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O Fábulas voltou!

agosto, 3 - 2016

 

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O Fábulas voltou! O Fábulas voltou!! Oito anos passaram voando… Mas o Fábulas voltou!

Publicado inicialmente em 2008 pela Tarja Editorial, o Fábulas do Tempo e da Eternidade conquistou alguns corações e reconhecimento como uma boa coletânea de contos de ficção científica e fantasia brasileira. Recentemente a editora encerrou as atividades e as duas edições do livro esgotaram completamente, embora os pedidos dos leitores jamais tenham cessado.

E para atender aos pedidos que nunca pararam, agora o Fábulas ganhou uma edição digital, que está sendo comercializada pela Amazon BR para o Kindle, a modestos R$9,75!

Onde comprar?

No site Amazon BR, ou seja, aqui no link. E o ebook também está disponível gratuitamente para quem faz parte do programa Kindle Unlimited!

O que tem de novo na edição digital?

A edição digital do Fábulas do Tempo e da Eternidade contém as mesmas 12 HistOriAS originais revisadas para o novo acordo ortográfico. Para não dizer que não há nada inédito, há um posfácio da autora para a nova edição fazendo um balanço sobre os anos que transcorreram desde a primeira publicação da coletânea.

Vai ter edição impressa?

Veja bem.

Embora o mercado editorial de literatura fantástica tenha expandido muito no país nesses últimos anos, livros de contos sempre foram um gênero difícil de comercializar. Por esse motivo, desde que a Tarja Editorial fechou as portas tem sido difícil encontrar uma casa nova para o Fábulas.

A publicação digital do livro vem suprir esse vazio que se instalou após os exemplares físicos terem esgotado e enquanto ainda não há recursos para trazer ao mundo uma nova edição em bloquinhos de celulose. As árvores gostam mais do formato digital – elas disseram. Além disso, a Editora Dandelion – encarregada da editoração digital – está imbuída da missão ecológica de contribuir para transição dos livros do suporte material para o imaterial.

Não quero dizer que não haverá edição impressa – haverá sim! Ela apenas deve demorar mais um pouquinho. Afinal de contas, lançar uma edição comemorativa de 10 anos da publicação do Fábulas do Tempo e da Eternidade, lá pra 2018, não é uma má ideia!

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Pausa para o hino nacional*

abril, 15 - 2016

Estou politicamente cansada, de verdade.

Nestes últimos dias andei trocando o nosso House of Cards nacional (a Casa do Baralho) pelo documentário belíssimo O Brasil de Darcy Ribeiro.
Não é escapismo, está tudo lá: esperanças de uma nação em construção solapada a cada tentativa de reforma pelas forças internas e externas mantenedoras do estado-de-coisas histórico. Oferece margem para concluir que nosso mal tem natureza cíclica e dificilmente escapável.
A diferença entre o documentário do Darcy Ribeiro e a realidade presente é que no documentário dá pra sentir esperança e ter um gostinho do que teria sido este país se amplamente educado, fortemente identificado e valorizado em sua cultura, natureza, povo etc etc. Em outras palavras, dá para imaginar como teria sido o Brasil que “deu certo”.

Anos atrás eu costumava pensar que a Austrália podia ser tomada como um exemplo aproximado de “Brasil que deu certo”. Nessa época alimentei sonhos e projetos de ir estudar e viver na terra do AC/DC. Eu queria de todas as formas estar lá para ver, queria tanto ir que dei um jeito de fazer a oportunidade, cacei um congresso, fui atrás de patrocínio dentro da universidade onde então fazia mestrado. Em 2010 consegui pegar um avião e ir passar dois meses e meio na Oceania. Uma estadia nem tão longa quanto moradia, nem tão curta quanto uma visita. Torrei toda a poupança da pós-graduação viajando por 6 territórios e inúmeras cidades, conheci boa parte das paisagem australianas. Viajando sozinha, interagia e conversava com nativos e estrangeiros o tempo todo.
Minha impressão?
A melhor possível. A natureza é exuberante; o clima é agradável; o continente é seco, e por isso mesmo oferece a atração de um outback pitoresco; os vinhos são ótimos, a comida atende a todos os gostos e gulas, a infra-estrutura é competente, as cidades são cosmopolitas; a Austrália é tão cara quanto generosa. Um país que conseguiu distribuir sua riqueza por uma população pequena e sem incorrer nos abismos sociais que nos causam tantos problemas (com exceção do que fizeram e fazem aos aborígenes, pois nada é perfeito. Tratei desse assunto no meu relato de viagem https://cristinalasaitis.wordpress.com/…/australionauta-o-…/).
Mas a maior atração da Austrália, além das praias, são mesmo os australianos. A educação do povo é invejável, e mais do que isso: a gentileza, a tranquilidade e a informalidade endêmicas me pareceram tão arrebatadoras que eu me sentia angustiada. Angustiada por comparar com o Brasil.
Qualquer pessoa desconhecida, em qualquer lugar, no elevador, no supermercado, no metrô, ou mesmo na rua, iria me interpelar com um: “Olá, como vai o seu dia?”. A princípio esses arroubos de gentileza me deixavam pasma. Não havia por trás desse gesto nenhum dos motivos que deixam os brasileiros desconfiados. A pessoa não estava querendo me roubar, nem me vender nada, nem me arrancar alguma informação. Essa cordialidade exorbitante eram só os australianos sendo eles mesmos. E isso foi o que mais me deixou com inveja. Uma sociedade AMÁVEL, que sonho!

