum dos quais eu conseguiria viver 
						plenamente, 
		pois já não existo 
		em um 
		ou outro 
					totalmente
	por ter meia vida em cada 
					e pontas soltas em ambos. 

Esses nós que nos entrelaçam 
anulam a diferença entre a primeira, 
				a segunda 
					e a terceira pessoas: 
	sou eu, sou tu e ainda tem eles. 

Sinto que sou gente demais para carregar. 
Aguento?

Algo me diz que não é alucinação. 
Ainda penso:
Logo existo. 

Mas se existo, quem sou? 
			E se és, de onde vens? 
						Para onde vamos?
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Mulheres, mulheres, mulheres…

março, 8 - 2014

Vou falar de mulher para mulheres (os rapazes não se sintam excluídos, falo também para a mulher dentro de cada um de vocês).

Outro dia uma amiga me presenteou uma palavra que eu desconhecia: sororidade. Segundo minha amiga, sororidade é o sentimento e a atitude de fraternidade feminina, ou seja, o sentimento de irmãs. Se você fizer uma pesquisa no vocabulário (VOLP) verá que é uma palavra que não existe oficialmente na língua portuguesa. Procurei no dicionário e encontrei “sororicídio” (assassinato de uma irmã), mas nem sinal da sororidade, pobre desconhecida. É uma palavra que faz muita falta, portanto a incorporei no meu vocabulário pessoal e pretendo mimetizá-la por aí, incluí-la nos livros que escrever. Aliás, a amiga que me deu essa palavra de presente eu considero uma irmã. Sou filha única, então tenho que adotar.

Sororidade é necessário porque o mundo estranho em que vivo sempre repetiu para mim que mulheres são criaturas não apenas fracas, mas desunidas.

Uma vida de filmes hollywoodianos, telenovelas, e inúmeras formas de convívio social cotidiano me plantaram (ou enfiaram goela abaixo, para ser mais técnica) a ideia de que mulheres competem entre si, de que se invejam e se esnobam mutuamente, de que amizades femininas são falsas ou frívolas, de que não são capazes de lealdade umas para com as outras, de que não se unem por lutas ou ideais comuns, de que não dão o devido reconhecimento às suas colegas, de que não arriscam a pele por uma companheira…

Essa ideia de desunião inata, não apenas é uma falácia, é extremamente desmoralizante.

No entanto, a propaganda funcionou em uma grande parte dos casos. Quantas mulheres com as quais convivo, algumas até bastante próximas, não julgam outras por ir e vir, por saírem com quem quiserem, por serem livres com seus corpos e cabeças? Quantas conheço não poupam desconfiança, e viciam os dados para sempre tecerem uma avaliação negativa da outra?

Minha resposta pessoal é a recusa total em agir, pensar desse modo, ou mesmo tolerar esse discurso.

Alguém há de argumentar que no meu caso é mais fácil, pois eu gosto de mulheres de todas as formas possíveis. Na verdade, eu me vejo corriqueiramente no complicado jogo da ausência de reciprocidade – gostar mais do que ser gostada, respeitar mais do que ser respeitada -, mas isso não importa realmente. Sinto que devo ser solidária mesmo para com mulheres que são elas mesmas machistas – preciso não ser machista por elas, sei que não há nada mais triste do que viver com um preconceito internalizado.

Em um mundo onde mulheres ainda vivem em clara desvantagem – são a maior parte das vítimas de estupro e de violência doméstica, são bombardeadas por padrões impossíveis de beleza, são objetificadas, têm sua sexualidade vigiada, não são completamente donas de seus corpos, nem sempre são estimuladas a desenvolver suas habilidades, não têm representação política proporcional, são minoria em muitas áreas de atuação etc. – uma das piores, a cereja do bolo, é a ideologia da autossabotagem recíproca.

Portanto, moças, meus pedidos mais sinceros é que sejam solidárias umas com as outras.

Sejam cordiais.

Reconheçam as capacidades e méritos de suas colegas.

Não estimulem a mentalidade de divisão, nem de competição onde ela não existe.

Não aceitem ser julgadas por serem mulheres, nem julguem às outras.

Estimulem as habilidades de meninas e meninos sem importar onde foram colar os rótulos azuis e os cor-de-rosa.

Ajudem outras mulheres a conquistarem seus próprios territórios, construírem suas próprias obras, escreverem suas próprias histórias.

Ponham a mão no fogo por suas amigas.

Ajudem outras mulheres a serem livres!

