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Trazendo Jorge Amado de volta

março, 21 - 2018

Quando eu era criança havia uma coleção completa de livros do Jorge Amado – vistosa, enorme, de capas vermelhas — enfeitando as estantes de casa.
Esta era uma casa de não-leitores (e isso me inclui), portanto a coleção passou décadas sentada na sala sem que nenhuma de suas milhares de páginas recebesse esse privilégio que os livros têm de serem, eventualmente, lidos.
Eram objetos decorativos. Até o dia em que a decoração mudou e eles foram encaminhados para o sebo — destino fatal da decoração de várias salas.
Roda o pião do tempo e aqui estou eu, caída num momento em que preciso conhecer o mundo de Jorge Amado e ler ler ler ler ler
Então, toco em direção ao sebo babando book-freakshlingly, com sacolas de livros para trocar, a fazer o resgate
Mais empoeirado
Mais manchado
Mais mofado
De uma parte daqueles livros —
Aqueles livros que enfeitaram as estantes por tantos anos sem que ninguém soubesse pra quê eles serviam.

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Estarei no NERDCON 2018

março, 20 - 2018

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Pessoal, entre os dias 13/03/2018 e 25/03/2018 está rolando um evento superbacana em São Paulo – o Nerdcon, no Sesc Interlagos, com a presença de artistas, cosplayers, cursos e oficinas e também palestras e bate-papos sobre cultura pop, um monte de coisas, vejam a programação no site do Sesc.

E AÍ QUE

No dia 24/03, às 15:30, eu estarei lá para um bate-papo sobre fantasia e ficção científica no Brasil! E estão todos muitíssimo convidados.

O Sesc Interlagos é longe de quase tudo em São Paulo, e isso é desencorajador para uma boa parte do público – verdade.

Não sou uma escritora famosa – verdade.

Não tenho brindes a sortear — verdade.

Faz tempo que não lanço um livro — verdade.

E a quem me conceder a graça de sua presença, ofereço o meu papo, eventualmente podemos tomar café e ter um momento contemplativo à vista da represa Billings e encontrar o sentido da vida.

Ah, e o evento é gratuito!

Serão todos muito bem-vindos \o/

O endereço do Sesc Interlagos é:

Avenida Manuel Alves Soares, 1100 – Pq. Colonial, São Paulo (CEP: 04821-270)

Mais informações na página do evento no Facebook.

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Para todas as vozes de Marielle

março, 15 - 2018

Nesta vida, nesta guerra, eu tenho medo é de ter medo. De acatar as vontades de quem se esforça pra impedir minhas ações ou calar minhas palavras. Tenho medo de me acovardar, e assim incidir na minha própria sabotagem.

Não reproduzo a retórica do medo porque não tenho medo de canalhas – arrolam uma porção de outras aversões, mas os canalhas não merecem sequer aquele temor respeitoso que os monstros inspiram.

Não sou heroína de nada, nem revolucionária, sou do tamanho de um girino replicando pensamentos aleatórios em redes sociais enquanto chafurdo em livros. Não sou nem digna de um calaboca das “instâncias superiores”.

Mas sei que essa atividade subversiva – falar o que pensa, chafurdar em livros – costumava ser perigosa até a década em que eu nasci. Perigosa até para girinos iguais a mim.

Sou rebenta da democracia em um país que até então era dominado pela lei da mordaça.
Tive sorte de vir ao mundo quando se abriu uma fresta de liberdade, e sei que no mundo contemporâneo, sob os auspícios da internet, talvez essa mordaça não tenha mais capacidade de calar tantas bocas. São bocas falantes demais.

Então, os canalhas insatisfeitos miram em uma boca incômoda e apertam o gatilho, matam e esperam que o recado sirva para acovardar outros que ousem transpor seus discursos de internet para o território das ruas, dos palanques, dos espaços de poder, das trincheiras onde se batalha o cotidiano de nossas cidades.

Esses canalhas, eles não precisam do nosso medo. Precisam é ser engolidos por milhões de bocas.

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Annihilation, Aeon Flux & a perplexidade

março, 13 - 2018

De tempos em tempos eu re-assisto à animação Aeon Flux, de Peter Chung, lançada no começo dos anos 1990 pela Liquid Television.

Pra mim é uma obra de referência, não apenas porque deixou a criança que eu era nos 1990 boquiaberta, mas porque ainda deixa a adulta dos tardios 2010 mistificada. É uma obra única, não apenas em termos de desenho animado, não apenas em termos de science fiction — é original em estética, direção, ângulos de “câmera”, roteiro, textos formidáveis de narrador/voz over, e principalmente: o resultado complexo, viajado, abismalmente estranho e intrigante.

Gosto de Aeon Flux porque evoca em mim perplexidade — um dos meus sentimentos favoritos em termos de fruição estética. São tão poucas obras que conseguem produzi-lo a contento que eu me sinto obrigada a colecioná-las.

Por um raio da coincidência, é bem neste momento que o Netflix solta Annihilation, a adaptação cinematográfica do livro do Jeff Vandermeer feita por Alex Garland.
Eu havia gostado demais da leitura de “Aniquilação”, que li na tradução do Braulio Tavares. Também gostei muito do filme, que conseguiu fazer uma boa transposição imagética das pirações estranhas que constam no romance literário.