Parece loucura, mas ao cabo dos dois meses de viagem, eu tinha percebido que a perspectiva de morar na Austrália não me deixava feliz. Eu tinha me dado conta de que não aguentaria viver ali. Como escritora, sentiria falta de ter minha língua na atmosfera. Tudo ali funcionava muito bem, e eu me sentia desolada por não encontrar um espaço que carecesse de conserto. Assim me dei conta que meu destrambelhado país precisava muito mais de mim, e eu, de seus problemas, para ter o que consertar e ter a sensação de que poderia fazer alguma diferença.
Peguei o avião de volta. Não duvido da assertiva que as viagens têm o poder de mudar as pessoas para sempre: a transformação que a viagem à Oceania operou em mim foi me dar a constatação de que o retorno ao Brasil seria definitivo. É claro que a vida é longa, o mundo é grande e o ímpeto de viajar, incessante. Mas o retorno é definitivo. Eu soube que sempre iria voltar.

Penso que “patriota” é um adjetivo estranho, porque pressupõe uma vaidade de território que é uma meramente uma invenção, e não acho meu biscoito melhor do que o dos outros. Não chamaria nem sequer de amor à patria; tenho ojeriza a ideias nacionalistas e discursos fabricados, por mim todas fronteiras oficiais do mundo derreteriam, e eu troco qualquer camisa amarela pelo direito de voltar a ser índia. Não conseguiria amar fronteiras, mas amo as árvores, os bichos e as pessoas que ficaram contidos nelas.

Darcy Ribeiro, ao fazer o balanço de sua trajetória, comentou:
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Pessimista ou realista, penso que talvez o destino do Brasil seja não escapar do cíclico sabotamento das tentativas de reinventar-se. Talvez continuemos por muitos anos afundados em políticas retrógradas, nossa democracia escorregadia, nosso patrimônio natural pilhado, nossa economia majoritariamente agrária e mineradora, nossa população maciçamente iletrada, nossas cidades congestionadas e explosivas. Mesmo esse Brasil-distopia do século XXI não me dá vontade de fugir. No máximo, me inspira um exílio interno, no meio do mato, alienada em uma margem segura da civilização, conectada com o mundo e sem abrir mão da ideia de que posso tentar fazer a diferença, independente de qual seja.

Não tem nenhuma lição de moral ou esperança de final feliz neste texto. Nem desilusões rasgadas, nem estimativas de que vai terminar tudo bem. Aqui só tem o meu cansaço, minha sinceridade e um texto que não sei se termino com reticências, interrogação, exclamação ou ponto final. Com essa falta de criatividade, vou optar por mais uma citação, desta vez do Tom Jobim, traduzindo meus sentimentos: “Viver no exterior é bom mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”.

Pelo menos dá uma sensação de pertencimento.

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Meu corpo, meu território, minha lei.

outubro, 24 - 2015

Nenhum artigo, inciso ou portaria pode alterar minha atitude de soberania sobre o que me pertence por natureza. Não sou especialista em direito, mas sei que nem tudo o que é legal é legítimo. E não existe outra lei sobre o corpo a não ser aquela que vigora nas fronteiras das minhas entranhas.

Percebo que é egoísta falar por mim com tanta segurança, enquanto a maioria das mulheres deste país detêm menos poder sobre suas vidas e menor autonomia sobre si mesmas. Gostaria de transferir-lhes minha convicção, mas só posso oferecer minha intransigente e sincera sororidade: serei sempre irmã e parceira de outras mulheres na guerra pela defesa desse território objeto de tão raivosas disputas e regulações – os nossos corpos. (É claro que a defesa é de todos que têm um corpo em litígio. Por isso falo sobre as mulheres, para as mulheres e pelas mulheres principalmente).