E mesmo se vocês não lembrarem mais dessa palavra rara, sororidade, levem consigo o significado.

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Anedotas Literárias

março, 4 - 2014

Escritor é aquele sujeito que só peida no elevador sob pseudônimo.

* * *

Qual a diferença entre um editor e um ornitorrinco? O ornitorrinco, pelo menos, tem seu charme.

* * *

Dizem que é impossível viver de literatura no Brasil. Mentira. Os cupins lá de casa só vivem de literatura!

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Outro dia encontrei uma livraria tão obcecada por organização que colocava o Kama Sutra na prateleira dos livros didáticos.

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Esses dias me perguntaram: “por que você não manda e-mail pro Edgar Allan Poe pedindo um autógrafo?” Aí eu olhei bem para aquela pessoa e disse: “Nunca mais!”.

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Uma amiga minha namorava um crítico literário. Depois do sexo ela perguntava: “foi bom pra você?”, e ele respondia com uma resenha.

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Era uma festa de escritores, e todos estavam felizes… Até que chegaram os editores, aí a festa acabou.

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Um amigo me contou que o gato dele usou meu livro como banheiro. Nunca recebi uma crítica tão contundente!

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Até onde pode ir o eu-lírico? O meu, por exemplo, tem CPF, RG e conta no banco, mas conheço alguns que já tiveram que fazer teste de DNA.

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Não, isso aqui não tem copyright, mas se você plagiar mando meu ghost writer puxar seu pé de noite!

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Sobre as cartas de recusa

fevereiro, 26 - 2014

Hoje recebi a primeira recusa de um conto traduzido que enviei para uma revista no exterior. A negativa em si não me abalou – me ocorreu que essa é a primeira carta de recusa de um texto que recebo na minha vida! Até que demorou.

Há alguns anos eu recebi outra carta em inglês, e quando olhei o remetente, quase tive um piripaque. Bem, eu não tive um piripaque, mas fiquei com as pernas bambas e as mãos trêmulas de verdade.

Era uma carta da Ursula K. Le Guin! Minha escritora do coração, que me instilou a vontade de também ser escritora.

Ela não caiu do céu, na verdade eu tinha escrito uma cartinha para a Ursula, meses antes, que pus nas mãos de uma amiga que ia aos EUA para que ela a postasse de lá com um envelope selado para o retorno ao Brasil. Mas eu não estava com muitas esperanças de ter resposta, por isso foi uma surpresa quando aquele envelope chegou. Qualquer dia postarei a carta aqui.

Mas eu queria dizer que a Ursula divulgou no site dela uma carta de recusa que deve servir para animar qualquer escritor que acaba de receber uma – meu caso. A íntegra (tradução minha):

Cara Srta. Kidd (agente literária)

Ursula K. Le Guin escreve extremamente bem, mas lamento ter que dizer que, com base apenas nessa alta e distinta qualidade, eu não posso fazer uma oferta pelo romance. O livro é tão infinitamente complicado por detalhes de referências e informações, as lendas dos interlúdios se tornam um aborrecimento apesar de sua relevância, que a própria ação da história parece desesperadamente atravancada e o livro, enfim, ilegível. O conjunto é tão seco e sufocante, tão carente de ritmo, que qualquer drama ou emoção que o romance pode ter tido foi inteiramente dissipado pelo que parece ser, na maior parte do tempo, um material estranho. Meus agradecimentos, no entanto, por ter pensado em nós. O manuscrito de A Mão Esquerda da Escuridão é devolvido em anexo.

Cordialmente,

O editor.

Pois é. A Mão Esquerda da Escuridão, esse livro que o editor considerou seco, sem ritmo, complicado, estranho e ilegível (!), é o mesmo que ganhou mais tarde os prêmios Hugo e Nebula, se tornou um clássico indiscutível, uma das obras mais memoráveis da ficção científica e, não por acaso, meu livro de cabeceira. O editor que escreveu essa carta não se deu conta do material que ele tinha em mãos. O que espanta, contudo, não é a recusa, mas a justificativa.

Por isso cartas de recusa não significam que a obra é um fracasso total. Tampouco querem dizer que os editores são todos criaturas míopes e insensíveis como o exemplo supracitado. Uma carta de recusa simplesmente quer dizer que a obra não vai ser publicada naquela oportunidade, sejam quais forem os motivos alegados.

Receber cartas de recusa é um bom sinal – sinal de que estou tentando, de que estou buscando algo mais ambicioso. Pensando bem,  talvez esteja começando uma coleção delas!

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