Diria que Annihilation é o filme de alienígenas que eu sempre quis ver. Porque o elemento estranho chegado à Terra, vindo de não se sabe onde, é um ser que não pode ser definido, nem sequer compreendido. Confrontá-lo é uma experiência aterradora, não porque ele seja uma criatura feia e caçadora como o Alien ou o Predador, mas justamente porque é — dentro de sua esquisitice — de uma beleza enigmática, absolutamente diferente, e não é possível saber suas intenções e motivações, não é possível antecipar suas ações, não é possível saber nem se ela pensa ou deseja. Diferente de Contato (Carl Sagan) e A Chegada (Ted Chiang), não há comunicação possível entre humanos e alienígenas, porque não parece existir uma psique que sirva de terreno comum entre as espécies. A trama se desenvolve no encontro/ no atrito/ no choque de dois universos mutuamente estranháveis e incomunicáveis.

Annihilation – livro e filme — é uma obra que explora o terror-perplexidade de que tanto gosto, que acho tão raro de encontrar e tão quintessencial na ficção.
E estou dizendo isto principalmente porque desenvolver uma obra bem-sucedida no gênero weird/estranho não é fácil. Não deixa de ser um sonho meu.

Por falar nisso, estou precisando rever Stalker

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Beyond the Invisible de graça na Amazon!

março, 11 - 2017

Galera, está rolando uma promoção muito doida na Amazon BR!

Com o cupom INGLES10 você pode comprar INFINITOS ebooks em inglês até o valor de 10 reais!

É só inserir o cupom de desconto INGLES10 e fechar o pedido, você leva o ebook de graça \o/

A promoção termina no dia 12 de março de 2017. Aproveitem!

Aliás, aproveitem e confiram meu e-conto Beyond the Invisible!

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Beyond the Invisible – Cristina Lasaitis

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“Beyond the Invisible” now available!

janeiro, 30 - 2017

I’m glad to announce that my short story “Beyond the Invisible”, first published in the collection Fabulas do Tempo e da Eternidade (“Time and Eternity Fables”) is now available in English language in Amazon for Kindle (for R$1.99 in Amazon Brazil or US$0.99 in Amazon.com)  and for free in the Kindle Unlimited program.

Synopsis:

Santa Paola, an alternative virtual twin of Sao Paolo city, is a cosy home for the avatars of users scared and tired of the real world. It is in this oneiric scenery, under algorithmic rains of rose petals, that Marcos and Maya had met and fallen in love. However, for a long time they haven’t had a clue of who their users are in real life. When doubt come across their sweet virtual existence and they dare ask the dangerous questions, they might discover that the knowledge of each other is the hardest thing someone who gave up reality for love could ever face.

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Beyond the Invisible – Cristina Lasaitis

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Ave Max

novembro, 4 - 2016

Sempre achei a morte, como retratada nos filmes, um furo de roteiro. Geralmente se constrói aquela cena clássica comovente: a pessoa à beira da morte fica estendida, praticamente tomada nos braços de outro alguém relevante. Em over, a trilha sonora diz ao espectador que está chegando a hora de chorar. O moribundo, então, balbucia as últimas palavras, diz a última coisa importante, e em seguida – cronometradamente – morre.

Essa morte dos filmes é tão nada a ver com a vida.
A morte, na vida real, parece que não tem bem um ponto final. Parece mais uma frase interrompida no meio.
São encontros suspensos.
São planos frustrados.
São livros deixados pela metade.
São contas pra pagar esquecidas em cima da mesa.
A morte de uma pessoa jovem não costuma dar espaço para despedidas.

E é um pouco assim que eu me sinto ao saber que perdi um dos mais brilhantes dos meus amigos – sinto a vida atropelada. Eu tinha secretamente a ilusão de que ele sempre estaria ali para o eterno reencontro, para inúmeras e sagradas cervejas no bar e infinitos papos interessantes e divertidos. Uma pessoa tão talentosa, inteligente, engraçada e adorável, é claro que só pode ser imortal!

Da últimas vez que conversamos numa janela de chat, há poucos meses, o Max havia me convidado para um desses momentos boêmios sagrados. Foi uma lástima isso não ter acontecido. Grande oportunidade perdida.

Se eu pudesse encontrá-lo novamente daria um puxão de orelha cujo motivo só ele saberia. E, se o encontrasse agora, riríamos como se não houvesse amanhã, literalmente, porque sei que era assim que ele vivia – um dia por dia.

O Max Mallmann foi a um só tempo um dos escritores que mais me fizeram rir e também um dos que melhor colocaram em palavras a angústia da finitude. No livro “Zigurate – Uma Fábula Babélica” ele ressuscitou dois deuses sumérios e fez uma homenagem contemporânea à Epopeia de Gilgamesh. A primeira obra literária da história humana, não por acaso, versava sobre um herói que, após perder seu melhor amigo, empreende uma jornada em busca da imortalidade. Em Zigurate, a personagem de Sophie Brasier, uma pesquisadora com a saúde muito frágil (na prática, morrendo) descobria em meio às traças de uma biblioteca o paradeiro dos deuses imortais. Há nessa alegoria que o Max criou o encontro poderoso da vida e da morte – os deuses vêm ao mundo com seus poderes e suas preocupações de quem tem o tempo infinito – e não podem salvar aqueles cujo tempo está prestes a se esgotar.

A descoberta de Sophie é a descoberta de Gilgamesh: a mesma descoberta que aguarda qualquer um de nós no fim da jornada – ou na jornada interrompida.

Eu poderia dissertar aqui sobre a injustiça da morte em levar os mais talentosos e adoráveis primeiro. Mas acho que a consideração correta neste momento, além do carinho pelas obras que guardarei, é que foi uma sorte, uma honra imensa, uma felicidade tê-lo conhecido, nos livros e na vida, e, nesse curto espaço de tempo e de mesas de bar, ter sido sua amiga.