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O formato das histórias segundo Kurt Vonnegut

fevereiro, 19 - 2014

Você já leu Kurt Vonnegut?

Se não leu, é uma das experiências literárias que valem a pena na vida. Procure Matadouro 5, Café da Manhã dos Campeões, ou qualquer outra obra dele e você descobrirá o que é um autor que sabe trabalhar com sarcasmo a ponto de fazer você se deliciar de rir na cara da tragédia. Eu adoro.

Vonnegut propôs uma tese em antropologia segundo a qual se você plotar em um gráfico os altos e baixos da trajetória de um personagem, obterá o formato de uma história, ou seja, um perfil visual do arco da trama. Isso é útil para entender e analisar as histórias, compará-las, estudá-las. E eu diria que, para um escritor, entender esse perfil é utilíssimo.

Como funciona?

Imagine um plano cartesiano. Há um eixo vertical, que chamaremos de “medidor de felicidade” onde situamos dois extremos: Ventura no polo positivo (+) e Danação no polo negativo (-). Do meio desse eixo parte uma reta perpendicular que vamos chamar de CF, ou  Começo -> Fim (mas poderia ser Farofa, o nome não importa).

Partindo do eixo Medidor de Felicidade, vamos traçar a trajetória do protagonista de uma história, de acordo com os altos e baixos de sua jornada. Na média dos filmes sessão-da-tarde, o protagonista começa sua história um pouquinho acima do zero, digamos, levemente feliz. Então, em algum momento, ele se depara com um problema – perdeu o emprego, a falta de dinheiro o faz dar calote no aluguel, então ele precisa deixar a casa e ir morar de favor nos fundos de um armazém insalubre, é obrigado a fazer bicos horríveis para sobreviver… – veja a linha de felicidade do protagonista seguir uma curva descendente, cruzar do eixo positivo para o negativo.

As coisas podem ficar pior? Claro que podem! – A mãe dele está gravemente doente e precisando de uma cirurgia que a família não tem dinheiro para pagar, ele precisa esconder da família sua situação miserável e ao mesmo tempo ajudar a pagar as despesas do hospital. Quando ele acha que tem o montante de dinheiro suficiente para resolver sua situação, é assaltado no caminho do banco, sem testemunhas. Quando vai reclamar com os policiais, os tiras não acreditam que aquele cara desmazelado tinha dinheiro, acham que está tentando dar um golpe e resolvem dar nele um chá de canseira na cadeira da delegacia. Mas eis que uma mulher desconhecida começa a gritar no corredor apontando em sua direção: “foi ele! eu reconheço, foi ele!”. E assim, identificado como o autor de um crime que ele não sabe que cometeu, nosso protagonista acaba o dia atrás das grades. – Você consegue ver a linha de felicidade despencar até o fundo do poço? Dali em diante nosso protagonista terá de se virar, contar com a sorte ou a cooperação de amigos para fazer seu inferno astral se reverter e sua linha de felicidade escalar rumo a uma vida melhor – e nada disso é garantia de que ele não sofrerá outras turbulências em sua trajetória até um final feliz, em algum lugar do polo positivo, ou danar-se de vez, terminar como um indigente ou morto, no polo negativo (se bem que nesse caso não seria roteiro de um filme sessão-da-tarde).

Esse caminho de montanha-russa pode ser traçado para estudarmos o perfil de várias histórias. Se você fizer o exercício, verá que é possível identificar perfis típicos de cada gênero de obras: comédias românticas, filmes de terror, sessão-da-tarde, tragédias gregas, novela mexicana, contos de fadas antigos, contos de fadas modernos etc. etc. Há histórias que têm muitos altos e baixos (gênero telenovela, por exemplo, pela própria extensão do roteiro), há histórias que vão do mal ao pior, há histórias sem-saída nas quais todos os esforços do personagem redundam em fracasso… São muitos exemplos:

diagrama3

Você pode acessar a íntegra do infográfico neste site: http://visual.ly/kurt-vonnegut-shapes-stories-0?utm_source=visually_embed

Podemos dizer, no entanto, que de certo modo todas as histórias que fazem sucesso na nossa cultura têm uma passagem pelo polo negativo: convencionamos que o tipo de história em que o personagem está sempre feliz e não encontra problemas não é uma história no estrito senso. Porque para as histórias só-felizes falta um combustível essencial para a nossa emoção: o conflito.