O direito total sobre sua reprodução.
O direito de modificar o corpo como bem entender.
O direito de não submetê-lo a terapias e procedimentos forçados.
O direito de decidir quando não se quer mais viver.

O corpo é laço para as futuras gerações ou ponto final na história. Meu corpo delimita a vida e a morte, extremamente minhas, para que eu as experimente e as consuma sozinha.

Meu corpo não está isolado, mas encadeado numa rede de ações para dar a outros corpos sua carta de alforria. Meu corpo é o meu manifesto de desobediência civil a toda lei que pretende regulá-lo, porque no meu território tais leis não apitam nem fazem eco. São vazias.

Suponha que esta é uma resposta rebelde, mas não há nada mais tranquilo do que uma verdade interior. No fundo, não interessa o que é legal ou ilegal quando vigora no nosso íntimo o conhecimento do que é legítimo. E quando sabemos o que é legítimo, nos autolegislamos.

E, ainda assim, não há nada mais subversivo do que dizer: “Meu corpo me pertence. Deito, rolo, faço com ele o que quiser.”
E nada mais criminoso do que pactuar: “Tens a minha ajuda para que no teu corpo seja feita a tua vontade.”

Assim colocado, desfilo meu samba nos gabinetes de vossas excelências e anuncio:
– Meu corpo me pertence, sabiam ?

Sou livre. E agora venham me prender se forem capazes.

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Escuchar con los ojos a los muertos

agosto, 22 - 2015

Um dos mais belos sonetos com os quais tive a felicidade de me deparar. Sua melodia é tão perfeita no castelhano que eu não ousaria macular com uma tradução.

Retirado en la paz de estos desiertos,
Con pocos, pero doctos libros juntos,
Vivo en conversación con los difuntos,
Y escucho con mis ojos a los muertos.

Si no siempre entendidos, siempre abiertos,
O enmiendan, o fecundan mis asuntos;
Y en músicos callados contrapuntos
Al sueño de la vida hablan despiertos.

Las Grandes Almas que la Muerte ausenta,
De injurias de los años vengadora,
Libra, ¡oh gran Don Josef!, docta la Imprenta.

En fuga irrevocable huye la hora;
Pero aquélla el mejor cálculo cuenta,
Que en la lección y estudios nos mejora.

(Francisco de Quevedo)

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Entrevista muito curta comigo mesma

agosto, 1 - 2015

Cris, você parou de escrever?

Não. O que acontece é que arrumei uma faculdade, aquários, trabalhos, cursos extracurriculares mais ou menos longos e, em suma, um monte de desculpas para justificar minha procrastinação. Por esses mesmos motivos, faz tempo que não tenho feito postagens neste blog (o que não significa que o abandonei, porque ele está linkado no meu <3).

Mas Cris, você vai escrever?

Estou tentando, estou tentando. Sempre anoto ideias. Mas há mais coisas que se passam pela minha cabeça também, e a mais premente delas é a quantidade de ruído no mundo.

Você já notou? São 7 bilhões de pessoas produzindo ruído – informação nos mais diferentes níveis de utilidade – um verdadeiro bombardeio! Assim como não gosto de ter minha atenção disputada com coisas que não me interessam, não me importam, ou não me dizem nada especial, creio que devo poupar a atenção e o tempo dos meus leitores potenciais e oferecer a eles apenas aquilo que acho muito importante, ou que sei que irá compensar o tempo precioso que eles irão investir para ler o que produzo. Em outras palavras, quero ser boa editora do meu conteúdo.

Não é que eu não tenha coisas importantes a dizer, ou histórias que merecem ser contadas. Mas o drive para escrevê-las, o sentimento de urgência, a ansiedade em falar – eu não fazia ideia que essas coisas mudavam com o tempo. Muitas prioridades podem caber em uma vida, escrever é só uma delas.

Mas Cris, você não vai publicar nada novo?

Sim! Detesto falar de coisas que não estão totalmente confirmadas e encaminhadas, mas tenho negociações em andamento para novas publicações, e deve demora menos do que eu acreditava.

Cris, você tem alguma mensagem para os fiéis leitores deste blog que você praticamente desertou há tanto tempo?