A partir da ideia do Vonnegut, extrapolo que é o conflito que esculpe o formato de uma história. E saber administrar o conflito é essencial para se conseguir escrever uma história emocionante. Você entende de música? Já ouviu falar em tensão e resolução? Eu não entendo porcaria nenhuma de música, mas gosto da comparação. A música trabalha com nossas emoções, conduzindo-nos em direção a um acúmulo das tensões que desembocam em resolução, e esse movimento nos dá uma sensação de gozo musical. O mesmo serve para o conjunto de situações que mobilizam nossa emoção durante a fruição de uma história. Não digo que a metáfora musical é perfeita, pois no caso da literatura nem toda complicação precisa ter solução, nem todo conflito se resolve. Mas o conflito está ali, gerando tensão, recrutando nossas angústias, prazeres e revoltas em um movimento harmônico de tensões emocionais que o escritor precisa saber orquestrar.

Um dos problemas mais comuns que encontro nas histórias dos clientes que contratam meu serviço de leitura crítica é o potencial inexplorado do conflito ou da tensão emocional.

Emoção é chocolate, é orgasmo, é catnip, é cocaína – não importa qual sua droga preferida – é essencial para uma história viciante. O ingrediente chave é tensão emocional: talhar picos de tensão e resoluções, complicações e relaxamentos, viradas, surpresas. Cabe ao autor examinar atentamente cada uma de suas cenas – estudá-las – e descobrir de que modo pode extrair o máximo de emoção, ou injetar emoções novas e inesperadas. Quando não faz isso, a história fica aquele café-com-leite, não chove nem molha, não cativa nem dá repulsa, nem-nem.

Repare que conflito não é sinônimo de briga ou ação externa. Conflitos podem ser dramas internos e sutis, podem ser dilemas e emoções desencontradas revolvendo o íntimo de um personagem que se mantém estoico enquanto finge que nada está lhe acontecendo. Tensão emocional é o poder do conflito gerar emoção no leitor.

Além dos picos e resoluções, tem esse elemento diferente que eu citei: surpresa. O que faz uma história surpreendente?

Esse é outro problema que aponto em um grande número de leituras críticas que faço: o enredo que não quebra com expectativas, que não surpreende.

A vida cotidiana é uma imersão na cultura do clichê. Clichês são ideias batidas que reverberam um estado de coisas presente, sem ameaçar o status quo, sem chocar ou simplesmente sem quebrar as expectativas. As telenovelas brasileiras, os filmes sessão-da-tarde, a maior parte das comédias românticas e dos filmes de aventura são sustentados por clichês. Você sabe que o herói vai vencer no final, que o casal de mocinhos vai ficar junto, que o vilão vai ter que se ferrar de algum modo. Na novela, você sabe que a protagonista não pode morrer (e se morrer ela vai deixar uma filha que é a cara dela para dar continuidade à sua trajetória), você sabe que o viciado em drogas vai ter que se reabilitar para deixar uma mensagem educativa… Você sabe exatamente quem vai ser punido, quem vai ser premiado e quem vai ficar bem depois de passar por um purgatório. Porque quebrar essas expectativas vai resultar num enorme bafafá que irá estremecer as revistas de fofoca e as conversas na fila do supermercado, e alimentar uma onda de ressentimentos contra o autor da novela, pobre criatura.

A presença ou não de clichês diz muito sobre o tipo de obra que o autor produz: se é uma que vai alimentar uma cultura de rotina e ser passageira, ou se será uma obra realmente original, de vanguarda, que surpreende expectativas, faz pensar, projeta um novo ponto de vista sobre a vida, o universo e tudo mais.

Na minha opinião pessoal, os clichês são úteis como placa de advertência do que não fazer. Ou, pelo contrário, algo para abraçar e brincar e se fazer uma bonita paródia.

Há formas sutis de trabalhar com as expectativas do leitor no enredo: criar uma circunstância (nosso protagonista está fugindo do matador, entra num túnel correndo, ofegando, arrastando uma perna e… ei! há uma luz no fim do túnel…) que gera expectativa por uma solução x (ele alcança a luz no fim do túnel e sai), mas que o autor pode trabalhar para se resolver de formas mais inesperadas – pode ser também uma solução y (ele para no meio do túnel, procura e descobre ali uma porta escondida que leva a outra saída: o esgoto!), pode ser a saída “criativa fácil” (de repente ele acorda e descobre que era tudo um sonho) ou uma saída tipo chute astronômico (correndo pelo túnel, ele tropeça num artefato desconhecido que é, na verdade, uma sonda alienígena que o projeta imediatamente para um planeta na galáxia de Andrômeda). Não é necessário dizer que um escritor que tende a empregar soluções do tipo x não está exercendo um trabalho que possamos chamar de criativo.

E o que seria abraçar o clichê para produzir uma paródia?

Vou citar um dos melhores exemplos que me ocorrem. No filme A Dama na Água (assista!) existe um personagem secundário muito intrigante: um crítico de cinema. O próprio protagonista chega a consultá-lo em algumas ocasiões para entender melhor o desenrolar da história. Em determinado momento, lá para o meio do filme, no clímax de um suspense, o crítico de cinema se vê num corredor escuro e ele compartilha com o espectador a sua cadeia de raciocínio: – “sou um personagem secundário em uma cena de perigo, droga, estou ferrado!” – e nesse momento um monstro surge e o devora.

No fundo, todo mundo espera que os personagens secundários sejam sacrificados pelo progresso de um enredo de aventura, suspense ou terror, até porque se nenhum personagem morrer será difícil acreditar que o risco apresentado é verdadeiro. O cinema convencionou que personagens secundários foram feitos para morrer! No exemplo que eu citei, a norma não foi quebrada, os papéis não foram subvertidos e o personagem secundário foi sacrificado pela trama. A graça é que isso foi feito de forma escancarada, analítica, o personagem obrigou o espectador a pensar sobre o destino triste dos personagens secundários. Existiu uma crítica na adoção do clichê: paródia.

Se vale um resumo de tudo isso para o escritor interessado: repare no formato das histórias, explore os conflitos no seu enredo, estude a tensão emocional das cenas, desenhe a narrativa de modo a evitar clichês ou então encontre um modo de usá-los de maneira inteligente.

Acabo de perceber que me alonguei demais naquilo que pretendia ser uma simples postagem (já sinto que começa aqui uma segunda edição do Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante).

Que mais posso dizer?

Se você tiver interesse em estudar mais a fundo (e digo realmente a fundo)  a construção de cenas e enredos emocionantes, uma dica boa é o livro do Robert Mckee – STORY: Substância, Estrutura, Estilo e Os Princípios da Escrita de Roteiro. É um livro que trabalha sobre roteiros de cinema, mas cujas lições podem facilmente ser extrapoladas para a literatura. Não é uma leitura rápida, é um livro exigente e bastante aprofundado, mas maravilhoso para quem se interessa pelo assunto.

E tem o vídeo do Kurt Vonnegut explicando sua tese sobre o formato das histórias, que você pode youtubizar aqui. Vejam! É divertido.

3 comentários

  1. Porra, Cris! Que texto foda! Perdi até a compostura…


  2. obrigada, chuchu! ^_^


  3. Adorei! Muito bom!!



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