Obrigada pela audiência e pela paciência😉

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Minha dissertação sobre homofobia

setembro, 29 - 2014

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Disponibilizo a quem interessar minha dissertação sobre a pesquisa que fiz no meu mestrado em psicobiologia, “Aspectos afetivos e cognitivos da homofobia no contexto brasileiro – Um estudo psicofisiológico”.
A pesquisa foi concluída em 2009 mas o assunto continua mais atual do que nunca. De uns tempos pra cá tenho refletido sobre a necessidade de transformar essa dissertação em um livro de divulgação científica, coisa que pretendo fazer.

Você pode baixar o pdf clicando no link:

Aspectos afetivos e cognitivos da homofobia no contexto brasileiro – Um estudo psicofisiológico, Cristina Lasaitis, 2009.

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2001, uma odisseia, uma viagem

abril, 19 - 2014

Publico aqui uma breve monografia que fiz como trabalho para a disciplina de Design Editorial, do curso de editoração da ECA-USP. A proposta era discutir o conceito e a materialidade nas publicações. Escolhi um projeto gráfico que me chamou bastante atenção: a nova publicação que a editora Aleph fez de 2001: Uma Odisseia no Espaço, que é também uma dos meus romances preferidos do Arthur C. Clarke. Creio que esse exercício pode ser encarado como uma resenha diferente, centrada no nível semântico e do design. Ou talvez só mais uma viagem minha mesmo.

* * *

2001: Uma Odisseia no Espaço – A repaginação de um clássico

Em seu prefácio para a edição mais recente de A Mão Esquerda da Escuridão, Ursula K. Le Guin disserta: “o objetivo do experimento mental (…) não é prever o futuro – mas sim descrever a realidade, o mundo atual”, em outras palavras: escrever ficção científica é um exercício extrapolativo sobre o aqui e o agora, não é futurologia. Assim é que as datas terminais citadas nas opera magna dos escritores de ficção científica estão fadadas a serem atropeladas pela linha do tempo sem que a metáfora de seus universos se perca. Depreendemos que 1984 de George Orwell continua atual, apesar do ano de 1984 ter-se ido do calendário há três décadas, e, do mesmo modo, passamos pelo ano de 2001 sem termos vivido uma “odisseia no espaço” (aliás, continuamos muito defasados na tecnologia astronáutica para sonhar com as viagens narradas na obra de Clarke). O livro 1984 de George Orwell foi escrito no ano de 1948, sendo que o autor escolheu esse título por guardar relação de anagrama com seu próprio tempo, projetando o universo ficcional de 1984 para um não lugar – em grego, utopos, raiz etimológica de “utopia”, – que por não ser idealizado como a Utopia de Thomas More, tornou-se o não lugar problemático: uma distopia. A data futura de 1984 não guardava, portanto, relação com o futuro cronológico, mas construía a metáfora de uma realidade alternativa e plausível, um campo para experimentar e dissecar as mazelas presentes no zeitgeist do 1948 em que Orwell viveu.

O livro 2001: Uma Odisseia no Espaço de Arthur C. Clarke é sui generis nessa proposta. Enquanto obra literária foi precedida pelo filme de 1968 do diretor Stanley Kubrick, do qual Clarke foi o roteirista. Concebida primeiramente para o cinema, tinha o objetivo de contar uma história que retratasse um futuro plausível. Não era um exercício de adivinhação sobre como o ano de 2001 seria, mas um exercício extrapolativo sobre como a revolução tecnológica pode transformar o cotidiano da humanidade, e, nesses termos, ele projeta o olhar para um futuro cronológico em que os anseios por avanço técnico foram traduzidos em conquistas. O 2001 de Clarke é o não lugar (utopia) do maravilhamento científico, e no seu esforço havia um significado futurológico verdadeiro: de que nos anos vindouros estaríamos mais imersos nesse maravilhamento e mais mudados pela revolução técnica e científica. Talvez possamos afirmar que a metáfora de 2001 seja menos metafórica do que a de 1984.

Não obstante, de certo modo, podemos dizer que essas obras encerram um “futuro” que o passado pretendia, e chamar suas estéticas de paleofuturismo. Enquanto metáforas literárias, 1984 e 2001: Uma Odisseia no Espaço tornaram-se clássicos.

Faço esta longa introdução para dissertar sobre a missão editorial de manter, na forma, a atualidade de obras que, em conteúdo, serão sempre atuais. Fazendo um trocadilho com o título do livro de Janet H. Murray: nos novos tempos consumiremos Hamlet no holodeck. Como dar cara nova às obras eternas?

Elegi para objeto deste breve exame um desses dois clássicos da ficção científica, o livro 2001: Uma Odisseia no Espaço, que ganhou nova edição no final do ano de 2013 por uma editora que se demonstra ciosa do conceito e da materialidade dos seus produtos, a editora Aleph.

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Em formato 16cm x 23cm, o livro é apresentado dentro de uma luva: uma caixa inteiramente preta, com um “2001” grafado em fonte branca ocupando toda a largura, o restante do título “Uma Odisseia no Espaço” em fonte bastonada e fina, muito discretamente inserido abaixo do “2001”. Os dois terços inferiores são ocupados por um círculo de diâmetro idêntico à largura do “2001”, criando um conjunto proporcional e estável. O círculo vermelho e laranja, destacado do fundo preto, guarda analogia com um sol no espaço. Ilustra, na verdade, o olho do computador HAL 9000, que apesar de ser “coisa”, é um personagem ativo do enredo de 2001. O filme de Stanley Kubrick projeta uma visão interessante desse personagem: HAL 9000 tem seu banco de dados e central de processamento armazenados em segurança em uma sala da nave em viagem pelo espaço interplanetário. HAL 9000 é o controle da nave, seus “tentáculos” invisíveis controlam todo o microcosmo onde vivem os astronautas humanos. Sem algo que se possa individualizar como um corpo, a figura de HAL 9000 foi esquematizada por um olho, mais especificamente, por uma lâmpada vermelha posicionada na parede, protegida por um pequeno domo de vidro sobre o qual se refletem imagens do espaço interno da nave. Esse olho converge atenções quando HAL 9000 se coloca – ele entra no foco da câmera quando sua voz masculina, suave e monótona fala. O círculo mais a luminosidade vermelha atuam como espontâneos atratores de atenção, e essa foi a imagem escolhida para a luva que apresenta a nova edição da obra. A despeito das cores quentes, há de se concordar que o olho inumano de HAL 9000 projeta um olhar frio, de cíclope maquínico, desprovido de uma expressão facial que transpareça emoções e intenções. A ilegibilidade da expressão de HAL 9000 encerra a sua incógnita, e o seu perigo.

Dentro da luva é guardado o livro propriamente dito, um único volume em brochura, com um detalhe marcante: inteiramente preto. Capa, contracapa, lombada e até o corte das folhas; inteiramente tingidos de preto. Em sua forma, esse objeto retangular mimetiza outro personagem não humano de 2001, o monolito. Não um personagem qualquer, o monolito é um objeto inteligente que surge na primeira cena do filme de Stanley Kubrick, aparecendo para os ancestrais dos homo sapiens em um remoto paleolítico. A intervenção do monolito se dá por um mecanismo além do entendimento, mas sabemos que de algum modo ele catalisa a evolução da espécie humana. Permanece como um observador misterioso a vigiar os passos da humanidade em sua saga exploratória pelo espaço sideral. A natureza do monolito não é revelada completamente no filme de Kubrick nem no romance de Clarke. Acreditam que seja uma sonda alienígena, embora isso diga pouco. Embora sua intervenção não seja maléfica, tampouco é compreensível; um artefato que (se supõe) venha de uma civilização tão avançada deve agir segundo uma moralidade própria e que nada tem a ver com a moral humana. De modo parecido ao que ocorre com HAL 9000, a ilegibilidade das intenções do monolito faz inspirar por ele um temor sagrado.

O monolito guarda a ideia de uma caixa-preta: algo que encerra um mistério. Quando o livro-monolito é retirado da luva, o leitor tem a sensação de um mistério prestes a se revelar. O encontro com o livro guarda a simbologia de conduzir o leitor – assim como o monolito conduz os australopitecos do filme de Kubrick – a um evento transformador: o encontro com o “passado” e o “futuro” da humanidade em um não lugar, o encontro de outros mundos. Dessa forma, o livro-monolito torna-se um mediador entre o leitor e as possibilidades cósmicas.

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Referências Bibliográficas
CLARKE, Arthur C.. 2001: Uma Odisseia no Espaço. São Paulo, Editora Aleph, 2013.
LE GUIN, Ursula K.. A Mão Esquerda da Escuridão. São Paulo, Editora Aleph, 2008.
ORWELL, George. 1984. New York, Penguin, 1977.

Referência Cinematográfica
2001: Uma Odisseia no Espaço. Direção: Stanley Kubrick [S.I.] Warner Home, 1968. 1 DVD (141 min).

 

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